la banda usurpada vol. 1 – são, são paulo meu amor

fotomontagem: márcio bulk
Não, não é bairrismo, juro. Bem, pelo menos não daquele tipo clichê que, com certeza, você já leu em algum lugar por aí. Está mais para inveja branca, do bem. Afinal, desde que surgiu, a nova cena musical de São Paulo vem colhendo muitos frutos e, a cada dia, ganhando mais força. Ok, você poderá falar que os “novos paulistas”, a nova MPB ou (aff!) a neoMPB de Sampa só têm este enorme destaque por conta da grana que ergue e destrói coisas belas. Mas estamos começando o ano e não serei eu a falar mal desses meninos. Quero tocar em outro assunto, talvez um pouco clichê para você, algo sobre amor e generosidade.
No início de dezembro, fui à gravação do especial de fim de ano do Cultura Livre, programa de rádio capitaneado por Roberta Martinelli e que há algum tempo ganhou espaço também na TV. Era o “Show da Virada”, tipo réveillon em Copacabana só que indie (por favor, leia esta última palavra com toda a ironia do universo). No palco, passaram 18 artistas que representaram de forma significativa o que há de mais interessante na atual música popular brasileira. Tulipa Ruiz, Leo Cavalcanti, Marcia Castro, Filipe Catto, Blubell, Kiko Dinucci, Rafael Castro, Juçara Marçal, Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Pélico, Felipe Cordeiro, Letuce, Bárbara Eugênia, Rael, Laura Lavieri e – nem tão novo MPBista assim – Mauricio Pereira se apresentaram ora individualmente, ora em parcerias, tendo sempre como banda de apoio os heroicos meninos de O Terno. Bem no meio dessa festa tão imodesta, pela hora da contagem regressiva, todos foram ao palco cantar “Gente Aberta”, canção de Erasmo Carlos que inicia com os proverbiais versos: “Eu não quero mais conversa/ Com quem não tem amor”. Era possível ver a felicidade estampada no rosto de cada um da trupe. Entre um intervalo e outro, os próprios artistas iam para a plateia, fazendo bela fuzarca e se divertindo como poucos. Nos bastidores, enquanto Blubell e Tulipa Ruiz usavam e abusavam do Instagram, Letícia Novaes fazia o mapa astral de Filipe Catto. Este, cantarolava com Bárbara Eugênia uma música do rei. De forma cômica, Leo Cavalcanti dava bronca em Pélico por saber melhor a letra de “Se Você me Perguntar” do que o próprio autor. A videomaker Nina Cavalcanti, irmã de Leo, providenciava bebidinhas para a jornada de mais de quatro horas de gravação. Assim, de forma displicente, o clima de festa serviu para demonstrar o porquê da cena paulistana ter dado tanto certo. Ali, em meio aos artistas e fãs, também se encontravam produtores, jornalistas, blogueiros e afins. Estes, em grande parte responsáveis por fomentar a cena, estavam no mesmo clima dos demais: Zé Pedro, do selo Jóia Moderna, não escondia o entusiasmo durante as apresentações, assim como o jornalista Marcus Preto e Cristina Chehab (colaboradora dos blogs Musicoteca e Banda Desenhada).
Bem, e eis que finalmente chego ao ponto principal desta história: o amor e a generosidade. Mais do que jogos de interesse e guerra de egos, naturais no meio artístico, o que se viu durante todo o processo de gravação do programa foi uma enorme vontade de que tudo desse certo. Diversos profissionais e amigos de fato se confraternizavam por acreditar no trabalho e na força daqueles artistas. E, sinceramente, sinto que é isto que falta à cena carioca. Enquanto não houver um grupo unido de profissionais que fomente a cena, enquanto não houver igual generosidade por parte dos artistas, enquanto não houver mais entusiastas, será muito difícil termos uma visibilidade próxima à da cena de São Paulo. Claro que nós cariocas nos esforçamos. Como não reconhecer a importância de trabalhos como os programas de rádio Faro MPB e Geleia Moderna, o projeto “Levada Oi Futuro”, ou blogs como Já Ouviu? e – desculpem a falta de modéstia  –, Banda Desenhada? Entretanto, ainda é pouco. Muito pouco. Então, considere isso um puxão de orelha, daqueles bem dados. Tipo de mãe, que depois de falar mil vezes com o filho endiabrado, perde a pouca paciência e manda ver. Tipo de quem vive na cidade maravilhosa há mais de 20 anos e quer muito que ela dê certo, que a sua música dê certo. Então, por favor, está na hora de colocarmos egos, mesquinharias e afins de lado e partir para a ação. Ou como bem diz certa dupla carioca que conhece bem sua seara: “Why carão? Love carinho”.


por márcio bulk


originalmente publicado na revista RODA #0

roquenrol bim-bom


apanhador só (da esquerda para a direita): fernão agra, felipe zancanaro, martin estevez e alexandre kumpinski | fotos: daryan dornelles

Desde os anos 60, o Rio Grande do Sul abastece o cenário musical brasileiro com um sem número de influentes bandas de rock. O gênero, que já se fazia presente na Porto Alegre da década de 1950, animava os salões de bailes e festas com os conjuntos melódicos Norberto Baldauf, Renato e Seu Conjunto, Flamboyant, Flamingo, Stardust, Mocambo e Poposky e Seus Melódicos. Entretanto, o rock só ganhou destaque na década seguinte, com o surgimento da joverguardista Os Brasas e, mais à frente, a Liverpool. Esta, com forte influência da tropicália e do rock inglês, foi rebatizada em 1971 de Bicho da Seda, tornando-se a banda mais emblemática da história do rock gaúcho.
A segunda metade dos anos 70 foi extremamente prolífera para a cena da região: com o apoio dos jornais e, principalmente, da Rádio Continental AM, diversos artistas conseguiram registrar e divulgar seus trabalhos, destacando-se os Almôndegas – de Kleiton e Kledir –, Hermes de Aquino, Bizarro, Bobo da Corte, Inconsciente Coletivo, Hallai Hallai, Gilberto Travi e o Cálculo IV, entre outros. A década de 1980, por sua vez, foi marcada pela coletânea Rock Grande do Sul. Lançado em 1985 pela gravadora RCA, o álbum apresentava as bandas DeFalla, Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, TNT e Garotos da Rua. A partir daí, viu-se a ampliação e consolidação do rock produzido nos Pampas, caracterizando-se tanto por sua intensa produção quanto pela diversidade. Com referências capazes de variar do indie rock ao funk carioca, bandas como Acústicos & Valvulados, Papas da Língua, Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Comunidade Nin-Jitsu, Cartolas, Superguidis, Pública, Pata de Elefante e Apanhador Só conquistaram espaço e ingressaram no cenário pop rock nacional.
Destacando-se das demais bandas por sua forte ligação com a música popular brasileira, Apanhador Só foi exaustivamente comparado ao grupo carioca Los Hermanos e, por tabela, incluído no hall da neoMPB. A banda, inicialmente formada por amigos de colégio, é atualmente composta por Alexandre Kumpinski (vocal e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), André Zinelli (bateria) e Fernão Agra (baixo). Em 2006, lançou seu primeiro EP, “Embrulho Pra Levar”, ganhando com ele o Festival de Bandas Trama Universitário. Dois anos depois, o grupo promoveu seu segundo e homônimo EP, tendo conseguido, após algumas tentativas frustradas, a aprovação de seu disco de estreia pelo Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre). Lançado em 2010, “Apanhador Só” figurou nas listas de melhores discos do ano em boa parte das revistas e sites  especializados, ganhando também o Prêmio Açorianos de Música nas categorias de “Melhor Álbum Pop”, “Melhor Produtor Musical” (Marcelo Fruet) e “Melhor Projeto Gráfico” (Rafael Rocha). O disco, além de sua versão física, foi disponibilizado para download gratuito no site da banda. Logo em seguida, o grupo se lançou no projeto que há tempos vinha desenvolvendo, o “Acústico-Sucateiro”, realizando pequenos shows em espaços públicos e utilizando como instrumentos sucata e outros objetos inusitados (conduíte, cantil, panela, sineta de recepção, etc.). Desta experimentação, surgiu o álbum “Acústico-Sucateiro” (2011), gravado na sala de casa de Alexandre e  comercializado no formato de fita cassete. Este ano, em meio aos preparativos para o novo álbum que sairá em 2013, a banda lançou “Paraquedas”, um compacto em vinil com duas faixas produzidas por Curumin e Zé Nigro, estreitando assim os laços com a já notória cena paulistana.
Em meio à turnê para a divulgação de seu último clipe, “Nescafé”, Apanhador Só esteve em abril no Rio de Janeiro, onde se apresentou no Studio RJ ainda com o seu antigo baterista, Martin Estevez. Aproveitamos a ocasião e convidamos Alexandre e Felipe para esta entrevista. Após a seção de fotos na cobertura de um shopping em Copacabana, a dupla nos falou de sua carreira, rock gaúcho, Los Hermanos e tropicalismo, entre outros assuntos.

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cuide de você






O título desta entrevista não poderia ser mais apropriado: retirado da mostra autobiográfica da artista plástica francesa Shopie Calle que passou pelo país há três anos, “Cuide de você” causou polêmica por ter como ponto de partida o e-mail de separação que o escritor Grégoire Bouillier a enviou.  A artista não se fez de rogada e o utilizou como matéria-prima para um novo trabalho, reenviando-o para mais de uma centena de mulheres a mensagem de seu ex-namorado para que estas a interpretassem através de textos, vídeos e fotos. Com o extenso material em mãos, Sophie o expôs na Bienal de Veneza de 2007.
Não chegando a tamanha exposição de sua vida privada, o músico paulista Pélico também optou por incursionar pelo seu universo afetivo para confeccionar o elogiado álbum “Que fique entre nós”, lançado em 2011 pela YB Music. Inspirado nas agruras por que passou ao dar fim ao seu casamento, Pélico exorcizou seus fantasmas através da música. Sem temer cair no ridículo e abordando o tema de forma passional, o músico se aproximou da estética cafona dos anos 70 e do samba-canção. Três anos antes, mesmo que envolvido por uma roupagem psicodélica, Pélico já demonstrava certo fascínio por este universo estético ao lançar seu segundo disco, “O último dia de um homem sem juízo”. Seu primeiro álbum, “Melodrama”, lançado em 2003 e imediatamente renegado pelo próprio músico, já vislumbrava, por seu próprio título, o seu envolvimento com o universo de Hervivelto Martins, Ataulfo Alves e outros tantos compositores da era de ouro do rádio.
Vindo de férias para o Rio no início deste ano, Pélico aceitou participar do Banda Desenhada, falando de seu processo criativo, sua participação no tributo ao Los Hermanos, a influência do BRock e a NeoMPB:

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entre cabelos, olhos e furacões

fotos: daryan dornelles




Filipe Catto poderia ser facilmente apontado como o enfant terrible de sua geração. Ainda na adolescência, o cantor e compositor gaúcho já se dedicava à música, gravando suas canções de forma caseira e se apresentando em saraus e bares de Porto Alegre. Nessa época, chegou a integrar algumas bandas como Catto & Os Corujas, Ácido Vinil e Nancy Nancy, até lançar seu primeiro trabalho, o EP “Saga”, em 2009, atraindo a atenção de público e crítica com sua voz e interpretação peculiares.
No ano seguinte, já radicado em São Paulo, Filipe assinou contrato com a gravadora Universal, lançando em 2011 seu álbum de estreia, “Fôlego”. Nele, reuniu canções autorais e de outros composições, como Zé Ramalho, Arnaldo AntunesReginaldo Rossi e seus conterrâneos Cachorro Grande e Nei Lisboa. Assim, sem premeditar, Filipe adotou uma postura que o distinguiu de seus demais colegas. Sendo um dos pouquíssimos artistas de sua geração a pertencer ao casting de uma major, o músico trouxe para o seu canto um tom teatral que remete às grandes cantoras do passado, como Elis ReginaMaria Bethânia, traduzindo uma reverência que contrasta e muito com o desapego e a busca por novas linguagens que tão bem caracterizam a cena independente. Em meio a estas questões e sendo constantemente comparado a Ney Matogrosso, Felipe conseguiu ainda assim se mostrar um intérprete de fôlego, produzindo um trabalho que, ao seu modo, acrescenta novos ingredientes à atual música brasileira.
Em fase de divulgação de seu álbum e já iniciando a turnê de lançamento, Filipe recebeu o Banda Desenhada após duas apresentações no Rio de Janeiro. No saguão do hotel onde estava hospedado, no centro da cidade, o cantor nos falou a respeito de sua carreira, influências e, inevitavelmente, de suas diferenças e semelhanças com seus colegas de geração:

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de papel crepom e prata


thalma touro e tigre | foto de yuri pinheiro

O primeiro contato com o trabalho do ilustrador Gabriel Mar foi enigmático: poucos meses atrás, durante a entrevista com a cantora e compositora Iara Rennó, uma imagem colada à parade, bem acima de sua cabeça, me chamava a atenção. Tratava-se de uma espécie de colagem, quase uma mandala, repleta de animais e plantas selvagens que emolduravam um retrato. Multicolorido e de forte referência ssessentista, a figura era magnetizante. Algum tempo se passou e novamente fui ao Miradouro, local de encontro de diversos artistas e morada não só de Iara Rennó, mas também da então entrevistada Thalma de Freitas. Não resisti e a indaguei sobre o autor do trabalho. Por sorte, Thalma me contou que o menino prodígio era mais um habitante da casa e que possuía um portfólio repleto de ilustrações, pôsters e capas de CDs de artistas da nova música brasileira. Por certo, suas colagens caíam como uma luva nas experimentações estéticas desta nova geração, marcada tanto por sua pluralidade quanto por sua inquietude. 
Não pensei duas vezes e logo convidei Gabriel para uma entrevista ao Banda Desenhada. Como de hábito, não faltaram participações especiais: Thalma e Felipe Benoliel, do coletivo carioca Apavoramento Sound System e também morador do Miradouro, fizeram pequenas intervenções na conversa que tive com o designer/ilustrador. Confiram agora o nosso colóquio: 

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