ultrapássara

fotos: daryan dornelles
Sim, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia sempre foram consideradas referências fundamentais para grande parte das cantoras deste país. Entretanto, em meados de 2000, com o desenvolvimento da cena independente paulistana, outro nome de igual importância começou a ganhar destaque: Ná Ozzetti.
A cantora iniciou sua carreira no final dos anos 70 ao ingressar no grupo Rumo, um dos principais representantes da vanguarda paulista. Com ele, Ná gravou seis discos, recentemente relançados em uma caixa, em edição especial. Com o seu primeiro disco solo “Ná Ozzetti” (Continental), de 1988, ganhou os prêmios Sharp e Lei Sarney, na categoria "Cantora Revelação". Seu segundo álbum, “Ná” (1994, Núcleo Contemporâneo), recebeu dois prêmios Sharp, na categoria Pop/Rock, “Melhor Disco” e “Melhor Arranjador” (Dante Ozzetti). Dois anos depois, a convite da gravadora Dabliú, lançou "Love Lee Rita", homenageando a cantora e compositora Rita Lee. Em 1999, pela Ná Records, lançou o elogiadíssimo “Estopim”, reforçando o elo com seus parceiros mais constantes: Luiz Tatit, seu irmão Dante Ozzetti, José Miguel Wisnik e Itamar Assumpção. No ano seguinte, participou do Festival da Música Brasileira, promovido pela TV Globo, ganhando o prêmio de melhor intérprete. Por conta disto, gravou no ano seguinte, pela Som Livre, o  disco “Show”.  Em 2005, em parceria com o pianista André Mehmari, lançou “Piano e Voz” (MDC), gravando posteriormente uma de suas apresentações para o DVD homônimo. Em “Balangandãs” (Ná Records/MCD), lançado em 2009, a cantora revisitou alguns clássicos do repertório de Carmen Miranda, ganhando com ele o 5º Prêmio Bravo! Prime de Cultura. Para comemorar seus 30 anos de carreira, Ná lançou, em 2011, seu disco mais autoral, “Meu Quintal”. Deste álbum, sua parceria com Luiz Tatit, “Equilíbrio”, foi indicada na categoria “Melhor Canção Brasileira” no Latin Grammy Awards. Este ano, após iniciar um produtivo diálogo com alguns nomes da nova cena paulistana, Ná lançou seu nono álbum, “Embalar” (Ná Records/Circus), contando com diversos colaboradores e parceiros, entre eles, Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Tulipa Ruiz.
Influência perceptível no canto de Tulipa Ruiz, Andreia Dias, Paula Mirhan (Filarmônica de Pasárgada), Iara Rennó, Rhaissa Bittar, Mariana Degani (ex-Loungetude46) e outras cantoras da atual cena paulistana, Ná Ozzetti foi convidada para esta entrevista pelo Banda Desenhada. Após a sessão de fotos, que se realizou em uma tarde chuvosa na praia do Leme (RJ), fomos com a cantora a um bistrô, onde conversamos a respeito de sua carreira, influências, vanguarda paulista e a nova cena independente.

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quem sabe, esta cidade me significa

fotos: daryan dornelles
Curitiba já não é mais a mesma. Ou melhor, Curitiba já não é mais a mesma há pelo menos uns dois anos. Nessa época, o clipe viral "Oração" d'A Banda Mais Bonita da Cidade chamou a atenção de todo o país, fazendo com que boa parte das mídias do eixo Rio-São Paulo voltasse sua atenção para a capital paranaense. E o que se encontrou foi algo bem diferente do que se imaginava: a cena curtibana não se resumia a meia dúzia de gatos pingados, ao contrário, tratava-se de dezenas de artistas que, tendo referências das mais diversas, formavam um dos cenários mais complexos da música independente brasileira. Surgidos no decorrer dos últimos dez anos, nomes como A Banda Mais Bonita da Cidade, Karol Conka, felixbravo, Banda Gentileza, Leo Fressato, Bonde do Rolê, Música de Ruiz, Boss in Drama, Ana Larousse, AUDAC, Esperanza, Janaina Fellini, Copacabana Clube, Luiz Felipe Leprevost, Tangerine and Elephants, Crocodilla, Trem Fantasma, Lemoskine, Simonami, Plexo Solar, Cabes MC, Uh La La!, Colorphonic, Savave, Confraria da Costa, Naked Girls & Aeroplanes, Cinema Mudo e Subburbia são apenas uma amostra da diversidade da produção local.
Integrando anteriormente a banda Casca de Nós, com quem lançou o disco “Tudo Tem Recheio”, o casal Téo Ruiz e Estrela Leminski criou o projeto Música de Ruiz em 2004. Dois anos depois, lançou seu primeiro disco homônimo, juntamente com o livro “Contra-Indústria”, onde abordou temas relacionados a produção musical brasileira. Filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz, Estrela também dedicou-se à literatura, participando de antologias poéticas e publicando dois livros: “Cupido, Cuspido, Escarrado” e “Poesia é Não”. Em 2011, a dupla lançou o álbum "São Sons”, contando com diversas parceiras e participações especiais, entre elas, Ceumar, Kléber Albuquerque, Ná Ozzetti, Anelis Assumpção, Carlos Careqa, Janaína Fellini e André Abujamra. Estrela e Téo se apresentaram em vários festivais e projetos pelo país, como a Feira Internacional de Música de Fortaleza, Empório da Música de Goiânia, Festival de Inverno de Garanhuns e Itaú Cultural, além do Festival Bossanova, na Argentina, e na Fiesta de la Música e no Festival de las Artes de Castilla y León, na Espanha. Após o lançamento, em 2013, do DVD “São Sons” e do EP virtual “São Sons Ao Vivo”, a dupla passou a se dedicar à produção de um álbum duplo com músicas compostas por Paulo Leminski. O disco conta, até o momento, com as participações de Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, André Abujamra, Anelis Assumpção, entre outros.
Em julho deste ano, Estrela e Téo vieram ao Rio se apresentar no festival Levada Oi Futuro. Aproveitamos a oportunidade e o convidamos para uma entrevista ao Banda Desenhada. A dupla, foi ao estúdio Fotonauta, em Santa Teresa, e conversou conosco a respeito de sua carreira, cena curitibana, vanguarda paulista e, claro, Paulo Liminski .

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venha até são paulo ver o que é bom pra tosse

marcus preto | foto: vitor jorge
Há alguns anos, São Paulo já vinha dando sinais de que algo importante estava por acontecer. Bastava dar uma passada pelo Studio SP, na Vila Madalena, e observar a movimentação. Ou então notar alguns nomes que começavam a pipocar nos principais jornais da cidade: Céu, Tiê, Romulo Fróes, Curumin, Thiago Pethit... Todos artistas independentes, com forte trabalho autoral e tendo como QG a capital paulistana. Nessa mesma época, também era possível assistir a um acontecimento importante: músicos de diversos estados do país – com o predomínio dos pernambucanos e cearenses – passaram a circular pela cidade, fomentando ainda mais a cena local. Toda essa agitação serviu para arrumar o terreno para que, em 2010, três novos artistas lançassem seus primeiros e festejados trabalhos: Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci e Karina Buhr (ex-Comadre Fulozinha) foram a prova definitiva do quão estimulante e pertinente era a música que vinha sendo feita na cidade. Essa efervescência atingiu seu auge no ano seguinte, quando Criolo e seu álbum “Nó Na Orelha” alcançaram uma popularidade inimaginável para o nicho independente.
Encontrando-se bem no olho do furacão, o jornalista Marcus Preto foi um dos responsáveis pela consolidação dessa cena. Após passar por revistas como Rolling Stone, Bravo! e Época, trabalhou por quatro anos como crítico e repórter musical da Folha de S.Paulo, dando destaque a vários artistas como Rodrigo Campos, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Andreia Dias e Romulo Fróes. Paralelamente, foi diretor musical do site Música de Bolso, projeto que, ao lado do veterano TramaVirtual, serviu como guia para o que vinha acontecendo de novo no cenário musical brasileiro. Em 2013, após sua saída da Folha, realizou a curadoria do álbum “Coitadinha Bem Feito”, em que artistas da nova geração interpretaram canções de Ângela Ro Ro. Nesse mesmo ano, tornou-se apresentador do programa “Com a Boca no Mundo”, na Oi FM, e passou a comandar os projetos “Trampolim”, na Miranda (RJ), e “Grandes Artistas”, no Espaço Revista Cult (SP), entrevistando diversos nomes da MPB. Também atuou diretamente no EP “Tribunal do Feicebuqui”, de Tom Zé, com quem vem, há alguns anos, elaborando uma biografia.
Expandindo os limites de sua área de atuação, Marcus tornou-se figura ativa da cena musical paulistana e um de seus principais personagens. Sendo assim, o Banda Desenhada o convidou para uma entrevista, realizada através de uma troca constante de e-mails e bate-papos, onde o jornalista e produtor musical falou a respeito de sua carreira, projetos e, claro, da cena de São Paulo.

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cada lugar na sua coisa

fotos: daryan dornelles


Muito provavelmente, você já deve ter dançado ao som do tecnobrega de Gaby Amarantos ou Bonde do Eletro. Assim como é quase certo que tenha passado os olhos pelo YouTube e visto algum clipe de Karol Conka, Graveola e o Lixo Polifônico e Apanhador Só. Ou, no trabalho, tenha acessado alguma rádio virtual e ouvido uma música ou outra de Maglore, Leo Fressato ou Rabujah. Originários de diferentes cenas do país, estes músicos comprovam que a música brasileira vive um período de forte expansão e diversidade. Afinal, sem depender das engrenagens das grandes gravadoras e adotando um modus operandi bastante peculiar, estes artistas vêm conseguindo desenvolver suas carreiras, demonstrando capacidade empreendedora e interagindo com um público receptivo ao trabalho autoral e independente. Entretanto, este processo de democratização, além de trazer à tona cenas que, até bem pouco tempo, eram preteridas ou marginalizadas pelas mídias tradicionais, também atestou o forte caráter centralizador destas últimas ao evidenciar a superficialidade com que se debruçam sobre um material tão rico e repleto de especificidades. Exemplo claro disto é o desconforto gerado nas famosas listas de melhores do ano das revistas especializadas e nas grandes premiações da música brasileira, onde público, crítica e artistas vivem um diálogo atabalhoado que realça as deficiências de nossas políticas culturais e a vulnerabilidade das cenas emergentes frente ao atual mercado fonográfico.
Nascido em Cachoeiro de Itapemirim e oriundo da cena capixaba, o cantor e compositor Juliano Rabujah iniciou sua carreira em 2001, ao formar com colegas de faculdade, em Viçosa (MG), o grupo de samba-rock Tabacarana. A banda, que chegou a dividir palcos com Pedro Luís e A Parede, BNegão, Skank e Marcelinho da Lua, lançou, em 2011, o disco “Virei no Samba”. Neste mesmo ano, realizou uma turnê pela Europa, apresentando-se na França, Inglaterra, Irlanda e Espanha. Ainda em 2011, Rabujah lançou seu primeiro disco solo, “O Que Meu Samba Tem”, realizando uma série de shows em Vitória. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se apresentou em diversas casas, como o Studio RJ, La Esquina e Sala Baden Powell. Em 2013, em meio à produção de seu próximo álbum, Rabujah passou a integrar o Trova à Troá, trio formado por ele e pelos músicos Gustavo Macacko e Brunno Monteiro. Também voltou a flertar com o samba-rock, ao participar da banda Jaujau, ao lado dos cariocas Guido Sabença e Gabriel Menezes.
Interessados em saber a respeito dos diferentes cenários musicais do país, convidamos Rabujah para uma entrevista. O músico, que lançou esta semana o EP "Quarto e Sala", recebeu o Banda Desenhada em seu estúdio, no apartamento onde mora, na Tijuca, e nos falou, entre outros assuntos, de sua carreira, referências e a cena independente de Vitória.

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la banda usurpada v. 2 – bacurinha’s song

fotomontagem: márcio bulk
Então, que tal levarmos um papo sobre o pop rock dos anos 80? Ou melhor, os compositores do pop rock dos anos 80. Ou, sendo ainda mais específico: As letristas do pop rock dos anos 80. Algum espírito de porco poderá muito bem falar: “E teve alguma?!”. Poupe-me, ok? A primeira opção que vem à cabeça, claro, é Marina Lima. Mas é bom lembrar que, na época, era seu irmão e parceiro Antonio Cícero o grande responsável por suas letras. Bem, alguém, puxando pela memória poderá se lembrar de Dulce Quental, Virginie... mas tem certeza de que não está faltando uma outra menina nessa lista tão minguada? Pois bem, é sobre ela que eu quero falar: Paula Toller. E por favor, nada de torcer o nariz porque você é cool, hype, hipster, etc e tal e acha o som do Kid Abelha pop demais para seus ouvidinhos tão alternativos. A señorita acima citada, quer queira, quer não, foi a voz e o cérebro responsável por desenvolver o discurso feminino na música brasileira da época. E isso não é pouca coisa! Não mesmo! Ou você acha que era fácil uma garota dizer ao que veio em um cenário onde somente meninos ditavam as regras? Lembre-se de que Marisa Monte, Adriana Calcanhotto, Cássia Eller & cia. só foram aparecer um boooooom tempo depois.
Após a saída de Leoni, coube à Paula a responsabilidade pelas letras da banda. E que letras! Afinal, precisa ter, no mínimo, um pouco de culhão (ooops!) para escrever e cantar versos como: “Eu já nem me lembro bem/ Da primeira vez que eu dei” (“Agora Sei”). Estamos falando de sexo, meu bem, sexo! E isso, antes de Tati Quebra Barraco, Deise Tigrona e Valesca Popozuda virem com seu pussy power! Ou seja, Paula Toller já sinalizava em suas letras várias questões comportamentais de sua geração, em uma década pra lá de complicada em se tratando de relacionamentos e sexualidade – não se esqueçam do fantasma da AIDS e de que o brasileiro sempre foi chegado em uma misoginia básica. Paula, ao lado de Leoni, compôs uma das canções mais emblemáticas da época: Em “Como Eu Quero”, narra o embate de um casal, onde, de forma explícita e quase tirânica, a personagem impõe suas regras. Sem meio-termo, no cara a cara e pronto. Ainda ao lado de Leoni, escreveu e cantou a respeito de certas inseguranças do universo feminino: “A vida que me ensinaram/ Como uma vida normal/ Tinha trabalho, dinheiro,/ Família, filhos e tal/ Era tudo tão perfeito/ Se tudo fosse só isso/ Mas isso é menos do que tudo/ É menos do que preciso” (“Educação Sentimental II”) ou então em “Garotos”, quando sentencia “São sempre os mesmos sonhos/ De quantidade e tamanho”. Ao lado de Herbert Vianna, escreveu “Nada Por Mim”, onde a figura masculina fala para sua interlocutora: “Você me tem fácil demais/ Mas não parece capaz/ De cuidar do que possui/ (...)/ Me diz até o que vestir/ Com quem andar e aonde ir/ E não me pede pra voltar”. Ou seja, adivinhe quem está no controle dessa relação? Pois é, não é exatamente o XY... Continuando! Sozinha, Paula escreveu “Não é preciso ficar inseguro/ Não é possível concordar em tudo/ Somos amigos e isso é um bom motivo/ Prá gente ficar junto” (“Dizer Não é Dizer Sim”), “Não quero nada por gratidão/ Também nada pelo que me aconteceu/ Mesmo assim peço perdão/ Mesmo com razão” (“Eu Preciso”) e “Tudo o que eu desejo ver você já viveu/ Tudo o que eu quero ter um dia foi seu/ Não te surpreende o que tira o meu sono/ Não entendo o que te faz gostar do que eu sou” (“Mais Louco”). Manja DR? é tipo isso, na lata. E o que dizer de seu girl power “niuêive”? “Me deixa falar, me empresta um ouvido/ Me deixa falar, me presta atenção/ Se não me escutar, cuidado comigo/ Eu perco a razão/ Atiro tudo o que eu tenho na mão” (“Me Deixa Falar”)! Violenta, a menina. Também havia espaço para o lado punk da vida, como em “Paris, Paris” (“E o roxo no meu braço/ Já desapareceu/ Meu último vestígio seu”) e “Promessas de Ganhar” (“Vai pro céu, quem levou um tapa e deu a outra face?/ Vai pro céu, quem abriu os olhos e não viu a luz?”). E isso se pegarmos apenas a sua produção da década de 80, pois a moçoila até hoje continua escrevendo sobre esses temas, exacerbando ainda mais, a partir dos anos 90, a temática sexual, em canções como “Lolita” (“Tudo é Permitido”), “O Beijo” (“Iê Iê Iê”), a trilogia “Mil e uma Noites”, “Um Segundo a Mais” e “Por Uma Noite Inteira” (todas do álbum “Iê Iê Iê”), “Mãos Estranhas” (“Autolove”), “Derretendo Satélites” (“Paula Toller”, seu primeiro álbum solo), “Eutransoelatransa” (Pega Vida”) e “Poligamia” (“Pega Vida”).
Bem, depois de ter chegado até aqui e lido mais de uma lauda, só com muita má vontade você não perceberá a importância e influência, mesmo que indireta, do discurso de Paula Toller na canção popular e, sobretudo, nas gerações seguintes, onde surgiram diversas cantautoras, como Érika Martins, Pitty, Vanessa da Mata, Tiê, Nina Becker, Tulipa Ruiz, Bárbara Eugênia e Letícia Novaes (Letuce). Por essas e outras, por favor, pare de torcer esse nariz e se estrebuchar. Que coisa mais baixo astral! Pare de frescura, deixe de lado esse mimimi e blábláblá e saca só: Paula Toller é foda. Simples assim.


por márcio bulk


originalmente publicado na revista RODA #1.

todos os rumos

fotos: daryan dornelles


Todos já ouviram até a exaustão a respeito da crise que, há mais de uma década, assolou o mercado fonográfico. Entre discursos alarmistas e outros tantos pragmáticos, o que ficou claro é que, de fato, a época de ouro das grandes gravadoras havia chegado ao fim. Ao longo dos últimos anos, em meio ao encolhimento do mercado, foi bastante perceptível a atuação das majors para manter seu status: desde o enxugamento de seu casting, passando por uma feroz e ainda presente guerra contra a pirataria e a terceirização e reestruturação de suas funções. Vivendo um processo de reconfiguração, onde tanto a produção quanto a circulação e o consumo foram alterados, a indústria musical tradicional viu surgir novos modelos de negócios provenientes da ascensão de poderosas corporações de serviços online, que, por sua vez, possibilitaram o crescimento de um mercado independente até então bastante precário no país. Com modelos de negócios alternativos e a utilização de ferramentas digitais acessíveis – como as rádios online, podcasting, streaming e plataformas como MySpace, YouTube e Facebook – artistas independentes, pequenas gravadoras e outros agentes culturais ganharam visibilidade. Sem esperar pela antiga infraestrutura das majors e o lucro proveniente da venda de CDs, uma nova geração de artistas assumiu o controle da produção e distribuição de seus álbuns, passando a rentabilizar suas músicas através de shows e da sua utilização em publicidade, trilhas sonoras de filmes e games. Assim, paralelamente à parcial perda de força das grandes gravadoras, os editais de fomento à cultura adquiriram enorme importância juntamente com os financiamentos coletivos, o que colaborou para que produtores e assessorias de imprensa obtivessem um papel de destaque no cenário atual.
Mesmo que ainda seja possível questionar a real democratização dos meios de difusão de música no país, tornou-se evidente que apenas com as mudanças ocorridas nos últimos anos foi possível o surgimento e o êxito de nomes como Criolo, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e Cícero, bem como a consolidação de gravadoras de pequeno e médio porte, distribuidoras independentes, coletivos e sites alternativos especializados na divulgação desses artistas.
É sobre este e outros assuntos que conversamos com o cantor e compositor paranaense Bruno Morais. Vindo do teatro, atuou em 1997 na montagem “Alice Através do Espelho”, da companhia de teatro Armazém. Dois anos depois, formou a banda Madame Brechot, onde interpretava clássicos do samba, soul, funk e samba jazz. Gravado entre Londrina e São Paulo, onde vive atualmente, Bruno lançou em 2005 seu primeiro álbum, “Volume Zero”, contando com as colaborações do duo Drumagick, Suely Mesquita, André Verselino, Zé Nigro, Rafael Fuca e do produtor Wendl (Kronk). Nesse mesmo ano, durante o período de divulgação do disco, foi selecionado para integrar o projeto Red Bull Music Academy, em Seattle. Lá, conheceu e realizou parcerias com importantes nomes como os produtores Leon Ware (Marvin Gaye, Quince Jones, Maxwell), XXXChange (Spank Rock, The Kills) e Vitamin D (Gift of Gab, Abstract Rude). Antes de voltar ao Brasil, fez ainda uma pequena turnê em Chicago, tocando em palcos da cena underground da cidade. Já em São Paulo, começou a produzir, ao lado de Guilherme Kastrup, o seu segundo disco: “A Vontade Superstar” (YB Music), lançado em 2009. Nesse mesmo ano, fez uma participação especial no álbum “Na Boca dos Outros”, de Kiko Dinucci. Em 2010, lançou o single “Bruno Morais no Estúdio A” e, no ano seguinte, “Bruno Morais no Estúdio A.2”, onde regravou “Sorriso Dela”, de Erasmo e Roberto Carlos. Disponibilizados para download gratuito, também tiveram versões em compacto. Auxiliando Pipo Pegoraro na produção de seu segundo álbum, “Táxi Imã” (YB Music), Bruno foi um dos responsáveis pela  formação da banda de afrobeat Bixiga 70. Em 2012, o músico lançou “A Vontade Superstar” em vinil e assinou contrato com a gravadora inglesa Black Brown & White, responsável por lançar, no mesmo ano, na Europa, o seu segundo álbum. Bruno recebeu boas críticas e destaque em diversas publicações estrangeiras, como The Guardian, Mojo, Le Monde, Les Inrocks e Spiegel Kultur. Ainda em 2012, participou, ao lado de Lulina, do projeto Lado A Lado B, lançando mais um compacto virtual.
Preparando-se para uma turnê europeia e as produções de mais um compacto e de seu próximo álbum, Bruno veio de férias para o Rio no início deste ano. O Banda Desenhada, aproveitando a chance, o convidou para esta entrevista, realizada no Estúdio Fotonauta, no bairro da Glória.

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da natureza dos lobos

fotos: daryan dornelles


No Brasil 2010´s, criou-se uma 'cultura' de que você tem que ser ou querer ser mainstream, e eu não entendi de todo essa especulação. Tocar na novela das 20h ou dizer que quer ser muito popular, é que é 'legal'. E se você não tem essa intenção de ser grande nos meios de 'massa', então você é pedante, entojado, chato e hipster (palavra que aqui no terceiro mundo, ainda não me fez nenhum sentido). Não tenho nenhuma vontade de tocar na novela, porque eu não gosto de novela! Porque eu discordo de novela! Porque lá, se defende um draminha de um mundo que eu não acredito: drama dos burgueses do Leblon, drama das patricinhas de SP, drama dos negros que são sempre os empregados e drama dos gays que nunca dão beijo. Não há nenhuma subversão no melodrama! Isso não tem a ver com 'rejeitar a cultura de massa popular' por ser de massa, ou por ser popular. Isso tem a ver com não querer estar de acordo com valores que não me interessam. Se isso é o mainstream, incluam-me fora dessa. Me chamem de indie, de hipster, de entojado, de 'cool da cobra' ou de pedante. Mas lembrem-se, nada mais pedante do que chamar alguém de pedante...
Texto publicado por Thiago Pethit em sua página no facebook no dia 23 de janeiro de 2013.

Um dos principais nomes da cena contemporânea paulistana, Thiago Pethit nunca deixou de expressar qualquer crítica à sua geração, provocando, por vezes, mal-estar em seus colegas, principalmente ao tratar algumas tendências do establishment. Dono de um forte senso crítico, o músico paulistano vem desenvolvendo sua carreira de forma bastante singular. Sua história é atípica: ator desde os nove anos, decidiu largar os palcos e se dedicar à música após trabalhar como diretor de cena em um projeto desenvolvido por Tiê e Dudu Tsuda. Depois de uma viagem de estudos à Argentina, lançou em 2008 o EP “Em Outro Lugar”, estreando como cantor no Studio SP, onde abriu o show de Will Oldham. Em seu repertório, canções pops e autorais com forte influência da chanson française e do folk. Para os mpbistas de plantão, as suas referências atípicas, bem como a grande quantidade de canções em inglês e francês, causaram desconforto. Por outro lado, foi visto por alguns jornalistas como um dos renovadores da música popular brasileira, obtendo assim destaque nos veículos de comunicação de São Paulo. Em 2009, ao lado de Tulipa Ruiz, Dudu Tsuda, Tatá Aeroplano e Tiê – sua mais constante parceira –, fez uma série de shows intitulada “Novos Paulistas”, gerando, mesmo que não intencionalmente, a abertura de um espaço que possibilitou o surgimento de inúmeros novos artistas. No ano seguinte, lançou de forma independente “Berlin, Texas”, seu primeiro álbum, produzido por Yury Kalil, do Cidadão Instigado, que contou com as participações do Cérebro Eletrônico, Helio Flanders, Tulipa Ruiz, Tiê, e outros. Ainda em 2010, ganhou no Video Music Brasil o prêmio “Aposta MTV”. Sempre com um forte discurso anti-mainstream e sem o apoio de selos ou gravadoras, Pethit lançou, em 2012, seu segundo álbum, “Estrela Decadente”, fruto de um período de depressão que viveu no ano anterior. Inspirado nos cabarés alemães e no outside nova-iorquino dos anos 70, o disco teve a colaboração de Mallu Magalhães e Cida Moreira. Esta última dividiu os vocais com Pethit em uma versão de “Surabaya Johnny”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Adotando uma postura mais enérgica, o músico afastou-se propositalmente da imagem de bom moço e envolveu-se em um repertório onde a sexualidade e a androgenia deram o tom. 
Presente no Rio para uma apresentação no teatro Solar de Botafogo, Thiago já vinha conversando há algum tempo com o Banda Desenhada a respeito desta entrevista. Após a sessão de fotos na zona portuária da cidade, o músico foi ao estúdio Fotonauta e nos falou a respeito de sua geração, influências, inquietações e processo de criação.

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apenas castelos queimando

fotos: daryan dornelles

Há um bom tempo vem-se falando que a MPB já não é mais a mesma. Nos últimos anos, o termo ganhou uma faceta anacrônica que encobriu seu caráter mais relevante: a capacidade de se reinventar através da associação ou fusão com gêneros musicais diversos. Por total ironia, talvez aí resida o motivo para a queda de seu prestígio. Até o início deste século, ainda era bastante perceptível a fronteira entre a MPB e os demais gêneros que coexistiam no país. Entretanto, com o surgimento e ascensão da cena independente, tal fronteira se desfez por completo. Mesmo que, em um primeiro momento, fosse possível fazer algum paralelo entre esta geração e as anteriores, aos poucos, se tornou difícil agrupar artistas com referências tão díspares nessa antiga sigla. Assim, tal desgaste acabou por exigir de jornalistas e pesquisadores a utilização de novos termos, como neoMPB, nova MPB e afins. Contudo, nos últimos anos, estas designações também vêm se mostrando frágeis para abarcar gêneros tão atípicos à música brasileira, como o synthpop de SILVA e Mahmundi, o post-rock de A Banda de Joseph Tourton, Sexy Fi e do pianista Vitor Araújo, o hardcore de Macaco Bong e o pós-punk de Jair Naves. Entretanto, mesmo que, a princípio, cause espanto ou desconforto associar estes novos nomes à MPB ou às suas derivações, é reconfortante notar que, embora um tanto debilitados, estes termos ainda detêm uma força capaz de abrigar estéticas tão distintas e promover o diálogo entre elas.
Vindo da cena indie rock paulistana, Jair Naves começou a sua carreira ainda nos anos 90, como baixista do Okotô e, posteriormente, frontman do Ludovic. Após o fim do grupo, em 2008, o músico passou algum tempo afastado dos palcos, até lançar, em 2010, o EP “Araguari”, onde, flertando com o folk e a música popular, enveredou por temas relacionados à cidade de sua infância. Com o novo trabalho, passou a excursionar pelo país e, em 2011, lançou o documentário “Araguari, o que foi que aconteceu?”, retratando as gravações e os shows de divulgação do EP. Mais tarde, disponibilizou virtualmente o single “Um Passo Por Vez”, que abriu caminho para seu primeiro álbum solo: “E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas”, lançado em 2012. O disco obteve grande repercussão, despontando em diversas listas de melhores do ano e ganhando o prêmio de “Revelação” da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
Vindo ao Rio para um show na Audio Rebel, Jair Naves foi convidado pelo Banda Desenhada para esta entrevista, realizada após a sessão de fotos no estúdio Fotonauta, no bairro da Glória. O músico nos falou do processo de criação de seu primeiro álbum, das mudanças do cenário musical brasileiro e da relação com seus colegas de cena..

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tempos modernos

fotos: daryan dornelles


Rio de Janeiro, verão de 1982. Instalado na praia do Arpoador e, posteriormente, transferido para o bairro da Lapa, o Circo Voador apresentava novos cantores e bandas que, em sua grande maioria, eram influenciados pela new wave e pelo rock dos anos 60, incluindo a jovem guarda. Passando pelo seu palco ou pela então badalada boate Noites Cariocas, nomes como Blitz, Lulu Santos, Ritchie, Eduardo Dusek, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Biquini Cavadão, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Leo Jaime e Os Paralamas do Sucesso acabaram ganhando espaço no cenário musical da cidade e na mídia nacional. Mérito também da rádio Fluminense FM e de alguns jornalistas que viam frescor e irreverência nessa nova geração. Entretanto, boa parte dela sofreu críticas severas por conta de suas composições despretensiosas e pelo rompimento com o que vinha sendo feito na música popular brasileira. Absorvida por uma indústria fonográfica em ascensão, a ala carioca do BRock também foi considerada culpada, entre outras coisas, de eclipsar o trabalho dos artistas independentes, como os da Vanguarda Paulista. Entretanto, seria imprudente não reconhecer a importância de uma cena que imprimiu, de forma contundente, o pop na música nacional. Por conta disso, foi possível, na década seguinte, presenciar o surgimento de bandas como Sex Beatles, Skank, Penélope, Jota Quest, Pato Fu, Video Hits e, mais à frente, de nomes que, mesmo sob o rótulo de neoMPB, adotaram uma linguagem pop, como Jonas Sá, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Pélico, Letuce, Os Outros, SILVA, Tereza e Hidrocor. Mesmo que à primeira vista pareça um tanto inusitada, essa conexão aos poucos vem sendo percebida, sobretudo com o início do diálogo entre esta nova geração e alguns artistas que marcaram os anos 80, como Lulu Santos, Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Marina Lima.
Formada em 2009 em São Paulo, a banda Hidrocor é composta pelo carioca Marcelo Perdido (voz e violão) e pelo belenense Rodrigo Caldas (bateria), também integrante do Bazar Pamplona. Lançaram em 2010, o clipe “Planos Pro Ano Que Vem” e, em 2011, “Vou Voltar”, “Tchau Gravidade” e “Ma Cherie”, este último filmado em Paris por Marcelo e sua esposa, Fernanda Vidal, durante sua lua de mel. O vídeo teve grande repercussão e ultrapassou 100.000 visualizações no YouTube. Em 2012, finalmente lançaram pelo selo Capitão Monga Records seu primeiro disco, “Edifício Bambi”, extremamente pop e contando com as participações de artistas da nova geração, como Lulina e Tatá Aeroplano. Investindo fortemente na produção audiovisual, nesse mesmo ano, a banda lançou mais dois clipes, “Edifício Bambi” e “Duda”. Também nesse período, participou de dois álbuns-tributo: “Re-Trato” e “Jeito Felindie”, em homenagem, respectivamente, aos grupos Los Hermanos e Raça Negra. Em 2013, preparam-se para uma turnê pelo país e o lançamento virtual de um single com duas músicas inéditas: “A Gente Diz Que Tá Aprendendo a Amar” e “Nem Todo Amor Que Começa Acaba”.
Vindo ao Rio com a sua banda para se apresentar ao lado de Brunno Monteiro no Estúdio Floresta, Marcelo Perdido aceitou o nosso convite para uma entrevista ao Banda Desenhada. O músico nos falou de suas influências, das atuais dificuldades de uma banda independente e das controvérsias em relação à música “Ma Cherie”.

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la banda usurpada vol. 1 – são, são paulo meu amor

fotomontagem: márcio bulk
Não, não é bairrismo, juro. Bem, pelo menos não daquele tipo clichê que, com certeza, você já leu em algum lugar por aí. Está mais para inveja branca, do bem. Afinal, desde que surgiu, a nova cena musical de São Paulo vem colhendo muitos frutos e, a cada dia, ganhando mais força. Ok, você poderá falar que os “novos paulistas”, a nova MPB ou (aff!) a neoMPB de Sampa só têm este enorme destaque por conta da grana que ergue e destrói coisas belas. Mas estamos começando o ano e não serei eu a falar mal desses meninos. Quero tocar em outro assunto, talvez um pouco clichê para você, algo sobre amor e generosidade.
No início de dezembro, fui à gravação do especial de fim de ano do Cultura Livre, programa de rádio capitaneado por Roberta Martinelli e que há algum tempo ganhou espaço também na TV. Era o “Show da Virada”, tipo réveillon em Copacabana só que indie (por favor, leia esta última palavra com toda a ironia do universo). No palco, passaram 18 artistas que representaram de forma significativa o que há de mais interessante na atual música popular brasileira. Tulipa Ruiz, Leo Cavalcanti, Marcia Castro, Filipe Catto, Blubell, Kiko Dinucci, Rafael Castro, Juçara Marçal, Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Pélico, Felipe Cordeiro, Letuce, Bárbara Eugênia, Rael, Laura Lavieri e – nem tão novo MPBista assim – Mauricio Pereira se apresentaram ora individualmente, ora em parcerias, tendo sempre como banda de apoio os heroicos meninos de O Terno. Bem no meio dessa festa tão imodesta, pela hora da contagem regressiva, todos foram ao palco cantar “Gente Aberta”, canção de Erasmo Carlos que inicia com os proverbiais versos: “Eu não quero mais conversa/ Com quem não tem amor”. Era possível ver a felicidade estampada no rosto de cada um da trupe. Entre um intervalo e outro, os próprios artistas iam para a plateia, fazendo bela fuzarca e se divertindo como poucos. Nos bastidores, enquanto Blubell e Tulipa Ruiz usavam e abusavam do Instagram, Letícia Novaes fazia o mapa astral de Filipe Catto. Este, cantarolava com Bárbara Eugênia uma música do rei. De forma cômica, Leo Cavalcanti dava bronca em Pélico por saber melhor a letra de “Se Você me Perguntar” do que o próprio autor. A videomaker Nina Cavalcanti, irmã de Leo, providenciava bebidinhas para a jornada de mais de quatro horas de gravação. Assim, de forma displicente, o clima de festa serviu para demonstrar o porquê da cena paulistana ter dado tanto certo. Ali, em meio aos artistas e fãs, também se encontravam produtores, jornalistas, blogueiros e afins. Estes, em grande parte responsáveis por fomentar a cena, estavam no mesmo clima dos demais: Zé Pedro, do selo Jóia Moderna, não escondia o entusiasmo durante as apresentações, assim como o jornalista Marcus Preto e Cristina Chehab (colaboradora dos blogs Musicoteca e Banda Desenhada).
Bem, e eis que finalmente chego ao ponto principal desta história: o amor e a generosidade. Mais do que jogos de interesse e guerra de egos, naturais no meio artístico, o que se viu durante todo o processo de gravação do programa foi uma enorme vontade de que tudo desse certo. Diversos profissionais e amigos de fato se confraternizavam por acreditar no trabalho e na força daqueles artistas. E, sinceramente, sinto que é isto que falta à cena carioca. Enquanto não houver um grupo unido de profissionais que fomente a cena, enquanto não houver igual generosidade por parte dos artistas, enquanto não houver mais entusiastas, será muito difícil termos uma visibilidade próxima à da cena de São Paulo. Claro que nós cariocas nos esforçamos. Como não reconhecer a importância de trabalhos como os programas de rádio Faro MPB e Geleia Moderna, o projeto “Levada Oi Futuro”, ou blogs como Já Ouviu? e – desculpem a falta de modéstia  –, Banda Desenhada? Entretanto, ainda é pouco. Muito pouco. Então, considere isso um puxão de orelha, daqueles bem dados. Tipo de mãe, que depois de falar mil vezes com o filho endiabrado, perde a pouca paciência e manda ver. Tipo de quem vive na cidade maravilhosa há mais de 20 anos e quer muito que ela dê certo, que a sua música dê certo. Então, por favor, está na hora de colocarmos egos, mesquinharias e afins de lado e partir para a ação. Ou como bem diz certa dupla carioca que conhece bem sua seara: “Why carão? Love carinho”.


por márcio bulk


originalmente publicado na revista RODA #0

parceiros do futuro

o terno (da esquerda para a direita): guilherme d'almeida, tim bernardes, victor chaves | fotos: daryan dornelles
Ano de 2012. Romulo Fróes começa a produzir o seu quinto trabalho solo. Tulipa Ruiz, Thiago Pethit, Letuce, Rodrigo Campos, qinhO, Gui Amabis, Marcia Castro e outros artistas lançam o tão aguardado segundo disco. Mallu Magalhães contabiliza cinco anos de carreia e, após lançar “Pitanga” (2011), é aclamada por crítica e público. A Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), premia Gaby Amarantos (“Melhor Cantora”), SILVA (“Melhor Cantor”), Tulipa Ruiz (“Melhor Disco”) e Jair Naves (“Revelação”). Há doze anos, Kassin, Domenico e Moreno Veloso lançavam "Máquina de Escrever Música", o primeiro álbum do projeto +2. Há nove anos, a banda DonaZica - composta por Iara Rennó, Gustavo Ruiz, Andreia Dias, Anelis Assumpção, entre outros - lançava “Composição”. Assim, ao longo dos últimos anos, viu-se uma nova geração de artistas se firmando e assumindo seu devido espaço no cenário musical brasileiro. Entretanto, no início dos anos 2000, era praticamente impossível imaginar uma saída para a crise fonográfica e artística que assolava o país. Somente com o desenvolvimento de novas tecnologias e o trabalho árduo desses artistas é que se tomou forma um caminho alternativo. Caminho este bem menos acidentado para a geração que agora começa a surgir. Dorgas, O Terno, Mahmundi, Phill Veras, entre outros, já representam uma segunda leva de músicos que, ao seu modo, viabiliza suas carreiras e retifica a força da chamada neoMPB.
Uma das promessas da cena atual, a banda paulistana O Terno é composta por Tim Bernardes (vocal e guitarra), Guilherme d’Almeida (baixo) e Victor Chaves (bateria). Os integrantes do power trio se conheceram ainda no colégio, onde começaram a tocar e compor. Em 2012, lançaram seu primeiro disco, “66”. Filho do compositor, cantor e saxofonista Mauricio Pereira - parceiro de André Abujamra n’Os Mulheres Negras - Tim formou primeiramente uma dupla caipira suis generis com seu pai, chamada Pereirinha e Pereirão. Esse intenso diálogo musical está refletido no álbum de estreia do trio, onde metade das composições é de autoria de Mauricio. 
Vencedor na categoria “Aposta” do VMB deste ano e “Melhor Clipe do Ano” no Prêmio Multishow, O Terno veio ao Rio em novembro para participar do festival MoLA, no Circo Voador. Aproveitando a deixa, o Banda Desenhada conversou com os rapazes em um hotel na Lapa, onde estavam hospedados. Tim e Guilherme falaram a respeito de suas influências, da neoMPB e, claro, de Mauricio Pereira:

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moleque maravilhoso


fotos: daryan dornelles

A partir dos anos 70, ao estabelecer um severo pragmatismo, a indústria fonográfica passou a ignorar uma representativa leva de artistas. Tendo em comum o acentuado experimentalismo de seus trabalhos, Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Tom Zé, Jorge Mautner, Walter Franco, Luiz Melodia, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e outros tantos músicos foram denominados pela imprensa como “malditos”, sendo taxados de anticomerciais e, muitas vezes, vistos como excêntricos ou mesmo problemáticos para as gravadoras. Alguns, no intuito de dar continuidade às suas carreiras e não cair no ostracismo, tentaram se manter em um mercado alternativo ainda em formação. Décadas depois, já em meio a um cenário bem mais propício, uma geração de músicos independentes passou a ocupar um espaço inimaginável para os “malditos” de outrora. Influenciados muitas vezes por estes, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Andreia Dias, Tatá Aeroplano, Rafael Castro, Fernando Catatau, Trupe Chá de Boldo, entre outros, puseram em cheque antigos dogmas ao fugirem dos padrões de uma MPB institucionalizada.
Nascido em São Paulo e criado em Lençóis Paulista, a 280 km da capital, Rafael Castro representa como ninguém a atual cena independente brasileira. Compositor, produtor e multi-instrumentista, lançou, sozinho, nada menos que 10 trabalhos: “Fazendo Tricot” (2006), “40 dias em Hong Kong” (2007), “A Serenata do Capeta” (2007), “Combustão Espontânea” (2007), “Amor, Amor, Amor” (2008) “Maldito” (2008), “Raiz” (2009) e “O Estatuto do Tabagista” (2009), “RC canta RC” (2011) e “Lembra?” (2012). Gravados na casa de seus pais, Rafael disponibilizou gratuitamente os nove primeiros sem jamais tê-los lançado em formato físico. Em 2010, após comprar um gerador, partiu para a estrada ao lado de sua banda de apoio, Os Monumentais, para realizar uma série de apresentações gratuitas em locais abertos, na tentativa de criar um novo público e conquistar um espaço distinto do já habitual circuito de casas de shows. Conhecido por seu senso crítico e por suas canções politicamente incorretas e mordazes, Rafael, em seu mais recente álbum, “Lembra?”, reiterou parte de suas convicções, tomando para si todo o processo de produção e dando continuidade a sua verve de cronista em  músicas como “Surdo-Mudo” e “A Menina Careca”. Como diferencial, investiu no lançamento físico do álbum, empenhando-se em sua divulgação e convocando alguns colegas de cena, como Leo Cavalcanti, Tulipa Ruiz e Pélico para colaborarem em algumas faixas.
Aproveitando a sua vinda ao Rio, onde gravou o programa “Experimente”, do canal a cabo Multishow, convidamos Rafael Castro para uma entrevista ao Banda Desenhada. Após a sessão de fotos no estúdio Fotonauta, o músico nos falou de suas músicas, processo de criação, carreira e a cena independente.

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a dona da voz


fotos: daryan dornelles




Criolo, Tulipa Ruiz, Karina Bhur, Letuce, Cícero, Tono, Apanhador Só, Graveola e o Lixo Polifônico, Nevilton, A Banda Mais Bonita da Cidade, Márcia Castro, Siba, Mombojó, Lirinha, SILVA, Wado, Banda Uó, Felipe Cordeiro... Sim, a música independente brasileira vai muito bem, obrigado. Nos últimos anos, em meio às turbulências do mercado fonográfico e a ascensão das mídias alternativas, centenas de artistas de diferentes regiões do país finalmente conseguiram espaço para apresentarem seus trabalhos. Estes, em grande parte, revigoraram um cenário musical que há tempos se mostrava restrito e esteticamente saturado. Alguns nomes conseguiram até mesmo ultrapassar as barreiras de seu nicho, circulando em áreas exclusivas ao mainstream, consagrando-se em prêmios e obtendo visibilidade inimaginável para artistas deste porte. Contudo, paralelamente à democratização dos meios de produção e divulgação, se consolidou uma estrutura bastante peculiar que, com o passar do tempo, mostrou-se hierárquica e limitadora para a produção independente. Nesta nova engrenagem, assessorias de imprensa assumiram o papel que até bem pouco tempo era limitado às grandes gravadoras, exercendo um poder - ainda que bastante sutil - sobre os veículos de comunicação tradicionais e alternativos. Além disso, preocupados com a divulgação de seus trabalhos e a inserção em um mercado tão complexo, alguns artistas passaram a cumprir uma questionável rotina, onde discos são lançados visando as supervalorizadas listas dos melhores do ano elaboradas por revistas, sites e blogs. Estes últimos, dando pouco espaço para crítica e discussão, replicam releases e conteúdos previamente formatados por assessorias e outras mídias. Por fim, vem se observando uma clara preferência de alguns jornalistas e formadores de opinião por determinadas cenas ou tendência que, mais do que um recorte devidamente embasado, caracteriza-se pelo destaque às suas predileções. Assim, ainda que em sua essência resida uma rica pluralidade, a cena independente brasileira começa a exibir as suas primeiras fissuras, abrindo espaço para reflexões e críticas necessárias para o seu amadurecimento.
Inserida na cena mineira e ciente do árduo trabalho que desempenha um músico distante do foco midiático, a cantora e multi-instrumentista Juliana Perdigão é a entrevistada da semana no Banda Desenhada. Nascida em Belo Horizonte, Juliana iniciou sua carreira em 1996, participando do coral Voz e Companhia. Formou-se em licenciatura em música pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, a partir de 2000, passou a colaborar com diversos músicos da sua geração, como Kristoff Silva, Pablo Castro, Flávio Henrique e Vitor Santana, integrando também os projetos Elefante Groove e Misturada Orquestra. Como clarinetista, participou do grupo de choro Corta Jaca, com quem lançou dois álbuns, “Corta Jaca” (2005) e “Mina de Choro” (2007), e um DVD, “Na Levada do Choro - Um Almanaque Musical” (2007). Em 2010, ingressou na banda Graveola e o Lixo Polifônico, uma das mais importantes da cena independente mineira. No ano seguinte, patrocinada pela Natura Musical, lançou seu primeiro disco solo, o “Álbum Desconhecido”, onde deu destaque aos compositores contemporâneos de Minas e São Paulo.
Atualmente dividia entre o Graveola, a carreira solo e a participação na banda de Tulipa Ruiz, Juliana Perdigão concedeu esta entrevista em meio à pequena temporada que realizou em agosto, no Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Recebendo o Banda Desenhada em um hostel no Bairro Peixoto, a musicista nos falou de sua carreira, da influência do choro e as dificuldades por que passa a cena independente mineira.

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outros bárbaros, tão doces, tão cruéis


fotos: daryan dornelles




Ao redigir, durante as filmagens, o manifesto que deu suporte ao seu primeiro longa metragem, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), o cineasta Rogério Sganzerla acabou por definir o que seria conhecido no Brasil como cinema marginal: produções autorais de baixo custo, filmadas em super-oito, intencionalmente kitsch e caracterizadas pelo experimentalismo, o improviso e a colagem conflituosa de vários gêneros cinematográficos. Em seu filme, Sganzerla burilou na fala de seu personagem principal o que bem poderia tornar-se a definidora de toda a produção underground da época: “Quando não se pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba”. Em contraponto à grande mídia, o cinema marginal desenvolveu uma nova estética que possui muitos pontos em comum com a atual geração da música popular brasileira. Se a comparação, a princípio, pode parecer estapafúrdia, basta ater-se à história e a alguns trabalhos destes novos artistas para perceber as semelhanças. Forjada distante do grande mercado e em um processo quase artesanal, a neoMPB, assim como o cinema marginal, criou uma nova identidade à produção cultural do país, assumidamente fragmentada e caótica. Mesmo sem a virulência do cinema marginal, encontra-se certa dose de agressividade e de humor corrosivo em artistas como Rafael Castro, Lulina, Otto, Andreia Dias, Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Clarisse Falcão e Banda Uó. As tensões entre a alta e a baixa cultura, tão presentes nas produções da Boca do Lixo, são devidamente replicadas pela neoMPB, visto os trabalhos de Cidadão Instigado, João Brasil, Bonde do Rolê, Felipe Cordeiro, Gaby Amarantos, ou mesmo as regravações de hits da música romântica, do forró ou do pagode, como “Garçom” por Filipe Catto, “Você não vale nada” por Tiê e “Poderosa” pela dupla Letuce. O experimentalismo também se revela um ponto em comum, ao se ouvir os álbuns de Rabotnik, Guizado, Isadora, 1/2 Dúzia de 3 ou 4 e Metá Metá. Por fim, mas por certo o mais importante, vê-se nesta geração a mesma capacidade inventiva do cinema marginal, ao tomar para si, na maioria das vezes de forma precária, a quase totalidade da produção de seus trabalhos. Assim, Kiko Dinucci tornou-se o principal responsável pela arte de seus álbuns e de seus projetos paralelos; Tulipa utilizou um de seus trabalhos em Paintbrush como capa de seu disco de estreia, “Efêmera”; Ava Rocha, munida de sua experiência na área de audiovisual, criou diversos clipes experimentais para sua banda, AVA, assim como também o fez a dupla Letuce. De forma artesanal, com uma liberdade conquistada por sua independência e ciente de sua transitoriedade, a neoMPB tem aí as suas mais pertinentes e revolucionárias características que, verdadeiramente, criaram uma nova estética dentro da música popular brasileira.
Exemplo desta comparação, a dupla carioca Letuce, mesmo que não intencionalmente, parece renovar determinados valores apontados por Sganzerla na década de 60: desde o discurso sexual desconcertante de suas composições, passando pela forte presença da estética kitsch, até a confecção de clipes autorais e de baixo custo. Formada em 2008 pelo músico Lucas Vasconcellos e pela multiartista Letícia Novaes, a banda se tornou um dos principais nomes da cena independente carioca. O casal, um misto de Rita Lee e Roberto de Carvalho com Serge Gainsbourg e Jane Birkin, lançou seu primeiro álbum, “Plano de Fuga Para Cima dos Outros e de Mim” (Bolacha Discos) em 2009, seguindo para uma série de shows pelo país, incluindo os festivais Grito do Rock (Volta Redonda) e SWU (SP), e também pelo exterior -Paris e Londres-. Em 2011, a banda foi indicada ao Prêmio Multishow na categoria “Experimente”, além de ter sido uma das Apostas MTV. Neste mesmo ano, no Festival de Gramado, a dupla recebeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original de Longa Metragem pelo filme “Riscado”, de Gustavo Pizzi. Em 2012, através de um financiamento coletivo, o casal lançou seu segundo álbum,“Manja Perene”, e participou de “A Take Way Show”, série de filmes do cineasta e fotógrafo francês Vincent Moon, lançado em seu site, “La Blogothèque”. Também conhecidos por suas múltiplas atividades, Lucas e Letícia foram os responsáveis pelos projetos “Churrasquinho Sunset” - onde interpretaram sucessos radiofônicos nacionais e internacionais - e, juntamente com qinhO e a bateria da escola São Clemente, pelos anticonvencionais bailes carnavalescos do “Bloco dos Clementianos”. Atualmente, a dupla se apronta para o projeto “Palavras Cruzadas”, onde, acompanhada pelo cartunista André Dahmer e pela poeta Bruna Beber, transformará o centro cultural Oi Futuro Ipanema em uma grande embarcação e apresentará um repertório inédito e temático.
Mesmo ocupados com tantos projetos e uma intensa agenda de shows, Lucas e Letícia receberam o Banda Desenhada em sua casa, no Rio Comprido. A longa e bem humorada entrevista, devidamente acompanhada por um bœuf bourguignon e algumas garrafas de vinho, se deu em meio à comemoração de aniversário do primeiro ano do site. Nela, o casal fala de sua carreira, influências, da banda Binário – precursora de grande parte da atual cena carioca -, e a relação com a crítica e seus colegas de geração.

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pelas esquinas de sua casa


fotos: daryan dornelles







A história já é conhecida: nascido e criado na Cohab Juscelino, em Guaianases, Zona Leste de São Paulo, Marcelo Jeneci, aos 17 anos, conseguiu o seu primeiro trabalho como músico profissional, acompanhando Chico César em uma turnê internacional. Empunhava uma sanfona emprestada por Dominguinhos, um dos ilustres clientes de seu pai, Manoel, que entre outros ofícios, se dedicava ao conserto de instrumentos musicais. Em seguida, Jeneci passou a acompanhar diversos artistas da música popular brasileira, entre eles: Arnaldo Antunes, Elza Soares e Vanessa da Mata, com quem compôs a sua primeira canção,“Amado”. A música integrou a trilha da novela global “A Favorita”, fazendo enorme sucesso em todo o país e ganhando o Prêmio Multishow de 2009. Neste mesmo ano, seria a vez do cantor sertanejo Leonardo gravar uma de suas composições, “Longe”, para a novela “Paraíso”. No mesmo período, Jeneci viu o projeto de seu primeiro disco ser aprovado pelo Natura Musical. Lançado em 2010, “Feito Pra Acabar” foi produzido por Kassin, tendo as participações de Curumin e Edgard Scandurra. O disco, considerado um dos melhores do ano pela revista Rolling Stone e pela grande maioria da imprensa especializada, revelou a cantora Laura Lavieri, com quem Jeneci divide os vocais. Além das parceiras com José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Arnaldo Antunes e Chico César, o álbum trazia os arranjos para orquestra do cultuado compositor e violonista Arthur Verocai. Tornando-se um dos mais famosos e importantes nomes de sua geração, em 2011, Jeneci se apresentou no festival Rock in Rio, ao lado de Curumin, e recebeu o prêmio Multishow de melhor música  eleita pelo júri por “Felicidade”.
Vindo para o Rio para se apresentar no Circo Voador ao lado de Tulipa Ruiz em janeiro deste ano, Marcelo Jeneci foi convidado a participar do Banda Desenhada. Exausto após cumprir uma agenda cheia durante boa parte do dia, o músico foi bastante generoso em sua entrevista, não se abstendo dos assuntos mais delicados, como o seu envolvimento com a indústria fonográfica, a influência da música brega e a pecha de “MPB hype” que a sua geração vem recebendo.

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ponta de lança


fotos: daryan dornelles

Há uma ou duas décadas, ainda não causava tanto estranhamento o apoio, mesmo que bastante comedido, das grandes gravadoras a artistas que partiam em determinado momento de suas carreiras em busca de experimentações ou novas estéticas. Assim, nos anos 70, Caetano Veloso lançou pela Polygram o seu álbum mais polêmico, “Araçá azul” (1972). Milton Nascimento veio, por sua vez, com “Milagre dos Peixes” (EMI Odeon, 1973), álbum com 11 músicas, sendo oito delas instrumentais, onde, junto com Naná Vasconcellos, fazia entrecruzar a música mineira com a africana. Já Tom Zé, após "Todos Os Olhos" (1973, Continetal), revolveu o mais representativo gênero musical do país, criando o experimental “Estudando o Samba” (1976, Continental). Em 1974, Jorge Ben Jor, baseando-se em textos alquímicos, lançou o icônico “A Tábua de Esmeralda” (Philips). Mesmo na década seguinte, ainda pôde-se observar uma geração de músicos capaz de encontrar, ao seu modo, um equilíbrio entre liberdade artística e mercado, como foi o caso dos Titãs em seu álbum “Õ Blésq Blom” (1989, WEA), que flertava com o tropicalismo e a world music impregnados de programações eletrônicas. Ainda antes, em 1987, a RCA arriscava suas fichas com a inimaginável banda de rock progresso/psicodélico Violeta de Outono. Por fim, no ano de 1994, o maisntream dava seus últimos suspiros de criatividade, ao lançar os álbuns de estreia de Chico Science & Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos” (Sony Music) e “Samba Esquema Noise” (Banguela Records/Warner), do Mundo Livre S/A. Tempos depois, já submerso em crise e optando por um pragmatismo atroz, o mercado fonográfico tornou clara a sua opção por uma música incolor, inodora e insípida que, aparentemente, não apresentaria risco financeiro algum às empresas. Deste modo, há quase uma década, a cena independente, que até então era vista como um nicho limitadíssimo e de visibilidade nula dentro das mídias tradicionais, vem apresentando o que de mais relevante e criativo é produzido na música brasileira. E assim foi em 2011, com Pélico (“Que isso Fique entre nós”); Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes (“Passo torto”), Criolo (“Nó na orelha”); BiD (“Bambas 2”), Cícero (“Canções de Apartamento”); Bixiga 70 (“Bixiga 70”); o projeto “Metá Metá” de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França; e Gui Amabis (“Memórias Luso Africanas”). Todos estes, artistas independentes, vêm tendo seus álbuns listados entre os melhores do ano em diversas publicações e sites.
“Memórias Luso Africanas” do produtor, compositor e multi-instrumentista paulistano Gui Amabis poderia ser considerado por muitos um álbum “difícil”: Baseando-se nas histórias contadas por sua avó materna, a imigrante portuguesa Firmina dos Prazeres, falecida em 2006,o músico criou uma série de canções em que narra, de forma sutil e pouco linear, a história de sua família, remetendo não só à imigração portuguesa, mas também à sua afro-descendência e ao nascimento de sua filha, Rosa Morena. Disponibilizado gratuitamente para download, o álbum teve ótima recepção por parte da crítica, fazendo com que Amabis se enveredasse pelos palcos e deixasse um pouco de lado seu reconhecido trabalho em trilhas sonoras. O músico participou de uma infinidade de trabalhos para cinema e TV, dentre eles: “Cidade dos Homens” (2003), “Lord of War” (2005), “A estranha perfeita” (2007), “Antonia” (2007), “Filhos do Carnaval” (2009), “Quincas Berro D'água" (2010) e "Bruna Surfistinha" (2011). Também foi responsável pela produção de “Vagorosa”, segundo álbum de CéU, e coproduziu “São Matheus não é um lugar assim tão longe”, álbum de estreia de Rodrigo Campos.
De passagem pelo Rio de Janeiro com sua turnê que contou com as participações especiais de Tulipa Ruiz, Criolo e Lucas Santtana, Gui Amabis recebeu o Banda Desenhada para uma entrevista no Espaço SESC, onde, mais tarde, realizou sua segunda noite de apresentação. Lá, o músico nos falou de sua carreira, de sua geração, da passagem por Hollywood e do projeto “Sonantes”:

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para alegrar o dia


fotos: daryan dornelle
Sim, o Brasil é um país de cantoras. Ao longo das duas últimas décadas, vimos surgir dezenas e mais dezenas de vozes que, com um repertório na maioria das vezes eclético e nada autoral, dominaram as rádios e mídias do país. Entretanto, por volta de 2007, finalmente um canto dissonante - doce e discreto - surgiu: Com forte influência de folk e com letras singelas, Tiê foi uma das primeiras artistas independentes de uma geração que, imprimindo um estilo próprio, conquistou seu espaço e adicionou novos ingredientes à música  brasileira. A cantora que chegou a ser modelo e dona de um café brechó em São Paulo, por um bom tempo apresentou-se ao lado de Toquinho, antes de iniciar a sua carreira solo. Em 2007, com auxílio do produtor, músico e artista multimídia Dudu Tsuda, gravou um EP com quatro canções de sua autoria. Após dois anos, lançou o seu elogiado primeiro álbum, "Sweet Jardim", considerado pela imprensa um dos mais importantes discos da década. Em 2011, já integrada ao casting de uma grande gravadora, Tiê lançou o segundo álbum, “A coruja e o coração”, onde reiterou sua verve de compositora e reforçou os laços com seus companheiros de cena, gravando “Só sei dançar com você” de Tulipa Ruiz e “Mapa-múndi”, de Thiago Pethit. A cantora também mostrou seu lado iconoclasta ao fazer a releitura do megahit “Você não vale nada” da banda de forró Calcinha Preta. Após realizar uma turnê pelos EUA, ao lado de Tulipa, Tiê se apresentou com o uruguaio Jorge Drexler na quarta edição do festival Rock in Rio, no Palco Sunset. Escalados pelo músico e produtor Zé Ricardo (curador de dois Rock in Rio em Lisboa), vários artistas que por ali passaram são oriundos da atual cena independente que, aos poucos, vem ganhado visibilidade no  cenário musical brasileiro.
No mesmo mês de outubro, Tiê voltou ao Rio para se apresentar na segunda edição do Festival Faro, reservando um pouco de seu tempo para o Banda Desenhada. Mesmo exausta após uma demorada passagem de som e preocupada com sua filha, Liz, a cantora nos contou a respeito de sua carreira, projetos, turnês e a bela parceria com a estilista Rita Wainer:

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O samba, a prontidão e outras bossas


fotos: daryan donelles

Se pudéssemos sistematizar toda a cena carioca dos últimos 20 anos, veríamos, com certa boa vontade, dois elementos fundamentais que, de um modo ou de outro, estiveram presentes em boa parte da produção deste período: o samba funk setentista de Jorge Bem Jor, Tim Maia e Banda Black Rio; e o multicolorido e performático BRock. Mesmo com o aparecimento na década de 1990 de uma nova geração de cantoras, como Cássia Eller, Marisa Monte e Fernanda Abreu, e grupos de rap e reggae como Cidade Negra, Planet Hemp e O Rappa, era ainda possível perceber em maior ou menor grau a influência destas duas escolas. Assim também se sucedeu na década posterior, com o surgimento, em 2002, da Orquestra Imperial. As festas promovidas pela trupe, ao mesmo tempo que remetiam às gafieiras e aos bailes black de Messiê Limá & Cia, em muito lembravam as transloucadas apresentações de bandas como Blitz, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso no seminal Circo Voador, no início da década de 1980. Em meio a esta atmosfera, Kassin, Domenico, Moreno Veloso, Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Thalma de Freitas, Nina Becker e demais músicos acabariam por gerar em grande parte o que hoje se denomina Nova MPB. E, entre tantos, ninguém melhor condensou estas duas alas da música carioca que Rubinho. As canções de seu primeiro álbum “Rubinho Jacobina e A Força Bruta” (2005), mesmo flertando com diversos gêneros, remetiam a quase todo instante ao debochado “rock de bermuda”, enquanto baixo e guitarras as impulsionavam a um inacreditável samba funk, criando a sonoridade que melhor representaria a sua geração.
Prestes a lançar o seu segundo álbum “Onde moras?”, Rubinho aceitou participar do Banda Desenhada, nos encontrando no centenário Café Lamas, no Flamengo (RJ). Ali, o músico falou sobre a sua carreira, processo de criação e relacionamento com a Neo MPB:

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sem nostalgia


romulo fróes um labirinto em cada pé







Dada a sua incapacidade de interação com as novas formas de consumo de música, a indústria fonográfica viu-se frente a uma galopante crise que acabou por promover, mesmo que não intencionalmente, o empobrecimento da música popular brasileira. Até mesmo um expectador menos atento seria capaz de observar o quão vazio se tornou o discurso de todo e qualquer gênero musical que transita pela grande mídia. Axés, sertanejos e rocks tão assépticos que nem de longe lembram as suas generosas raízes: o frevo, o forró, o maracatu, o reggae, a música caipira, o grunge, etc. Entretanto, sem se dar por conta, o país também produziu uma nova geração de músicos que, não mais utilizando as grandes gravadoras como ferramenta para divulgação e consolidação de suas carreiras e imbuídos de um dever quase romântico de expressar seu ideário, lançaram os álbuns mais criativos dos últimos anos no debilitado cenário da música popular. 
Nina Becker, Tulipa Ruiz, Romulo Fróes, Leo Cavalcanti, Curumin e tantos outros vêm conseguindo imprimir uma nova cara à MPB. Por sinal, uma das caras mais arrojadas que esta um dia teve. Sem as cobranças do mercado e das grandes gravadoras, os novos músicos detêm em suas mãos uma liberdade criativa que poucas ou quiçá nenhuma outra geração pôde ter. Curiosamente, mas não por acaso, grande parte destes nomes possuem alguma ligação com a gravadora YB Music. Criada em 1999, inicialmente como uma produtora, a YB Music já apostava em novos nomes, como Andrea Marquee, Mamelo Sound System e Rica Amabis. Responsável também por trilhas para comerciais, curtas e longas metragens, a gravadora criou uma espécie de selo de qualidade que se tornou um enorme atrativo para qualquer músico independente.
Após a última entrevista, com a cantora Nina Becker, o Banda Desenhada optou por se aprofundar nas questões do mercado fonográfico nacional e convidou para a entrevista um dos proprietários da YBMusic, o compositor, produtor musical, multiinstrumentista e ex-integrante da cultuada jazz band Nouvelle Cuisine, Mauricio Tagliari. Também conhecido por sua paixão por vinhos e drinks em geral, Maurício concedeu ao site uma das mais esclarecedoras e sensíveis entrevistas:

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de papel crepom e prata


thalma touro e tigre | foto de yuri pinheiro

O primeiro contato com o trabalho do ilustrador Gabriel Mar foi enigmático: poucos meses atrás, durante a entrevista com a cantora e compositora Iara Rennó, uma imagem colada à parade, bem acima de sua cabeça, me chamava a atenção. Tratava-se de uma espécie de colagem, quase uma mandala, repleta de animais e plantas selvagens que emolduravam um retrato. Multicolorido e de forte referência ssessentista, a figura era magnetizante. Algum tempo se passou e novamente fui ao Miradouro, local de encontro de diversos artistas e morada não só de Iara Rennó, mas também da então entrevistada Thalma de Freitas. Não resisti e a indaguei sobre o autor do trabalho. Por sorte, Thalma me contou que o menino prodígio era mais um habitante da casa e que possuía um portfólio repleto de ilustrações, pôsters e capas de CDs de artistas da nova música brasileira. Por certo, suas colagens caíam como uma luva nas experimentações estéticas desta nova geração, marcada tanto por sua pluralidade quanto por sua inquietude. 
Não pensei duas vezes e logo convidei Gabriel para uma entrevista ao Banda Desenhada. Como de hábito, não faltaram participações especiais: Thalma e Felipe Benoliel, do coletivo carioca Apavoramento Sound System e também morador do Miradouro, fizeram pequenas intervenções na conversa que tive com o designer/ilustrador. Confiram agora o nosso colóquio: 

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