NO EMBALO DO AMOR V.1

do amor (da esq. para a dir.): gabriel mayall, gustavo benjão, ricardo dias gomes e marcelo callado | fotos: daryan dornelles
Caetano Veloso, Nina Becker, Canastra, Lafayette & Os Tremendões, Silvia Machete, Jonas Sá, Los Hermanos, Lucas Santtana, Nervoso e os Calmantes, Alice Caymmi, Totonho & Os Cabra, Rubinho Jacobina, Zumbi do Mato, Brasov, Tulipa Ruiz, +2, Quito Ribeiro, Jorge Mautner, Branco Mello, Iara Rennó... A lista de artistas e projetos que contam ou contaram com a colaboração dos integrantes da banda Do Amor é bastante longa e serve para demonstrar a importância de Marcelo Callado (bateria e voz), Gabriel Mayall (guitarra e voz), Gustavo Benjão (guitarra e voz) e Ricardo Dias Gomes (baixo e voz) na atual produção musical brasileira.

O grupo carioca é formado por amigos de longa data que, há mais de uma década, atuam no cenário musical da cidade. Entretanto, Do Amor só tomou forma com o lançamento do EP homônimo, em 2007. Sob a produção de Chico Neves, o primeiro álbum, Do Amor, foi lançado três anos depois, em parceria com os selos + Brasil Música e Estúdio 304. A banda se apresentou em diversas regiões do país, além da Europa e América Latina. No final de 2011, Marcelo, Gabriel, Gustavo e Ricardo se isolaram em uma fazenda no município de Três Rios (RJ), no interior do estado, para elaborar seu trabalho seguinte, Piracema (Disco Maravilha). Produzido por Daniel Carvalho, o álbum contou com a participação de Arto Lindsay, Moreno Veloso, Alice Caymmi, Donatinho, Pedro Sá, Rodrigo Amarante, entre outros. Piracema foi lançado em 2012 e recebeu bastante elogios da imprensa especializada, entrando nas listas de melhores do ano em diversas publicações. Nesse mesmo período, Do Amor também participou de dois tributos: Coletânea Re-Trato (Musicoteca, 2012) e Agenor (Joia Moderna, 2013), em homenagem a Los Hermanos e Cazuza, respectivamente.

Após convidar os integrantes do grupo para a entrevista, o Banda Desenhada foi encontrá-los em um restaurante no bairro do Humaitá, onde conversamos a respeito de sua trajetória, processo criativo e influências.

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sem preconceito ou mania de passado

fotos: daryan dornelles
Nos últimos anos, uma nova geração de músicos cariocas ganhou destaque em blogs e jornais locais. Flertando em maior ou menor grau com a MPB e o indie rock, nomes como Cícero, Letuce, Tono e Do Amor, somados aos veteranos da Orquestra Imperial, configuraram a cena independente da cidade. Paralelamente, outros grupos também se desenvolveram e ganharam destaque, como o samba da Lapa, o Coletivo Chama e a cena experimental. Contudo, se é fato que esta última nunca teve grandes dificuldades em dialogar com seus colegas indies, também se tornou perceptível a quase ausência de diálogo entre os outros grupos. Ausência esta provocada, na maioria das vezes, por polêmicas e posicionamentos artísticos conflitantes.
É sobre estas e outras questões que conversamos esta semana com o cantor e compositor Fernando Temporão. O músico começou a sua carreira na Lapa em 2005, onde integrou o grupo Sereno da Madrugada, com quem lançou, em 2010, o álbum “Modificado” (Biscoito Fino). Dois anos depois, em parceria com João Callado, Fernando gravou o disco “Primeira Nota” (Biscoito Fino), com participações especiais de Mônica Salmaso, Teresa Cristina, Moyseis Marques, Áurea Martins e Marcos Sacramento. Em 2013, sob a produção de Kassin e Alberto Continentino e contando com a presença de Domenico Lancelotti, Donatinho, Stéphane Sanjuan, entre outros, o músico lançou seu primeiro álbum solo, “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. O disco, de forte influência pop e facilmente inserível no nicho indie carioca, foi disponibilizado para download gratuito pelo Musicoteca.
Interessados em saber a respeito de sua experiência no samba carioca e de seu diálogo com seus colegas de geração, convidamos Fernando para uma entrevista ao Banda Desenhada. O músico nos recebeu em seu apartamento, no bairro do Jardim Botânico (RJ) e nos falou de seus tempos de Lapa, da cena da cidade e de seu álbum.

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quedas e curvas

fotos: daryan dornelles
Em 2013, o Banda Desenhada realizou a primeira de uma série de entrevistas onde jornalistas de diversas capitais do país analisam a cena local. Na ocasião, coube a Marcus Preto a tarefa de relatar a evolução e a ascensão da cena independente paulistana. Agora, colocado em situação mais espinhosa, Leonardo Lichote analisa o cenário carioca, sua crise e desdobramentos, relacionando-os com a atual e conturbada conjuntura política do país.
Atuando desde 2001 como repórter e crítico musical do jornal O Globo, Lichote colaborou com o livro de memórias de Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (Objetiva), sendo responsável por assinar o seu texto final. Também é autor dos textos críticos que acompanham a caixa de Chico Buarque, “De Todas as Maneiras” (Universal), que contém os 22 primeiros discos do artista. Comentarista do programa Faro MPB (rádio MPB FM) e jurado dos dois principais prêmios de música do país  Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira , Lichote também é uma das figuras mais presentes e incentivadoras do cenário independente carioca.
A entrevista que se segue, desenvolveu-se ao longo de alguns meses, com algumas interrupções e retomadas, em meio a longas conversas e uma troca constante de e-mails.

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faíscas das britas e leite das pedras


fotos: daryan dornelles

Final dos anos 80. Após praticamente uma década com seu foco direcionado exclusivamente às bandas e aos artistas de pop rock, a música brasileira viu surgir um trio de cantoras que, ao retomar valores tão caros ao tropicalismo, se tornou ícone de sua geração e abriu espaço para que dezenas de outras artistas ganhassem visibilidade. Marisa Monte (“MM”, 1989), Adriana Calcanhotto (“Enguiço”, 1990) e Cássia Eller (“Cássia Eller”, 1990), ao lançarem seus álbuns de estreia, traziam consigo o estigma do ecletismo, que, visto por olhos um pouco mais apurados, remetia claramente à tão decantada antropofagia modernista e ao sincretismo estético, marcas registradas da Tropicália. Não por acaso, Marisa e Adriana gravaram respectivamente em seus álbuns “South American Way” e “Disseram Que Eu Voltei Americanizada”, em uma referência direta a um dos símbolos do tropicalismo: Carmen Miranda. Vanguarda de sua geração, Marisa Monte fez de seu primeiro disco um caldeirão de referências onde música italiana, jovem guarda, jazz, samba e rhythm and blues dialogavam sem pudores entre si. Adriana Calcanhotto, por sua vez, com sua postura bossanovista e humor peculiar, foi mais além, mostrando, ainda que timidamente, composições de sua própria lavra, como “Enguiço” e “Mortaes”. Por fim, Cássia Eller, com voz e performance rascantes, conseguiu sinalizar de forma contundente o que se tornou uma das principais características da geração seguinte: a atitude rock'n'roll e anárquica mesmo ao abraçar gêneros tidos tradicionais, como, por exemplo, o samba. Marisa e Adriana ainda têm como importantíssimo mérito dar fim ao machismo que, ao longo da história, dominou o universo da composição e produção musical brasileira. Ao se firmarem como compositoras e tomarem para si as rédeas de suas carreiras, inauguraram um novo cenário.
Pensar nos feitos destas três mulheres é importantíssimo para a análise da atual geração. Mesmo que pouco comentado, Cássia Eller, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são, direta ou indiretamente, responsáveis pelo surgimento das dezenas de cantoras/compositoras da chamada neoMPB. Seria no mínimo injusto deixá-las de lado ao pensar no espaço que hoje ocupam artistas como Vanessa da Mata,  Mariana Aydar, Roberta Sá, CéU, Tiê, Andreia Dias, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Marcia Castro, Ava Rocha, Luísa Maita, Nina Becker, entre outras.
Com mais de vinte anos de carreira e vencedora de dois Grammy Latino (“Melhor Álbum infantil”, 2006; e “Melhor Canção Brasileira”, 2010), Adriana Calcanhotto já lançou onze álbuns, incluindo os três de seu projeto infantil “Adriana Partimpim”. A partir de 2002, com o disco “Cantada”, a artista começou um intenso diálogo com músicos da nova geração, como o projeto +2 e a banda Los Hermanos. Conhecida por seu forte envolvimento com a literatura e as artes plásticas, Adriana já musicou poemas de Waly Salomão, Pedro Kilkerry, Carlos Drumond de Andrade e Mário de Sá Carneiro, além de fazer constantemente referência às obras de Hélio Oiticia. Em 2008, publicou o livro “Saga Lusa” (Editora Cobogó, 2008), onde relatou um surto psicótico induzido por medicamentos que a abateu durante a turnê do disco “Maré”, em Lisboa. Três anos depois, assinou as ilustrações do livro infantil "Melchior, o mais melhor" (Cobogó), do artista plástico Vik Muniz. Ainda em turnê com “Micróbio do Samba” (2011), seu último álbum de estúdio, Adriana recebeu o Banda Desenhada no escritório de sua assessoria e nos falou de sua carreira, da importância do tropicalismo e da relação com a atual cena musical brasileira.

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nostalgia, that's what rock'n'roll is all about

fotos: daryan dornelles
“Caetano Veloso surpreende ao fazer um álbum de rock”, “Um dos melhores álbuns de rock da década”, “Caetano ganha vigor em seu retorno ao rock”... Estas frases facilmente podem ser encontradas na maioria das resenhas a respeito do festejado disco “Cê” (2006). Inspirado em bandas como Pixies, TV on the Radio, Arct Monkeys, Caetano foi ovacionado por boa parte da mídia e do público ao voltar a abraçar um gênero que, há décadas, vem sendo considerado sinônimo de contemporaneidade. O rock, presente no país desde o final dos anos 50, em maior ou menor grau, tornou-se matéria-prima para boa parte de nossa produção musical, como a jovem guarda, o tropicalismo, o samba rock, o BRock, o manguebeat e a neoMPB. Sempre em constante mutação, o gênero foi absorvido por gerações e mais gerações de músicos brasileiros em suas diversas formas: desde o rockabilly, passando pelo folk, a psicodelia, o rock progressivo, o heavy metal, o punk, o pós-punk, a new wave, até o indie rock e os seus subgêneros.
Surgido em meados do século passado no sul dos Estados Unidos, o rock tem em seu berço a forte influência do blues e da country music. Entretanto, aos poucos, o gênero foi deixando de lado suas origens e seu caráter contracultural até se tornar um dos maiores signos da cultura pop. Vinculado a um forte marketing que atrelou sua imagem a um estilo de vida transgressor e inconsequente, o rock ultrapassou facilmente os limites da música, associando-se de forma indelével à juventude e ditando regras de moda e comportamento durante toda a sua história. Contestador e excelente laboratório para experimentações, o rock, por diversos momentos, também vem sendo utilizado como mero adereço de um sem número de modismos. Talvez, justamente por este caráter dúbio, conseguiu se perpetuar, tornado-se um elemento comum à boa parte da produção musical planetária e símbolo inconteste de uma eterna e almejada juventude.
É sobre este e outros tantos assuntos que o Banda Desenhada conversou esta semana com o guitarrista e produtor Pedro Sá. Integrante da Orquestra Imperial e da Banda Cê, com a qual acompanhou Caetano Veloso em seus últimos álbuns, Pedro também integrou a extinta e cultuada banda carioca Mulheres Q Dizem Sim, juntamente com Domenico Lancelotti, Palito e Maurício Pacheco. Considerado um dos grupos responsáveis pela atual cena musical brasileira, lançou apenas um álbum, em 1994, pela gravadora Warner. Sob a alcunha de Mike Balloni, Pedro participou depois da divertida e pouco conhecida Goodnight Varsóvia (também chamada Gold Nigth Varsóvia ou Gold Nyte Warsawa), ao lado de Kassin, Léo Monteiro, Moreno Veloso e Maurício Pacheco. O guitarrista  esteve presente ao lado de Lenine nos álbuns "O Dia que Faremos Contato" (1997) "Na Pressão" (1999) sendo, pouco tempo depois, convidado por Caetano Veloso para participar do “Noites do Norte” (2000), dando início assim à parceira que se estendeu nos anos seguintes. Paralelamente, Pedro colaborou com o projeto +2 e foi responsável por produzir o álbum de estreia de Rubinho Jacobina, “Rubinho e Força Bruta” (2005). Integrando a banda Cê, ao lado de Marcelo Callado e de Ricardo Dias Gomes,  o guitarrista foi responsável, juntamente com Moreno Veloso, pela produção de “Cê” e “Zii e Zie”(2009). O músico também participou do recente retorno de Gal Costa aos estúdios, gravando com sua guitarra o álbum “Recanto” (2011). Entre outras tantas iniciativas, Pedro ainda desenvolve, ao lado de Domenico, o projeto de improvisação “Vamos Estar Fazendo” e produz os novos álbuns de Rubinho Jacobina e de seu irmão, Jonas Sá, além  do disco de estreia de Moreno Veloso, com quem realizou uma série de shows intitulada "Parque 72".
Decididos a entender um pouco mais sobre a origem da atual produção músical brasileira, convidamos Pedro Sá para uma entrevista, onde o músico nos contou de sua carreira e deu opiniões sobre a atual cena:

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café e sinceridade quentes

fotos: daryan dornelles

Romulo Fróes já havia cantado a pedra: “Existe uma cena que começa no disco do Mulheres Q Dizem Sim e que tem no Los Hermanos a sua maior expressão”. O disco da banda carioca, lançado pela Warner em 1994, não chegou a causar grande repercussão, mas tratava-se de um dos trabalhos mais criativos do cenário musical brasileiro daquele momento. Com forte acento pop rock, herdada da geração 80, as bandas surgidas na década de 1990 empregavam em seus trabalhos os mais diversos gêneros musicais como maracatu, baião, forró, rap, punk, reggae, funk e música eletrônica. Assim, destacaram-se bandas como Skank, Pato Fu, Raimundos, Mulheres Q Dizem Sim, Acabou La Tequila, Planet Hemp, O Rappa, Gangrena Gasosa, Catapulta, Professor Antena e, claro, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio e todo o restante da cena manguebeat. Mesmo que em alguns destes casos ainda fosse possível ver claramente a linhagem rocker, em outros, a música popular e a regional estavam tão impregnadas que tornava-se impossível classificá-los em algum gênero específico. O mesmo também ocorreu nas fileiras da chamada MPB, com a aparição de artistas como Marisa Monte, Pedro Luís, Carlinhos Brow, Adriana Calcanhotto, Zeca Baleiro e Chico César, responsáveis por renovar o cenário musical e tornar mais tênues os limites entre os estilos. Entretanto, se a MPB não teve muitas dificuldades em ser acolhida pelas gravadoras da época, o rock nacional acabou sendo absorvido por pequenos selos – em sua maioria, apêndices das majors. Assim, com orçamentos e infraestrutura bem mais modestos, surgiram os selos Banguela (Warner), Chaos (Sony), Plug (BMG), Tinitus (Polygram) e o Rock It!. Mesmo que ainda de forma pouco emblemática, foi possível perceber o nascimento de uma leva de artistas que ansiavam por sua independência, seja no processo de criação, produção ou mesmo em aspectos mais burocráticos do trabalho. Estas características se tornaram, uma década depois, a principal bandeira levantada por uma nova geração de músicos que, inseridos na cena independente e sem grandes diálogos com as mídias tradicionais, iniciaram um novo período da música popular brasileira.  
Oriundo do cenário musical dos anos 90, o músico Domenico Lancellotti é figura primordial no que se convencionou chamar de nova MPB. Filho do compositor Ivor Lancellotti, Domenico inicou sua carreira, ainda adolescente, como baterista do grupo Quarteto em Cy. Nos anos 90, uniu-se aos seus colegas de escola e criou a banda Mulheres Q Dizem Sim. Tempos depois, ao lado de Moreno Veloso e Alexandre Kassin, Domenico participou do cultuado projeto +2, responsável pelos álbuns “Máquina de Escrever Música”, de Moreno (2000); “Sincerely Hot”, de Domenico (2003); e “Futurismo”, de Kassin (2006). Nestes discos, o grupo acentuou seu flerte com a música eletrônica, o rock e a tradicional música brasileira. Ainda neste período, ao lado de seus amigos, formou em 2002 a Orquestra Imperial, a surreal e iconoclasta big band composta por quase duas dezenas de músicos, entre eles: Kassin, Pedro Sá, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Nelson e Rubinho Jacobina, Nina Becker, Thalma de Freitas, Wilson das Neves, Berna Ceppas e Stephane San Juan. Em 2007, junto com Stephane e Dany Roland, lançou "Os Ritmistas" (Dubas), onde explorou a diversidade da percussão. Dois anos depois, ao lado de Pedro Sá, iniciou o projeto de improvisação "Vamos Estar Fazendo". Finalmente em 2011 lançou pela gravadora Coqueiro Verde o seu álbum solo “oficial”, o elogiado “Cine Privê”, contando com as participações de Adriana Calcanhotto, Jorge Mautner e alguns de seus colegas da Orquestra.
Extremamente ativo na atual produção musical brasileira, Domenico foi convidado para uma entrevista ao Banda Desenhada. O músico, mesmo com fortes dores na coluna e saído de uma emergencial sessão de acupuntura, foi bastante solícito e nos encontrou em um café no bairro do Leblon. Lá, nos contou a respeito de sua carreira, a forte ligação com o samba e expôs a sua opinião sobre uma série de outros assuntos.

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o que te ilude é roliúde


fotos: daryan dornelles

Presente nos periódicos brasileiros desde a segunda década do século XIX, por um longo tempo a crítica musical limitou-se à produção erudita. Gonçalves Dias, José de Alencar, Martins Pena, Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis foram ilustres colaboradores dos jornais da época. Entretanto, em sua grande maioria, as críticas eram limitadas à descrição detalhada dos espetáculos operísticos e teatrais, além de divulgar intrigas, desavenças e polêmicas de seus bastidores. No início do século XX, ainda voltada para a música erudita, a crítica ganhou contornos literários, com Mário de Andrade, Murilo Mendes e Otto Maria Carpeaux sendo estes responsáveis por diversas resenhas em jornais e revistas. Somente após a Segunda Guerra, com o avanço da indústria fonográfica e o surgimento da cultura de massa, os periódicos passaram a dar atenção à musica pop, surgindo neste período as primeiras publicações voltadas ao gênero. No exterior, destacaram-se a inglesa New Music Express (1952) e a norte-americana Rolling Stone (1967). No Brasil, tardiamente, surgiram a Geração Pop (1972), Somtrês (1979), Pipoca Moderna (1980) e Bizz (1985), todas extintas atualmente.
Se, já em seus primeiros anos, a crítica musical brasileira já despertava animosidades, no decorrer de quase dois séculos e já devidamente adaptada ao formato pop, manteve-se, grosso modo, distante de uma efetiva análise estética ou musical. Muito mais preocupada em promover e abalizar novas tendências, a crítica tornou-se fomentadora de um circo midiático fortemente atrelado aos anseios do mercado fonográfico e, principalmente, aos caprichos de editores e redatores. Mesmo com a derrocada da indústria de discos e o impressionante avanço de sites e blogs independentes, o que se viu na última década foi, salvo raríssimas exceções, a reprodução dos mesmos modelos encontrados nos jornais e revistas tradicionais.
Pode-se questionar se esta perspectiva não seria um tanto natural em se tratando de um produto que, embora criativo e sujeito a preocupações estéticas, é submetido às leis de mercado. Mesmo os músicos independentes se vêem por vezes atrelados às grandes corporações para viabilizar seus projetos e dar continuidade às suas carreiras. Indo mais além, a própria cena musical contemporânea brasileira tem suas origens em artistas que, em maior ou menor grau, foram assimilados pela indústria de entretenimento, caso dos tropicalistas e do movimento manguebeat. Contudo, esta estrutura acabou criando um paradigma que vem se acentuando nos últimos anos: O ineditismo se tornou uma necessidade não mais exclusiva dos anseios estéticos do artista, mas também das grandes corporações e dos veículos de comunicação, objetivando a criação de tendências e comportamentos de consumo massivo. Se, por um lado, a música popular é fruto de contingências históricas e sociais, prevalecendo um amadorismo nato que a despe dos cânones acadêmicos e a torna um produto sedutor aos olhos da indústria e da mídia, por outro, chega a ser constrangedor que boa parte das resenhas dedicadas a ela não se atente aos seus elementos básicos - melodia, harmonia, ritmo, timbre, etc - ou mesmo a questões tecnoestéticas relativas à sua produção. Assim, o crítico musical acaba por deixar à mostra seu crivo ambíguo e por vezes perverso, onde a inaptidão ou a falta de interesse fazem de sua escrita nada mais que uma curadoria de suas predileções.
Assunto polêmico e que volta e meia vem à tona, o papel da crítica musical foi um dos temas abordados nesta acalorada entrevista com o produtor e multinstrumentista Kassin. Membro fundador da Orquestra Imperial, Kassin integrou o projeto +2, ao lado de Moreno Veloso e Domenico, o eletrônico e experimental Artificial e a banda Acabou La Tequila, considerada por muitos como uma das precursoras da atual cena musical brasileira. Sendo o produtor mais influente desta geração, Kassin esteve presente nos álbuns “Eu não peço desculpas” (2002), de Caetano Veloso e Jorge Mautner; “Cantada” (2002), de Adriana Calcanhotto; “Ventura” (2003) e “4” (2005), do Los Hermanos; “Sim” (2007), de Vanessa da Mata; “Peixes Pássaros Pessoas” (2009), de Mariana Aydar; entre outros. Também foi responsável pela trilha sonora do anime Michiko e Hatchin (2008) e de diversos espetáculos e programas de TV. Em 2011, finalmente lançou seu primeiro álbum solo, o elogiado “Sonhando devagar”.
Figura essencial para a compreensão da cena musical brasileira contemporânea, Kassin foi convidado pelo Banda Desenhada para esta entrevista. Em meio às gravações de uma trilha sonora e do novo álbum de Wilson das Neves, acabamos por levar o produtor para um local no mínimo inusitado: o anexo da Paróquia de Santa Cruz de Copacabana, localizada na cobertura de um antigo shopping, onde funciona uma escola de alfabetização. Lá, Kassin falou, entre outros assuntos, de seus trabalhos e das últimas polêmicas envolvendo os seus colegas de geração.

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romântica senhora tentação

fotos: daryan dornelles

Deixando de lado a Lapa, com os bambas e os seus sambas geniais, o atual cenário da música independente carioca começou a ganhar forma por volta de 2002, quando, em um total improviso, alguns músicos se uniram para criar uma inusitada big band. As divertidas apresentações e o repertório singular, misturando clássicos da gafieira com rock, jingles, heavy metal, funk e o que por ventura passasse por suas cabeças, tornou a Orquestra Imperial uma das maiores sensações da noite carioca. Já nos primeiros bailes, podia-se ver alguns dos músicos que pouco tempo depois se tornariam referências na música contemporânea brasileira: Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Domenico, Kassin, Thalma de Freitas, Rubinho Jacobina, Pedro Sá e Nina Becker.
Amiga dos meninos da banda e ainda trabalhando com direção de arte e cenografia, Nina entrou para a Orquestra substituindo Thalma de Freitas, que havia deixado seu lugar vago ao viajar para a Espanha. Com o seu retorno, a big band acabaria optando, sabiamente, em deixar as duas crooners dividirem os vocais e os palcos nas apresentações. Ainda envolvida em muitos projetos, incluindo aí a criação de uma grife, Nina lançou em 2007 seu primeiro trabalho solo, o EP Superluxo, e participou do álbum “Carnaval Só No Ano Que Vem”, da Orquestra Imperial. Dois anos depois, seria premiada pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), como melhor cantora. Mesmo com alguns problemas e com a saúde abalada, em 2010 Nina gravou dois álbuns, “Azul” e “Vermelho”, que acabariam figurando entre os melhores discos do ano em diversas revistas, sites e blogs.
Entre um show e outro e após algumas rápidas conversas, Nina Becker aceitou participar do Banda Desenhada. A entrevista, que transcorreu em um inicialmente tranquilo café no bairro do Humaitá (RJ), acabou tendo indevidas participações especiais: talheres, bandejas caindo, chícaras tilintanto e as garçonetes de vozes estridentes que, depois de certo tempo, mais pareciam pastoras de velha guarda. Então, para não encher de onomatopéias o texto, sugerimos que entre no clima, pegue um bom chá de hortelã, erva cidreira ou camomila e curta a entrevista:

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