BONDE DOS BRABOS

fotos: daryan dornelles

Nas últimas décadas, o barateamento e a acessibilidade de novas tecnologias foram responsáveis não só pelo crescimento e diversificação da música brasileira, como também pela criação de espaços para crítica e desenvolvimento de diferentes narrativas. Assim, blogs e revistas virtuais adquiriram um papel importantíssimo na fomentação e apreciação da produção artística, destacando-se pela qualidade de seus textos e competindo em pé de igualdade ou mesmo superando revistas e jornais especializados.

Ex-integrante da banda Zumbi do Mato e professor de filosofia da UFRJ, Bernardo Oliveira é um dos principais nomes dessa nova crítica. Responsável pelo blog Matéria e colaborador de diversas revistas virtuais, Bernardo também vem ganhando projeção por ser um dos produtores do projeto Quintavant, que além de promover a cena experimental carioca, também traz ao Rio nomes importantes da música de vanguarda internacional, como Kevin Drumm, The Ex, Matana Roberts e Paal Nilssen-Love.

A entrevista foi realizada ao longo do mês de maio, em uma sucessão de e-mails e bate-papos em redes sociais. Nela, falamos a respeito de seus projetos, crítica musical, samba e funk cariocas, entre outros assuntos.

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venha até são paulo ver o que é bom pra tosse

marcus preto | foto: vitor jorge
Há alguns anos, São Paulo já vinha dando sinais de que algo importante estava por acontecer. Bastava dar uma passada pelo Studio SP, na Vila Madalena, e observar a movimentação. Ou então notar alguns nomes que começavam a pipocar nos principais jornais da cidade: Céu, Tiê, Romulo Fróes, Curumin, Thiago Pethit... Todos artistas independentes, com forte trabalho autoral e tendo como QG a capital paulistana. Nessa mesma época, também era possível assistir a um acontecimento importante: músicos de diversos estados do país – com o predomínio dos pernambucanos e cearenses – passaram a circular pela cidade, fomentando ainda mais a cena local. Toda essa agitação serviu para arrumar o terreno para que, em 2010, três novos artistas lançassem seus primeiros e festejados trabalhos: Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci e Karina Buhr (ex-Comadre Fulozinha) foram a prova definitiva do quão estimulante e pertinente era a música que vinha sendo feita na cidade. Essa efervescência atingiu seu auge no ano seguinte, quando Criolo e seu álbum “Nó Na Orelha” alcançaram uma popularidade inimaginável para o nicho independente.
Encontrando-se bem no olho do furacão, o jornalista Marcus Preto foi um dos responsáveis pela consolidação dessa cena. Após passar por revistas como Rolling Stone, Bravo! e Época, trabalhou por quatro anos como crítico e repórter musical da Folha de S.Paulo, dando destaque a vários artistas como Rodrigo Campos, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Andreia Dias e Romulo Fróes. Paralelamente, foi diretor musical do site Música de Bolso, projeto que, ao lado do veterano TramaVirtual, serviu como guia para o que vinha acontecendo de novo no cenário musical brasileiro. Em 2013, após sua saída da Folha, realizou a curadoria do álbum “Coitadinha Bem Feito”, em que artistas da nova geração interpretaram canções de Ângela Ro Ro. Nesse mesmo ano, tornou-se apresentador do programa “Com a Boca no Mundo”, na Oi FM, e passou a comandar os projetos “Trampolim”, na Miranda (RJ), e “Grandes Artistas”, no Espaço Revista Cult (SP), entrevistando diversos nomes da MPB. Também atuou diretamente no EP “Tribunal do Feicebuqui”, de Tom Zé, com quem vem, há alguns anos, elaborando uma biografia.
Expandindo os limites de sua área de atuação, Marcus tornou-se figura ativa da cena musical paulistana e um de seus principais personagens. Sendo assim, o Banda Desenhada o convidou para uma entrevista, realizada através de uma troca constante de e-mails e bate-papos, onde o jornalista e produtor musical falou a respeito de sua carreira, projetos e, claro, da cena de São Paulo.

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roquenrol bim-bom


apanhador só (da esquerda para a direita): fernão agra, felipe zancanaro, martin estevez e alexandre kumpinski | fotos: daryan dornelles

Desde os anos 60, o Rio Grande do Sul abastece o cenário musical brasileiro com um sem número de influentes bandas de rock. O gênero, que já se fazia presente na Porto Alegre da década de 1950, animava os salões de bailes e festas com os conjuntos melódicos Norberto Baldauf, Renato e Seu Conjunto, Flamboyant, Flamingo, Stardust, Mocambo e Poposky e Seus Melódicos. Entretanto, o rock só ganhou destaque na década seguinte, com o surgimento da joverguardista Os Brasas e, mais à frente, a Liverpool. Esta, com forte influência da tropicália e do rock inglês, foi rebatizada em 1971 de Bicho da Seda, tornando-se a banda mais emblemática da história do rock gaúcho.
A segunda metade dos anos 70 foi extremamente prolífera para a cena da região: com o apoio dos jornais e, principalmente, da Rádio Continental AM, diversos artistas conseguiram registrar e divulgar seus trabalhos, destacando-se os Almôndegas – de Kleiton e Kledir –, Hermes de Aquino, Bizarro, Bobo da Corte, Inconsciente Coletivo, Hallai Hallai, Gilberto Travi e o Cálculo IV, entre outros. A década de 1980, por sua vez, foi marcada pela coletânea Rock Grande do Sul. Lançado em 1985 pela gravadora RCA, o álbum apresentava as bandas DeFalla, Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, TNT e Garotos da Rua. A partir daí, viu-se a ampliação e consolidação do rock produzido nos Pampas, caracterizando-se tanto por sua intensa produção quanto pela diversidade. Com referências capazes de variar do indie rock ao funk carioca, bandas como Acústicos & Valvulados, Papas da Língua, Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Comunidade Nin-Jitsu, Cartolas, Superguidis, Pública, Pata de Elefante e Apanhador Só conquistaram espaço e ingressaram no cenário pop rock nacional.
Destacando-se das demais bandas por sua forte ligação com a música popular brasileira, Apanhador Só foi exaustivamente comparado ao grupo carioca Los Hermanos e, por tabela, incluído no hall da neoMPB. A banda, inicialmente formada por amigos de colégio, é atualmente composta por Alexandre Kumpinski (vocal e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), André Zinelli (bateria) e Fernão Agra (baixo). Em 2006, lançou seu primeiro EP, “Embrulho Pra Levar”, ganhando com ele o Festival de Bandas Trama Universitário. Dois anos depois, o grupo promoveu seu segundo e homônimo EP, tendo conseguido, após algumas tentativas frustradas, a aprovação de seu disco de estreia pelo Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre). Lançado em 2010, “Apanhador Só” figurou nas listas de melhores discos do ano em boa parte das revistas e sites  especializados, ganhando também o Prêmio Açorianos de Música nas categorias de “Melhor Álbum Pop”, “Melhor Produtor Musical” (Marcelo Fruet) e “Melhor Projeto Gráfico” (Rafael Rocha). O disco, além de sua versão física, foi disponibilizado para download gratuito no site da banda. Logo em seguida, o grupo se lançou no projeto que há tempos vinha desenvolvendo, o “Acústico-Sucateiro”, realizando pequenos shows em espaços públicos e utilizando como instrumentos sucata e outros objetos inusitados (conduíte, cantil, panela, sineta de recepção, etc.). Desta experimentação, surgiu o álbum “Acústico-Sucateiro” (2011), gravado na sala de casa de Alexandre e  comercializado no formato de fita cassete. Este ano, em meio aos preparativos para o novo álbum que sairá em 2013, a banda lançou “Paraquedas”, um compacto em vinil com duas faixas produzidas por Curumin e Zé Nigro, estreitando assim os laços com a já notória cena paulistana.
Em meio à turnê para a divulgação de seu último clipe, “Nescafé”, Apanhador Só esteve em abril no Rio de Janeiro, onde se apresentou no Studio RJ ainda com o seu antigo baterista, Martin Estevez. Aproveitamos a ocasião e convidamos Alexandre e Felipe para esta entrevista. Após a seção de fotos na cobertura de um shopping em Copacabana, a dupla nos falou de sua carreira, rock gaúcho, Los Hermanos e tropicalismo, entre outros assuntos.

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e o tal do mundo não se acabou...


1/2 dúzia de 3 ou 4 (da esquerda para a direita): marcos mesquita, daniel carezzato, thiago melo e luciana bugni | fotos: daryan dornelles



Web 2.0. Com o enorme avanço tecnológico da última década, a cultura de massa e, principalmente, as grandes e tradicionais mídias se viram desestabilizadas e imersas em sua pior crise. O acesso à internet e à banda larga propiciou o desenvolvimento de uma sociedade virtual e continuamente conectada que tem como uma de suas principais características o compartilhando gratuito de arquivos e conteúdos, o que, para muitos, representa uma irrefreável democratização do conhecimento. Entretanto, este avanço também representou, inequivocadamente, uma retração em toda a indústria de entretenimento que até então conhecíamos: Filmes hollywoodianos tiveram suas bilheterias drasticamente reduzidas por conta de downloads e DVDs piratas; livrarias e lojas de discos especializadas fecharam suas portas graças à enorme facilidade de compartilhamento de textos e músicas; jornais, revistas e emissoras de rádio e TV constataram a redução  expressiva em suas vendagens e audiências graças ao sucesso do Youtube e blogs com conteúdo gratuito. Este novo cenário fez com que um sem número de vozes se levantasse e rebelasse contra o inegável desrespeito à propriedade intelectual. Assim, a contragosto, nos últimos anos os EUA parece amargar o fim de uma era que foi marcada por uma próspera indústria de entretenimento e de veículos de comunicação até então considerados por muitos, de forma um tanto obtusa, os grandes guardiões da cultura e da verdade.
Porém, mesmo que esta crise também tenha solapado a produção cultural brasileira, ela foi responsável pela ascensão de uma nova cena musical, em sua esmagadora maioria independente, que em outros tempos jamais teria a oportunidade de difundir seu trabalho ou dialogar, mesmo que modestamente, com a grande mídia. Exemplos não faltam: Rabotinik, o quarteto carioca de música experimental, não só conseguiu financiar seu primeiro álbum através de crowdfunding como participou do último trabalho de Gal Costa, lançado pela major Universal Music. Outro exemplo é a Bande Desinée, banda pernambucana cujo repertório autoral é basicamente cantado em francês com algumas inserções de italiano e português e que já obteve mais de seis mil downloads de seu álbum de estreia, “Sinée qua non”. Paralelamente e servindo de apoio para a sua divulgação, também surgiu no país um grande número de blogs escritos por diletantes que vieram corroborar a até então limitada cena da música independente brasileira. Mas, se por um lado temos agora ao nosso alcance centenas de artistas nacionais produzindo trabalhos criativos e de qualidade, estes mesmos se vêem na necessidade de disponibilizar gratuitamente seus álbuns, aguardando de forma esperançosa que a visibilidade em algum momento se converta em retorno financeiro ou que algum de seus projetos seja aprovado em editais públicos ou em sites de crowndfounding. Polêmicas à parte,  fato é que só com a democratização da internet e o crescimento das redes sociais se tornou possível, pelo menos no Brasil, a renovação do cenário musical com o surgimento de artistas das mais diversas partes do país com liberdade criativa e isentos de qualquer manipulação das grandes gravadoras.
Este também é o caso da banda paulistana 1/2 Dúzia de 3 ou 4: Com um som pouco convencional, crítico e bem humorado, influenciado pela vanguarda paulistana, o grupo acaba de finalizar o seu segundo projeto, “O fim está próspero - a trilha sonora (oficial) do fim do mundo”. Iniciado em 2010, consistiu, ao longo de dois anos, no lançamento bimestral de uma música e seu respectivo vídeo abordando temas apocalípticos inseridos no contexto da época. Formado atualmente por Thiago Melo (violão e voz), Daniel Carezzato (percussão e voz), Marcos Mesquita (baixo), Arnaldo Nardo (bateria), Luciana Bugni (letras), Mike Reuben (sax, flauta e voz) e Sérgio Wontroba (clarineta e voz), o grupo surgiu em 2002 e, em 2008, lançou seu primeiro álbum, “Tudo se torna”. No ano seguinte, apresentou-se no Festival MOLA (Mostra Livre de Artes), no Circo Voador (RJ) e, em 2010, no Festival MACACO (Movimento Artístico e Cultural do CAASO), em São Carlos (SP), além de realizar constantemente shows   no circuito SESC paulista.
Chamado para se apresentar em uma festa do PodCast Caipirinha Appreciation Society, às vésperas do ano novo no Rio de Janeiro, o 1/2 Dúzia de 3 ou 4 também foi convidado pelo Banda Desenhada para uma divertida entrevista:

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a bela da tarde


fotos: daryan dornelles


Rio de Janeiro, meados do século XVIII. Já sob os efeitos da missão artística francesa de 1916, a então capital do império se encanta com todo o tipo de novidade vinda de Paris: desde as costureiras francesas e suas maisons que tomam boa parte da Rua do Ouvidor e ditam a moda da época até os cafés-cantantes, com o seu vaudeville e as chansonnettes. Importados dos palcos franceses pelo empresário Joseph Arnaud, um grande número de artistas causam alarde no Alcazar Lyrique, no Casino Franco-Brésilien e em outros tantos teatros cariocas.
São Paulo, século XXI. Uma nova geração de músicos traz à tona uma insuspeita influência tanto da chanson – gênero musical surgido na década de 1940 -, quanto do rock sessentista francês. Assim, inspirado no ícone Serge Ginsbourg, em 2008 o guitarrista Edgard Scandurra cria o grupo Les Provocateurs, realizando uma série de shows com o repertório do músico. No mesmo ano, também envolvido pelo clima boêmio e sensual de Gainsbourg, o projeto 3namassa lança “Na Confraria das Sedutoras”. Pouco depois, é a vez de Fabiana Cozza, ao lado da Orquestra Jazz Sinfônica, realizar diversas apresentações com o seu “Tributo a Edith Piaf” e Tiê lançar em seu álbum de estreia,“ Sweet Jardim”,  a canção bilíngue “Aula de francês”, composta por ela, Flávio Juliano e Nathalia Catharina. Em 2010, sob os efeitos de Jacques Brel, Piaf e dos cabarés, Thiago Pethit grava “Voix de ville”, enquando Renato Godá lança o álbum "Canções para embalar marujos". No mesmo ano, surge o projeto “Le Temps de Souvenirs”, reunindo músicos como Juliana Kehl e Isabela Lages, para celebrar as cantoras francesas da década de 1960. Ainda em 2010, Bárbara Eugênia lança seu primeiro álbum, “Journal de BAD”, fortemente influenciado  por Fraçoise Hardy, Jacques Dutronc e Gainsbourg.
Nascida em Niterói, Rio de Janeiro, Bárbara Eugênia vive desde 2005 na capital paulista. Amiga de Edgard Sacandurra, em 2008 foi convidada pelo guitarrista a participar em seu bistrô de um tributo a Serge Gainsbourg. Na mesma época, convidada pelo produtor musical Apollo 9, esteve presente na trilha sonora do filme “O cheiro do ralo”, compondo uma canção inspirada em poema de Charles Baudelaire. Ainda no mesmo ano, Bárbara participou intensamente do projeto musical 3namassa, composto por Rica Amabis, Dengue e Pupillo – estes dois últimos também integrantes do Nação Zumbi. Em 2009, finalmente passou a se dedicar ao seu primeiro álbum solo: “Journal da BAD”. O título e boa parte de suas letras foram retirados de diversos e-mails confessionais e poéticos que por um longo tempo enviou aos amigos que viviam fora do país. Arregimentando uma constelação de músicos, em sua esmagadora maioria originários da cena cearense e pernambucana, Bárbara contou em seu disco com as participações de: Junior Boca, Dustan Gallas (Cidadão Instigado), Felipe Maia, Pupillo, Dengue, Otto, Karina Buhr, Juliana R. e do iconoclástico Tom Zé. O álbum, lançado em 2010, recebeu diversos elogios, figurando na lista dos melhores do ano em sites e revistas especializas.
Já se preparando para o próximo álbum, Bárbara veio ao Rio em dezembro passado para fazer sua primeira apresentação em solo carioca. Não podendo deixar passar esta oportunidade, o Banda Desenhada convidou a cantora para uma entrevista, realizada pouco antes de sua participação no show de Nina Becker no Studio RJ:

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