MUITO!



Bruno Cosentino + Marcos Campello

1. Muito
Caetano Veloso
Voz: Bruno Cosentino
Guitarra, tacos e ventilador: Marcos Campello

Produzido por Marcos Campello e Márcio Bulk
Mixado por Marcos Campello
Masterizado por Martin Scian
Projeto gráfico: Márcio Bulk


Mesmo que parecesse ser modesto – Muito! por Bruno Cosentino, Marcos Campello e Márcio Bulk
Raul Lorenzeti

Mudanças implicam revisões. Esculhambar lembranças e aproveitar para reflexões que fatalmente levam a algum tipo de cura. Muito!, de Marcos Campello, Bruno Cosentino e Márcio Bulk vem desse processo.

Tanto Cosentino com Babies, 2016, como Campello com Bansa, 2015, já mostravam interesse na crueza do registro, no sumo da performance plasmado no suporte (ainda que cada um num lugar específico e distinto da música). Foi Bulk quem propiciou o encontro, retomando uma ideia bem-sucedida em Soluços, 2013, e Banquete, 2014: fazer da canção o encontro entre o experimento e a tradição quebrando a hierarquia entre o som marginal e o consagrado.

Gravada numa casa em reformas, vazia, com os restos do que foi ali jazendo e exprimindo sons, lembranças encarnadas no corpo de quem ouve, Muito vira outra coisa. É como se a música e seu arranjo original, presentes no disco homônimo de Caetano Veloso de 1978, tivessem sido limados, talhados, lixados até o núcleo e o que sobrou é de certa forma tão essencial que avança noutra direção: aponta as possibilidades de uma canção menos interessada em ser estímulo, mais afeita a convidar o ouvinte a se aventurar na floresta dos signos e dos sentidos.

A guitarra de tons cansados de Campello e suas cordas afinadas em tons semialeatórios, amaciadas de todo o esporro sonoro que é a sua vida fora da canção, anuncia: as coisas não estão em ponto de bala como em Muito, de Veloso. Aqui, as coisas estão em obras e o fonograma nos indica o processo, o fazer, quase como a bola cantada por Lucier em I Am Sitting in a Room, 1969.

A interpretação do duo é tão enérgica e tão próxima como somente um encontro entre poesia e música poderia ser: sem salas acusticamente tratadas, sem playback e cantor na técnica. As coisas foram feitas cara a cara, ao vivo, um influindo no gesto do outro, um bebendo das dobras que o outro infligia ao tempo que vai se erguendo em forma variada, sem pistas do que vem a seguir. 

Quando canta, Cosentino e sua voz lânguida, de acento carioca, tomam parte da poesia que só existe no recriar, recitar, tomar conta do texto, regurgitar e ativar outra escuta, ainda que se aproxime do original enunciado. Os sons ambientes, pr’além da curiosidade, trazem a urgência do registro que trabalha noutra chave que não é só tensão e repouso. Abrem-se as sinapses no toque das pás do ventilador no captador da guitarra de Campello – ou seria um motor?

Todos os desatinos que levaram Bulk, Campello e Cosentino a se jogarem numa releitura sem escrúpulos ou reverências passam, definitivamente, pelo entendimento de que uma interpretação não esgota o signo, não define caminho, mas pode furar a superfície lisa e estéril do discurso consagrado/oficial feito mato no asfalto. 

Esse processo revela um cuidado interessante: o trio não se serve dos instrumentos, dos sons e do ambiente como artesãos modificando a matéria, mas a eles servem para que recuperem sua natureza original, viva. Citando Octavio Paz, “servo da linguagem, seja ela qual for, o artista a transcende”.

É outra forma para a mesma substância de Caetano, e pode ser questão de tempo até que esse modo de fazer fossilize no armário prático das referências. Todavia, enquanto o foco for no processo, o que se ergue é mutante e vivo, é incerto e indeciso, prenhe de sentido.

Onde é necessário uma nova obra por mês, focar nesta enquanto processo parece ser, sempre, digno de escuta.


TEMPOS ABSURDOS EM BANQUETE DE MÁRCIO BULK E CADU TENÓRIO

foto: daryan dornelles


Agora percebo, então, que a esperança não pode ser eludida para sempre e que
pode assaltar os mesmos que se achavam livres dela. 
(CAMUS, Albert. A criação sem amanhã. O Mito de Sísifo)

Em 2013, o Brasil conseguiu se tornar um lugar mais esquisito do que sempre foi: os protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro transmutavam-se em algo que a teoria não dava conta. Diferentemente de Hardt e Negri, pensava-se em pauta, em discurso, em enunciado e, quando menos se percebeu, o choque com o Estado e a revolta com a “mídia golpista” caminhava para um apaziguamento com muito orgulho, com muito amor. O ano de 2013 também é o ano do lançamento de E Volto Pra Curtir, disco tributo a Jards Macalé.

Capitaneado pelo artista plástico de formação, jornalista e letrista nascido em Nova Iguaçu, Márcio Bulk, o disco era uma homenagem ao maldito e a sua atuação pelas bordas da MPB. Macalé havia se tornado um tema recorrente à contemporaneidade viva e dialeticamente desperta: recuperou-se sua obra e sua figura, deslocando-o do armazém de mercadorias culturais, onde se costuma buscar receitas abstratas. A análise crítica do presente e a possibilidade de uma apropriação produtiva da herança do passado tomavam forma no documentário Jards (2012), de Eryk Rocha, e na reprensagem, em 2013, do disco compacto Só Morto (1969-1970), o primeiro da carreira do compositor. Sim, Walter Benjamin descarado justificando o Macalé que balbuciou sobre o presente lá do passado.


Bulk ouviu o compacto e, como costuma acontecer com todo mundo que tem contato com este disco, apaixonou-se por “Soluços”. O contato, por conta de E Volto Pra Curtir, com músicos da cena experimental do Rio de Janeiro, como Marcos Campello e Bruno Cosentino (este mais “poroso” à canção que o primeiro) acabou providenciando o encontro com Cadu Tenório, músico crescido na zona norte do Rio, beirando a linha do trem, onde vive até hoje. Juntos, realizaram o EP Soluços com a participação de Alice Caymmi.


“Eu chapei! Achei aquilo demais. Não que seja uma fórmula, mas saca quando você vê algo que é a sua cara? Foi isso que eu achei. É isso! Isso é meu!” — comenta Bulk sobre o trabalho de Tenório, reconstruindo a sonoridade da canção a partir de uma gravação voz (Alice Caymmi) e guitarra (Lucas Vasconcellos), esta completamente extirpada do resultado final. Desenhava-se, nesta obra, neste processo, o modus operandi de Banquete (2014).


Composto a partir de letras que Bulk recuperou e remixou de um blog que mantinha nos anos 90, Banquete é um disco composto de 4 faixas: “Café Expresso”, “Estela”, “Electric Fish” e “Em Transe”. As letras foram enviadas a Bruno Cosentino, Rafael Rocha e César Lacerda, que providenciaram a primeira encarnação das canções, arranjadas ao violão para as vozes de Michele Leal, Alice Caymmi, Livia Nestróvski e Letícia Novaes, que não participou do disco, sendo substituída pela voz de César Lacerda em “Electric Fish” (curiosamente, nenhuma mulher se dispôs a cantar uma canção que versa sobre sexo oral).


Voz e violão, formato clássico de canção, aquela mesma que disseram ter acabado, dez anos antes da produção deste álbum.


Antes de falar da implosão deste formato no processamento de cada fonograma, é interessante olhar para o disco. A capa é uma natureza morta, do séc. XVII, de Jacques Linard. Ao enviar as letras que virariam canções, Bulk enviou também a capa do disco para os músicos. A tela é feita de corais e conchas dispostas sobre um fundo preto — o fundo do oceano — e é impossível não associar esta imagem ao trabalho de Tenório no arranjo das canções.


O mar está presente em "Estela”; o peixe, em “Electric Fish”; a comida, em “Café Expresso”; e “Em Transe”, um banquete oceânico. Quando da construção das letras, Bulk lia O Banquete, de Platão, e Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Para remixar as letras de 20 anos antes, a leitura de ambos foi retomada. Quase o nome do disco virou Fragmentos..., mas seria óbvio demais. Banquete ganhou a parada.


E, como Aristófanes pontua no diálogo platônico, o disco trata do complexo caminho — e dos desdobramentos disso — até a outra metade, aquela que faz homens e mulheres correrem esbaforidos, em pânico, no desejo de voltarem a ser inteiros, uma vez divididos pela sabedoria de Zeus. O discurso é amoroso, quase perverso; a forma, primeira, é do samba-canção.


A ordem das canções era outra e contavam uma história contemporânea: um encontro casual, o enlace, a despedida e a avaliação. Uma vez alterada por conta de dinâmicas e da necessidade de conceber um álbum mais coeso na sonoridade que no sentido, produzem outro enunciado, mais focado nas realizações a partir de um passado cristalizado/consagrado — a forma samba-canção, apontando para outras possibilidades de escuta e produção da canção: a corporificação da letra na performance não está inteira no primeiro plano, é tensionada pela mancha sonora que ocupa o lugar consolidado do violão/harmonia na forma canção.


“A canção existe e sabemos que ela é de suma importância junto à sua letra. No Banquete também o é, muito. Porém, rolou o cuidado de que a voz pudesse descer do palanque e, entre aspas, disputasse por vezes com o peso musical, com a emoção e o peso do arranjo, como numa relação de simbiose. Uma tentativa de diálogo com menos formalidade” — explica Tenório sobre a concepção dos arranjos e da sonoridade que perpassa o disco.


“Café Expresso” abre o disco na interpretação de Michele Leal. De início, um ruído e um violão processado até se parecer com um piano, dão pistas do que está por vir. Uma música sem refrão, com algo que se aproxima de parte A e B, porém, com um trecho de spoken word ao final, submerso entre ruídos de fita e cordas tocadas ao contrário. Anuncia-se aí a diferença de escuta: dificilmente irá se entender toda a letra na primeira escuta pois, de fato, existe uma disputa com o arranjo pelo lugar de atenção do ouvinte.


A tecnologia utilizada para tensionar os limites da linguagem: esta é a tese que interessa em Banquete. Este disco não seria possível sem um olhar para o passado que tensiona ao invés de explicar o presente; tampouco seria realizado sem a invenção do transistor, da fita, do processamento digital do som, da contínua evolução da tecnologia.


Bulk e Tenório foram muito felizes em propor outro lugar para a canção. Um lugar que parte do samba-canção, mas que o implode no som e na letra (É pela voz que eu desisto/Não preciso levantar/Enamoro a derrota/vou ao fundo/abraçando o desafino em um samba-canção manco — em "Em Transe"); um lugar coletivo e desmaterializado, parecido com a forma como nos relacionamos hoje, e é sintomático que o disco não tenha ganhado espaço na mídia impressa, chegando até nós via post no Facebook.


A música de Macalé já tinha cantado a bola, partindo da borda, desafinando o coro dos contentes, apontando que as mudanças estão ocorrendo e, talvez, o desejo de ver o mundo através de um filtro, de sobrepor um sistema racional a sua aparente aleatoriedade, seja o limitador da canção. Vivemos tempos absurdos — sempre vive(re)mos — e, retomando o Camus da citação que abre o texto, “ [...] todo pensamento que renuncia à unidade exalta a diversidade. E a diversidade é o lugar da arte. O único pensamento que liberta o espírito é o que o deixa sozinho, certo de seus limites e do seu fim próximo[...] Por isso, peço à criação absurda o mesmo que exigia do pensamento: revolta, liberdade e diversidade. Depois ela manifestará sua profunda inutilidade [...]”.


Banquete trata-se de uma obra sem esperança de organizar as coisas, calcada mais na disputa do que no enlace de letra e música. Este, nos parece, é um caminho interessante para a canção, uma apropriação produtiva da herança do passado. Ser diversa, revolta e livre para, ao final, não importar, pois está ali enquanto tensão, sem moral, sem princípio organizador uma vez que não há o que organize a vida e a linguagem é espelho desse universo caótico, correndo atrás de algo impossível de alcançar.



Raul Lorenzeti é editor web do Selo Sesc. A resenha foi escrita originalmente para a conclusão da disciplina Canção Popular e Cultura, ministrada por Cacá Machado, no curso de pós-graduação sobre canção popular brasileira, da Faculdade Santa Marcelina.

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colagem: márcio bulk

Quando era pequeno, meu filho costumava pedir que eu cantasse sobre qualquer objeto, animal ou situação que passasse pela sua cabeça. Ele trazia uma certeza absoluta de que, para qualquer coisa no mundo, haveria de existir uma música. Então, cantávamos para formigas, chocolate, areia, cama, balde, camisa, elefante, garfo, panela, vento... E como ele estava certo!

Desde que eu era criança, as estações do ano me parecem ser representadas por ciclos festivos. No calor, as músicas e danças também ficam mais quentes e leves, precisam de ar e espaço, por isso tomam os terreiros e quintais até chegarem às ruas. No inverno, chove e a música ocupa as salas, as varandas, os arraiais, e dançamos mais juntos, em par ou de mãos dadas. E foi assim que escolhi minha profissão: quando entendi que a música é necessidade que vem do corpo, um instinto primeiro, quase como mamar e chorar. Percebi que ela, a música, também vem do chão, das plantas, do mar... Vem da parte mais profunda da nossa natureza e assim sempre se transforma e pode nos ajudar a transcender e a buscar o divino — com todas as diferentes faces que o divino possa ter.

Aos 18 anos, escolhi ser percussionista. Pouco depois, percebi que precisava falar e cantar sobre as coisas que ouvia, lia, via e sentia, e assim comecei a compor – essa é uma das partes mais instigantes e desafiadoras do trabalho criativo. Eu me assumi cantora quando percebi que queria encontrar a minha própria voz  e essa é uma busca para toda a vida. Escolhi ser musicista aos 18 anos e escolhi continuar sendo outras tantas vezes.


Dentre todas as atividades que exerço no meu trabalho (cantar, tocar, compor, ensaiar, gravar, produzir, ensinar, escrever, estudar), boa parte dos meus esforços são para que exista o momento do show. O palco (seja real ou imagético) é, para mim, o lugar do encontro, onde a música fica quase tátil, ganha espaço no ambiente, transpassa nossos corpos e nos aproxima, renova o sentido das coisas e os desejos, fortalece as vontades e faz valer a pena até os dias mais difíceis. 
Nem todo show é perfeito. Nem todo show é fácil. Não há "jogo ganho" assim como acontece em qualquer encontro, mas é justamente esse desafio que deixa tudo mais instigante. Esse é o momento em que coloco o meu “brinquedo na rua” e reafirmo meus compromissos comigo mesma, com o lugar e com a cultura que me formaram  e compromisso não significa estar preso ou amarrado, significa reconhecer de onde você veio e falar das pessoas com quem brincou e, principalmente, dos que brincaram muito antes de você existir; significa pensar pra onde se quer ir. Reconhecer isso pode ser libertador!


Alessandra Leão

Verão de 2015

Alessandra Leão é cantora, compositora e percussionista. Integrou, inicialmente, a banda Comadre Fulorzinha, com quem lançou o disco homônimo (1999, CPC Unes). Seu primeiro álbum solo, Brinquedo de Tambor (independente), foi lançado em 2006. Em 2008, idealizou e coordenou o projeto Folia de Santo (Garganta Records). Em 2009, promoveu seu segundo trabalho, Dois Cordões (Garganta Records). No ano seguinte, compôs a trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de  Luciana Lyra. No final de 2014 e ao longo de 2015, esteve envolvida na produção e na divulgação de Língua (Garganta Records), a trilogia de EPs constituída dos capítulos: Pedra de Sal, Aço e Língua.

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colagem: márcio bulk

A música nasceu para mim, no meu delírio genealógico, do enleio entre o útero da minha mãe, sua musicalidade e o seu canto. Penso nos meses da sua gravidez, penso nela ao tocar piano e, por fim, lembro-me de que os pequenos acalantos improvisados para me ninar foram o nosso primeiro código tácito de afeto. Inicio assim, com uma digressão, como forma de explicar (e também compreender) o papel da música para mim como gesto afetivo, completamente ligado aos sentidos, e determinantemente empírico; subjetivo.

Sou nascido numa pequena cidade do interior de Minas Gerais: Diamantina. Uma cidadela tradicional mineira, que tem hoje algo em torno de cinquenta mil habitantes, com uma história muito interessante e de especial protagonismo por um período da história do Brasil. Com profunda vocação para a música e para a musicalidade, é uma cidade festiva e de arquitetura barroca leve e clara. Minha mãe, uma pianista mulata, nasceu e foi criada lá, tendo sido por alguns anos a diretora do Conservatório de Música. Casou-se com meu pai, um comerciante de olhos claros nascido na região central de Minas Gerais, Moema. A influência mais direta da música na vida da minha família, através de um ensino mais formal, está relacionado efetivamente à minha mãe. Cresci junto dela, fazendo aulas e oficinas na sua escola de música. Somos três irmãos, dois homens e uma mulher, e todos temos a música apontando para o norte de nossas bússolas. Meu pai, por sua vez, sempre foi um profundo admirador da música e na sua adolescência chegou a ser percussionista numa banda de baile. Toda a informação de música regional e verdadeiramente popular, com traço romântico ou mesmo brega, veio dele. E portanto, na nossa família a música deve ser compreendida sempre através dessa narrativa ambivalente. A porosidade do nosso tecido é atuante desde o encontro dos nossos pais.

Algo marcante nessa trajetória em busca do fazer música, tornar-se um músico, surgiu ainda na infância quando os heróis dos desenhos animados da TV começaram a dividir o seu protagonismo com os músicos pop stars que surgiam através da chegada da adolescência dos meus irmãos mais velhos. E que eu, naturalmente, ouvia. Isso coincidiu com a chegada de um aparelho que tocava CD lá em casa. Lembro-me com clareza das tardes que passei ouvindo discos, imitando os músicos, e formulando em mim um incipiente desejo de ser aquilo, e não mais jogador de futebol ou, sei lá, astronauta.

A história se desdobra nos diversos momentos que vieram a seguir. A descoberta, pouco a pouco, dos universos mais distintos, dos territórios mais maravilhosos que a música viria a ocupar no centro da minha fruição; tantos e tantos e tantos e tantos discos, shows, concertos, elevadores, propagandas... Não obstante, foi entre e infância e adolescência que tive a chance de me aproximar de diversos instrumentos e me sentir seduzido pela oportunidade de querer todos como forma de expressão. Estudei violão, piano, flauta, violino, percussão, bateria, canto... enfim, uma infinidade de possibilidades. E isso, para mim, só explica o fato de que a música foi se tornando exclusivamente um meio de expressão. Uma língua inventada por mim, pela minha compreensão das coisas, onde seria possível me conectar com o mundo através das formas mais subjetivas. É como se a música fosse, em suma, o meu meio de me ligar a esse centro sagrado, esse magma espiritual que, de uma forma ou de outra, a existência de todos aqui na Terra tenta, ao menos, triscar. Fazer música, tê-la comigo como algo além de uma profissão, mas um status que me define para além até da sociedade, é dividir com o mundo uma instabilidade que toca a todos. Essa busca do eu, de afunilar a percepção do mundo para uma compilação de sensações (uma canção!), tentar reproduzir isso, fazer com essa expressão chegue à sensibilidade do outro e o atravesse... em suma, a música foi se tornando isso para mim.

Agora, ocorre-me o exemplo da luz, do feixe de luz que atravessa uma pessoa, preenche seu corpo, sua saúde, sua matéria desse finíssimo pó de existência. Penso na música através desse exemplo e encontro abrigo. Percebo nela uma fragilidade, uma ambígua coadunação com o silêncio. E ao mesmo tempo, e por isso mesmo, uma força violenta que pode abrir canais da existência de formas avassaladoras, e se manifestar através de lágrimas, sorrisos, decisões, apontamentos, coragem, amor.

E tendo dito isso, coloco-me em vida à prova disso tudo. Sabendo que a deusa Música abre seus canais de diálogo com uma sensibilidade única, ligar-se a ela é exercício meditativo diário. Penso sempre que esses canais que foram abertos com grandeza épica nesta época que vivemos, trouxe também uma desordem grande, um cansaço, um distúrbio, um sintoma. E música, para mim, tem também se tornado uma busca pelo silêncio. Fazê-la tem sido oportunidade de não persegui-la.

Em suma, esse castelo de areia que se constrói para se explicar o artesanato da feitura da música se choca diretamente com a existência dela nas nossas vidas. Afinal, música e silêncio serão sempre maiores que o nosso falatório (‘inda que o falatório deseje ser poesia, e portanto música). E por fim, respondo-te: Porque você faz música? Não sei.

César Lacerda é cantor, compositor e multi-instrumentista. Lançou seu primeiro álbum, Porquê da voz (independente) em 2013. Seu disco seguinte, Paralelos & infinitos, foi lançado em 2015 pela gravadora Joia Moderna. Paralelamente, participou de diversos projetos, como Instantâneos (DOBRA/Bolacha Discos), Banquete (Banda Desenhada Records) e Mar Azul (Slap).

A MÚSICA DA FALA

foto: daryan dornelles
No ano de 1985, em meio a punks e skatistas, já era possível assistir aos primeiros b-boys se reunindo na estação de metrô São Bento, no centro da capital paulistana. A cultura hip-hop, vista não só como uma forma de entretenimento, mas também de protesto e de superação, encontrou nos jovens das periferias de São Paulo um terreno fértil para se desenvolver. Musicalmente, o rap era a linguagem mais legítima, criativa e poética para aqueles que vinham, há gerações, sofrendo de extrema vulnerabilidade social.

Mesmo utilizando uma linguagem bastante hostil e invasiva, o rap conseguiu ganhar espaço na mídia na década seguinte. Não era mais possível ignorar a agitação promovida por nomes como Racionais MC’s (SP), Pavilhão 9 (SP), MV Bill (RJ), Planet Hemp (RJ), Faces do Subúrbio (PE), GOG (DF), Câmbio Negro (DF) e seus milhares de seguidores. Entretanto, com a virada do século, ficaram nítidas as mudanças pelas quais o rap nacional estava passando: mais permeável, aderiu-se a outros gêneros e discursos, atenuando assim o seu caráter político. Mesmo com a crítica das alas mais ortodoxas do movimento, diversos artistas aproximaram-se de uma estética pop, caso de Projota, Karol Conka, Rael e Flávio Renegado. Com uma visão mais pragmática e conciliatória, uma nova geração de rappers conseguiu penetrar em espaços pouco propensos ao gênero e, consequentemente, ser absorvida pelo mercado e criar novos padrões estéticos e comportamentais.

Vinda da periferia de Curitiba (PR), Karol começou sua carreira em 2002. No ano seguinte, integrou o grupo Agamenon, ao lado dos MC’s Bigue, Cadelis e Cilho. Mais a frente, participou com Cadelis, Nairóbi, Mike Fort, São Nunca, Guerra Santa e Nel Sentimentum do grupo Upground Beats. Em 2008, já em carreira solo, teve o seu single “Me garanto” indicado ao prêmio Hutuz na categoria “Melhor demo feminino”. Em 2011, disponibilizou para download um EP promocional com sete músicas, dentre elas “Melhor que se faz” e “Marias”. Com a boa repercussão do trabalho, Karol investiu em seu primeiro clipe, “Boa noite”, o que a levou a concorrer na categoria “Aposta” no VMB 2011. Em 2013, lançou seu álbum de estreia, o elogiado Batuk Freak (Deckdisc), produzido por Nave Beatz. Influenciado pela música tradicional e com referências às religiões afro-brasileiras, o disco abordava temas relacionados ao universo feminino e ao preconceito racial. A convite de Boss in Drama, participou do single e do clipe de “Toda doida”, eleita uma das dez melhores músicas de 2013 pela revista Rolling Stone. No mesmo ano, ganhou o Prêmio Multishow na categoria “Artista revelação”. Sua música, “Boa noite”, foi escolhida para fazer parte da trilha sonora do game Fifa 14. Em abril deste ano, ganhou destaque ao aparecer em uma lista de “Dez novos artistas que você precisa conhecer” da revista Rolling Stone norte-americana.

Encontramos a rapper no Teatro Oi Futuro Ipanema. Recém-chegada de sua terceira turnê pela Europa, Karol veio ao Rio para se apresentar no festival Sonoridades ao lado de BaianaSystem e Márcio Victor. No café do teatro, conversamos a respeito de sua carreira, cena curitibana, racismo e seu próximo álbum.

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BANQUETE




| BANQUETE | CADU TENÓRIO + MÁRCIO BULK |
Alice Caymmi | Bruno Cosentino | César Lacerda | Lívia Nestrovski | Michele Leal | Rafael Rocha


1. “Café expresso”
César Lacerda/Márcio Bulk
Voz: Michele Leal
Violão: César Lacerda
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

2. “Estela”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Voz: Alice Caymmi e Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

3. “Electric fish”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Versão para o inglês: Sylvio Fraga Neto
Voz: Cesar Lacerda
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

4. “Em transe”
Rafael Rocha/Márcio Bulk
Voz: Lívia Nestrovski
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

Produzido por Cadu Tenório e Márcio Bulk
Arranjos: Cadu Tenório
Gravado nos estúdios 503, Audio Rebel, Marini e Clemente II
Mixado por Cadu Tenório e Emygdio Costa
Masterizado por Emygdio Costa
Projeto gráfico: Márcio Bulk e Rodrigo Sommer
Capa: “Nature morte aux coquillages et au corail”, Jacques Linard


Banquete, o samba-canção manco de Cadu Tenório e Márcio Bulk
Marcos Lacerda

A canção é uma linguagem artística generosa, múltipla e com uma densidade presente tanto em suas formas harmônico-melódicas mais complexas, quanto nos mais simples samba-canções e boleros. Quem realmente a conhece sabe da sua capacidade de gerar encontros e atritos entre as mais diversas linguagens, inclusive em experimentos sonoros radicais, como vem fazendo um segmento expressivo da canção brasileira contemporânea. Esta desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um diálogo forte com a música “experimental” ou “de invenção”, algo que podemos constatar de forma clara em Banquete, o mais novo projeto de Cadu Tenório e Márcio Bulk.

Integrante da chamada cena experimental carioca, o músico e produtor Cadu Tenório é conhecido por encabeçar diversos projetos musicais, dentre eles, Sobre a Máquina, VICTIM! e Ceticências. Em quatro anos de carreira, esteve envolvido na produção e lançou mais de 20 discos. Nesse mesmo período, através do blog Banda Desenhada, o pesquisador musical Márcio Bulk dirigiu e lançou o álbum E volto para curtir (2013), no qual nomes da nova geração regravaram o primeiro disco de Jards Macalé (homônimo, 1972). No final de 2013, lançou o single Soluços (Jards Macalé), sua primeira parceria com Cadu Tenório. Agora, com o EP Banquete, Bulk exibe pela primeira vez sua veia poética. Com influência do samba-canção e das obras de Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, suas letras foram musicadas e interpretadas por alguns dos artistas mais relevantes da atual cena carioca: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha. As canções, inicialmente gravadas com acompanhamento de violão, foram desconstruídas e recriadas por Tenório através de processos eletroacústicos que dialogam de forma direta com as letras e com a interpretação dos cantores, remetendo, por vezes, aos trabalhos inventivos de artistas como Scott Walker, Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono e Björk.

Dessa forma, podemos dizer que Banquete é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada.

A primeira faixa, “Café expresso” (César Lacerda/Márcio Bulk), é interpretada por Michele Leal. A canção se inicia ao som de um violão, como se saído de uma fita antiga, interrompido bruscamente pelo ruído de uma máquina ou veículo acelerando. Esta instabilidade entre a forma sonora inteligível e a aceleração abrupta permeia todo o disco e é o “recanto escuro” no qual as formas poético-musicais das canções vão se fissurando e se esgarçando. Nesse primeiro caso, temos a experiência da frustração diante da perda, na voz do outro cuja presença ainda se sente (“a sua voz ainda/ecoa pelo meu dorso”) e no corpo, que se perde e se anula, em meio a tantos suportes materiais (cama, remédios, escadas, aço, vidros). Michele consegue, de forma bastante criativa, enriquecer essa trama, deixando de lado, ao final da canção, o seu tom dramático e, tomada de ironia, se aventurar em um spoken word. A canção seguinte, “Estela” (Márcio Bulk/Bruno Cosentino), trata-se de uma bela e sensível homenagem à cantora Stella Maris (1922–2008), esposa de Dorival Caymmi (1914–2008). Interpretada por Bruno Cosentino e Alice Caymmi, neta de Stella, a canção é um apelo desolador diante do medo da separação e da morte. A paisagem oceânica (recifes, pedras, embarcações, horizontes) torna-se símbolo de incomunicabilidade, personificada como testemunha ocular de todo o drama. A forma sonora do álbum, emaranhada de melancolia, só é levemente superada na transgressão do sexo e do gozo — de raras figurações ou mediações simbólicas — como se vê na canção “Eletric fish” (Bruno Cosentino/Márcio Bulk), interpretada por César Lacerda. O cantor dá vida a um personagem cambaleante e bêbado, o que é a deixa para que Tenório possa brincar com a métrica da canção, repleta de mudanças drásticas e vai e vens. Por fim, temos “Em transe” (Rafael Rocha/Márcio Bulk), interpretada de forma impressionante por Lívia Nestrovski. A música amalgama e dá cabo dos principais temas de Banquete: a solidão, a perversidade do discurso amoroso, o ruído e o seu incômodo, impresso por Tenório nas camadas e mais camadas sonoras que ele utiliza ao trabalhar a voz de Lívia. Esta, na busca por sua inteireza, produz uma melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção (“um samba-canção manco”).

Com Banquete, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.


Marcos Lacerda é sociólogo, crítico, pesquisador da história da canção e editor da revista Polivox.

CADA TEMPO EM SEU LUGAR

fotos: daryan dornelles
São Paulo, 2008. Enquanto Romulo Fróes se encaminhava para seu terceiro álbum e Juçara Marçal iniciava sua parceira com Kiko Dinucci, Pipo Pegoraro lançava de forma independente seu primeiro disco solo, Intro. Na mesma época, Thiago Pethit estreava com seu EP Em outro lugar (independente) e Curumin lançava seu segundo álbum, Japan pop show (Urban Jungle). Faltava bem pouco para que críticos e jornalistas de todo o país voltassem a sua atenção para a produção musical da cidade, fato que ocorreu em 2010, com a excelente acolhida dos álbuns de estreia de Karina Buhr (Eu menti para você, independente), Marcelo Jeneci (Feito para acabar, Slap/Som Livre) e Tulipa Ruiz (Efêmera, YB Music). Bastante receptiva aos novos artistas e seus trabalhos autorais, São Paulo passou a fomentar, no decorrer dos últimos anos, uma das cenas musicais mais prolíferas e criativas do Brasil.

É a respeito dessa movimentação que conversamos com Pipo Pegoraro. Figura bastante ativa no cenário paulistano, o músico lançou seu segundo álbum, Taxi Imã (YB Music), em 2011, produzido pelo cantor e compositor Bruno Morais. No ano seguinte, trabalhou na produção da música “Eva e eu", interpretada por Anelis e Serena Assumpção para o disco tributo a Péricles Cavalcanti, Mulheres de Péricles (Joia Moderna). Ainda em 2012, passou a integrar o coletivo Aláfia, lançando álbum homônimo no ano seguinte pela YB Music. Em 2013, produziu duas faixas para o cantor Filipe Catto: “Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata”, de Capinan e Jards Macalé, para o disco E volto pra curtir (Banda Desenhada Records); e “Flor da idade”, de Chico Buarque, para a trilha sonora da novela Jóia Rara, da TV Globo. Além de participar como músico e arranjador do programa Cantoras do Brasil, do Canal Brasil, Pipo também é responsável por diversas trilhas sonoras de documentários e espetáculos de dança.

Conversamos com o músico algumas semanas antes do lançamento de seu terceiro disco, Mergulhar mergulhei (YB Music). Com direção artística de Romulo Fróes e contando com a participação de Xênia França, Luz Marina e Filipe Catto, o álbum foi recentemente disponibilizado para download gratuito e teve, há poucos dias, seu show de lançamento na Choperia do Sesc Pompeia (SP).

Nosso encontro se deu em uma das vindas de Pipo ao Rio, em um restaurante no bairro do Leme, onde falamos a respeito de sua carreira, o novo trabalho, influências e a cena paulistana.

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ISTO NÃO É UM POEMA

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Criado em 1990 pelos poetas Chacal e Guilherme Zarvos, o CEP 20.000 tornou-se ao longo dos anos um dos pontos de referência da produção cultural carioca. Tendo por objetivo ser um espaço para a inovação e o diálogo entre artistas de diversas áreas, o CEP (Centro de Experimentação Poética) vem mantendo suas portas abertas para que novos nomes surjam e amadureçam seus trabalhos. Pelo seu palco principal — o Espaço Cultural Sérgio Porto — já passaram centenas de escritores, performers, artistas plásticos, atores e músicos. Michel Melamed, Rubinho Jacobina, Pedro Luis e a Parede, Mulheres Q Dizem Sim, Viviane Mosé, Funk Fuckers, Jonas Sá, Ericson Pires, Boato, Rogério Skylab, Gregório Duvivier, Thalma de Freitas, Os Outros, Fausto Fawcett, Do Amor, André Dahmer, Qinho, Chelpa Ferro, Letuce, Mariano Marovatto... a lista é longa e bastante significativa. O evento sempre teve uma estreita ligação com a cena musical carioca, o que o tornou um dos responsáveis pelo surgimento do mais importante festival de música independente da cidade, o Humaitá Pra Peixe, criado em 1994. Com o passar dos anos, o CEP diversificou-se e passou a ter, em alguns momentos, um caráter itinerante, percorrendo bairros das zonas norte e oeste, como Méier, Pavuna, Complexo da Maré, Bangu e Campo Grande.

Uma de suas crias mais conhecidas, o músico e escritor Botika começou sua carreira aos 12 anos, como ator na peça infantil A Mulher que matou os peixes, baseada na obra de Clarice Lispector. Mais tarde, envolveu-se com a música, por influência de seu pai, o compositor e diretor musical Caíque Botikay. Junto com o amigo e parceiro Vitor Paiva, integrou as bandas A Neura e Os Outros, lançando dois discos: Nós somos Os Outros (2007, Bolacha Discos) e Pacote felicidade (2010, Bolacha Discos). Paralelamente, envolveu-se com a literatura, publicando em 2004, seu primeiro livro, Autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue Editoral), inspirado em PanAmérica (1967, Ed. Tridente), de Agripino de Paula. Seis anos depois, publicou o elogiado Búfalo (Língua Geral). Em 2012, lançou com sua banda e a cantora Teresa Cristina o álbum Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deckdisc), onde interpretam canções de Roberto Carlos. Ao lado de Paulo Tiefenthaler, Alexandre Vogler e Guga Ferraz, foi um dos idealizadores do Aplique de Carne, projeto multimídia apresentado em 2013 no Galpão 5, da Funarte, em Belo Horizonte. Nesse mesmo ano, foi convidado pela jornalista Lorena Calábria a participar do projeto Agenor — As canções de Cazuza (Joia Moderna), onde fez uma releitura de “Ritual”, composição de Cazuza e Roberto Frejat. Ainda em 2013, ganhou destaque na mídia ao se envolver em uma discussão e ser agredido pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Em 2014, já com a banda desfeita e em carreira solo, lançou Picolé de cabeça (Bolacha Discos), produzido por Bernardo Palmeira.

Após diversas conversas e resolvidos alguns contratempos, fomos entrevistar Botika em sua casa, em Botafogo, no dia seguinte ao show que realizou no Espaço Cultural Sérgio Porto, onde dividiu o palco com a banda Do Amor. Contando com a presença de sua esposa, a produtora Ana Maria Bonjour, grávida de nove meses de sua primeira filha, Odete, Botika nos falou a respeito de sua carreira, projetos musicais e literários e da importância do CEP 20.000 para a cena carioca.

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CANTO PUNHALADA

fotos: daryan dornelles

A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

Ao escrever o poema “A palo seco” (Quaderna, Guimarães Editores, 1960), João Cabral de Melo Neto evidenciou o que lhe era mais caro em seu ofício: a busca por uma escrita exata e contundente, mimetizada à rudeza do sertão nordestino e ao canto flamenco. Uma poesia sem rodeios e aguda. Como Encarnado, primeiro álbum solo de Juçara Marçal. O disco foi lançado de forma independente em fevereiro deste ano e vem sendo considerado por diversos jornalistas e críticos musicais como um dos melhores de 2014. Interpretando canções onde vida e morte se embatem a todo instante, Juçara dá voz a personagens extremamente fortes que, em situações limítrofes, percorrem uma via crucis onde já não há mais espaço para jogos ou floreios. É tudo ou nada. É “o cante a palo seco/sem o tempero ou ajuda”. Contudo, diferente do poema, o canto de Juçara nunca se faz só. Mesmo ao interpretar canções pontuadas pela desolação, é através da confiança em seus parceiros que a artista vem construindo sua carreira ao longo dos anos.

Intérprete de voz singular, Juçara tornou-se uma das mais importantes cantoras da música brasileira contemporânea. Nasceu em Duque de Caxias (RJ), mas foi, ainda criança, para São Caetano do Sul (SP), mudando-se, em seguida, para São Sebastião (SP). Radicada na capital paulista desde o início dos anos 90, iniciou sua carreira artística ao integrar a Companhia Coral, sob a regência do maestro Samuel Kerr e direção cênica de Willian Pereira. Ingressou em 1991 no grupo Vésper Vocal, com quem lançou quatro discos: Flor d’Elis (Dabliú Discos, 1998), Noel Adoniran  180 anos de samba (Eldorado, 2002), Ser tão paulista (CPC-Umes, 2004) e Vésper na lida (Pôr do Som, 2013). Em 1998, tomou parte do grupo A Barca, com quem realizou uma extensa pesquisa na área de cultura popular, o que resultou em dois álbuns, Turista aprendiz (CPC-Umes, 2000) e Baião de princesas (CPC-Umes, 2002), além de Trilha, toada e trupé (Cooperativa de Música, 2006), caixa com três CDs e um DVD,  e a Coleção Turista Aprendiz (Cooperativa de Música, 2010), contendo vários registros sonoros e sete curtas. Em 2007, ao lado do violonista e compositor Kiko Dinucci, iniciou sua parceria mais prolífera, lançando o disco Padê (2007, Cooperativa de Música). No ano seguinte, formou com Kiko e o saxofonista Thiago França o trio Metá Metá. Com o Metá Metá, lançou dois álbuns: Metá Metá (Desmonta, 2011) e Metal Metal (independente, 2012). O trio ganhou, em 2013, o Prêmio Multishow de “Música compartilhada”, tendo sido também indicado às categorias “Disco do ano” e “Versão do ano”, com a canção “Let’s Play That” de Jards Macalé, regravada no disco E volto para curtir (Banda Desenhada Records,2013). O grupo já realizou turnês em diversos estados do país, além da Europa e América Latina. Em 2014, Juçara lançou Encarnado. No disco, interpretou canções de seus colegas Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França, além de Itamar Assumpção, Tom Zé, Siba, entre outros.

Em turnê de lançamento de seu álbum, Juçara veio ao Rio, onde se apresentou em curta temporada na Audio Rebel. Aproveitamos a oportunidade para entrevistá-la em um passeio pelo Largo do Machado e o bairro do Flamengo. Ali, conversamos a respeito de sua carreira, parcerias, vanguarda paulista e muito mais.

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E O TEMPO CANTA

fotos: daryan dornelles
Durante décadas, foram fatos incontestáveis a baixíssima presença e o preconceito em relação à figura feminina no espaço composicional da música popular brasileira. Esse quadro só foi alterado a partir dos anos 90, com o surgimento de nomes como Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Arícia Mess, Suely Mesquita, Mathilda Kóvak e Érika Martins. A expansão do mercado independente desencadeada na década seguinte fez esse número ampliar, decretando, enfim, o término dessa longa misoginia. Entretanto, paralelamente, desenvolveu-se em boa parte dos jornalistas e críticos musicais uma aversão sintomática às novas cantoras que se dedicavam exclusivamente ao trabalho de intérprete. Uma aversão provocada tanto pela quantidade desmedida de vozes que surgiram no rastro de Marisa Monte e Cássia Eller quanto pelos inúmeros tributos que impregnaram o mercado fonográfico. Coube então às novas intérpretes reiterar suas convicções estilísticas e confiar na qualidade de seus trabalhos. Assim, nadando contra a corrente, Marcia Castro, Fabiana Cozza, Juçara Marçal, Simone Mazzer e Lívia Nestrovski, dentre outras vozes femininas, passaram a conquistar seu devido espaço e, aos poucos, obter reconhecimento.

Filha do compositor e violonista Arthur Nestrovski, Lívia nasceu em Iowa City, nos Estados Unidos. Voltou definitivamente ao Brasil em 2002, onde formou-se em canto popular pela Unicamp.Ainda na universidade, conheceu Arrigo Barnabé, com quem passou a se apresentar em shows como Clara Crocodilo e Salão de beleza. Em 2009, formou um duo com o guitarrista Fred Ferreira, apresentando-se em diversos palcos do país, além de Colômbia e França. Lívia também fez parte do grupo Cumieira, com o qual gravou, em 2010, o CD Festa da Cumieira (Cumieira). Em 2011, integrou-se ao grupo vocal BeBossa, realizando apresentações ao lado de Roberto Menescal e Wanda Sá. Em 2012, atuou nos espetáculos Dolores Duran por Lívia Nestrovski, Dalva & Herivelto — Sinfonia de pardais e Ary Barroso — Pra machucar meu coração. No mesmo ano, lançou com Fred Ferreira o CD Duo (independente/Tratore), interpretando composições de Tom Jobim, Milton Nascimento, Kurt Weill, José Miguel Wisnik, entre outros. Em 2013, defendeu sua dissertação de mestrado em musicologia sobre o scat singing na música brasileira. Nesse mesmo ano, gravou, ao lado de Arrigo Barnabé e Luiz Tatit, o álbum De nada mais a algo além (Atração Fonográfica), lançado em 2014.

Uma das vozes mais interessantes do atual cenário musical brasileiro, Lívia Nestrovski aceitou o convite do Banda Desenhada para esta entrevista, realizada no Hotel Sesc Copacabana. A cantora nos falou a respeito de seu trabalho de intérprete, influências, vanguarda paulista e universo acadêmico.

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BONDE DOS BRABOS

fotos: daryan dornelles

Nas últimas décadas, o barateamento e a acessibilidade de novas tecnologias foram responsáveis não só pelo crescimento e diversificação da música brasileira, como também pela criação de espaços para crítica e desenvolvimento de diferentes narrativas. Assim, blogs e revistas virtuais adquiriram um papel importantíssimo na fomentação e apreciação da produção artística, destacando-se pela qualidade de seus textos e competindo em pé de igualdade ou mesmo superando revistas e jornais especializados.

Ex-integrante da banda Zumbi do Mato e professor de filosofia da UFRJ, Bernardo Oliveira é um dos principais nomes dessa nova crítica. Responsável pelo blog Matéria e colaborador de diversas revistas virtuais, Bernardo também vem ganhando projeção por ser um dos produtores do projeto Quintavant, que além de promover a cena experimental carioca, também traz ao Rio nomes importantes da música de vanguarda internacional, como Kevin Drumm, The Ex, Matana Roberts e Paal Nilssen-Love.

A entrevista foi realizada ao longo do mês de maio, em uma sucessão de e-mails e bate-papos em redes sociais. Nela, falamos a respeito de seus projetos, crítica musical, samba e funk cariocas, entre outros assuntos.

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NO EMBALO DO AMOR V.1

do amor (da esq. para a dir.): gabriel mayall, gustavo benjão, ricardo dias gomes e marcelo callado | fotos: daryan dornelles
Caetano Veloso, Nina Becker, Canastra, Lafayette & Os Tremendões, Silvia Machete, Jonas Sá, Los Hermanos, Lucas Santtana, Nervoso e os Calmantes, Alice Caymmi, Totonho & Os Cabra, Rubinho Jacobina, Zumbi do Mato, Brasov, Tulipa Ruiz, +2, Quito Ribeiro, Jorge Mautner, Branco Mello, Iara Rennó... A lista de artistas e projetos que contam ou contaram com a colaboração dos integrantes da banda Do Amor é bastante longa e serve para demonstrar a importância de Marcelo Callado (bateria e voz), Gabriel Mayall (guitarra e voz), Gustavo Benjão (guitarra e voz) e Ricardo Dias Gomes (baixo e voz) na atual produção musical brasileira.

O grupo carioca é formado por amigos de longa data que, há mais de uma década, atuam no cenário musical da cidade. Entretanto, Do Amor só tomou forma com o lançamento do EP homônimo, em 2007. Sob a produção de Chico Neves, o primeiro álbum, Do Amor, foi lançado três anos depois, em parceria com os selos + Brasil Música e Estúdio 304. A banda se apresentou em diversas regiões do país, além da Europa e América Latina. No final de 2011, Marcelo, Gabriel, Gustavo e Ricardo se isolaram em uma fazenda no município de Três Rios (RJ), no interior do estado, para elaborar seu trabalho seguinte, Piracema (Disco Maravilha). Produzido por Daniel Carvalho, o álbum contou com a participação de Arto Lindsay, Moreno Veloso, Alice Caymmi, Donatinho, Pedro Sá, Rodrigo Amarante, entre outros. Piracema foi lançado em 2012 e recebeu bastante elogios da imprensa especializada, entrando nas listas de melhores do ano em diversas publicações. Nesse mesmo período, Do Amor também participou de dois tributos: Coletânea Re-Trato (Musicoteca, 2012) e Agenor (Joia Moderna, 2013), em homenagem a Los Hermanos e Cazuza, respectivamente.

Após convidar os integrantes do grupo para a entrevista, o Banda Desenhada foi encontrá-los em um restaurante no bairro do Humaitá, onde conversamos a respeito de sua trajetória, processo criativo e influências.

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CROCODILOS, TUBARÕES E AVES DANINHAS

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Lançamentos de boxes comemorativos, discos tributos, shows, filmes e livros... Com o aparecimento e a popularidade de uma nova geração de artistas independentes em São Paulo, assistiu-se nos últimos anos o redescobrimento de uma das cenas mais importantes da música popular brasileira: a vanguarda paulista. Surgida no final dos anos 70 e desenvolvendo um som bastante peculiar, a vanguarda foi, em boa parte, rejeitada pelas majors e pelo mainstream, o que prejudicou e muito a sua difusão. Entretanto, com as mudanças do mercado fonográfico e sendo constantemente citados por nomes da nova geração, Ná Ozzetti, Arrigo Barnabé, Luiz Tatit, Itamar Assumpção, Alzira E, Suzana Salles e outros artistas dessa cena passaram a ganhar uma atenção bastante expressiva de um público jovem e curioso por seus trabalhos.

O paranaense Arrigo começou sua carreira ainda em Londrina. Em 1973, venceu o Festival Universitário de Música da cidade com a canção “Lástima”. Em 1976, já radicado em São Paulo, montou o conjunto Navalha, integrado por Antônio Carlos Tonelli (baixo), Itamar Assumpção (voz e guitarra) e seu irmão, Paulo Barnabé (bateria). Em 1979, saiu vitorioso do Festival Universitário da Canção da TV Cultura, interpretando com a banda Sabor de Veneno a música “Diversões Eletrônicas”. Em 1980, lançou de forma independente o cultuado Clara Crocodilo. O disco foi considerado um marco na música popular brasileira ao dialogar com elementos da cultura pop e da música erudita contemporânea. Por este trabalho, Arrigo foi premiado no ano seguinte na categoria “Revelação” pela APCA (Associação dos Críticos de Arte de São Paulo). Inspirado em uma história em quadrinhos de Luiz Gê, gravou Tubarões Voadores (Ariola, 1984). Em 1988, promoveu o seu álbum mais comercial, Suspeito (3M). Entretanto, sem o retorno esperado, voltou à produção independente, lançando a seguir o disco ao vivo Façanhas (Camerati, 1992). Em 1998, pela gravadora Núcleo Contemporâneo, lançou a ópera Gigante Negão, gravada ao vivo, em 1990, no Palace, em São Paulo. No ano seguinte, em uma releitura de seu trabalho mais festejado, lançou A Saga de Clara Crocodilo (Tranx God Records). Em 2004, passou a apresentar o programa Supertônica, na Rádio Cultura de São Paulo. Neste mesmo ano, compôs Missa In Memorian Itamar Assumpção, em homenagem ao amigo que morreu em 2003. A obra foi lançada, dois anos depois, pelo selo Thanx God Records/Tratore. Em 2008, acompanhado de Paulo Braga, lançou Clara Crocodilo – Uma Suíte A Quatro Mãos, gravado ao vivo em 2004, no Teatro Nacional S. João, no Porto (Portugal). Em comemoração aos 30 anos de Clara..., Arrigo gravou ao lado da Orquestra à Base de Sopro de Curitiba um DVD (Arrigo Barnabé & Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, Tratore, 2010) contendo a remontagem de sua ópera rock e a inédita “A Metamorfose”. Em 2011, fez o lançamento do DVD Caixa de Ódio, onde interpreta composições de Lupicínio Rodrigues. Gravado em 2009 na Casa de Francisca, em São Paulo, o espetáculo percorreu várias capitais do país.

O músico foi premiado por diversas trilhas sonoras, como Janete (1983), Estrela Nua (1985), Cidade Oculta (1986), Vera (1987), Lua Cheia (1988) e Doutores da Alegria (2005). Como ator, esteve presente nos filmes O Olho Mágico Do Amor (José Antônio Garcia e Ícaro Martins, 1981), Cidade Oculta (Chico Botelho, 1986), Nem Tudo É Verdade (Rogério Sganzerla, 1986), Anjos da Noite (Wilson Barros, 1987), Desmundo (Alain Fresnot, 2003) e Luz nas Trevas (Helena Ignez, 2012), participando também da novela Direito de Amar ( Rede Globo, 1987).

De passagem pelo Rio com a remontagem de Clara Crocodilo e envolvido com os projetos Pô, Amar é Importante e Cevando o Amargo, onde interpreta, respectivamente, canções de Hermelino Neder e Lupicínio Rodrigues, Arrigo nos encontrou no estúdio Audio Rebel, em Botafogo. Lá, o músico nos falou a respeito de sua carreira, de seus projetos, da vanguarda paulista e da nova geração da MPB.

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sem preconceito ou mania de passado

fotos: daryan dornelles
Nos últimos anos, uma nova geração de músicos cariocas ganhou destaque em blogs e jornais locais. Flertando em maior ou menor grau com a MPB e o indie rock, nomes como Cícero, Letuce, Tono e Do Amor, somados aos veteranos da Orquestra Imperial, configuraram a cena independente da cidade. Paralelamente, outros grupos também se desenvolveram e ganharam destaque, como o samba da Lapa, o Coletivo Chama e a cena experimental. Contudo, se é fato que esta última nunca teve grandes dificuldades em dialogar com seus colegas indies, também se tornou perceptível a quase ausência de diálogo entre os outros grupos. Ausência esta provocada, na maioria das vezes, por polêmicas e posicionamentos artísticos conflitantes.
É sobre estas e outras questões que conversamos esta semana com o cantor e compositor Fernando Temporão. O músico começou a sua carreira na Lapa em 2005, onde integrou o grupo Sereno da Madrugada, com quem lançou, em 2010, o álbum “Modificado” (Biscoito Fino). Dois anos depois, em parceria com João Callado, Fernando gravou o disco “Primeira Nota” (Biscoito Fino), com participações especiais de Mônica Salmaso, Teresa Cristina, Moyseis Marques, Áurea Martins e Marcos Sacramento. Em 2013, sob a produção de Kassin e Alberto Continentino e contando com a presença de Domenico Lancelotti, Donatinho, Stéphane Sanjuan, entre outros, o músico lançou seu primeiro álbum solo, “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. O disco, de forte influência pop e facilmente inserível no nicho indie carioca, foi disponibilizado para download gratuito pelo Musicoteca.
Interessados em saber a respeito de sua experiência no samba carioca e de seu diálogo com seus colegas de geração, convidamos Fernando para uma entrevista ao Banda Desenhada. O músico nos recebeu em seu apartamento, no bairro do Jardim Botânico (RJ) e nos falou de seus tempos de Lapa, da cena da cidade e de seu álbum.

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quedas e curvas

fotos: daryan dornelles
Em 2013, o Banda Desenhada realizou a primeira de uma série de entrevistas onde jornalistas de diversas capitais do país analisam a cena local. Na ocasião, coube a Marcus Preto a tarefa de relatar a evolução e a ascensão da cena independente paulistana. Agora, colocado em situação mais espinhosa, Leonardo Lichote analisa o cenário carioca, sua crise e desdobramentos, relacionando-os com a atual e conturbada conjuntura política do país.
Atuando desde 2001 como repórter e crítico musical do jornal O Globo, Lichote colaborou com o livro de memórias de Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (Objetiva), sendo responsável por assinar o seu texto final. Também é autor dos textos críticos que acompanham a caixa de Chico Buarque, “De Todas as Maneiras” (Universal), que contém os 22 primeiros discos do artista. Comentarista do programa Faro MPB (rádio MPB FM) e jurado dos dois principais prêmios de música do país  Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira , Lichote também é uma das figuras mais presentes e incentivadoras do cenário independente carioca.
A entrevista que se segue, desenvolveu-se ao longo de alguns meses, com algumas interrupções e retomadas, em meio a longas conversas e uma troca constante de e-mails.

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pela orla dos novos tempos

fotos: daryan dornelles
Lucas Santtana (43), Mallu Magalhães (23), Romulo Fróes (42), Tim Bernardes (22), Karina Buhr (39), Karol Conka (26), Criolo (38)... Eis uma geração, no mínimo, atípica. Não bastasse a flexibilidade em torno da idade dos artistas que a integram, ela também se destaca por ser a primeira a se desenvolver fora das grandes gravadoras e mídias tradicionais. Sua origem também é bastante difusa, tanto pela diversidade de cenas (que descentralizou a produção do eixo Rio-São Paulo), quanto por, esteticamente, dar continuidade a uma linguagem que já vinha sendo trabalhada por artistas e bandas da década de 90 como, por exemplo, Chico Science & Nação Zumbi, Adriana Calcanhotto, Paulinho Moska, Acabou La Tequila e Planet Hemp. Tornando o seu mapeamento ainda mais difícil, boa parte desta nova geração só ganhou certa visibilidade no início desta década, ao suprir o vácuo deixado pela forte retração do mercado fonográfico.
Entretanto, mesmo que haja dificuldades em encontrar a origem desta geração, é certo que, no final dos anos 90 e no início dos 2000, alguns músicos começaram a fomentar um cenário que, mais tarde, possibilitou o aparecimento de inúmeros jovens artistas. Lucas Santtana, Wado, Fernando Catatau, Otto, Kassin e Domenico Lancellotti, entre outros, não só foram responsáveis por esta configuração como também se tornaram referência para a atual produção musical independente brasileira.
Nascido em Salvador e radicado no Rio de Janeiro desde 1993, o cantor e multiinstrumentista Lucas Santtana chegou a colaborar, em início de carreira, com Chico Science & Nação Zumbi, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marisa Monte. Em 2000, lançou seu primeiro disco, “Eletro Ben Dodô” (Natasha Records). Três anos depois, inspirado na obra do geógrafo e sociólogo Milton Santos, lançou “Parada de Lucas” (Diginois Records). Em seu álbum seguinte, “3 Sessions in a Greenhouse” (Diginois Records, 2006), Lucas foi acompanhado pela banda Seleção Natural e contou com a colaboração especial de Tom Zé. Nesta época, criou o blog Diginois, onde passou a escrever sobre os mais diversos assuntos: música, literatura, cinema, esportes, comportamento, etc. Em 2009, lançou seu quarto disco, “Sem Nostalgia” (Diginois Records/Yb), contando com a participação de Curumin e Do Amor. O álbum também foi lançado na Europa, em 2011, pela gravadora Mais Um Discos. “Sem Nostalgia” foi eleito melhor disco estrangeiro de 2011 pelo jornal francês Libération e o sexto melhor disco do ano pela revista francesa Les Inrockuptibles. No Brasil, foi incluído na lista de 10 melhores do ano da revista Rolling Stone e dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. Três anos depois, o disco ainda rendeu uma nova versão, “Remix Nostalgia”, onde nomes como Tosca, Deerhoof, Burnt Friedman, JD Twitch, M. Takara e Rodrigo Brandão reconstruíram faixas do álbum. Em 2012, Lucas também lançou “O Deus que Devasta mas Também Cura” (Diginois Records), contando com a participação de CéU, Letieres Leite, Curumin, Gui e Rica Amabis, Guizado, Kassin, entre outros. Ainda nesse ano, gravou “Amor, Meu Grande Amor” (Ângela Rô Rô/Ana Terra), para o CD “Coitadinha Bem Feito – As canções de Ângela Rô Rô” (Jóia Moderna) .
Um dos nomes mais importantes de sua geração, Lucas foi convidado para uma entrevista pelo Banda Desenhada. Em meio a uma série de shows e envolvido na produção de seu próximo disco, o músico nos encontrou em um bar do Baixo Gávea (RJ), onde conversou a respeito de sua carreira, influências, tropicalismo e mercado fonográfico, entre outros assuntos.

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rompe & rasga & come

baile primitivo  | primeira fileira, da esquerda para direita:  michele leal, diana daou, bella meirelles, ava rocha e gabriela campos | segunda fileira da esquerda para direita: bruno cosentino, marcos lacerda e negro leo | fotos: daryan dornelles



Manifesto Baile Primitivo

1. Com livros, com fuzil e sem Coca-Cola: por que não?

O carnaval é a explicitação de uma sociedade desigual, violenta, desesperada, rebelde e potencialmente revolucionária. O avesso do pacto nacional de conciliação de classes. Diabinhos armados com artefatos luminosos, zé pereiras de faca amolada, índios com metralhadoras, capoeiras e cucumbis comandando tanques de guerra ao som de saraivadas de balas, em meio às troças dos mascarados. Você me conhece?

Baile primitivo é entrudo, vilas místicas dos caboclos do contestado, canhões do almirante negro, movimentos anarquistas, conferência de Bandung, movimento dos países não-alinhados, luta armada guerrilheira revolucionária, os três impérios de Joaquim de Fiori, Agostinho da Silva, “propaganda pelo fato”, Darcy Ribeiro, Prata Preta, neopaganismos, levante zapatista, bate-bola, black bloc, marcha das vadias e pinkbloc. 

Sobrevivendo no inferno.

As grandes sociedades (Tenentes do Diabo, Democráticos, Os Fenianos, etc.) eram os pacificadores do carnaval carioca do século XIX. Eram os amenizadores, amortecedores, controladores da força popular do carnaval da cisão, da fratura social, da fissura, o carnaval do conflito social, do antagonismo, da luta de classes, sem conciliação. O carnaval primitivo. Vândalo é o Estado e o Mercado.

Filhas e filhos da ira no delírio antitotalitário da cola de sapateiro metendo o grelo na geopolítica da mulher maravilha. Jacarandá, que flor seria essa? 

Podem surgir dos bairros, das ruas, dos conjuntos residenciais, das favelas, mocambos, malocas e alagados e do Conhecimento e conversação do Santo Anjo da Guarda. 

Cavalos, vacas, ovelhas e insetos. Todos mudarão. A humanidade ainda está na sua infância. Sob o silêncio das máquinas, carne verdes e vacina e elementos belicosos da classe temerosa. O vanguardista está na ponta de qual corrida? Uma zona de furta-cor de onde emerge o supereu humorístico: pai, afasta de mim este riso de sangue

Demarcação de terras indígenas. Seringueiros, ribeirinhos, índios, operários e a lista de morte dos latifundiários do capitalismo 2.0. Poemas do cárcere de Ho Chi Min. Grupos de crime organizado (Coca-Cola, McDonald’s, FIFA) colonizando países emergentes. Não vai ter Copa! Meu cu é laico! Todo poder para o povo! Bancos públicos e privados quebram vidas. Anarquismos, comunismos e milenarismos. Pálidos economistas pedem calma...

2. Macaco é outro.

O ecletismo das ideias liberais escravocratas da conciliação. A transição classista da anistia para os orangotangos do conservadorismo militarizado. O obscurantismo do realismo capitalista na redemocratização.O poder moderador do imperador da canção popular (guardado por Deus, contando vil metal) entre os gaviões e os passarinhos de São Francisco de Assis.
Protegidas pela Guarda Nacional e pelo comitê policial da cultura letrada e do bom gosto, caras rosadas, nutridas, branquíssimas ou douradas pelo sol, se pintam de verde e amarelo e manifestam sua indignação contra a falta de cultura do público da nova vedete da música popular brasileira.

O pêndulo fica em cima do muro, entre a direita e a esquerda, e sempre retorna ao centro. Os liberais vibram, mas quando o pêndulo se mantém no centro, o relógio para. 

Nora Ney. Jorge Goulart. Conjunto Farroupilha. Maria Helena Raposo. Celia de La Serna. Carlos Marighella. Oscar Niemeyer. Lúcio Costa. Cortina de Ferro. Janelas Abertas. Antes do Ornitorrinco. 

Não se trata de realismo socialista, realismo capitalista, nacionalismo fantasioso, exotismo ilegível, “arte pela arte” burguesa. Os intelectuais e artistas juntam livros e rifles e, como últimos soldados da guerra-fria, começam a ouvir o diabinho cubano desafiador.

Rádio e TV Martí informa: indígenas, gays, mulheres, negros e brancos acabam de se filiar ao Alpha 66. Para o delírio totalitário dos estudos culturais. Enquanto isso, sujeitos monetários sem dinheiro transitam pela cidade e assustam turistas em transe e jovens adultos de classe média, que ainda não saíram do jardim da infância. 

Mas a Rede Vespa está de campana...

Arrastão na praia de Ipanema. Rolezinho nos shoppings de São Paulo. Coquetéis molotov no consulado dos EUA e no Clube Militar. Pedras quebrando vidraças de agências bancárias. Carros da PM queimados por militantes anarquistas. Ocupação de prédios para moradia popular. Ocupação de terras do latifúndio: baile primitivo.

Contra a despolitização com interesse político liberal mercadológico e classista hierárquico. Contra os novos conformistas, as variações contemporâneas da patrulha odara, as aves de rapina travestidas de cordeirinhos “amigos do povo”. Abaixo intelectuais tecnocratas dublês de banqueiros. Abaixo aristocracias de burocratas do Estado. Abaixo relativismos culturais pós-tudo e seus pares reacionários: os elitistas esnobes acríticos e suas reações de pavor diante do protagonismo popular. Basta de relativismo liberal mascarado de barroquismos tropicais, “modos de ser do Brasil” e figuras míticas sem história. A estátua de Glauco enfim mostra as suas feições aterradoras. O rei está nu e não é bonito. 

3. O que resta da ditadura? Os patetas adoram o discurso do poder.

Filósofos gays liberais, musas do topless, artistas rebeldes de classe média, estudantes barbudos de esquerda universitária, burguesia folclórica Rio-Paris, profissionais liberais e potenciais integrantes do Big Brother se divertem na praia de Ipanema, enquanto mulheres e homens negros pobres são vigiados ostensivamente pelas forças repressoras do mercado livre e do Estado democrático de direito.

Ao invés do equilíbrio de antagonismos (tão ao gosto dos nossos intelectuais malemolentes da “democracia racial” e da conciliação de classe ) a explicitação das contradições e o chamado ao confronto direto e à luta: baile primitivo.

O líder camponês. O líder sindical. A máscara negra da fome na melancolia dos trópicos. “Está vendo o que é o artista? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado, em festa permanente, rebolando no caos da miséria globalizada, enquanto o capitalismo ri de si mesmo e se faz paródia, alegria, alegoria”.

Bárbaros mandirobas com pés espalhados entoam a copla ao som do mestre de pancadaria e se juntam ao Rompe e Rasga e aos Destemidos da Chama, assustando os amenos carnavais do Resedá.

Quando o Brasil mítico, pré e pós-ocidente, encontra a história da luta de classes. Capoeiras, caboclos, milenaristas, indígenas e a plebe proletarizada e não proletarizada. O espírito de Deus se agita e no mar revolto a jangada volta cheia. É a Hora! É a Hora! 

Exército anarquista de libertação. Alguém me disse, e o peixe amarelo eu vi navegar. Eles eram muito cavalos. A garoa rasga a carne. Quando os barquinhos da Bossa Nova integrarem a esquadra revolucionária. Ele disse a ela e escancarou os dentes, esperando a morte chegar.

Entre as duas torres, um clarão. Imagens e fantasmagorias. Subflor e mais flor. Dinamitar a ilha Brasil, pairando, porque não podes. O futuro só pode vir na forma da monstruosidade. O tigre agachado e o dragão enroscado estão mais majestosos do que nas eras passadas, enquanto a lâmina aguda ceifa as raízes da propriedade privada. 

Justiçamentos. Tribunal do povo. Justiça popular. Nos meus retiros espirituais. Cortar a cabeça do capitalismo. Censurar ninguém se atreve. Balança rede, balança. 

Uma bandeira negra e vermelha tremula nas ruas do Brasil. Da ditadura democrática do povo. O terror revolucionário. A grande onda da liberdade de amar. Eu não nasci pra morrer.


Marcos Lacerda

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