Decididamente, a Bahia não se resume à axé music, tampouco esta representa a totalidade de gêneros musicais produzidos naquele estado. O termo, surgido no final dos anos 80, foi utilizado de forma bastante pejorativa para designar a música desenvolvida por alguns blocos de trio elétrico de Salvador que passaram a misturar o frevo baiano com o samba-reggae. O axé ganhou enorme visibilidade nos anos 90, graças ao seu caráter pop e pelo forte marketing da indústria fonográfica e das mídias que vislumbraram uma fonte de renda extremamente lucrativa na música de carnaval soteropolitana. Malvista por boa parte da crítica especializada, a axé music foi acusada de se apropriar de elementos dos blocos afro e do samba-reggae
– originários das periferias de Salvador
– , diluindo ou mesmo descontextualizando o seu discurso de valorização da cultura afro-brasileira. O gênero também provocou certa discórdia entre músicos baianos icônicos, sendo duramente criticado por Dorival Caymmi e defendido com afinco por Caetano Veloso. Contudo, mesmo que se pese a forma opressora com que a indústria do carnaval lida com a produção cultural local, foi possível, ao longo dos últimos anos, assistir ao aparecimento de uma nova geração de músicos que, aos poucos, vem retomando a diversidade musical da Bahia. Em uma árdua batalha, artistas, blocos afro, afoxés, trio elétricos independentes e outras organizações culturais conseguiram se apropriar de um pequeno, mas significativo, espaço do carnaval soteropolitano. Graças ao dinamismo das novas tecnologias e apoiados por políticas de fomento e incentivo à cultura, BaianaSystem, Marcia Castro, Marcela Bellas, Orkestra Rumpilezz, Cascadura, Maglore, Retrofoguetes, Mariella Santiago, Opanijé, Manuela Rodrigues e Vivendo do Ócio, entre outros, conseguiram impulsionar suas carreiras e ganhar visibilidade, participando de projetos e podendo circular por diversos festivais pelo país.
Reconhecido por ampliar as possibilidades de uso da guitarra baiana ao somá-la com a percussão afro-brasileira, o dub e o sound system jamaicano, o BaianaSystem é uma das principais figuras da atual cena independente da Bahia. Criado em 2009, é formado por seu idealizador Robertinho Barreto (guitarra baiana e vocal), Russo Passapusso (vocal), Marcelo Seco (baixo), Wilton Batata (percussão) e DJ João Meirelles, tendo como seu sexto integrante extraoficial, o fotógrafo e designer Filipe Cartaxo, responsável pela identidade visual do grupo. Anteriormente, Barreto já havia tocado ao lado de diversos artistas de Salvador, como Ivete Sangalo, Timbalada e Crac!, tendo integrado a banda Lampirônicos, com quem gravou dois álbuns, “Que Luz É Essa?” (2001) e “Toda Prece” (2004). Com o BaianaSystem, lançou o primeiro e homônimo álbum em 2010, contando com a colaboração de Lucas Santtana, BNegão, Gerônimo, Buguinha Dub, Chico Corrêa e Roberto Mendes. O grupo já participou de diversos projetos como “Conexão Vivo” (2010 e 2011) e “Levada Oi Futuro” (2011), além de ter se apresentado em festivais nacionais e internacionais como o Festival de Inverno de Garanhuns (2010), RecBeat (2011), Expo Shangai (2010), World Music Shangai (2011), WOMEX (2011) e Voice of Nomads (2012).
Vindo em janeiro ao Rio para participar do projeto “Sai da Rede”, no Centro Cultural Banco do Brasil, os rapazes do BaianaSystem foram convidados para esta entrevista, realizada no camarim após a primeira apresentação no evento. Robertinho, Russo e João conversaram com o
Banda Desenhada a respeito de seu processo criativo, da cena independente baiana e de seu mais novo trabalho, o EP “Terapia”.