CANTO PUNHALADA

fotos: daryan dornelles

A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

Ao escrever o poema “A palo seco” (Quaderna, Guimarães Editores, 1960), João Cabral de Melo Neto evidenciou o que lhe era mais caro em seu ofício: a busca por uma escrita exata e contundente, mimetizada à rudeza do sertão nordestino e ao canto flamenco. Uma poesia sem rodeios e aguda. Como Encarnado, primeiro álbum solo de Juçara Marçal. O disco foi lançado de forma independente em fevereiro deste ano e vem sendo considerado por diversos jornalistas e críticos musicais como um dos melhores de 2014. Interpretando canções onde vida e morte se embatem a todo instante, Juçara dá voz a personagens extremamente fortes que, em situações limítrofes, percorrem uma via crucis onde já não há mais espaço para jogos ou floreios. É tudo ou nada. É “o cante a palo seco/sem o tempero ou ajuda”. Contudo, diferente do poema, o canto de Juçara nunca se faz só. Mesmo ao interpretar canções pontuadas pela desolação, é através da confiança em seus parceiros que a artista vem construindo sua carreira ao longo dos anos.

Intérprete de voz singular, Juçara tornou-se uma das mais importantes cantoras da música brasileira contemporânea. Nasceu em Duque de Caxias (RJ), mas foi, ainda criança, para São Caetano do Sul (SP), mudando-se, em seguida, para São Sebastião (SP). Radicada na capital paulista desde o início dos anos 90, iniciou sua carreira artística ao integrar a Companhia Coral, sob a regência do maestro Samuel Kerr e direção cênica de Willian Pereira. Ingressou em 1991 no grupo Vésper Vocal, com quem lançou quatro discos: Flor d’Elis (Dabliú Discos, 1998), Noel Adoniran  180 anos de samba (Eldorado, 2002), Ser tão paulista (CPC-Umes, 2004) e Vésper na lida (Pôr do Som, 2013). Em 1998, tomou parte do grupo A Barca, com quem realizou uma extensa pesquisa na área de cultura popular, o que resultou em dois álbuns, Turista aprendiz (CPC-Umes, 2000) e Baião de princesas (CPC-Umes, 2002), além de Trilha, toada e trupé (Cooperativa de Música, 2006), caixa com três CDs e um DVD,  e a Coleção Turista Aprendiz (Cooperativa de Música, 2010), contendo vários registros sonoros e sete curtas. Em 2007, ao lado do violonista e compositor Kiko Dinucci, iniciou sua parceria mais prolífera, lançando o disco Padê (2007, Cooperativa de Música). No ano seguinte, formou com Kiko e o saxofonista Thiago França o trio Metá Metá. Com o Metá Metá, lançou dois álbuns: Metá Metá (Desmonta, 2011) e Metal Metal (independente, 2012). O trio ganhou, em 2013, o Prêmio Multishow de “Música compartilhada”, tendo sido também indicado às categorias “Disco do ano” e “Versão do ano”, com a canção “Let’s Play That” de Jards Macalé, regravada no disco E volto para curtir (Banda Desenhada Records,2013). O grupo já realizou turnês em diversos estados do país, além da Europa e América Latina. Em 2014, Juçara lançou Encarnado. No disco, interpretou canções de seus colegas Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França, além de Itamar Assumpção, Tom Zé, Siba, entre outros.

Em turnê de lançamento de seu álbum, Juçara veio ao Rio, onde se apresentou em curta temporada na Audio Rebel. Aproveitamos a oportunidade para entrevistá-la em um passeio pelo Largo do Machado e o bairro do Flamengo. Ali, conversamos a respeito de sua carreira, parcerias, vanguarda paulista e muito mais.

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CROCODILOS, TUBARÕES E AVES DANINHAS

fotos: daryan dornelles
Lançamentos de boxes comemorativos, discos tributos, shows, filmes e livros... Com o aparecimento e a popularidade de uma nova geração de artistas independentes em São Paulo, assistiu-se nos últimos anos o redescobrimento de uma das cenas mais importantes da música popular brasileira: a vanguarda paulista. Surgida no final dos anos 70 e desenvolvendo um som bastante peculiar, a vanguarda foi, em boa parte, rejeitada pelas majors e pelo mainstream, o que prejudicou e muito a sua difusão. Entretanto, com as mudanças do mercado fonográfico e sendo constantemente citados por nomes da nova geração, Ná Ozzetti, Arrigo Barnabé, Luiz Tatit, Itamar Assumpção, Alzira E, Suzana Salles e outros artistas dessa cena passaram a ganhar uma atenção bastante expressiva de um público jovem e curioso por seus trabalhos.

O paranaense Arrigo começou sua carreira ainda em Londrina. Em 1973, venceu o Festival Universitário de Música da cidade com a canção “Lástima”. Em 1976, já radicado em São Paulo, montou o conjunto Navalha, integrado por Antônio Carlos Tonelli (baixo), Itamar Assumpção (voz e guitarra) e seu irmão, Paulo Barnabé (bateria). Em 1979, saiu vitorioso do Festival Universitário da Canção da TV Cultura, interpretando com a banda Sabor de Veneno a música “Diversões Eletrônicas”. Em 1980, lançou de forma independente o cultuado Clara Crocodilo. O disco foi considerado um marco na música popular brasileira ao dialogar com elementos da cultura pop e da música erudita contemporânea. Por este trabalho, Arrigo foi premiado no ano seguinte na categoria “Revelação” pela APCA (Associação dos Críticos de Arte de São Paulo). Inspirado em uma história em quadrinhos de Luiz Gê, gravou Tubarões Voadores (Ariola, 1984). Em 1988, promoveu o seu álbum mais comercial, Suspeito (3M). Entretanto, sem o retorno esperado, voltou à produção independente, lançando a seguir o disco ao vivo Façanhas (Camerati, 1992). Em 1998, pela gravadora Núcleo Contemporâneo, lançou a ópera Gigante Negão, gravada ao vivo, em 1990, no Palace, em São Paulo. No ano seguinte, em uma releitura de seu trabalho mais festejado, lançou A Saga de Clara Crocodilo (Tranx God Records). Em 2004, passou a apresentar o programa Supertônica, na Rádio Cultura de São Paulo. Neste mesmo ano, compôs Missa In Memorian Itamar Assumpção, em homenagem ao amigo que morreu em 2003. A obra foi lançada, dois anos depois, pelo selo Thanx God Records/Tratore. Em 2008, acompanhado de Paulo Braga, lançou Clara Crocodilo – Uma Suíte A Quatro Mãos, gravado ao vivo em 2004, no Teatro Nacional S. João, no Porto (Portugal). Em comemoração aos 30 anos de Clara..., Arrigo gravou ao lado da Orquestra à Base de Sopro de Curitiba um DVD (Arrigo Barnabé & Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, Tratore, 2010) contendo a remontagem de sua ópera rock e a inédita “A Metamorfose”. Em 2011, fez o lançamento do DVD Caixa de Ódio, onde interpreta composições de Lupicínio Rodrigues. Gravado em 2009 na Casa de Francisca, em São Paulo, o espetáculo percorreu várias capitais do país.

O músico foi premiado por diversas trilhas sonoras, como Janete (1983), Estrela Nua (1985), Cidade Oculta (1986), Vera (1987), Lua Cheia (1988) e Doutores da Alegria (2005). Como ator, esteve presente nos filmes O Olho Mágico Do Amor (José Antônio Garcia e Ícaro Martins, 1981), Cidade Oculta (Chico Botelho, 1986), Nem Tudo É Verdade (Rogério Sganzerla, 1986), Anjos da Noite (Wilson Barros, 1987), Desmundo (Alain Fresnot, 2003) e Luz nas Trevas (Helena Ignez, 2012), participando também da novela Direito de Amar ( Rede Globo, 1987).

De passagem pelo Rio com a remontagem de Clara Crocodilo e envolvido com os projetos Pô, Amar é Importante e Cevando o Amargo, onde interpreta, respectivamente, canções de Hermelino Neder e Lupicínio Rodrigues, Arrigo nos encontrou no estúdio Audio Rebel, em Botafogo. Lá, o músico nos falou a respeito de sua carreira, de seus projetos, da vanguarda paulista e da nova geração da MPB.

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ultrapássara

fotos: daryan dornelles
Sim, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia sempre foram consideradas referências fundamentais para grande parte das cantoras deste país. Entretanto, em meados de 2000, com o desenvolvimento da cena independente paulistana, outro nome de igual importância começou a ganhar destaque: Ná Ozzetti.
A cantora iniciou sua carreira no final dos anos 70 ao ingressar no grupo Rumo, um dos principais representantes da vanguarda paulista. Com ele, Ná gravou seis discos, recentemente relançados em uma caixa, em edição especial. Com o seu primeiro disco solo “Ná Ozzetti” (Continental), de 1988, ganhou os prêmios Sharp e Lei Sarney, na categoria "Cantora Revelação". Seu segundo álbum, “Ná” (1994, Núcleo Contemporâneo), recebeu dois prêmios Sharp, na categoria Pop/Rock, “Melhor Disco” e “Melhor Arranjador” (Dante Ozzetti). Dois anos depois, a convite da gravadora Dabliú, lançou "Love Lee Rita", homenageando a cantora e compositora Rita Lee. Em 1999, pela Ná Records, lançou o elogiadíssimo “Estopim”, reforçando o elo com seus parceiros mais constantes: Luiz Tatit, seu irmão Dante Ozzetti, José Miguel Wisnik e Itamar Assumpção. No ano seguinte, participou do Festival da Música Brasileira, promovido pela TV Globo, ganhando o prêmio de melhor intérprete. Por conta disto, gravou no ano seguinte, pela Som Livre, o  disco “Show”.  Em 2005, em parceria com o pianista André Mehmari, lançou “Piano e Voz” (MDC), gravando posteriormente uma de suas apresentações para o DVD homônimo. Em “Balangandãs” (Ná Records/MCD), lançado em 2009, a cantora revisitou alguns clássicos do repertório de Carmen Miranda, ganhando com ele o 5º Prêmio Bravo! Prime de Cultura. Para comemorar seus 30 anos de carreira, Ná lançou, em 2011, seu disco mais autoral, “Meu Quintal”. Deste álbum, sua parceria com Luiz Tatit, “Equilíbrio”, foi indicada na categoria “Melhor Canção Brasileira” no Latin Grammy Awards. Este ano, após iniciar um produtivo diálogo com alguns nomes da nova cena paulistana, Ná lançou seu nono álbum, “Embalar” (Ná Records/Circus), contando com diversos colaboradores e parceiros, entre eles, Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Tulipa Ruiz.
Influência perceptível no canto de Tulipa Ruiz, Andreia Dias, Paula Mirhan (Filarmônica de Pasárgada), Iara Rennó, Rhaissa Bittar, Mariana Degani (ex-Loungetude46) e outras cantoras da atual cena paulistana, Ná Ozzetti foi convidada para esta entrevista pelo Banda Desenhada. Após a sessão de fotos, que se realizou em uma tarde chuvosa na praia do Leme (RJ), fomos com a cantora a um bistrô, onde conversamos a respeito de sua carreira, influências, vanguarda paulista e a nova cena independente.

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quem sabe, esta cidade me significa

fotos: daryan dornelles
Curitiba já não é mais a mesma. Ou melhor, Curitiba já não é mais a mesma há pelo menos uns dois anos. Nessa época, o clipe viral "Oração" d'A Banda Mais Bonita da Cidade chamou a atenção de todo o país, fazendo com que boa parte das mídias do eixo Rio-São Paulo voltasse sua atenção para a capital paranaense. E o que se encontrou foi algo bem diferente do que se imaginava: a cena curtibana não se resumia a meia dúzia de gatos pingados, ao contrário, tratava-se de dezenas de artistas que, tendo referências das mais diversas, formavam um dos cenários mais complexos da música independente brasileira. Surgidos no decorrer dos últimos dez anos, nomes como A Banda Mais Bonita da Cidade, Karol Conka, felixbravo, Banda Gentileza, Leo Fressato, Bonde do Rolê, Música de Ruiz, Boss in Drama, Ana Larousse, AUDAC, Esperanza, Janaina Fellini, Copacabana Clube, Luiz Felipe Leprevost, Tangerine and Elephants, Crocodilla, Trem Fantasma, Lemoskine, Simonami, Plexo Solar, Cabes MC, Uh La La!, Colorphonic, Savave, Confraria da Costa, Naked Girls & Aeroplanes, Cinema Mudo e Subburbia são apenas uma amostra da diversidade da produção local.
Integrando anteriormente a banda Casca de Nós, com quem lançou o disco “Tudo Tem Recheio”, o casal Téo Ruiz e Estrela Leminski criou o projeto Música de Ruiz em 2004. Dois anos depois, lançou seu primeiro disco homônimo, juntamente com o livro “Contra-Indústria”, onde abordou temas relacionados a produção musical brasileira. Filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz, Estrela também dedicou-se à literatura, participando de antologias poéticas e publicando dois livros: “Cupido, Cuspido, Escarrado” e “Poesia é Não”. Em 2011, a dupla lançou o álbum "São Sons”, contando com diversas parceiras e participações especiais, entre elas, Ceumar, Kléber Albuquerque, Ná Ozzetti, Anelis Assumpção, Carlos Careqa, Janaína Fellini e André Abujamra. Estrela e Téo se apresentaram em vários festivais e projetos pelo país, como a Feira Internacional de Música de Fortaleza, Empório da Música de Goiânia, Festival de Inverno de Garanhuns e Itaú Cultural, além do Festival Bossanova, na Argentina, e na Fiesta de la Música e no Festival de las Artes de Castilla y León, na Espanha. Após o lançamento, em 2013, do DVD “São Sons” e do EP virtual “São Sons Ao Vivo”, a dupla passou a se dedicar à produção de um álbum duplo com músicas compostas por Paulo Leminski. O disco conta, até o momento, com as participações de Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, André Abujamra, Anelis Assumpção, entre outros.
Em julho deste ano, Estrela e Téo vieram ao Rio se apresentar no festival Levada Oi Futuro. Aproveitamos a oportunidade e o convidamos para uma entrevista ao Banda Desenhada. A dupla, foi ao estúdio Fotonauta, em Santa Teresa, e conversou conosco a respeito de sua carreira, cena curitibana, vanguarda paulista e, claro, Paulo Liminski .

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todos os rumos

fotos: daryan dornelles


Todos já ouviram até a exaustão a respeito da crise que, há mais de uma década, assolou o mercado fonográfico. Entre discursos alarmistas e outros tantos pragmáticos, o que ficou claro é que, de fato, a época de ouro das grandes gravadoras havia chegado ao fim. Ao longo dos últimos anos, em meio ao encolhimento do mercado, foi bastante perceptível a atuação das majors para manter seu status: desde o enxugamento de seu casting, passando por uma feroz e ainda presente guerra contra a pirataria e a terceirização e reestruturação de suas funções. Vivendo um processo de reconfiguração, onde tanto a produção quanto a circulação e o consumo foram alterados, a indústria musical tradicional viu surgir novos modelos de negócios provenientes da ascensão de poderosas corporações de serviços online, que, por sua vez, possibilitaram o crescimento de um mercado independente até então bastante precário no país. Com modelos de negócios alternativos e a utilização de ferramentas digitais acessíveis – como as rádios online, podcasting, streaming e plataformas como MySpace, YouTube e Facebook – artistas independentes, pequenas gravadoras e outros agentes culturais ganharam visibilidade. Sem esperar pela antiga infraestrutura das majors e o lucro proveniente da venda de CDs, uma nova geração de artistas assumiu o controle da produção e distribuição de seus álbuns, passando a rentabilizar suas músicas através de shows e da sua utilização em publicidade, trilhas sonoras de filmes e games. Assim, paralelamente à parcial perda de força das grandes gravadoras, os editais de fomento à cultura adquiriram enorme importância juntamente com os financiamentos coletivos, o que colaborou para que produtores e assessorias de imprensa obtivessem um papel de destaque no cenário atual.
Mesmo que ainda seja possível questionar a real democratização dos meios de difusão de música no país, tornou-se evidente que apenas com as mudanças ocorridas nos últimos anos foi possível o surgimento e o êxito de nomes como Criolo, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e Cícero, bem como a consolidação de gravadoras de pequeno e médio porte, distribuidoras independentes, coletivos e sites alternativos especializados na divulgação desses artistas.
É sobre este e outros assuntos que conversamos com o cantor e compositor paranaense Bruno Morais. Vindo do teatro, atuou em 1997 na montagem “Alice Através do Espelho”, da companhia de teatro Armazém. Dois anos depois, formou a banda Madame Brechot, onde interpretava clássicos do samba, soul, funk e samba jazz. Gravado entre Londrina e São Paulo, onde vive atualmente, Bruno lançou em 2005 seu primeiro álbum, “Volume Zero”, contando com as colaborações do duo Drumagick, Suely Mesquita, André Verselino, Zé Nigro, Rafael Fuca e do produtor Wendl (Kronk). Nesse mesmo ano, durante o período de divulgação do disco, foi selecionado para integrar o projeto Red Bull Music Academy, em Seattle. Lá, conheceu e realizou parcerias com importantes nomes como os produtores Leon Ware (Marvin Gaye, Quince Jones, Maxwell), XXXChange (Spank Rock, The Kills) e Vitamin D (Gift of Gab, Abstract Rude). Antes de voltar ao Brasil, fez ainda uma pequena turnê em Chicago, tocando em palcos da cena underground da cidade. Já em São Paulo, começou a produzir, ao lado de Guilherme Kastrup, o seu segundo disco: “A Vontade Superstar” (YB Music), lançado em 2009. Nesse mesmo ano, fez uma participação especial no álbum “Na Boca dos Outros”, de Kiko Dinucci. Em 2010, lançou o single “Bruno Morais no Estúdio A” e, no ano seguinte, “Bruno Morais no Estúdio A.2”, onde regravou “Sorriso Dela”, de Erasmo e Roberto Carlos. Disponibilizados para download gratuito, também tiveram versões em compacto. Auxiliando Pipo Pegoraro na produção de seu segundo álbum, “Táxi Imã” (YB Music), Bruno foi um dos responsáveis pela  formação da banda de afrobeat Bixiga 70. Em 2012, o músico lançou “A Vontade Superstar” em vinil e assinou contrato com a gravadora inglesa Black Brown & White, responsável por lançar, no mesmo ano, na Europa, o seu segundo álbum. Bruno recebeu boas críticas e destaque em diversas publicações estrangeiras, como The Guardian, Mojo, Le Monde, Les Inrocks e Spiegel Kultur. Ainda em 2012, participou, ao lado de Lulina, do projeto Lado A Lado B, lançando mais um compacto virtual.
Preparando-se para uma turnê europeia e as produções de mais um compacto e de seu próximo álbum, Bruno veio de férias para o Rio no início deste ano. O Banda Desenhada, aproveitando a chance, o convidou para esta entrevista, realizada no Estúdio Fotonauta, no bairro da Glória.

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la banda usurpada vol. 1 – são, são paulo meu amor

fotomontagem: márcio bulk
Não, não é bairrismo, juro. Bem, pelo menos não daquele tipo clichê que, com certeza, você já leu em algum lugar por aí. Está mais para inveja branca, do bem. Afinal, desde que surgiu, a nova cena musical de São Paulo vem colhendo muitos frutos e, a cada dia, ganhando mais força. Ok, você poderá falar que os “novos paulistas”, a nova MPB ou (aff!) a neoMPB de Sampa só têm este enorme destaque por conta da grana que ergue e destrói coisas belas. Mas estamos começando o ano e não serei eu a falar mal desses meninos. Quero tocar em outro assunto, talvez um pouco clichê para você, algo sobre amor e generosidade.
No início de dezembro, fui à gravação do especial de fim de ano do Cultura Livre, programa de rádio capitaneado por Roberta Martinelli e que há algum tempo ganhou espaço também na TV. Era o “Show da Virada”, tipo réveillon em Copacabana só que indie (por favor, leia esta última palavra com toda a ironia do universo). No palco, passaram 18 artistas que representaram de forma significativa o que há de mais interessante na atual música popular brasileira. Tulipa Ruiz, Leo Cavalcanti, Marcia Castro, Filipe Catto, Blubell, Kiko Dinucci, Rafael Castro, Juçara Marçal, Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Pélico, Felipe Cordeiro, Letuce, Bárbara Eugênia, Rael, Laura Lavieri e – nem tão novo MPBista assim – Mauricio Pereira se apresentaram ora individualmente, ora em parcerias, tendo sempre como banda de apoio os heroicos meninos de O Terno. Bem no meio dessa festa tão imodesta, pela hora da contagem regressiva, todos foram ao palco cantar “Gente Aberta”, canção de Erasmo Carlos que inicia com os proverbiais versos: “Eu não quero mais conversa/ Com quem não tem amor”. Era possível ver a felicidade estampada no rosto de cada um da trupe. Entre um intervalo e outro, os próprios artistas iam para a plateia, fazendo bela fuzarca e se divertindo como poucos. Nos bastidores, enquanto Blubell e Tulipa Ruiz usavam e abusavam do Instagram, Letícia Novaes fazia o mapa astral de Filipe Catto. Este, cantarolava com Bárbara Eugênia uma música do rei. De forma cômica, Leo Cavalcanti dava bronca em Pélico por saber melhor a letra de “Se Você me Perguntar” do que o próprio autor. A videomaker Nina Cavalcanti, irmã de Leo, providenciava bebidinhas para a jornada de mais de quatro horas de gravação. Assim, de forma displicente, o clima de festa serviu para demonstrar o porquê da cena paulistana ter dado tanto certo. Ali, em meio aos artistas e fãs, também se encontravam produtores, jornalistas, blogueiros e afins. Estes, em grande parte responsáveis por fomentar a cena, estavam no mesmo clima dos demais: Zé Pedro, do selo Jóia Moderna, não escondia o entusiasmo durante as apresentações, assim como o jornalista Marcus Preto e Cristina Chehab (colaboradora dos blogs Musicoteca e Banda Desenhada).
Bem, e eis que finalmente chego ao ponto principal desta história: o amor e a generosidade. Mais do que jogos de interesse e guerra de egos, naturais no meio artístico, o que se viu durante todo o processo de gravação do programa foi uma enorme vontade de que tudo desse certo. Diversos profissionais e amigos de fato se confraternizavam por acreditar no trabalho e na força daqueles artistas. E, sinceramente, sinto que é isto que falta à cena carioca. Enquanto não houver um grupo unido de profissionais que fomente a cena, enquanto não houver igual generosidade por parte dos artistas, enquanto não houver mais entusiastas, será muito difícil termos uma visibilidade próxima à da cena de São Paulo. Claro que nós cariocas nos esforçamos. Como não reconhecer a importância de trabalhos como os programas de rádio Faro MPB e Geleia Moderna, o projeto “Levada Oi Futuro”, ou blogs como Já Ouviu? e – desculpem a falta de modéstia  –, Banda Desenhada? Entretanto, ainda é pouco. Muito pouco. Então, considere isso um puxão de orelha, daqueles bem dados. Tipo de mãe, que depois de falar mil vezes com o filho endiabrado, perde a pouca paciência e manda ver. Tipo de quem vive na cidade maravilhosa há mais de 20 anos e quer muito que ela dê certo, que a sua música dê certo. Então, por favor, está na hora de colocarmos egos, mesquinharias e afins de lado e partir para a ação. Ou como bem diz certa dupla carioca que conhece bem sua seara: “Why carão? Love carinho”.


por márcio bulk


originalmente publicado na revista RODA #0

samba tarja preta


fotos: daryan dornelles

Agregadora. Esta é muito provavelmente a melhor palavra para designar a atual produção musical brasileira. Muito por conta da severa crise por que passa o mercado fonográfico, surgiu nos últimos anos, mais acentuadamente em São Paulo, uma nova e diversificada geração de artistas independentes cujos trabalhos vêm se caracterizando pela intensa cooperação de instrumentistas e produtores. Estes, se tornaram responsáveis por fomentar o diálogo entre os representantes desta nova cena, criando, ainda que de forma tênue, perceptíveis afinidades estéticas. Assim, Fernando Catatau, Gustavo Ruiz, Régis Damasceno, Guilherme Held, Dustan Gallas, Marcelo Cabral, Kassin, Pedro Sá, Thiago França, entre outros, vêm afirmando com seus trabalhos o caráter colaborativo da nova música brasileira.
Proveniente das rodas de choro e das noitadas de gafieira, o saxofonista Thiago França já se apresentou ao lado de grandes nomes como Nelson Sargento, Beth Carvalho e Roberto Silva. Em 2009, lançou seu primeiro álbum solo, “Na Gafieira”, ainda sob forte influência do samba. Entretanto, foi ao lado de Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral que o músico mineiro encontrou o espaço que buscava para dar vazão as suas experimentações, flertando com diversos gêneros como jazz, funk, música latina, afrobeat, rap e punk. Assim, em 2011, Thiago lançou, em parceria com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, o elogiado Metá Metá. No mesmo ano, dessa vez com Marcelo Cabral e Tony Gordin, o saxofonista promoveu o álbum de seu projeto MarginalS. Mais recentemente, acompanhado de Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Samba Ossalê e Pimpa (Wellington Moreira), Thiago desenvolveu o Sambanzo, lançando este ano o álbum “Etiópia”. Em meio a tantos projetos, o músico ainda encontra disposição para participar de shows e gravações de seus colegas de geração, desde seus parceiros mais constantes, como Romulo Fróes e Rodrigo Campos, até artistas de outras searas, como Criolo, Gui Amabis, CéU e Lurdez da Luz.
Figura extremamente atuante na musica contemporânea brasileira, Thiago esteve de passagem pelo Rio acompanhando a turnê “Nó Na Orelha” de Criolo. O Banda Desenhada aproveitou a oportunidade para convidá-lo para esta entrevista onde nos contou de sua carreira, projetos, a relação com o samba e as religiões afro-brasileiras.

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filha de janaína com wolverine

fotos: daryan dornelles
Ainda que alguns puristas da música popular torçam o nariz, é fato que o rap há muito faz parte da cultura nacional. Sem ater a certas teorias que remetem a origem do rap brasileiro às cantorias dos repentistas do nordeste ou mesmo a uma ou outra produção do nosso cancioneiro (como a famosa música “Deixa Isso Pra Lá”, de Edson Menezes e Alberto Paz), foi somente na década de 80 que a cultura hip-hop chegou ao país. Importado das comunidades latinas e afro-americanas de Nova York, o rap encontrou nas periferias da cidade de São Paulo um local fértil para se desenvolver e, aos poucos, ganhar sua própria identidade. 
O primeiro disco de rap nacional, lançado pela gravadora Eldorado em 1988, tratava-se na verdade de uma coletânea. Produzido por Nasi e André Jung, então integrantes da banda Ira!, “Hip-Hop Cultura de Rua” contava com as participações de Thaíde & DJ Hum, MC Jack, Código 13 e O Credo. Ainda sofrendo grande discriminação, foi somente na década seguinte que o rap paulistano conseguiu sair de seu gueto e ganhar destaque nas mídias, graças ao trabalho de grupos como Racionais MCs, que obteve enorme repercussão com o seu quarto álbum, “Sobrevivendo no Inferno”, de 1997. Atrelada à dura realidade da periferia, suas letras abordavam temas como miséria, violência e preconceito racial. Neste mesmo período, Pavilhão 9, Face da Morte, Câmbio Negro e Detentos do Rap, entre outros, também conseguiram certa visibilidade nos veículos de comunicação. Entretanto, não foi somente na capital paulistana que o rap se difundiu e ganhou contornos, por assim dizer, mais regionais: no Rio, o Planet Hemp tratou de misturar o gênero com hardcore e funk, posteriormente adicionando até mesmo bossa nova e samba em seu caldeirão de influências; em Pernambuco, Chico Science & Nação Zumbi, ícones do movimento manguebeat, se apropriaram do gênero e o fizeram dialogar com maracatu, funk, rock e música eletrônica. Assim, durante toda a década, diversos artistas passaram a flertar com o rap, amalgamando-o aos mais diversos gêneros e fazendo jus à tão decantada permissividade que caracteriza a música popular brasileira. Assim, na década seguinte, já com seu espaço devidamente conquistado, surgiu uma nova leva de rappers paulistanos: Sabotage, Xis, Negra Li, SNJ, Rappin' Hood, Projota, C4bal, Flora Matos, Lurdez da Luz, Emicida, Criolo, entre outros tantos. Contudo, ainda que tenha dado continuidade à fusão de referências que tão bem caracterizou a década anterior, esta nova geração vem se diferenciando de sua antecessora graças à enorme variação temática de suas composições, excedendo a crítica social e incorporando elementos de nossa cultura popular. Com efeito, viu-se nos último ano a ascensão de Criolo, cujo último trabalho, o incensado “Nó na Orelha” (2010), transcendeu e muito o universo do rap tradicional, abarcando em seu espectro gêneros tão diversos quanto bolero, trip hop,  afrobeat, jazz e dub.
O mesmo pode-se dizer de Lurdez da Luz: conhecida por ter integrado - ao lado de Rodrigo Brandão, Prof. M. Stereo e Dj PG - o projeto Mamelo Sound System, a rapper lançou em 2010 seu disco de estréia, um EP cujo título leva seu próprio nome. Com forte influência de música brasileira, o álbum foi produzido por Daniel Bozzio e pelo baixista Marcelo Cabral, figura importantíssima nos trabalhos de Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, entre outros nomes da neoMPB. O disco ainda contou com a presença de Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, e do trompete do jazzista norte-americano Rob Mazurek. Apropriando-se da iconografia pop e lançando-a em um peculiar sincretismo com elementos de nossa cultura, Lurdez da Luz extrapola as fronteiras do hip-hop, tornando-se uma nítida representante da pluralidade da atual música popular brasileira. Assim, versátil, a mc se faz presente em uma infinidade de projetos, como os álbuns “Na Confraria das Sedutoras”(2008), do 3 Na Massa"Na boca dos Outros" (2009), de Kiko Dinucci; e “Ekundayo” (2011), onde trabalhou ao lado de Naná Vasconcelos, Scotty Hard, M. Takara, Guilherme Granado, Rob Mazurek, Rodrigo Brandão e Mike Ladd.
Vindo ao Rio para o Festival Faro MPB, Lurdez foi convidada pelo Banda Desenhada para uma entrevista, onde nos falou sobre o rap paulistano, sua carreira, a neoMPB, políticas culturais  e seus novos projetos:

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molho, ritmo e balangandãs


fotos: daryan dornelles


Technopop mexicano, jazz alemão, rock psicodélico brasileiro, country dinamarquês, indie filipino, heavy metal japonês... Em tempos de universalização da cultura, assistimos nas última década uma avalanche de artistas dos mais diferentes pontos do planeta ganhando destaque em diferentes nichos do mercado fonográfico ao articular em seu som, até então taxado de regional ou mesmo folclórico, uma identidade “universal”. Se por um lado há de se comemorar o consumo pelo mundo afora da obra destes artistas, é importante perceber que, para que tal aconteça, se faz necessário a rotulação de seu trabalho por olhos e ouvidos dominantes pouco aptos à diversidade cultural. Assim, para estes, a nacionalidade de um som ganha ar cosmopolita ao agregar-se a um gênero internacionalmente conhecido. Mesmo que, em pleno século XXI, seja um tanto questionável discutir “brasilidade” e que haja pouco consenso sobre de que forma devemos preservar e estimular as tradições e os ritmos ditos regionais, é importante perceber que certos processos estigmatizantes ainda são devidamente estimulados por uma cultura de massa globalizada. 
Ao mesmo tempo, vivemos em um período que se destaca pela efemeridade das tendências e pelo descarte quase automático de artistas que, na estação anterior, foram considerados a grande revelação do momento. Assim, tornou-se imperativo que os jovens músicos, inclusive brasileiros, adquirissem um aspecto amorfo ou, utilizando um termo mais pertinente, líquido, sem se prenderem a um gênero que, por ventura, mídia e público facilmente descartariam após seu consumo. Deste modo, ganhou um tom quase ofensivo a associação dos novos nomes da música brasileira com a agora antiquada MPB, termo que envelheceu rapidamente nos últimos anos e que de fato se viu incapaz de abarcar a pluralidade estética da nova geração. Esta, que em boa parte se autointitula pop, se diferencia de suas predecessoras não só pelas questões estilísticas ou por se ver inserida em um novo contexto do mercado, mas também pela enorme valorização das particularidades inerentes a cada artista, inviabilizando as muitas tentativas de classificá-los por gênero ou mesmo inseri-los em algum possível movimento. 
Representante inconteste de uma cultura universalizada, propulsionada pelo desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, a música contemporânea brasileira e, de forma mais nítida a cena independente, ao mesmo tempo em que se tornou mais democrática, potencializando sua diversidade e dando voz a um sem número de artistas das mais variadas regiões do país, vive as idiossincrasias e os tormentos por que passa a cultura de qualquer nação periférica: A busca por uma mobilidade que, se por um lado, a desenraiza e a liberta de qualquer identidade monolítica, por outro, a torna vítima de um mercado cultural globalizado extremamente voraz e competitivo.
Nadando contra a correte e buscando um olhar mediador voltado tanto para a tradição quanto para a contemporaneidade, Fabiana Cozza é um dos casos raros de sua geração que levanta a bandeira da música popular, ou melhor, do samba. Considerada uma das maiores intérpretes da atual música brasileira e dona de uma voz prodigiosa, Fabiana cresceu em meio às rodas de samba paulistanas e ouvindo em casa os LPs de samba e jazz de seu pai, Oswaldo dos Santos, ex-puxador da escola Camisa Verde e Branco. Em 2004, lançou seu primeiro álbum, “O samba é meu dom”. Três anos depois, seria a vez de “Quando o céu clarear”, onde estreitou laços com a música cubana. Em 2008, gravou seu primeiro DVD, no Auditório Ibirapuera, com as participações da cantora Maria Rita e do rapper Rappin Hood. Em 2009, interpretou o repertório de Elizeth Cardoso no espetáculo “Fabianíssima” e, ainda no mesmo ano, realizou um tributo a Edith Piaf ao lado da Orquestra Jazz Sinfônica. Em 2010, ano em que foi celebrado o centenário de Adoniran Barbosa, a cantora realizou uma série de shows em homenagem ao compositor, com a participação do rapper Emicida. Seu terceiro álbum, “Fabiana Cozza”, lançado em 2011, reiterou suas convicções, mostrando uma cantora atenta não só aos grandes nomes da música brasileira, mas também aos novos compositores de sua geração, gravando duas canções de Kiko Dinucci, “São Jorge” e “Santa Bamba”.
Dias antes da estreia de seu novo show no Rio de Janeiro, em dezembro passado, Fabiana Cozza aceitou o convite do Banda Desenhada e nos encontrou no boêmio bairro de Vila Isabel para a entrevista. Generosa, fez uma análise profunda sobre a sua geração e ofício, comentando também a sua trajetória e influências:

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adeus, batucada

romulo fróes | fotos: daryan dornelles



A música brasileira, em especial a de origem popular e distante do eixo Rio–São Paulo, por um longo tempo foi submetida a uma hierarquia criada pelas elites do país que buscavam como símbolo máximo de sofisticação e modernidade os modismos importados da Europa e, a partir da década de 1920, dos Estados Unidos. Prática esta assimilada e reproduzida por uma classe média que sempre se esforçou em maquiar seu status, repudiando gêneros como o samba, o forró e, mais recentemente, o pagode, o funk carioca e o tecnobrega. Mesmo incorporado de forma definitiva à identidade nacional a partir dos anos 30, o samba não foi capaz de retirar totalmente a aura de marginalidade que tanto o acompanhou. Somente a partir da década de 1960, com a segunda geração da bossa nova e o surgimento do tropicalismo, é que, aos poucos, deu-se início a desconstrução deste imaginário. Nesta época, de forma transgressora, Nara Leão era vista cantando composições dos sambistas das favelas cariocas e Caetano Veloso interpretava a trágica “Coração materno” de Vicente Celestino, além de dividir o palco com Odair José  no show Phono 73. Mais adiante, na primeira década do século XXI, surgiu uma nova geração de músicos que, sob os efeitos da pós-modernidade e de sua descrença, se mostrou capaz de abarcar referências tão díspares quanto o poeta e musicólogo Mário de Andrade, a compositora e performer Meredith Monk, o funk carioca e a Banda Calypso. Sendo influenciados por diversos artistas que até bem pouco tempo eram considerados de gosto duvidoso, estes músicos, em sua grande maioria independentes, começaram a produzir um som absolutamente novo, rompendo, sem alarde, as barreiras entre os gêneros e fazendo cair por terra qualquer tipo de possível hierarquia. Assim, vemos a influência da música brega e passional no som de Andreia Dias e Filipe Catto; a regravação de “Você não vale nada” da banda de forró Calcinha Preta por Tiê; a constante presença de pagodes radiofônicos no repertório da dupla Letuce; o diálogo de Kassin, Iara Rennó e Thalma de Freitas com a diva do tecnobrega Gaby Amarantos; e outros tantos exemplos. Sem vergonha de sua origem, a música brasileira produzida por esta geração, digital e globalizada, vem se caracterizando não só por sua diversidade, mas também pela ruptura com a tradicional MPB e por reiterar a máxima punk "Do it yourself".
Presença e voz constante tanto na atual cena musical quanto em seu debate, Romulo Fróes tornou-se um dos principais observadores e críticos de sua geração. Iniciou a sua carreira em 98 com a banda Losango Cáqui, com a qual lançou dois discos. Em 2001, já em vôo solo, lançou um EP, prensado em edição limitada pelo selo Bizarre. Dois anos depois, veio finalmente seu primeiro álbum: "Calado" (Bizarre Records), onde se destacava a forte influência do samba e as parcerias com os artistas plásticos Eduardo Climachauska, o Clima, e Nuno Ramos. Em seu segundo álbum, “Cão” (2006, YB Music) regravou “Mulher sem Alma”, música composta por uma de suas maiores influências: Nelson Cavaquinho. Em 2009, tentando fugir da pecha de “sambista indie”, Romulo lançou o elogiado e complexo “No chão sem o chão” (YB Music), álbum duplo que contou com a presença de Mariana Aydar, Nina Becker, Lanny Gordin, entre outros. No ano seguinte passou a se dedicar exclusivamente à música, deixando de lado seu trabalho de assistente do artista plástico Nuno Ramos. Em 2011 gravou o quarto álbum, “Um labirinto em cada pé”, disponibilizado para download em seu próprio site. Artista irrequieto, Romulo se uniu a Rodrigo Campos e Kiko Dinucci para lançar, em outubro, “Passo Torto”, projeto em que se aprofundou nas experimentações dentro do universo da música popular brasileira e, em especial, do samba.
Rodrigo, por sua vez, lançou seu álbum de estréia “São Mateus não é um lugar assim tão longe” em 2009, baseado em personagens e histórias retiradas de seu cotidiano no bairro da periferia de São Paulo. Lá, o músico viveu dos três aos 24 anos, começando cedo a participar de suas famosas rodas de samba, onde, com o seu cavaquinho, tocava o repertório dos cariocas Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Fundo de Quintal. Ainda como instrumentista, acompanhou diversos nomes da MPB, como Maria Rita, Vanessa da Mata, Paulo Moura e Fabiana Cozza. Entretanto, mesmo tendo o samba como cerne de seu trabalho, Rodrigo não se deixou levar pelo caminho mais fácil, “São Mateus não é um jugar assim tão longe” se destaca por seus arranjos pouco usuais que levam as canções para outro território, mais climático e repleto de texturas, lembrando, em alguns momentos, uma trilha sonora. Atualmente, além do projeto “Passo Torto”, Rodrigo vem se dedicando à gravação de seu novo álbum: “Bahia Fantástica”, onde, estendendo as suas referências, trouxe para a sua música o soul de Curtis Mayfield e Funkadelic e o misticismo baiano.
Envolvidos em mil e um projetos, Romulo e Rodrigo se uniram para uma apresentação no Rio de Janeiro, no Solar de Botafogo, em outubro passado. O Banda Desenha aproveitou a oportunidade e os entrevistou um pouco antes do show, em seu camarim. Lá, os músicos comentaram sobre seus trabalhos e Romulo, que já foi chamado de  “arauto da neo-MPB”, reiterou suas ideias a respeito de sua geração:

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Z DA QUESTÃO

fotos: daryan dornelles

Década de 1930. Em busca de uma identidade nacional, o Estado Novo de Getúlio Vergas, aliado às elites do país, encontra no samba dos morros cariocas a musicalidade perfeita para enaltecer um Brasil que se almeja moderno e industrial. Tornando-se símbolo máximo de brasilidade e unificador da nação, o samba deixa para trás suas restrições étnicas e religiosas, sai dos terreiros e passa a ser consumido por uma classe média emergente. Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva, Silvio Caldas, entre tantos outros, se tornam os grandes nomes da música popular brasileira de então. Curiosamente, todos elegantemente trajados e, em sua esmagadora maioria, brancos ou pardos. Num segundo momento, vê-se surgir na década de 50, em São Paulo, uma geração de compositores e intérpretes que, sem temer suas origens, fazem do samba sua matéria prima e com ele elaboram as mais incríveis e representativas crônicas da cidade. Contudo, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Germano Mathias jamais chegaram a importunar a majestade de seus vizinhos cariocas. Nos anos 70, ainda se ouviria do poeta e compositor Vinícius de Mores a célebre sentença: “São Paulo é o túmulo do samba”. Mesmo que proferido em circunstância extremada – Vinícius defendia seu amigo Johnny Alf de uma descortês platéia paulistana – o comentário já deixava clara a importância que ganhou, ao longo do tempo, não só o samba, mas a cidade que inicialmente o fomentou e, acima de tudo, seu status dentro da cultura nacional.

Década de 2000. Em meio às fortes tensões do mercado fonográfico, surge em São Paulo uma geração de cantores e compositores que atualizam o gênero criado há décadas na cidade. Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Douglas Germano, Rodrigo Campos e Romulo Fróes tornam-se as figuras de maior destaque desta cena e, dentre eles, Kiko mostra-se o mais prolifero. Flertando com sambas, batuques, macumbas, modas de viola, pós-punk e a onipresente vanguarda paulista, o músico já lançou cinco álbuns, quase todos em parceria: Padê (2007, com Juçara Marçal), Pastiche Nagô (2008, com o Bando Afromacarrônico), Retrato de Artista Quando Pede (2008, com Douglas Germano), Na Boca dos Outros (2010, com diversas participações especiais) e Metá Metá (2011, com Juçara Marçal e Thiago França). Em 2006, enveredou pelo audiovisual, produzindo o documentário Dança das Cabaças - Exu no Brasil. Atualmente, o músico se divide entre a turnê de seu último álbum, os preparativos para o lançamento de seu livro de quadrinhos chamado Cabeça de Homem e um novo projeto musical: Cortes Curtos.

De passagem pelo Rio de Janeiro, onde realizaram o show de lançamento do álbum Metá Metá, Kiko e Juçara foram responsáveis por uma das mais contundentes entrevistas do Banda Desenhada. Em meio a bolinhos de bacalhau e alguns chopes, a dupla falou sobre a sua carreira, o samba paulista, Itamar Assunpção e, claro, a derrocada da MPB:

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outras conversas

da esquerda para direita: duani, pablo francischelli, caio jobim, tulipa ruiz e gustavo chagas. foto: aline arruda.

O Banda Desenhada sempre teve como principal objetivo retratar o cenário musical brasileiro contemporâneo e, para tanto, optou não só por entrevistar músicos e produtores, mas também toda uma gama de profissionais que, de uma maneira ou de outra, estão envolvidos com esta geração. Pelo site já passaram fotógrafos, artistas plásticos, designers, etc. Contudo, ainda estava faltando uma análise da produção audivisual deste momento. Pensando nisto, convidamos os documentaristas Caio Jobim e Pablo Francischelli, da produtora DobleChapa. Pioneiros na documentação da chamada Nova MPB, a dupla foi responsável pelo mais relevante programa a abordar o tema: “Pelas Tabelas”, produzido pela Carioca Filmes e exibido por duas temporadas (2009/2010) no Canal Brasil. A conversa não se limitou apenas ao trabalho dos rapazes e tocou diversas vezes em  pontos delicados do cenário atual da música popular. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, MTV, mangue beat, a cena carioca e outros tantos assuntos foram discutidos sem meias-palavras nesta que é, com certeza, uma das mais elucidativas entrevistas do site:

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BOMBSHELL DE SARAPANTAR

ilustrações: márcio bulk | fotos de iara rennó: daryan dornelles

E no princípio era Iara... 
Sobre a face das águas, a sereia de rosto borrado pelos sumos tropicais assim entoou: “Tupi, or not tupi, that is the question”. Viu Iara que o som era bom e, serelepe, passou a fazer cantorias no país da cobra grande. 

Ano 455 da Deglutição do Bispo Sardinha.

Desculpe-nos Oswald de Andrade e Velho Testamento, mas seria injusto de nossa parte descrever Iara Rennó de outra forma. Filha da cantora Alzira Espíndola e do compositor e jornalista Carlos Rennó, Iara é peça chave para entender a cena contemporânea de São Paulo. Iniciou sua carreia artística em 1994, apresentando-se ao lado de sua mãe. Na mesma década, passou a integrar o conjunto de Itamar Assunção. Em 2000, formou a DonaZica, banda com quem gravou dois álbuns: Composição (2003) e Filme Brasileiro (2005). Todos produzidos de forma independente. Em 2008, lançou seu primeiro disco solo, Macunaíma Ópera Tupi, musicando trechos de Macunaíma, a obra clássica de Mário de Andrade.
De mudanças para o Rio, Iara aceitou o convite do Banda Desenhada para esta entrevista, descrevendo com paciência e bom humor, o início de sua carreira, além de falar de seus muitos projetos e fazer um resumo bastante peculiar da história da música popular brasileira. Todo ouvidos, fomos encontrá-la em uma tarde chuvosa na residência de Thalma de Freitas, em Santa Teresa (RJ). A entrevista contou com a participação especial de Thalma e uma voz desconhecida (?!), que gritava incessantemente o nome da cantora Andreia Dias.

BANDA DESENHADA – Sua geração possui duas características marcantes: um desconforto enorme a rótulos e um leque de influências muito variado e pessoal. O que, no final das contas, poderiam ser vistos como particularidades de uma cena ou mesmo de um movimento, não?

IARA RENNÓ – É, isso é verdade. Eu me sinto até uma das pioneiras dessa turma. Porque há 10 anos montei a banda DonaZica, de onde saíram Andreia Dias, Anelis [Assumpção], Gustavo Ruiz, Mariá Portugal, Gustavo Souza e o Guizado. A partir dali, eles foram trabalhar com outros músicos, formar novas bandas, e levaram esses conceitos que você mencionou, na verdade “anti-pré-conceitos”. Entendo que o ser humano precise catalogar as coisas para ordená-las, para melhor entendê-las. É normal. Mas, quando a gente começa a tocar, a primeira pergunta que fazem é: “Ah, é tipo o quê?”. Ainda hoje, quando alguém me pergunta isso, eu falo: “Ouça aí e vê o que você acha!”. [risos].

BD – O seu caso é um dos mais emblemáticos da cena independente: Macunaíma..., além de apontar musicalmente para diversas direções, é um projeto complexo e de grande porte, sendo nítido que nenhuma grande gravadora se interessaria por ele. E o resultado é fabuloso! 

IARA – Eu consegui fazer por conta do prêmio, o edital da Petrobrás. E isso foi maravilhoso, porque até então eu só tinha feito dois discos independentes com a DonaZica, onde tivemos que levantar a grana e pagar tudo com o suor do nosso trabalho. Já no Macunaíma..., não. Eu já estava desenvolvendo o projeto há bastante tempo: comecei a fazer o disco há 11 anos, anterior à formação da banda. Estava impregnada por essa pluralidade sonora, que é inerente à própria obra do Mário [de Andrade]. O livro tem informações de diversos lugares, ecos da cultura popular e da música folclórica. Então, foi primordial ter conseguido o patrocínio, porque consegui concretizar o meu desejo de trabalhar com várias pessoas de diferentes formações. Eu acreditava realmente nisso... mas, é claro que no meio do processo vinham as indagações: “É muita gente! Será que não vai ficar extravagante demais?”. Um pouco antes, na pré-produção, pensei: “Nossa... Tô com medo de ficar meio sem pé nem cabeça...”. E no fim ninguém falou isso e realmente não acho que tenha ficado. Existe um fio condutor, inclusive sonoro. Havia a coisa da vibração do momento. Era louco, porque eu trabalhava com diferentes produtores que não tinham acesso a todas as faixas e aí via o Beto Villares usando uma ambientação que tinha a ver com a criada pelo Buguinha Dub! É claro que as pessoas que chamei têm um gosto, uma estética musical, não exatamente parecida, mas que, em termos de produção, eu aprecio...

BD – Você esteve presente em todas as partes do processo de produção, não é?

IARA – Sim.

BD – E ter esse controle, esse envolvimento, não lhe causava aflição? 

IARA – É tudo em seu nome, né? No meu, no caso. [risos]. Cara, você tem que estar disposto! A partir do momento em que você inscreve um projeto, ele estará com o seu CPF. Você abre a conta no seu nome e entra aquele dinheiro. Você tem que administrar... Fiz uma empresa. Eu fui uma empresa! Trabalhei com quase 70 pessoas, entre pessoal da administração, músicos e tal. Realmente, sempre estive na cabeça de tudo. E foi o máximo! Era o meu trabalho, entende? Um projeto que há oito anos eu tinha começado a idealizar e a musicar. Já havia uma maturidade. Eu considero um projeto muito feliz. Todo esse processo se desenvolveu de forma natural. Não foi uma coisa feita às pressas, sabe? Tipo “a cantora que tem que lançar um disco por ano!”. Não tinha nada a ver com isso. E também tive o apoio do selo Sesc, que se interessou pelo disco. Eles tinham acabado de lançar a caixa com a Missão de Pesquisas Folclóricas, do Mário de Andrade. E, só com as vendas na loja do Sesc, o álbum já está na sua segunda prensagem. Em um período em que não se vende mais discos, acho que está sendo bem legal. E é isso... Partindo daquela ideia de “sair dos rótulos”, o projeto não era para ser um disco de cantora, e sim um disco de artista. Agora, também não gosto que classifiquem meu trabalho de “acadêmico” ou “erudito”. Não aceito estes rótulos. Não acho que seja verdade, porque a partir do momento em que as pessoas ouvem as canções, elas assimilam rapidamente e, com isso, o trabalho continua a se expandir. Além do mais, esse projeto não foi puramente racional. Eu não pensei: [com voz afetada] “Vou pegar este livro que é uma grande obra da nossa cultura e...”. Ele aconteceu e eu me senti imbuída de fazê-lo. É por isso que deu tão certo. Em dezembro do ano passado, montei Macunaíma... no Teatro Oficina. Uma montagem grande, mais próxima do que eu havia visualizado lá no início, quando comecei a compor as músicas e as imaginei como uma ópera tupi multimídia.

BD – Então recapitulando: Você concebeu o projeto, o enviou para a Petrobrás e o produziu. Só depois vieram as montagens?

IARA – Sim, primeiro veio o álbum. Eu comecei a produzi-lo em 2007 e o lancei em 2008. Aí fiz uns shows. No lançamento do disco, fiz algo maior, com banda e dançarinos. Depois, com a banda reduzida, levei o show para o interior de São Paulo. Em dezembro de 2010 fiz esse bem maior, no Oficina, através de incentivo fiscal estadual.

BD – Mas voltando à DonaZica: quando o grupo se formou você tinha noção do que aconteceria depois? Que vocês se tornariam a nova MPB? Afinal, quer queira, quer não, tudo foi fomentado naquele momento. Lá estava o Gustavo, você, o Guizado, a Andreia e a Anelis. Os outros que vieram posteriormente, mais jovens, eram nitidamente influenciados pelo DonaZica. Havia essa ideia de que estava sendo criado uma espécie de movimento? Por mais que este termo seja pesado...

IARA – Olha, “criar um movimento” é pesado e ao mesmo tempo não é. Eu já escutei isso várias vezes. Na época mesmo se falava muito...

– ANDREIA! ANDREIA! [alguém fora da casa grita pelo nome de Andreia Dias].

IARA – [rindo]. Cara, assim, a Andreia até dizia que não éramos uma banda, e sim um movimento musical. Eu posso lhe dizer que nunca gostei muito desse termo. Não era uma coisa premeditada. Não estava no meu consciente essa ideia de que daqui vão sair as pessoas e lálálá... mas era natural, juntou-se um monte de gente ali, desenvolvendo várias ideias e fazendo música.

BD – Diversos jornalistas já disseram que a sua geração possui uma influência forte da tropicália e da vanguarda paulista...

IARA – Cara, assim, é absolutamente natural na linha evolutiva...

– ANDREIA! [novamente alguém grita o nome de Andreia Dias].

IARA – [gargalhadas] Eu não estou aguentando, vou ter que atender! [risos]... [Iara sai da casa e, após alguns minutos, retorna]. Bem, é natural nessa linha evolutiva... porque primeiro você tem, lá no início do século XX, o modernismo, que é o tal olhar para a cultura genuinamente brasileira, parar de copiar a França e ver o que se está produzindo por aqui. Esse era o olhar do Mario [de Andrade], mais até do que de outros que estavam presentes naquele momento. O Mario e o Raul Bopp tinham essa característica de olhar para a cultura brasileira, o folclore, e a partir daí, passar a documentá-la. Depois surge o samba, o ritmo vai emergindo e vem a febre das marchinhas: Braguinha, Carmen Miranda... Nos anos 50 começa então a influência da cultura norte-americana. O pessoal pega referências de lá, junta com o samba e dá a bossa nova. Após a bossa, começa a produção de rock, a jovem guarda. Depois veio a tropicália e o rock psicodélico dos anos 70 que pegaram tudo isso e começaram a questionar as categorizações: por que é que tem que ser assim ou assado? É claro que, conhecendo a história, inclusive as pessoas envolvidas, como o Caetano [Veloso] e [Gilberto] Gil, sei que não foi assim tão racionalmente premeditado. Era o que estava sendo pedido, um sentimento de romper com essas classificações. Já naquela época! Então eles foram brincar com tudo isso. Aí nos anos 80 veio o quê? O rock nacional, a indústria fonográfica bombando no rádio...

BD – E teve a vanguarda paulista...

IARA – Exatamente. O lado B da história, que é um pouco de onde eu venho. A família da minha mãe é toda de músicos. Nessa época eles lançaram... [pensativa] É até engraçado, tem um clipe do Fantástico: “Bem-Te-Vi”, com a Tetê e o Lírio Selvagem... é de 1978, uma coisa incrível, muito engraçada. Minha tia [Tetê Espíndola] tem uns vídeos ótimos no YouTube, ela cantando com Clementina de Jesus...

BD – Da cena, a Tetê foi a que mais conseguiu entrar no mercado fonográfico, não?

IARA – Sim. E com isso conseguiu um campo maior pra produzir suas coisas. Bom, mas voltando... Aí teve a vanguarda. O Arrigo [Barnabé] já conhecia minha tia e a minha mãe e serviu de elo para que elas entrassem em contato com o Itamar [Assumpção]. Depois minha mãe veio a montar um trabalho com o Itamar e, em 1997, eu mesma fui cantar com ele. Então, depois de tudo isso, quando eu começo a finalmente fazer música... bem, primeiro eu não queria, estudava teatro e não estava querendo nem saber desse negócio de música, não tinha nada a ver. [risos]. Meio que fobia, né? Casa de ferreiro, espeto de pau. Não aguentava mais ver aquele negócio! E tem também a questão do peso, da responsabilidade de ser a filha deles e bláááá-blááá-blááá. Mas, apesar de tudo, de todos esses conceitos e preconceitos, a música irrompeu. Naturalmente eu tinha que fazer isso. Então fui procurar a minha turma. Pensei em chamar o Gustavo [Ruiz]... eu já o conhecia e sabia da sua pegada. Além disso, nós temos a mesma informação genética [Gustavo é filho de Luiz Chagas, que participou da banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção]. Enfim, essas afinidades foram montando a banda. Não tinha como ser diferente, nessa longa linha evolutiva, nessa passagem do tempo. A DonaZica foi uma banda muito pouco conhecida. Nós fizemos só dois discos, um em 2003 e outro em 2005, e eles estão esgotados há muitos anos. Foi uma produção independente, um deve ter tido uma tiragem de 1000 e o outro de 2000 e pouco. E, apesar disso, foi um som que acabou servindo de referência pro pessoal, para os artistas, para os músicos. A DonaZica não alimentou a massa, mas alimentou um grupo de pessoas que contribuem para a produção musical de hoje.

BD – Virou um ponto de partida. Foi possível observar o que vocês estavam fazendo e dar continuidade...

IARA – Exato. Rolou muito isso, eu acho. Naquela época as coisas eram bem diferentes. A internet não era como hoje. A gente não tinha esse tempo. Era outro modo de produção, de disseminação... Era ainda mais difícil botar a cara pra bater. Bem mais. Colocar um trabalho na rua era complicadíssimo. Então todo esse nosso trabalho foi boi de piranha mesmo! [risos]. Fomos bandeirantes! [risos]. Nossa, nem foi tanto... No tempo da minha mãe era bem mais difícil, ainda mais não estando no mainstream, sem gravadora...

BD – E essa passagem de alguns de vocês pelo Rio? Você, Andreia [Dias], Karina [Bhur]... Iniciou-se um diálogo entre os músicos de São Paulo e os da Orquestra Imperial. Como está sendo isso? Porque por mais que as cidades sejam próximas, há diferenças…

IARA – Total. O modus operandi... parece que é outro país! Por terem essa proximidade, por terem essas diferenças e por serem duas cidades expoentes de produção cultural e artística, a coisa mais interessante que se pode fazer é este intercâmbio, esta troca. Pra mim, que nasci e fui criada em São Paulo e que já tenho um tempo de trabalho lá, chega uma hora que a cidade se exaure. Você não precisa mais ficar lá! Pelo contrário, você tem mais é que sair para se alimentar. Vim primeiro para o Rio, o grande centro mais próximo. Aqui as pessoas trabalham com música de uma maneira bem diferente, muito menos cerebral. É outro tempo.

BD – Mas em que grau esta mudança afetou o seu som?

Iara Rennó – Bem, assim... esse namoro com outras regiões eu já havia começado com o Macunaíma...

BD – Sim, mas ainda era o olhar de uma paulistana sob uma obra literária. Ao sair de São Paulo e vir para o Rio, o seu ponto de observação foi alterado.

Iara Rennó – Sim, mas o meu olhar já estava sendo outro antes mesmo de sair de São Paulo. Afinal, eu só vim pra cá agora, em janeiro... e os discos da DonaZica já possuíam influências sonoras de outros lugares do Brasil. Mas ainda era um olhar paulistano, realmente. Já Macunaíma... eu não acho tanto... Tem uma parada que costumo falar quando alguém me pergunta se sou de São Paulo: "Não, não sou de São Paulo, sou do universo!”. [risos]. Pra que essa necessidade de pertencimento? Eu não sou de São Paulo, não pertenço a ninguém e nem a nenhum lugar! [risos]. Deixem-me livre! [risos]. Então, mais ou menos voltamos a essa questão dos rótulos, né? Mas a sua pergunta é pertinente, porque essa mudança para o Rio influenciou de fato o meu processo de criação. Mas não de forma radical, porque eu já estava desregionalizada. A música tem muito disso, essa universalidade, o inconsciente coletivo. Temos que sair daquela necessidade primeira de “preciso ter uma personalidade”. É como o desenvolvimento da psique do ser humano: na infância você tem que desenvolver o seu ego, você tem que aprender a falar, compreender que é um indivíduo. E depois tem que dissolver isso. Acho que no som é a mesma coisa. Nos primeiros discos eu pensava assim: “Tenho que ter uma personalidade”, e durante a produção do Macunaíma..., comecei a dissolução, porque pretendia fazer vários tipos de sons. Não quero ter uma personalidade. Ao mesmo tempo, é um paradoxo, porque sei que ela está ali, que ainda continua. Mas não preciso reiterá-la...


BD – Então a mudança para o Rio serviu para intensificar essa desconstrução da sua identidade?

Iara Rennó – Há um ano e meio, quase dois, eu me aproximei da Thalma e ela me chamou para fazer uma música sobre o amor universal. Decidi então vir para cá. Pesquisamos física quântica e fizemos a música do amor molecular [“Amor Imenso”]. Viramos amigas, parceiras e começamos a fazer outras coisas. No ano passado apresentamos o Circus Serendipitus, que foi um projeto de música espontânea, criada na hora. A gente fez um show inteirinho assim no Sesc Pompeia! Foi sensacional, uma experiência bem louca. Aí já não era mais nem se desregionalizar, era romper com tudo. Não tínhamos músicas nem ensaios... chegávamos no palco e pronto. Faziam-se práticas, não ensaios. E não era uma jam. Era uma criação serendipità [processo criativo onde predomina o acaso]. Essa era a proposta. Então foi uma experiência muito interessante que enriqueceu a minha prática musical e a minha visão artística. Depois... [Thalma entra na sala]... Ó, falando nela. [pausa rápida para as apresentações]. Depois, a gente fez uma música pra Gaby Amarantos [“Chuva”], um tecnobrega! Aí alguém dirá: “mas o que é que isso tem a ver? Iara Rennó, que saiu lá da vanguarda paulista, compondo tecnobrega com a Thalma”...

Thalma de Freitas – Isso é o Brasil, é isso que a gente tem que fazer, tem que se misturar, senão não anda! Nem eu iria conseguir fazer uma letra incrível e nem você iria conseguir fazer um tecnobrega! [risos]. E nem a Gaby teria um hit cult! [risos].

Iara Rennó – Ah, na verdade, eu também fiz outra música pra Gaby. Uma música sobre Belém, sendo que nunca estive lá. [risos]. Muita cara de pau, né? Fiquei conversando com a Thalma e a Gaby, peguei uns dados e fiz a música, mas o repertório do disco já estava fechado, então não vai entrar.

BD – E os seus próximos projetos?

Iara Rennó – Bom, paralelo a isso tudo, no final de 2009, gravei um disco que não foi lançado ainda. Também fiz uma instalação sonora no Museu Afro Brasil [SP], a Oriki In Corpore. É um projeto temático, sobre os orikis do [poeta e antropólogo] Antônio Risério. A maioria das músicas são orikis [versos ou frases usados para saudar os orixás] que retirei da obra do Risério e as outras eu escrevi. Então, também tenho esse disco que ainda não sei como vou lançar nem quando. Não há nada fechado nem estipulado. Eu coloquei duas músicas no TNB [Toque no Brasil], em uma página que criei agora. É uma plataforma nova, do pessoal da Fora do Eixo que está trabalhando nessa rede de produção independente. Semana que vem [05 a 11 de junho] vou à São Paulo, pretendo fazer algumas apresentações. Estou montando um show novo, sendo que não fiz nenhum ensaio ainda. [risos]. Ele terá no repertório um pouquinho de cada disco e também bastante coisa inédita, que será para outro álbum que não está gravado ainda. E ainda tenho um projeto com o Kiko Dinucci, também com essa temática dos orixás, da cultura yorubá... Hã, e o que mais?... Ah! Com o fato de estar aqui, de ter mudado de cidade, de estar nesta casa, neste pólo de produção artística onde passa uma quantidade absurda de gente, eu acabei fazendo parcerias com a Cibelle e o Rubinho Jacobina, fora aquelas com a Thalma. Enfim, os horizontes estão abertos e tenho muita coisa a fazer. Para quem está do lado de fora, parece que não estou fazendo nada, que estou aqui no Rio só dando canja nos shows dos amigos. [risos]. Mas, na verdade, estou compondo, escrevendo projetos e outras tantas coisas, tudo do portão para dentro.

BD – Para finalizar: Quase todos de sua geração atuam em diversas frentes, não se limitando à música. Você utiliza a literatura e o teatro. Já a Tulipa, o Kiko Dinucci e a Karina Buhr trabalham com artes plásticas...

Iara Rennó – Sim, e passei por essa primeira experiência de instalação sonora que era algo que já estava querendo fazer a um bom tempo. Desde Macunaíma... eu queria fazer uma exposição multimídia, interativa. Porque, voltando àquela questão de sair dos rótulos, todos nós produzimos de diversas maneiras e nos manifestamos artisticamente de diversas formas. Eu faço principalmente música, só que a música é que nem água, é um veículo fluido, é um fio condutor, onde você mistura um pozinho e faz um suco! [risos].