quedas e curvas

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Em 2013, o Banda Desenhada realizou a primeira de uma série de entrevistas onde jornalistas de diversas capitais do país analisam a cena local. Na ocasião, coube a Marcus Preto a tarefa de relatar a evolução e a ascensão da cena independente paulistana. Agora, colocado em situação mais espinhosa, Leonardo Lichote analisa o cenário carioca, sua crise e desdobramentos, relacionando-os com a atual e conturbada conjuntura política do país.
Atuando desde 2001 como repórter e crítico musical do jornal O Globo, Lichote colaborou com o livro de memórias de Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (Objetiva), sendo responsável por assinar o seu texto final. Também é autor dos textos críticos que acompanham a caixa de Chico Buarque, “De Todas as Maneiras” (Universal), que contém os 22 primeiros discos do artista. Comentarista do programa Faro MPB (rádio MPB FM) e jurado dos dois principais prêmios de música do país  Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira , Lichote também é uma das figuras mais presentes e incentivadoras do cenário independente carioca.
A entrevista que se segue, desenvolveu-se ao longo de alguns meses, com algumas interrupções e retomadas, em meio a longas conversas e uma troca constante de e-mails.

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todos os rumos

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Todos já ouviram até a exaustão a respeito da crise que, há mais de uma década, assolou o mercado fonográfico. Entre discursos alarmistas e outros tantos pragmáticos, o que ficou claro é que, de fato, a época de ouro das grandes gravadoras havia chegado ao fim. Ao longo dos últimos anos, em meio ao encolhimento do mercado, foi bastante perceptível a atuação das majors para manter seu status: desde o enxugamento de seu casting, passando por uma feroz e ainda presente guerra contra a pirataria e a terceirização e reestruturação de suas funções. Vivendo um processo de reconfiguração, onde tanto a produção quanto a circulação e o consumo foram alterados, a indústria musical tradicional viu surgir novos modelos de negócios provenientes da ascensão de poderosas corporações de serviços online, que, por sua vez, possibilitaram o crescimento de um mercado independente até então bastante precário no país. Com modelos de negócios alternativos e a utilização de ferramentas digitais acessíveis – como as rádios online, podcasting, streaming e plataformas como MySpace, YouTube e Facebook – artistas independentes, pequenas gravadoras e outros agentes culturais ganharam visibilidade. Sem esperar pela antiga infraestrutura das majors e o lucro proveniente da venda de CDs, uma nova geração de artistas assumiu o controle da produção e distribuição de seus álbuns, passando a rentabilizar suas músicas através de shows e da sua utilização em publicidade, trilhas sonoras de filmes e games. Assim, paralelamente à parcial perda de força das grandes gravadoras, os editais de fomento à cultura adquiriram enorme importância juntamente com os financiamentos coletivos, o que colaborou para que produtores e assessorias de imprensa obtivessem um papel de destaque no cenário atual.
Mesmo que ainda seja possível questionar a real democratização dos meios de difusão de música no país, tornou-se evidente que apenas com as mudanças ocorridas nos últimos anos foi possível o surgimento e o êxito de nomes como Criolo, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e Cícero, bem como a consolidação de gravadoras de pequeno e médio porte, distribuidoras independentes, coletivos e sites alternativos especializados na divulgação desses artistas.
É sobre este e outros assuntos que conversamos com o cantor e compositor paranaense Bruno Morais. Vindo do teatro, atuou em 1997 na montagem “Alice Através do Espelho”, da companhia de teatro Armazém. Dois anos depois, formou a banda Madame Brechot, onde interpretava clássicos do samba, soul, funk e samba jazz. Gravado entre Londrina e São Paulo, onde vive atualmente, Bruno lançou em 2005 seu primeiro álbum, “Volume Zero”, contando com as colaborações do duo Drumagick, Suely Mesquita, André Verselino, Zé Nigro, Rafael Fuca e do produtor Wendl (Kronk). Nesse mesmo ano, durante o período de divulgação do disco, foi selecionado para integrar o projeto Red Bull Music Academy, em Seattle. Lá, conheceu e realizou parcerias com importantes nomes como os produtores Leon Ware (Marvin Gaye, Quince Jones, Maxwell), XXXChange (Spank Rock, The Kills) e Vitamin D (Gift of Gab, Abstract Rude). Antes de voltar ao Brasil, fez ainda uma pequena turnê em Chicago, tocando em palcos da cena underground da cidade. Já em São Paulo, começou a produzir, ao lado de Guilherme Kastrup, o seu segundo disco: “A Vontade Superstar” (YB Music), lançado em 2009. Nesse mesmo ano, fez uma participação especial no álbum “Na Boca dos Outros”, de Kiko Dinucci. Em 2010, lançou o single “Bruno Morais no Estúdio A” e, no ano seguinte, “Bruno Morais no Estúdio A.2”, onde regravou “Sorriso Dela”, de Erasmo e Roberto Carlos. Disponibilizados para download gratuito, também tiveram versões em compacto. Auxiliando Pipo Pegoraro na produção de seu segundo álbum, “Táxi Imã” (YB Music), Bruno foi um dos responsáveis pela  formação da banda de afrobeat Bixiga 70. Em 2012, o músico lançou “A Vontade Superstar” em vinil e assinou contrato com a gravadora inglesa Black Brown & White, responsável por lançar, no mesmo ano, na Europa, o seu segundo álbum. Bruno recebeu boas críticas e destaque em diversas publicações estrangeiras, como The Guardian, Mojo, Le Monde, Les Inrocks e Spiegel Kultur. Ainda em 2012, participou, ao lado de Lulina, do projeto Lado A Lado B, lançando mais um compacto virtual.
Preparando-se para uma turnê europeia e as produções de mais um compacto e de seu próximo álbum, Bruno veio de férias para o Rio no início deste ano. O Banda Desenhada, aproveitando a chance, o convidou para esta entrevista, realizada no Estúdio Fotonauta, no bairro da Glória.

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outros bárbaros, tão doces, tão cruéis


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Ao redigir, durante as filmagens, o manifesto que deu suporte ao seu primeiro longa metragem, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), o cineasta Rogério Sganzerla acabou por definir o que seria conhecido no Brasil como cinema marginal: produções autorais de baixo custo, filmadas em super-oito, intencionalmente kitsch e caracterizadas pelo experimentalismo, o improviso e a colagem conflituosa de vários gêneros cinematográficos. Em seu filme, Sganzerla burilou na fala de seu personagem principal o que bem poderia tornar-se a definidora de toda a produção underground da época: “Quando não se pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba”. Em contraponto à grande mídia, o cinema marginal desenvolveu uma nova estética que possui muitos pontos em comum com a atual geração da música popular brasileira. Se a comparação, a princípio, pode parecer estapafúrdia, basta ater-se à história e a alguns trabalhos destes novos artistas para perceber as semelhanças. Forjada distante do grande mercado e em um processo quase artesanal, a neoMPB, assim como o cinema marginal, criou uma nova identidade à produção cultural do país, assumidamente fragmentada e caótica. Mesmo sem a virulência do cinema marginal, encontra-se certa dose de agressividade e de humor corrosivo em artistas como Rafael Castro, Lulina, Otto, Andreia Dias, Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Clarisse Falcão e Banda Uó. As tensões entre a alta e a baixa cultura, tão presentes nas produções da Boca do Lixo, são devidamente replicadas pela neoMPB, visto os trabalhos de Cidadão Instigado, João Brasil, Bonde do Rolê, Felipe Cordeiro, Gaby Amarantos, ou mesmo as regravações de hits da música romântica, do forró ou do pagode, como “Garçom” por Filipe Catto, “Você não vale nada” por Tiê e “Poderosa” pela dupla Letuce. O experimentalismo também se revela um ponto em comum, ao se ouvir os álbuns de Rabotnik, Guizado, Isadora, 1/2 Dúzia de 3 ou 4 e Metá Metá. Por fim, mas por certo o mais importante, vê-se nesta geração a mesma capacidade inventiva do cinema marginal, ao tomar para si, na maioria das vezes de forma precária, a quase totalidade da produção de seus trabalhos. Assim, Kiko Dinucci tornou-se o principal responsável pela arte de seus álbuns e de seus projetos paralelos; Tulipa utilizou um de seus trabalhos em Paintbrush como capa de seu disco de estreia, “Efêmera”; Ava Rocha, munida de sua experiência na área de audiovisual, criou diversos clipes experimentais para sua banda, AVA, assim como também o fez a dupla Letuce. De forma artesanal, com uma liberdade conquistada por sua independência e ciente de sua transitoriedade, a neoMPB tem aí as suas mais pertinentes e revolucionárias características que, verdadeiramente, criaram uma nova estética dentro da música popular brasileira.
Exemplo desta comparação, a dupla carioca Letuce, mesmo que não intencionalmente, parece renovar determinados valores apontados por Sganzerla na década de 60: desde o discurso sexual desconcertante de suas composições, passando pela forte presença da estética kitsch, até a confecção de clipes autorais e de baixo custo. Formada em 2008 pelo músico Lucas Vasconcellos e pela multiartista Letícia Novaes, a banda se tornou um dos principais nomes da cena independente carioca. O casal, um misto de Rita Lee e Roberto de Carvalho com Serge Gainsbourg e Jane Birkin, lançou seu primeiro álbum, “Plano de Fuga Para Cima dos Outros e de Mim” (Bolacha Discos) em 2009, seguindo para uma série de shows pelo país, incluindo os festivais Grito do Rock (Volta Redonda) e SWU (SP), e também pelo exterior -Paris e Londres-. Em 2011, a banda foi indicada ao Prêmio Multishow na categoria “Experimente”, além de ter sido uma das Apostas MTV. Neste mesmo ano, no Festival de Gramado, a dupla recebeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original de Longa Metragem pelo filme “Riscado”, de Gustavo Pizzi. Em 2012, através de um financiamento coletivo, o casal lançou seu segundo álbum,“Manja Perene”, e participou de “A Take Way Show”, série de filmes do cineasta e fotógrafo francês Vincent Moon, lançado em seu site, “La Blogothèque”. Também conhecidos por suas múltiplas atividades, Lucas e Letícia foram os responsáveis pelos projetos “Churrasquinho Sunset” - onde interpretaram sucessos radiofônicos nacionais e internacionais - e, juntamente com qinhO e a bateria da escola São Clemente, pelos anticonvencionais bailes carnavalescos do “Bloco dos Clementianos”. Atualmente, a dupla se apronta para o projeto “Palavras Cruzadas”, onde, acompanhada pelo cartunista André Dahmer e pela poeta Bruna Beber, transformará o centro cultural Oi Futuro Ipanema em uma grande embarcação e apresentará um repertório inédito e temático.
Mesmo ocupados com tantos projetos e uma intensa agenda de shows, Lucas e Letícia receberam o Banda Desenhada em sua casa, no Rio Comprido. A longa e bem humorada entrevista, devidamente acompanhada por um bœuf bourguignon e algumas garrafas de vinho, se deu em meio à comemoração de aniversário do primeiro ano do site. Nela, o casal fala de sua carreira, influências, da banda Binário – precursora de grande parte da atual cena carioca -, e a relação com a crítica e seus colegas de geração.

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nostalgia, that's what rock'n'roll is all about

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“Caetano Veloso surpreende ao fazer um álbum de rock”, “Um dos melhores álbuns de rock da década”, “Caetano ganha vigor em seu retorno ao rock”... Estas frases facilmente podem ser encontradas na maioria das resenhas a respeito do festejado disco “Cê” (2006). Inspirado em bandas como Pixies, TV on the Radio, Arct Monkeys, Caetano foi ovacionado por boa parte da mídia e do público ao voltar a abraçar um gênero que, há décadas, vem sendo considerado sinônimo de contemporaneidade. O rock, presente no país desde o final dos anos 50, em maior ou menor grau, tornou-se matéria-prima para boa parte de nossa produção musical, como a jovem guarda, o tropicalismo, o samba rock, o BRock, o manguebeat e a neoMPB. Sempre em constante mutação, o gênero foi absorvido por gerações e mais gerações de músicos brasileiros em suas diversas formas: desde o rockabilly, passando pelo folk, a psicodelia, o rock progressivo, o heavy metal, o punk, o pós-punk, a new wave, até o indie rock e os seus subgêneros.
Surgido em meados do século passado no sul dos Estados Unidos, o rock tem em seu berço a forte influência do blues e da country music. Entretanto, aos poucos, o gênero foi deixando de lado suas origens e seu caráter contracultural até se tornar um dos maiores signos da cultura pop. Vinculado a um forte marketing que atrelou sua imagem a um estilo de vida transgressor e inconsequente, o rock ultrapassou facilmente os limites da música, associando-se de forma indelével à juventude e ditando regras de moda e comportamento durante toda a sua história. Contestador e excelente laboratório para experimentações, o rock, por diversos momentos, também vem sendo utilizado como mero adereço de um sem número de modismos. Talvez, justamente por este caráter dúbio, conseguiu se perpetuar, tornado-se um elemento comum à boa parte da produção musical planetária e símbolo inconteste de uma eterna e almejada juventude.
É sobre este e outros tantos assuntos que o Banda Desenhada conversou esta semana com o guitarrista e produtor Pedro Sá. Integrante da Orquestra Imperial e da Banda Cê, com a qual acompanhou Caetano Veloso em seus últimos álbuns, Pedro também integrou a extinta e cultuada banda carioca Mulheres Q Dizem Sim, juntamente com Domenico Lancelotti, Palito e Maurício Pacheco. Considerado um dos grupos responsáveis pela atual cena musical brasileira, lançou apenas um álbum, em 1994, pela gravadora Warner. Sob a alcunha de Mike Balloni, Pedro participou depois da divertida e pouco conhecida Goodnight Varsóvia (também chamada Gold Nigth Varsóvia ou Gold Nyte Warsawa), ao lado de Kassin, Léo Monteiro, Moreno Veloso e Maurício Pacheco. O guitarrista  esteve presente ao lado de Lenine nos álbuns "O Dia que Faremos Contato" (1997) "Na Pressão" (1999) sendo, pouco tempo depois, convidado por Caetano Veloso para participar do “Noites do Norte” (2000), dando início assim à parceira que se estendeu nos anos seguintes. Paralelamente, Pedro colaborou com o projeto +2 e foi responsável por produzir o álbum de estreia de Rubinho Jacobina, “Rubinho e Força Bruta” (2005). Integrando a banda Cê, ao lado de Marcelo Callado e de Ricardo Dias Gomes,  o guitarrista foi responsável, juntamente com Moreno Veloso, pela produção de “Cê” e “Zii e Zie”(2009). O músico também participou do recente retorno de Gal Costa aos estúdios, gravando com sua guitarra o álbum “Recanto” (2011). Entre outras tantas iniciativas, Pedro ainda desenvolve, ao lado de Domenico, o projeto de improvisação “Vamos Estar Fazendo” e produz os novos álbuns de Rubinho Jacobina e de seu irmão, Jonas Sá, além  do disco de estreia de Moreno Veloso, com quem realizou uma série de shows intitulada "Parque 72".
Decididos a entender um pouco mais sobre a origem da atual produção músical brasileira, convidamos Pedro Sá para uma entrevista, onde o músico nos contou de sua carreira e deu opiniões sobre a atual cena:

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café e sinceridade quentes

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Romulo Fróes já havia cantado a pedra: “Existe uma cena que começa no disco do Mulheres Q Dizem Sim e que tem no Los Hermanos a sua maior expressão”. O disco da banda carioca, lançado pela Warner em 1994, não chegou a causar grande repercussão, mas tratava-se de um dos trabalhos mais criativos do cenário musical brasileiro daquele momento. Com forte acento pop rock, herdada da geração 80, as bandas surgidas na década de 1990 empregavam em seus trabalhos os mais diversos gêneros musicais como maracatu, baião, forró, rap, punk, reggae, funk e música eletrônica. Assim, destacaram-se bandas como Skank, Pato Fu, Raimundos, Mulheres Q Dizem Sim, Acabou La Tequila, Planet Hemp, O Rappa, Gangrena Gasosa, Catapulta, Professor Antena e, claro, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio e todo o restante da cena manguebeat. Mesmo que em alguns destes casos ainda fosse possível ver claramente a linhagem rocker, em outros, a música popular e a regional estavam tão impregnadas que tornava-se impossível classificá-los em algum gênero específico. O mesmo também ocorreu nas fileiras da chamada MPB, com a aparição de artistas como Marisa Monte, Pedro Luís, Carlinhos Brow, Adriana Calcanhotto, Zeca Baleiro e Chico César, responsáveis por renovar o cenário musical e tornar mais tênues os limites entre os estilos. Entretanto, se a MPB não teve muitas dificuldades em ser acolhida pelas gravadoras da época, o rock nacional acabou sendo absorvido por pequenos selos – em sua maioria, apêndices das majors. Assim, com orçamentos e infraestrutura bem mais modestos, surgiram os selos Banguela (Warner), Chaos (Sony), Plug (BMG), Tinitus (Polygram) e o Rock It!. Mesmo que ainda de forma pouco emblemática, foi possível perceber o nascimento de uma leva de artistas que ansiavam por sua independência, seja no processo de criação, produção ou mesmo em aspectos mais burocráticos do trabalho. Estas características se tornaram, uma década depois, a principal bandeira levantada por uma nova geração de músicos que, inseridos na cena independente e sem grandes diálogos com as mídias tradicionais, iniciaram um novo período da música popular brasileira.  
Oriundo do cenário musical dos anos 90, o músico Domenico Lancellotti é figura primordial no que se convencionou chamar de nova MPB. Filho do compositor Ivor Lancellotti, Domenico inicou sua carreira, ainda adolescente, como baterista do grupo Quarteto em Cy. Nos anos 90, uniu-se aos seus colegas de escola e criou a banda Mulheres Q Dizem Sim. Tempos depois, ao lado de Moreno Veloso e Alexandre Kassin, Domenico participou do cultuado projeto +2, responsável pelos álbuns “Máquina de Escrever Música”, de Moreno (2000); “Sincerely Hot”, de Domenico (2003); e “Futurismo”, de Kassin (2006). Nestes discos, o grupo acentuou seu flerte com a música eletrônica, o rock e a tradicional música brasileira. Ainda neste período, ao lado de seus amigos, formou em 2002 a Orquestra Imperial, a surreal e iconoclasta big band composta por quase duas dezenas de músicos, entre eles: Kassin, Pedro Sá, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Nelson e Rubinho Jacobina, Nina Becker, Thalma de Freitas, Wilson das Neves, Berna Ceppas e Stephane San Juan. Em 2007, junto com Stephane e Dany Roland, lançou "Os Ritmistas" (Dubas), onde explorou a diversidade da percussão. Dois anos depois, ao lado de Pedro Sá, iniciou o projeto de improvisação "Vamos Estar Fazendo". Finalmente em 2011 lançou pela gravadora Coqueiro Verde o seu álbum solo “oficial”, o elogiado “Cine Privê”, contando com as participações de Adriana Calcanhotto, Jorge Mautner e alguns de seus colegas da Orquestra.
Extremamente ativo na atual produção musical brasileira, Domenico foi convidado para uma entrevista ao Banda Desenhada. O músico, mesmo com fortes dores na coluna e saído de uma emergencial sessão de acupuntura, foi bastante solícito e nos encontrou em um café no bairro do Leblon. Lá, nos contou a respeito de sua carreira, a forte ligação com o samba e expôs a sua opinião sobre uma série de outros assuntos.

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o que te ilude é roliúde


fotos: daryan dornelles

Presente nos periódicos brasileiros desde a segunda década do século XIX, por um longo tempo a crítica musical limitou-se à produção erudita. Gonçalves Dias, José de Alencar, Martins Pena, Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis foram ilustres colaboradores dos jornais da época. Entretanto, em sua grande maioria, as críticas eram limitadas à descrição detalhada dos espetáculos operísticos e teatrais, além de divulgar intrigas, desavenças e polêmicas de seus bastidores. No início do século XX, ainda voltada para a música erudita, a crítica ganhou contornos literários, com Mário de Andrade, Murilo Mendes e Otto Maria Carpeaux sendo estes responsáveis por diversas resenhas em jornais e revistas. Somente após a Segunda Guerra, com o avanço da indústria fonográfica e o surgimento da cultura de massa, os periódicos passaram a dar atenção à musica pop, surgindo neste período as primeiras publicações voltadas ao gênero. No exterior, destacaram-se a inglesa New Music Express (1952) e a norte-americana Rolling Stone (1967). No Brasil, tardiamente, surgiram a Geração Pop (1972), Somtrês (1979), Pipoca Moderna (1980) e Bizz (1985), todas extintas atualmente.
Se, já em seus primeiros anos, a crítica musical brasileira já despertava animosidades, no decorrer de quase dois séculos e já devidamente adaptada ao formato pop, manteve-se, grosso modo, distante de uma efetiva análise estética ou musical. Muito mais preocupada em promover e abalizar novas tendências, a crítica tornou-se fomentadora de um circo midiático fortemente atrelado aos anseios do mercado fonográfico e, principalmente, aos caprichos de editores e redatores. Mesmo com a derrocada da indústria de discos e o impressionante avanço de sites e blogs independentes, o que se viu na última década foi, salvo raríssimas exceções, a reprodução dos mesmos modelos encontrados nos jornais e revistas tradicionais.
Pode-se questionar se esta perspectiva não seria um tanto natural em se tratando de um produto que, embora criativo e sujeito a preocupações estéticas, é submetido às leis de mercado. Mesmo os músicos independentes se vêem por vezes atrelados às grandes corporações para viabilizar seus projetos e dar continuidade às suas carreiras. Indo mais além, a própria cena musical contemporânea brasileira tem suas origens em artistas que, em maior ou menor grau, foram assimilados pela indústria de entretenimento, caso dos tropicalistas e do movimento manguebeat. Contudo, esta estrutura acabou criando um paradigma que vem se acentuando nos últimos anos: O ineditismo se tornou uma necessidade não mais exclusiva dos anseios estéticos do artista, mas também das grandes corporações e dos veículos de comunicação, objetivando a criação de tendências e comportamentos de consumo massivo. Se, por um lado, a música popular é fruto de contingências históricas e sociais, prevalecendo um amadorismo nato que a despe dos cânones acadêmicos e a torna um produto sedutor aos olhos da indústria e da mídia, por outro, chega a ser constrangedor que boa parte das resenhas dedicadas a ela não se atente aos seus elementos básicos - melodia, harmonia, ritmo, timbre, etc - ou mesmo a questões tecnoestéticas relativas à sua produção. Assim, o crítico musical acaba por deixar à mostra seu crivo ambíguo e por vezes perverso, onde a inaptidão ou a falta de interesse fazem de sua escrita nada mais que uma curadoria de suas predileções.
Assunto polêmico e que volta e meia vem à tona, o papel da crítica musical foi um dos temas abordados nesta acalorada entrevista com o produtor e multinstrumentista Kassin. Membro fundador da Orquestra Imperial, Kassin integrou o projeto +2, ao lado de Moreno Veloso e Domenico, o eletrônico e experimental Artificial e a banda Acabou La Tequila, considerada por muitos como uma das precursoras da atual cena musical brasileira. Sendo o produtor mais influente desta geração, Kassin esteve presente nos álbuns “Eu não peço desculpas” (2002), de Caetano Veloso e Jorge Mautner; “Cantada” (2002), de Adriana Calcanhotto; “Ventura” (2003) e “4” (2005), do Los Hermanos; “Sim” (2007), de Vanessa da Mata; “Peixes Pássaros Pessoas” (2009), de Mariana Aydar; entre outros. Também foi responsável pela trilha sonora do anime Michiko e Hatchin (2008) e de diversos espetáculos e programas de TV. Em 2011, finalmente lançou seu primeiro álbum solo, o elogiado “Sonhando devagar”.
Figura essencial para a compreensão da cena musical brasileira contemporânea, Kassin foi convidado pelo Banda Desenhada para esta entrevista. Em meio às gravações de uma trilha sonora e do novo álbum de Wilson das Neves, acabamos por levar o produtor para um local no mínimo inusitado: o anexo da Paróquia de Santa Cruz de Copacabana, localizada na cobertura de um antigo shopping, onde funciona uma escola de alfabetização. Lá, Kassin falou, entre outros assuntos, de seus trabalhos e das últimas polêmicas envolvendo os seus colegas de geração.

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adeus, batucada

romulo fróes | fotos: daryan dornelles



A música brasileira, em especial a de origem popular e distante do eixo Rio–São Paulo, por um longo tempo foi submetida a uma hierarquia criada pelas elites do país que buscavam como símbolo máximo de sofisticação e modernidade os modismos importados da Europa e, a partir da década de 1920, dos Estados Unidos. Prática esta assimilada e reproduzida por uma classe média que sempre se esforçou em maquiar seu status, repudiando gêneros como o samba, o forró e, mais recentemente, o pagode, o funk carioca e o tecnobrega. Mesmo incorporado de forma definitiva à identidade nacional a partir dos anos 30, o samba não foi capaz de retirar totalmente a aura de marginalidade que tanto o acompanhou. Somente a partir da década de 1960, com a segunda geração da bossa nova e o surgimento do tropicalismo, é que, aos poucos, deu-se início a desconstrução deste imaginário. Nesta época, de forma transgressora, Nara Leão era vista cantando composições dos sambistas das favelas cariocas e Caetano Veloso interpretava a trágica “Coração materno” de Vicente Celestino, além de dividir o palco com Odair José  no show Phono 73. Mais adiante, na primeira década do século XXI, surgiu uma nova geração de músicos que, sob os efeitos da pós-modernidade e de sua descrença, se mostrou capaz de abarcar referências tão díspares quanto o poeta e musicólogo Mário de Andrade, a compositora e performer Meredith Monk, o funk carioca e a Banda Calypso. Sendo influenciados por diversos artistas que até bem pouco tempo eram considerados de gosto duvidoso, estes músicos, em sua grande maioria independentes, começaram a produzir um som absolutamente novo, rompendo, sem alarde, as barreiras entre os gêneros e fazendo cair por terra qualquer tipo de possível hierarquia. Assim, vemos a influência da música brega e passional no som de Andreia Dias e Filipe Catto; a regravação de “Você não vale nada” da banda de forró Calcinha Preta por Tiê; a constante presença de pagodes radiofônicos no repertório da dupla Letuce; o diálogo de Kassin, Iara Rennó e Thalma de Freitas com a diva do tecnobrega Gaby Amarantos; e outros tantos exemplos. Sem vergonha de sua origem, a música brasileira produzida por esta geração, digital e globalizada, vem se caracterizando não só por sua diversidade, mas também pela ruptura com a tradicional MPB e por reiterar a máxima punk "Do it yourself".
Presença e voz constante tanto na atual cena musical quanto em seu debate, Romulo Fróes tornou-se um dos principais observadores e críticos de sua geração. Iniciou a sua carreira em 98 com a banda Losango Cáqui, com a qual lançou dois discos. Em 2001, já em vôo solo, lançou um EP, prensado em edição limitada pelo selo Bizarre. Dois anos depois, veio finalmente seu primeiro álbum: "Calado" (Bizarre Records), onde se destacava a forte influência do samba e as parcerias com os artistas plásticos Eduardo Climachauska, o Clima, e Nuno Ramos. Em seu segundo álbum, “Cão” (2006, YB Music) regravou “Mulher sem Alma”, música composta por uma de suas maiores influências: Nelson Cavaquinho. Em 2009, tentando fugir da pecha de “sambista indie”, Romulo lançou o elogiado e complexo “No chão sem o chão” (YB Music), álbum duplo que contou com a presença de Mariana Aydar, Nina Becker, Lanny Gordin, entre outros. No ano seguinte passou a se dedicar exclusivamente à música, deixando de lado seu trabalho de assistente do artista plástico Nuno Ramos. Em 2011 gravou o quarto álbum, “Um labirinto em cada pé”, disponibilizado para download em seu próprio site. Artista irrequieto, Romulo se uniu a Rodrigo Campos e Kiko Dinucci para lançar, em outubro, “Passo Torto”, projeto em que se aprofundou nas experimentações dentro do universo da música popular brasileira e, em especial, do samba.
Rodrigo, por sua vez, lançou seu álbum de estréia “São Mateus não é um lugar assim tão longe” em 2009, baseado em personagens e histórias retiradas de seu cotidiano no bairro da periferia de São Paulo. Lá, o músico viveu dos três aos 24 anos, começando cedo a participar de suas famosas rodas de samba, onde, com o seu cavaquinho, tocava o repertório dos cariocas Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Fundo de Quintal. Ainda como instrumentista, acompanhou diversos nomes da MPB, como Maria Rita, Vanessa da Mata, Paulo Moura e Fabiana Cozza. Entretanto, mesmo tendo o samba como cerne de seu trabalho, Rodrigo não se deixou levar pelo caminho mais fácil, “São Mateus não é um jugar assim tão longe” se destaca por seus arranjos pouco usuais que levam as canções para outro território, mais climático e repleto de texturas, lembrando, em alguns momentos, uma trilha sonora. Atualmente, além do projeto “Passo Torto”, Rodrigo vem se dedicando à gravação de seu novo álbum: “Bahia Fantástica”, onde, estendendo as suas referências, trouxe para a sua música o soul de Curtis Mayfield e Funkadelic e o misticismo baiano.
Envolvidos em mil e um projetos, Romulo e Rodrigo se uniram para uma apresentação no Rio de Janeiro, no Solar de Botafogo, em outubro passado. O Banda Desenha aproveitou a oportunidade e os entrevistou um pouco antes do show, em seu camarim. Lá, os músicos comentaram sobre seus trabalhos e Romulo, que já foi chamado de  “arauto da neo-MPB”, reiterou suas ideias a respeito de sua geração:

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O samba, a prontidão e outras bossas


fotos: daryan donelles

Se pudéssemos sistematizar toda a cena carioca dos últimos 20 anos, veríamos, com certa boa vontade, dois elementos fundamentais que, de um modo ou de outro, estiveram presentes em boa parte da produção deste período: o samba funk setentista de Jorge Bem Jor, Tim Maia e Banda Black Rio; e o multicolorido e performático BRock. Mesmo com o aparecimento na década de 1990 de uma nova geração de cantoras, como Cássia Eller, Marisa Monte e Fernanda Abreu, e grupos de rap e reggae como Cidade Negra, Planet Hemp e O Rappa, era ainda possível perceber em maior ou menor grau a influência destas duas escolas. Assim também se sucedeu na década posterior, com o surgimento, em 2002, da Orquestra Imperial. As festas promovidas pela trupe, ao mesmo tempo que remetiam às gafieiras e aos bailes black de Messiê Limá & Cia, em muito lembravam as transloucadas apresentações de bandas como Blitz, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso no seminal Circo Voador, no início da década de 1980. Em meio a esta atmosfera, Kassin, Domenico, Moreno Veloso, Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Thalma de Freitas, Nina Becker e demais músicos acabariam por gerar em grande parte o que hoje se denomina Nova MPB. E, entre tantos, ninguém melhor condensou estas duas alas da música carioca que Rubinho. As canções de seu primeiro álbum “Rubinho Jacobina e A Força Bruta” (2005), mesmo flertando com diversos gêneros, remetiam a quase todo instante ao debochado “rock de bermuda”, enquanto baixo e guitarras as impulsionavam a um inacreditável samba funk, criando a sonoridade que melhor representaria a sua geração.
Prestes a lançar o seu segundo álbum “Onde moras?”, Rubinho aceitou participar do Banda Desenhada, nos encontrando no centenário Café Lamas, no Flamengo (RJ). Ali, o músico falou sobre a sua carreira, processo de criação e relacionamento com a Neo MPB:

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romântica senhora tentação

fotos: daryan dornelles

Deixando de lado a Lapa, com os bambas e os seus sambas geniais, o atual cenário da música independente carioca começou a ganhar forma por volta de 2002, quando, em um total improviso, alguns músicos se uniram para criar uma inusitada big band. As divertidas apresentações e o repertório singular, misturando clássicos da gafieira com rock, jingles, heavy metal, funk e o que por ventura passasse por suas cabeças, tornou a Orquestra Imperial uma das maiores sensações da noite carioca. Já nos primeiros bailes, podia-se ver alguns dos músicos que pouco tempo depois se tornariam referências na música contemporânea brasileira: Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Domenico, Kassin, Thalma de Freitas, Rubinho Jacobina, Pedro Sá e Nina Becker.
Amiga dos meninos da banda e ainda trabalhando com direção de arte e cenografia, Nina entrou para a Orquestra substituindo Thalma de Freitas, que havia deixado seu lugar vago ao viajar para a Espanha. Com o seu retorno, a big band acabaria optando, sabiamente, em deixar as duas crooners dividirem os vocais e os palcos nas apresentações. Ainda envolvida em muitos projetos, incluindo aí a criação de uma grife, Nina lançou em 2007 seu primeiro trabalho solo, o EP Superluxo, e participou do álbum “Carnaval Só No Ano Que Vem”, da Orquestra Imperial. Dois anos depois, seria premiada pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), como melhor cantora. Mesmo com alguns problemas e com a saúde abalada, em 2010 Nina gravou dois álbuns, “Azul” e “Vermelho”, que acabariam figurando entre os melhores discos do ano em diversas revistas, sites e blogs.
Entre um show e outro e após algumas rápidas conversas, Nina Becker aceitou participar do Banda Desenhada. A entrevista, que transcorreu em um inicialmente tranquilo café no bairro do Humaitá (RJ), acabou tendo indevidas participações especiais: talheres, bandejas caindo, chícaras tilintanto e as garçonetes de vozes estridentes que, depois de certo tempo, mais pareciam pastoras de velha guarda. Então, para não encher de onomatopéias o texto, sugerimos que entre no clima, pegue um bom chá de hortelã, erva cidreira ou camomila e curta a entrevista:

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a dama do castelo

fotos: daryan dornelles

E mais uma vez o Banda Desenha se aventurou por Santa Teresa (RJ), adentrando o reino do Miradouro. Em seus poucos meses de existência, a casa/estúdio/laboratório/QG de Thalma de Freitas tornou-se um ponto de referência na cidade ao se falar de cultura e, principalmente, música. A atriz e cantora, integrante da Orquestra Imperial, optou por trilhar um caminho próprio: sem o menor interesse em se envolver com a burocracia do mainstream e com determinação e coragem para criar projetos mil, Thalma empenhou seus esforços na criação de seu próprio “reino”, onde músicos e artistas de variadas áreas, provenientes de diversas regiões do país e do exterior, se encontram e dialogam, promovendo uma confluência que, acima de tudo, instiga o pensamento criativo e a produção cultural. Através de registros audiovisuais, grande parte das ideias ali fermentadas será, posteriormente, divulgada no site do Miradouro, ainda em fase de construção.
 Por conta desta empreitada e por sua participação ativa na cena musical paulistana e carioca, convidamos a “dama do castelo” para uma entrevista. Thalma iniciou nossa conversa de forma, no mínimo, inusitada: em sua cozinha, fazendo um bolo de chocolate. Por fim, acabamos sendo convidados para o jantar. Convite irrecusável. Confiram, então, esta deliciosa patuscada:

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