MUITO!



Bruno Cosentino + Marcos Campello

1. “Muito”
Caetano Veloso
Voz: Bruno Cosentino
Guitarra, tacos e ventilador: Marcos Campello

Produzido por Marcos Campello e Márcio Bulk
Mixado por Marcos Campello
Masterizado por Martin Scian
Projeto gráfico: Márcio Bulk


Mesmo que parecesse ser modesto – Muito! por Bruno Cosentino, Marcos Campello e Márcio Bulk
Raul Lorenzeti

Mudanças implicam revisões. Esculhambar lembranças e aproveitar para reflexões que fatalmente levam a algum tipo de cura. Muito!, de Marcos Campello, Bruno Cosentino e Márcio Bulk vem desse processo.

Tanto Cosentino com Babies, 2016, como Campello com Bansa, 2015, já mostravam interesse na crueza do registro, no sumo da performance plasmado no suporte (ainda que cada um num lugar específico e distinto da música). Foi Bulk quem propiciou o encontro, retomando uma ideia bem-sucedida em Soluços, 2013, e Banquete, 2014: fazer da canção o encontro entre o experimento e a tradição quebrando a hierarquia entre o som marginal e o consagrado.

Gravada numa casa em reformas, vazia, com os restos do que foi ali jazendo e exprimindo sons, lembranças encarnadas no corpo de quem ouve, “Muito” vira outra coisa. É como se a música e seu arranjo original, presentes no disco homônimo de Caetano Veloso de 1978, tivessem sido limados, talhados, lixados até o núcleo e o que sobrou é de certa forma tão essencial que avança noutra direção: aponta as possibilidades de uma canção menos interessada em ser estímulo, mais afeita a convidar o ouvinte a se aventurar na floresta dos signos e dos sentidos.

A guitarra de tons cansados de Campello e suas cordas afinadas em tons semialeatórios, amaciadas de todo o esporro sonoro que é a sua vida fora da canção, anuncia: as coisas não estão em ponto de bala como em “Muito”, de Veloso. Aqui, as coisas estão em obras e o fonograma nos indica o processo, o fazer, quase como a bola cantada por Lucier em I Am Sitting in a Room, 1969.

A interpretação do duo é tão enérgica e tão próxima como somente um encontro entre poesia e música poderia ser: sem salas acusticamente tratadas, sem playback e cantor na técnica. As coisas foram feitas cara a cara, ao vivo, um influindo no gesto do outro, um bebendo das dobras que o outro infligia ao tempo que vai se erguendo em forma variada, sem pistas do que vem a seguir. 

Quando canta, Cosentino e sua voz lânguida, de acento carioca, tomam parte da poesia que só existe no recriar, recitar, tomar conta do texto, regurgitar e ativar outra escuta, ainda que se aproxime do original enunciado. Os sons ambientes, pr’além da curiosidade, trazem a urgência do registro que trabalha noutra chave que não é só tensão e repouso. Abrem-se as sinapses no toque das pás do ventilador no captador da guitarra de Campello – ou seria um motor?

Todos os desatinos que levaram Bulk, Campello e Cosentino a se jogarem numa releitura sem escrúpulos ou reverências passam, definitivamente, pelo entendimento de que uma interpretação não esgota o signo, não define caminho, mas pode furar a superfície lisa e estéril do discurso consagrado/oficial feito mato no asfalto. 

Esse processo revela um cuidado interessante: o trio não se serve dos instrumentos, dos sons e do ambiente como artesãos modificando a matéria, mas a eles servem para que recuperem sua natureza original, viva. Citando Octavio Paz, “servo da linguagem, seja ela qual for, o artista a transcende”.

É outra forma para a mesma substância de Caetano, e pode ser questão de tempo até que esse modo de fazer fossilize no armário prático das referências. Todavia, enquanto o foco for no processo, o que se ergue é mutante e vivo, é incerto e indeciso, prenhe de sentido.

Onde é necessário uma nova obra por mês, focar nesta enquanto processo parece ser, sempre, digno de escuta.


TEMPOS ABSURDOS EM BANQUETE DE MÁRCIO BULK E CADU TENÓRIO

foto: daryan dornelles


Agora percebo, então, que a esperança não pode ser eludida para sempre e que
pode assaltar os mesmos que se achavam livres dela. 
(CAMUS, Albert. A criação sem amanhã. O Mito de Sísifo)

Em 2013, o Brasil conseguiu se tornar um lugar mais esquisito do que sempre foi: os protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro transmutavam-se em algo que a teoria não dava conta. Diferentemente de Hardt e Negri, pensava-se em pauta, em discurso, em enunciado e, quando menos se percebeu, o choque com o Estado e a revolta com a “mídia golpista” caminhava para um apaziguamento com muito orgulho, com muito amor. O ano de 2013 também é o ano do lançamento de E Volto Pra Curtir, disco tributo a Jards Macalé.

Capitaneado pelo artista plástico de formação, jornalista e letrista nascido em Nova Iguaçu, Márcio Bulk, o disco era uma homenagem ao maldito e a sua atuação pelas bordas da MPB. Macalé havia se tornado um tema recorrente à contemporaneidade viva e dialeticamente desperta: recuperou-se sua obra e sua figura, deslocando-o do armazém de mercadorias culturais, onde se costuma buscar receitas abstratas. A análise crítica do presente e a possibilidade de uma apropriação produtiva da herança do passado tomavam forma no documentário Jards (2012), de Eryk Rocha, e na reprensagem, em 2013, do disco compacto Só Morto (1969-1970), o primeiro da carreira do compositor. Sim, Walter Benjamin descarado justificando o Macalé que balbuciou sobre o presente lá do passado.


Bulk ouviu o compacto e, como costuma acontecer com todo mundo que tem contato com este disco, apaixonou-se por “Soluços”. O contato, por conta de E Volto Pra Curtir, com músicos da cena experimental do Rio de Janeiro, como Marcos Campello e Bruno Cosentino (este mais “poroso” à canção que o primeiro) acabou providenciando o encontro com Cadu Tenório, músico crescido na zona norte do Rio, beirando a linha do trem, onde vive até hoje. Juntos, realizaram o EP Soluços com a participação de Alice Caymmi.


“Eu chapei! Achei aquilo demais. Não que seja uma fórmula, mas saca quando você vê algo que é a sua cara? Foi isso que eu achei. É isso! Isso é meu!” — comenta Bulk sobre o trabalho de Tenório, reconstruindo a sonoridade da canção a partir de uma gravação voz (Alice Caymmi) e guitarra (Lucas Vasconcellos), esta completamente extirpada do resultado final. Desenhava-se, nesta obra, neste processo, o modus operandi de Banquete (2014).


Composto a partir de letras que Bulk recuperou e remixou de um blog que mantinha nos anos 90, Banquete é um disco composto de 4 faixas: “Café Expresso”, “Estela”, “Electric Fish” e “Em Transe”. As letras foram enviadas a Bruno Cosentino, Rafael Rocha e César Lacerda, que providenciaram a primeira encarnação das canções, arranjadas ao violão para as vozes de Michele Leal, Alice Caymmi, Livia Nestróvski e Letícia Novaes, que não participou do disco, sendo substituída pela voz de César Lacerda em “Electric Fish” (curiosamente, nenhuma mulher se dispôs a cantar uma canção que versa sobre sexo oral).


Voz e violão, formato clássico de canção, aquela mesma que disseram ter acabado, dez anos antes da produção deste álbum.


Antes de falar da implosão deste formato no processamento de cada fonograma, é interessante olhar para o disco. A capa é uma natureza morta, do séc. XVII, de Jacques Linard. Ao enviar as letras que virariam canções, Bulk enviou também a capa do disco para os músicos. A tela é feita de corais e conchas dispostas sobre um fundo preto — o fundo do oceano — e é impossível não associar esta imagem ao trabalho de Tenório no arranjo das canções.


O mar está presente em "Estela”; o peixe, em “Electric Fish”; a comida, em “Café Expresso”; e “Em Transe”, um banquete oceânico. Quando da construção das letras, Bulk lia O Banquete, de Platão, e Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Para remixar as letras de 20 anos antes, a leitura de ambos foi retomada. Quase o nome do disco virou Fragmentos..., mas seria óbvio demais. Banquete ganhou a parada.


E, como Aristófanes pontua no diálogo platônico, o disco trata do complexo caminho — e dos desdobramentos disso — até a outra metade, aquela que faz homens e mulheres correrem esbaforidos, em pânico, no desejo de voltarem a ser inteiros, uma vez divididos pela sabedoria de Zeus. O discurso é amoroso, quase perverso; a forma, primeira, é do samba-canção.


A ordem das canções era outra e contavam uma história contemporânea: um encontro casual, o enlace, a despedida e a avaliação. Uma vez alterada por conta de dinâmicas e da necessidade de conceber um álbum mais coeso na sonoridade que no sentido, produzem outro enunciado, mais focado nas realizações a partir de um passado cristalizado/consagrado — a forma samba-canção, apontando para outras possibilidades de escuta e produção da canção: a corporificação da letra na performance não está inteira no primeiro plano, é tensionada pela mancha sonora que ocupa o lugar consolidado do violão/harmonia na forma canção.


“A canção existe e sabemos que ela é de suma importância junto à sua letra. No Banquete também o é, muito. Porém, rolou o cuidado de que a voz pudesse descer do palanque e, entre aspas, disputasse por vezes com o peso musical, com a emoção e o peso do arranjo, como numa relação de simbiose. Uma tentativa de diálogo com menos formalidade” — explica Tenório sobre a concepção dos arranjos e da sonoridade que perpassa o disco.


“Café Expresso” abre o disco na interpretação de Michele Leal. De início, um ruído e um violão processado até se parecer com um piano, dão pistas do que está por vir. Uma música sem refrão, com algo que se aproxima de parte A e B, porém, com um trecho de spoken word ao final, submerso entre ruídos de fita e cordas tocadas ao contrário. Anuncia-se aí a diferença de escuta: dificilmente irá se entender toda a letra na primeira escuta pois, de fato, existe uma disputa com o arranjo pelo lugar de atenção do ouvinte.


A tecnologia utilizada para tensionar os limites da linguagem: esta é a tese que interessa em Banquete. Este disco não seria possível sem um olhar para o passado que tensiona ao invés de explicar o presente; tampouco seria realizado sem a invenção do transistor, da fita, do processamento digital do som, da contínua evolução da tecnologia.


Bulk e Tenório foram muito felizes em propor outro lugar para a canção. Um lugar que parte do samba-canção, mas que o implode no som e na letra (É pela voz que eu desisto/Não preciso levantar/Enamoro a derrota/vou ao fundo/abraçando o desafino em um samba-canção manco — em "Em Transe"); um lugar coletivo e desmaterializado, parecido com a forma como nos relacionamos hoje, e é sintomático que o disco não tenha ganhado espaço na mídia impressa, chegando até nós via post no Facebook.


A música de Macalé já tinha cantado a bola, partindo da borda, desafinando o coro dos contentes, apontando que as mudanças estão ocorrendo e, talvez, o desejo de ver o mundo através de um filtro, de sobrepor um sistema racional a sua aparente aleatoriedade, seja o limitador da canção. Vivemos tempos absurdos — sempre vive(re)mos — e, retomando o Camus da citação que abre o texto, “ [...] todo pensamento que renuncia à unidade exalta a diversidade. E a diversidade é o lugar da arte. O único pensamento que liberta o espírito é o que o deixa sozinho, certo de seus limites e do seu fim próximo[...] Por isso, peço à criação absurda o mesmo que exigia do pensamento: revolta, liberdade e diversidade. Depois ela manifestará sua profunda inutilidade [...]”.


Banquete trata-se de uma obra sem esperança de organizar as coisas, calcada mais na disputa do que no enlace de letra e música. Este, nos parece, é um caminho interessante para a canção, uma apropriação produtiva da herança do passado. Ser diversa, revolta e livre para, ao final, não importar, pois está ali enquanto tensão, sem moral, sem princípio organizador uma vez que não há o que organize a vida e a linguagem é espelho desse universo caótico, correndo atrás de algo impossível de alcançar.



Raul Lorenzeti é editor web do Selo Sesc. A resenha foi escrita originalmente para a conclusão da disciplina Canção Popular e Cultura, ministrada por Cacá Machado, no curso de pós-graduação sobre canção popular brasileira, da Faculdade Santa Marcelina.

BANQUETE




| BANQUETE | CADU TENÓRIO + MÁRCIO BULK |
Alice Caymmi | Bruno Cosentino | César Lacerda | Lívia Nestrovski | Michele Leal | Rafael Rocha


1. “Café expresso”
César Lacerda/Márcio Bulk
Voz: Michele Leal
Violão: César Lacerda
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

2. “Estela”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Voz: Alice Caymmi e Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

3. “Electric fish”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Versão para o inglês: Sylvio Fraga Neto
Voz: Cesar Lacerda
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

4. “Em transe”
Rafael Rocha/Márcio Bulk
Voz: Lívia Nestrovski
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

Produzido por Cadu Tenório e Márcio Bulk
Arranjos: Cadu Tenório
Gravado nos estúdios 503, Audio Rebel, Marini e Clemente II
Mixado por Cadu Tenório e Emygdio Costa
Masterizado por Emygdio Costa
Projeto gráfico: Márcio Bulk e Rodrigo Sommer
Capa: “Nature morte aux coquillages et au corail”, Jacques Linard


Banquete, o samba-canção manco de Cadu Tenório e Márcio Bulk
Marcos Lacerda

A canção é uma linguagem artística generosa, múltipla e com uma densidade presente tanto em suas formas harmônico-melódicas mais complexas, quanto nos mais simples samba-canções e boleros. Quem realmente a conhece sabe da sua capacidade de gerar encontros e atritos entre as mais diversas linguagens, inclusive em experimentos sonoros radicais, como vem fazendo um segmento expressivo da canção brasileira contemporânea. Esta desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um diálogo forte com a música “experimental” ou “de invenção”, algo que podemos constatar de forma clara em Banquete, o mais novo projeto de Cadu Tenório e Márcio Bulk.

Integrante da chamada cena experimental carioca, o músico e produtor Cadu Tenório é conhecido por encabeçar diversos projetos musicais, dentre eles, Sobre a Máquina, VICTIM! e Ceticências. Em quatro anos de carreira, esteve envolvido na produção e lançou mais de 20 discos. Nesse mesmo período, através do blog Banda Desenhada, o pesquisador musical Márcio Bulk dirigiu e lançou o álbum E volto para curtir (2013), no qual nomes da nova geração regravaram o primeiro disco de Jards Macalé (homônimo, 1972). No final de 2013, lançou o single Soluços (Jards Macalé), sua primeira parceria com Cadu Tenório. Agora, com o EP Banquete, Bulk exibe pela primeira vez sua veia poética. Com influência do samba-canção e das obras de Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, suas letras foram musicadas e interpretadas por alguns dos artistas mais relevantes da atual cena carioca: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha. As canções, inicialmente gravadas com acompanhamento de violão, foram desconstruídas e recriadas por Tenório através de processos eletroacústicos que dialogam de forma direta com as letras e com a interpretação dos cantores, remetendo, por vezes, aos trabalhos inventivos de artistas como Scott Walker, Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono e Björk.

Dessa forma, podemos dizer que Banquete é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada.

A primeira faixa, “Café expresso” (César Lacerda/Márcio Bulk), é interpretada por Michele Leal. A canção se inicia ao som de um violão, como se saído de uma fita antiga, interrompido bruscamente pelo ruído de uma máquina ou veículo acelerando. Esta instabilidade entre a forma sonora inteligível e a aceleração abrupta permeia todo o disco e é o “recanto escuro” no qual as formas poético-musicais das canções vão se fissurando e se esgarçando. Nesse primeiro caso, temos a experiência da frustração diante da perda, na voz do outro cuja presença ainda se sente (“a sua voz ainda/ecoa pelo meu dorso”) e no corpo, que se perde e se anula, em meio a tantos suportes materiais (cama, remédios, escadas, aço, vidros). Michele consegue, de forma bastante criativa, enriquecer essa trama, deixando de lado, ao final da canção, o seu tom dramático e, tomada de ironia, se aventurar em um spoken word. A canção seguinte, “Estela” (Márcio Bulk/Bruno Cosentino), trata-se de uma bela e sensível homenagem à cantora Stella Maris (1922–2008), esposa de Dorival Caymmi (1914–2008). Interpretada por Bruno Cosentino e Alice Caymmi, neta de Stella, a canção é um apelo desolador diante do medo da separação e da morte. A paisagem oceânica (recifes, pedras, embarcações, horizontes) torna-se símbolo de incomunicabilidade, personificada como testemunha ocular de todo o drama. A forma sonora do álbum, emaranhada de melancolia, só é levemente superada na transgressão do sexo e do gozo — de raras figurações ou mediações simbólicas — como se vê na canção “Eletric fish” (Bruno Cosentino/Márcio Bulk), interpretada por César Lacerda. O cantor dá vida a um personagem cambaleante e bêbado, o que é a deixa para que Tenório possa brincar com a métrica da canção, repleta de mudanças drásticas e vai e vens. Por fim, temos “Em transe” (Rafael Rocha/Márcio Bulk), interpretada de forma impressionante por Lívia Nestrovski. A música amalgama e dá cabo dos principais temas de Banquete: a solidão, a perversidade do discurso amoroso, o ruído e o seu incômodo, impresso por Tenório nas camadas e mais camadas sonoras que ele utiliza ao trabalhar a voz de Lívia. Esta, na busca por sua inteireza, produz uma melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção (“um samba-canção manco”).

Com Banquete, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.


Marcos Lacerda é sociólogo, crítico, pesquisador da história da canção e editor da revista Polivox.

quedas e curvas

fotos: daryan dornelles
Em 2013, o Banda Desenhada realizou a primeira de uma série de entrevistas onde jornalistas de diversas capitais do país analisam a cena local. Na ocasião, coube a Marcus Preto a tarefa de relatar a evolução e a ascensão da cena independente paulistana. Agora, colocado em situação mais espinhosa, Leonardo Lichote analisa o cenário carioca, sua crise e desdobramentos, relacionando-os com a atual e conturbada conjuntura política do país.
Atuando desde 2001 como repórter e crítico musical do jornal O Globo, Lichote colaborou com o livro de memórias de Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (Objetiva), sendo responsável por assinar o seu texto final. Também é autor dos textos críticos que acompanham a caixa de Chico Buarque, “De Todas as Maneiras” (Universal), que contém os 22 primeiros discos do artista. Comentarista do programa Faro MPB (rádio MPB FM) e jurado dos dois principais prêmios de música do país – Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira –, Lichote também é uma das figuras mais presentes e incentivadoras do cenário independente carioca.
A entrevista que se segue, desenvolveu-se ao longo de alguns meses, com algumas interrupções e retomadas, em meio a longas conversas e uma troca constante de e-mails.

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rompe & rasga & come

baile primitivo  | primeira fileira, da esquerda para direita:  michele leal, diana daou, bella meirelles, ava rocha e gabriela campos | segunda fileira da esquerda para direita: bruno cosentino, marcos lacerda e negro leo | fotos: daryan dornelles



Manifesto Baile Primitivo

1. Com livros, com fuzil e sem Coca-Cola: por que não?

O carnaval é a explicitação de uma sociedade desigual, violenta, desesperada, rebelde e potencialmente revolucionária. O avesso do pacto nacional de conciliação de classes. Diabinhos armados com artefatos luminosos, zé pereiras de faca amolada, índios com metralhadoras, capoeiras e cucumbis comandando tanques de guerra ao som de saraivadas de balas, em meio às troças dos mascarados. Você me conhece?

Baile primitivo é entrudo, vilas místicas dos caboclos do contestado, canhões do almirante negro, movimentos anarquistas, conferência de Bandung, movimento dos países não-alinhados, luta armada guerrilheira revolucionária, os três impérios de Joaquim de Fiori, Agostinho da Silva, “propaganda pelo fato”, Darcy Ribeiro, Prata Preta, neopaganismos, levante zapatista, bate-bola, black bloc, marcha das vadias e pinkbloc. 

Sobrevivendo no inferno.

As grandes sociedades (Tenentes do Diabo, Democráticos, Os Fenianos, etc.) eram os pacificadores do carnaval carioca do século XIX. Eram os amenizadores, amortecedores, controladores da força popular do carnaval da cisão, da fratura social, da fissura, o carnaval do conflito social, do antagonismo, da luta de classes, sem conciliação. O carnaval primitivo. Vândalo é o Estado e o Mercado.

Filhas e filhos da ira no delírio antitotalitário da cola de sapateiro metendo o grelo na geopolítica da mulher maravilha. Jacarandá, que flor seria essa? 

Podem surgir dos bairros, das ruas, dos conjuntos residenciais, das favelas, mocambos, malocas e alagados e do Conhecimento e conversação do Santo Anjo da Guarda. 

Cavalos, vacas, ovelhas e insetos. Todos mudarão. A humanidade ainda está na sua infância. Sob o silêncio das máquinas, carne verdes e vacina e elementos belicosos da classe temerosa. O vanguardista está na ponta de qual corrida? Uma zona de furta-cor de onde emerge o supereu humorístico: pai, afasta de mim este riso de sangue

Demarcação de terras indígenas. Seringueiros, ribeirinhos, índios, operários e a lista de morte dos latifundiários do capitalismo 2.0. Poemas do cárcere de Ho Chi Min. Grupos de crime organizado (Coca-Cola, McDonald’s, FIFA) colonizando países emergentes. Não vai ter Copa! Meu cu é laico! Todo poder para o povo! Bancos públicos e privados quebram vidas. Anarquismos, comunismos e milenarismos. Pálidos economistas pedem calma...

2. Macaco é outro.

O ecletismo das ideias liberais escravocratas da conciliação. A transição classista da anistia para os orangotangos do conservadorismo militarizado. O obscurantismo do realismo capitalista na redemocratização.O poder moderador do imperador da canção popular (guardado por Deus, contando vil metal) entre os gaviões e os passarinhos de São Francisco de Assis.
Protegidas pela Guarda Nacional e pelo comitê policial da cultura letrada e do bom gosto, caras rosadas, nutridas, branquíssimas ou douradas pelo sol, se pintam de verde e amarelo e manifestam sua indignação contra a falta de cultura do público da nova vedete da música popular brasileira.

O pêndulo fica em cima do muro, entre a direita e a esquerda, e sempre retorna ao centro. Os liberais vibram, mas quando o pêndulo se mantém no centro, o relógio para. 

Nora Ney. Jorge Goulart. Conjunto Farroupilha. Maria Helena Raposo. Celia de La Serna. Carlos Marighella. Oscar Niemeyer. Lúcio Costa. Cortina de Ferro. Janelas Abertas. Antes do Ornitorrinco. 

Não se trata de realismo socialista, realismo capitalista, nacionalismo fantasioso, exotismo ilegível, “arte pela arte” burguesa. Os intelectuais e artistas juntam livros e rifles e, como últimos soldados da guerra-fria, começam a ouvir o diabinho cubano desafiador.

Rádio e TV Martí informa: indígenas, gays, mulheres, negros e brancos acabam de se filiar ao Alpha 66. Para o delírio totalitário dos estudos culturais. Enquanto isso, sujeitos monetários sem dinheiro transitam pela cidade e assustam turistas em transe e jovens adultos de classe média, que ainda não saíram do jardim da infância. 

Mas a Rede Vespa está de campana...

Arrastão na praia de Ipanema. Rolezinho nos shoppings de São Paulo. Coquetéis molotov no consulado dos EUA e no Clube Militar. Pedras quebrando vidraças de agências bancárias. Carros da PM queimados por militantes anarquistas. Ocupação de prédios para moradia popular. Ocupação de terras do latifúndio: baile primitivo.

Contra a despolitização com interesse político liberal mercadológico e classista hierárquico. Contra os novos conformistas, as variações contemporâneas da patrulha odara, as aves de rapina travestidas de cordeirinhos “amigos do povo”. Abaixo intelectuais tecnocratas dublês de banqueiros. Abaixo aristocracias de burocratas do Estado. Abaixo relativismos culturais pós-tudo e seus pares reacionários: os elitistas esnobes acríticos e suas reações de pavor diante do protagonismo popular. Basta de relativismo liberal mascarado de barroquismos tropicais, “modos de ser do Brasil” e figuras míticas sem história. A estátua de Glauco enfim mostra as suas feições aterradoras. O rei está nu e não é bonito. 

3. O que resta da ditadura? Os patetas adoram o discurso do poder.

Filósofos gays liberais, musas do topless, artistas rebeldes de classe média, estudantes barbudos de esquerda universitária, burguesia folclórica Rio-Paris, profissionais liberais e potenciais integrantes do Big Brother se divertem na praia de Ipanema, enquanto mulheres e homens negros pobres são vigiados ostensivamente pelas forças repressoras do mercado livre e do Estado democrático de direito.

Ao invés do equilíbrio de antagonismos (tão ao gosto dos nossos intelectuais malemolentes da “democracia racial” e da conciliação de classe ) a explicitação das contradições e o chamado ao confronto direto e à luta: baile primitivo.

O líder camponês. O líder sindical. A máscara negra da fome na melancolia dos trópicos. “Está vendo o que é o artista? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado, em festa permanente, rebolando no caos da miséria globalizada, enquanto o capitalismo ri de si mesmo e se faz paródia, alegria, alegoria”.

Bárbaros mandirobas com pés espalhados entoam a copla ao som do mestre de pancadaria e se juntam ao Rompe e Rasga e aos Destemidos da Chama, assustando os amenos carnavais do Resedá.

Quando o Brasil mítico, pré e pós-ocidente, encontra a história da luta de classes. Capoeiras, caboclos, milenaristas, indígenas e a plebe proletarizada e não proletarizada. O espírito de Deus se agita e no mar revolto a jangada volta cheia. É a Hora! É a Hora! 

Exército anarquista de libertação. Alguém me disse, e o peixe amarelo eu vi navegar. Eles eram muito cavalos. A garoa rasga a carne. Quando os barquinhos da Bossa Nova integrarem a esquadra revolucionária. Ele disse a ela e escancarou os dentes, esperando a morte chegar.

Entre as duas torres, um clarão. Imagens e fantasmagorias. Subflor e mais flor. Dinamitar a ilha Brasil, pairando, porque não podes. O futuro só pode vir na forma da monstruosidade. O tigre agachado e o dragão enroscado estão mais majestosos do que nas eras passadas, enquanto a lâmina aguda ceifa as raízes da propriedade privada. 

Justiçamentos. Tribunal do povo. Justiça popular. Nos meus retiros espirituais. Cortar a cabeça do capitalismo. Censurar ninguém se atreve. Balança rede, balança. 

Uma bandeira negra e vermelha tremula nas ruas do Brasil. Da ditadura democrática do povo. O terror revolucionário. A grande onda da liberdade de amar. Eu não nasci pra morrer.


Marcos Lacerda

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maciunas vol.1 a.k.a. sic, sic, sic

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a frase, o conceito, o enredo, o verso


fotos: daryan dornelles




Desde o século passado, a música popular brasileira vem desenvolvendo um intenso diálogo com a literatura nacional. Poetas como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira tiveram alguns de seus trabalhos adaptados por importantes nomes da MPB e tornou-se notória a parceria do escritor Jorge Amado com o compositor e cantor Dorival Caymmi. Entretanto, foi somente no final dos anos 50, com o aparecimento da bossa nova, que esta conversação se intensificou. O poeta Vinicius de Moraes, unindo-se a Tom Jobim, foi responsável por estreitar esses elos, produzindo uma obra que ainda hoje é referência para boa parte dos compositores do país.
Tomando para si o espírito modernizador bossanovista, o tropicalismo trouxe para o seu ideário a antropofagia de Oswald de Andrade e aproximou-se dos poetas concretos. Não à toa, também estiveram presentes direta ou indiretamente no movimento o escritor e cineasta José Agripino de Paula e os poetas Torquato Neto, Capinan e Waly Salomão. Caetano Veloso - um dos principais articuladores do tropicalismo - tornou-se parceiro do poeta e ensaísta Ferreira Gullar, com quem compôs “Onde Andarás?”. Mais tarde, o músico baiano veio a musicar “Circuladô de Fulô”, poema de Haroldo de Campos, e o clássico "Navio Negreiro" de Castro Alves. Ferreira Gullar ainda teve dois de seus poemas musicados por Fagner. Este se dedicou também a adaptar alguns trabalhos de Cecília Meirelles, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Já Chico Buarque, que em 1966 lançou em disco uma adaptação para “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, voltou-se mais à frente à carreira de escritor, publicando em 1991 “Estorvo”, seu primeiro romance. Fazendo o caminho inverso, antes de tornar-se um músico cultuado, Jorge Mautner se enveredou pela literatura, ganhando o Prêmio Jabuti pelo livro “Deus da Chuva e da Morte” (1962). Ainda nos anos 60, o poeta Cacaso passou a desenvolver uma sólida carreira de letrista, colaborando com inúmeros artistas, como Edu Lobo, Tom Jobim, Sueli Costa, Joyce, Toninho Horta, Francis Hime e João Donato. Mais à frente, oriundos da vanguarda paulista, os músicos e ensaístas Luiz Tatit e José Miguel Wisnik aprofundaram as ligações entre a música popular e a literatura ao publicarem diversos textos a respeito desse tema. Até mesmo o BRock, com o seu forte acento pop, não deixou de dar continuidade a esse diálogo: Cazuza e Frejat musicaram trecho de “Água Viva”, de Clarice Lispector; os poetas Chacal e Bernardo Vilhena colaboraram com diversos artistas e bandas, como Blitz, Barão Vermelho, Ritchie, Lulu Santos e Lobão; Renato Russo adaptou o Soneto de Camões e da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios para criar seu “Monte Castelo”; Paula Toller e George Israel inspiraram-se em poemas de Murilo Mendes e Olavo Bilac para compor, respectivamente, “Tomate” e “Ouvir Estrelas”. Ainda nessa época, o cantor e compositor Arnaldo Antunes passou a se dedicar à literatura, com forte influência da poesia concreta. Entretanto, talvez o exemplo mais pertinente desse período seja a frutífera parceria de Marina Lima com o seu irmão, o poeta e filósofo Antonio Cícero. Este veio posteriormente a contribuir com Adriana Calcanhotto, uma das artistas que mais vem se dedicando ao entrecruzamento de literatura e música popular.
Nos anos 2000, sob a alcunha de nova MPB ou neoMPB, viu-se uma nova geração dar continuidade a esse legado: Iara Rennó musicou “Macunaíma”, de Mário de Andrade; o poeta Omar Salomão integrou a banda Vulgo Qinho & Os Cara; Tulipa Ruiz prestou sua homenagem a Manoel de Barros ao compor “A Ordem das Árvores Não Altera o Passarinho”; o poeta arrudA incursionou pela música em projetos com Alzira E e Peri Pane; em “Bogotá”, Criolo fez referência a “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira; Botika, da banda Os Outros, e Estrela Leminski construíram suas carreiras onde música e literatura se tornaram indissociáveis; Alexandre Kumpinski, da banda gaúcha Apanhador Só, em parceria com o poeta Marcelo Noah, compôs “Peixeiro”; Romulo Fróes desenvolveu boa parte de seu repertório a partir de sua parceria com o artista plástico e escritor Nuno Ramos; e, entre outros tantos exemplos, está o grupo Isadora, que, ao lançar seu primeiro disco, “A Eletrônica e Musical Figuração das Coisas” (2012), trouxe para o seu universo a poética de Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Britto e do colombiano Carlos Patiño Milán.
Formado em 2005, Isadora é composto atualmente por Bruno Cosentino (voz, violão e guitarra), Andrés Patiño (violão e guitarra), Alexandre Jannuzzi (baixo), Gabriel Carneiro (bateria) e Pedro Tié (piano e eletrônica). Tendo passado pelo programa Experimente, do canal Multishow, e se apresentado no projeto Levada Oi Futuro, o grupo é um dos nomes da nova cena musical carioca. Tendo conhecimento disso, o Banda Desenhada convidou para esta entrevista seu vocalista e principal compositor, Bruno Cosentino. Este, que atualmente está envolvido na produção de seu disco solo, além de um projeto em parceria com o cantor Arthur Nogueira, falou de sua experiência na cena independente, suas influências e a forte ligação com a literatura. A entrevista, a princípio realizada em um café no bairro da Glória (RJ), foi posteriormente desenvolvida em e-mails e bate-papos em redes sociais.

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