CANTO PUNHALADA

fotos: daryan dornelles

A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

Ao escrever o poema “A palo seco” (Quaderna, Guimarães Editores, 1960), João Cabral de Melo Neto evidenciou o que lhe era mais caro em seu ofício: a busca por uma escrita exata e contundente, mimetizada à rudeza do sertão nordestino e ao canto flamenco. Uma poesia sem rodeios e aguda. Como Encarnado, primeiro álbum solo de Juçara Marçal. O disco foi lançado de forma independente em fevereiro deste ano e vem sendo considerado por diversos jornalistas e críticos musicais como um dos melhores de 2014. Interpretando canções onde vida e morte se embatem a todo instante, Juçara dá voz a personagens extremamente fortes que, em situações limítrofes, percorrem uma via crucis onde já não há mais espaço para jogos ou floreios. É tudo ou nada. É “o cante a palo seco/sem o tempero ou ajuda”. Contudo, diferente do poema, o canto de Juçara nunca se faz só. Mesmo ao interpretar canções pontuadas pela desolação, é através da confiança em seus parceiros que a artista vem construindo sua carreira ao longo dos anos.

Intérprete de voz singular, Juçara tornou-se uma das mais importantes cantoras da música brasileira contemporânea. Nasceu em Duque de Caxias (RJ), mas foi, ainda criança, para São Caetano do Sul (SP), mudando-se, em seguida, para São Sebastião (SP). Radicada na capital paulista desde o início dos anos 90, iniciou sua carreira artística ao integrar a Companhia Coral, sob a regência do maestro Samuel Kerr e direção cênica de Willian Pereira. Ingressou em 1991 no grupo Vésper Vocal, com quem lançou quatro discos: Flor d’Elis (Dabliú Discos, 1998), Noel Adoniran — 180 anos de samba (Eldorado, 2002), Ser tão paulista (CPC-Umes, 2004) e Vésper na lida (Pôr do Som, 2013). Em 1998, tomou parte do grupo A Barca, com quem realizou uma extensa pesquisa na área de cultura popular, o que resultou em dois álbuns, Turista aprendiz (CPC-Umes, 2000) e Baião de princesas (CPC-Umes, 2002), além de Trilha, toada e trupé (Cooperativa de Música, 2006), caixa com três CDs e um DVD,  e a Coleção Turista Aprendiz (Cooperativa de Música, 2010), contendo vários registros sonoros e sete curtas. Em 2007, ao lado do violonista e compositor Kiko Dinucci, iniciou sua parceria mais prolífera, lançando o disco Padê (2007, Cooperativa de Música). No ano seguinte, formou com Kiko e o saxofonista Thiago França o trio Metá Metá. Com o Metá Metá, lançou dois álbuns: Metá Metá (Desmonta, 2011) e Metal Metal (independente, 2012). O trio ganhou, em 2013, o Prêmio Multishow de “Música compartilhada”, tendo sido também indicado às categorias “Disco do ano” e “Versão do ano”, com a canção “Let’s Play That” de Jards Macalé, regravada no disco E volto para curtir (Banda Desenhada Records,2013). O grupo já realizou turnês em diversos estados do país, além da Europa e América Latina. Em 2014, Juçara lançou Encarnado. No disco, interpretou canções de seus colegas Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França, além de Itamar Assumpção, Tom Zé, Siba, entre outros.

Em turnê de lançamento de seu álbum, Juçara veio ao Rio, onde se apresentou em curta temporada na Audio Rebel. Aproveitamos a oportunidade para entrevistá-la em um passeio pelo Largo do Machado e o bairro do Flamengo. Ali, conversamos a respeito de sua carreira, parcerias, vanguarda paulista e muito mais.

- continue lendo >

samba tarja preta


fotos: daryan dornelles

Agregadora. Esta é muito provavelmente a melhor palavra para designar a atual produção musical brasileira. Muito por conta da severa crise por que passa o mercado fonográfico, surgiu nos últimos anos, mais acentuadamente em São Paulo, uma nova e diversificada geração de artistas independentes cujos trabalhos vêm se caracterizando pela intensa cooperação de instrumentistas e produtores. Estes, se tornaram responsáveis por fomentar o diálogo entre os representantes desta nova cena, criando, ainda que de forma tênue, perceptíveis afinidades estéticas. Assim, Fernando Catatau, Gustavo Ruiz, Régis Damasceno, Guilherme Held, Dustan Gallas, Marcelo Cabral, Kassin, Pedro Sá, Thiago França, entre outros, vêm afirmando com seus trabalhos o caráter colaborativo da nova música brasileira.
Proveniente das rodas de choro e das noitadas de gafieira, o saxofonista Thiago França já se apresentou ao lado de grandes nomes como Nelson Sargento, Beth Carvalho e Roberto Silva. Em 2009, lançou seu primeiro álbum solo, “Na Gafieira”, ainda sob forte influência do samba. Entretanto, foi ao lado de Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral que o músico mineiro encontrou o espaço que buscava para dar vazão as suas experimentações, flertando com diversos gêneros como jazz, funk, música latina, afrobeat, rap e punk. Assim, em 2011, Thiago lançou, em parceria com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, o elogiado Metá Metá. No mesmo ano, dessa vez com Marcelo Cabral e Tony Gordin, o saxofonista promoveu o álbum de seu projeto MarginalS. Mais recentemente, acompanhado de Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Samba Ossalê e Pimpa (Wellington Moreira), Thiago desenvolveu o Sambanzo, lançando este ano o álbum “Etiópia”. Em meio a tantos projetos, o músico ainda encontra disposição para participar de shows e gravações de seus colegas de geração, desde seus parceiros mais constantes, como Romulo Fróes e Rodrigo Campos, até artistas de outras searas, como Criolo, Gui Amabis, CéU e Lurdez da Luz.
Figura extremamente atuante na musica contemporânea brasileira, Thiago esteve de passagem pelo Rio acompanhando a turnê “Nó Na Orelha” de Criolo. O Banda Desenhada aproveitou a oportunidade para convidá-lo para esta entrevista onde nos contou de sua carreira, projetos, a relação com o samba e as religiões afro-brasileiras.

- continue lendo >

molho, ritmo e balangandãs


fotos: daryan dornelles


Technopop mexicano, jazz alemão, rock psicodélico brasileiro, country dinamarquês, indie filipino, heavy metal japonês... Em tempos de universalização da cultura, assistimos nas última década uma avalanche de artistas dos mais diferentes pontos do planeta ganhando destaque em diferentes nichos do mercado fonográfico ao articular em seu som, até então taxado de regional ou mesmo folclórico, uma identidade “universal”. Se por um lado há de se comemorar o consumo pelo mundo afora da obra destes artistas, é importante perceber que, para que tal aconteça, se faz necessário a rotulação de seu trabalho por olhos e ouvidos dominantes pouco aptos à diversidade cultural. Assim, para estes, a nacionalidade de um som ganha ar cosmopolita ao agregar-se a um gênero internacionalmente conhecido. Mesmo que, em pleno século XXI, seja um tanto questionável discutir “brasilidade” e que haja pouco consenso sobre de que forma devemos preservar e estimular as tradições e os ritmos ditos regionais, é importante perceber que certos processos estigmatizantes ainda são devidamente estimulados por uma cultura de massa globalizada. 
Ao mesmo tempo, vivemos em um período que se destaca pela efemeridade das tendências e pelo descarte quase automático de artistas que, na estação anterior, foram considerados a grande revelação do momento. Assim, tornou-se imperativo que os jovens músicos, inclusive brasileiros, adquirissem um aspecto amorfo ou, utilizando um termo mais pertinente, líquido, sem se prenderem a um gênero que, por ventura, mídia e público facilmente descartariam após seu consumo. Deste modo, ganhou um tom quase ofensivo a associação dos novos nomes da música brasileira com a agora antiquada MPB, termo que envelheceu rapidamente nos últimos anos e que de fato se viu incapaz de abarcar a pluralidade estética da nova geração. Esta, que em boa parte se autointitula pop, se diferencia de suas predecessoras não só pelas questões estilísticas ou por se ver inserida em um novo contexto do mercado, mas também pela enorme valorização das particularidades inerentes a cada artista, inviabilizando as muitas tentativas de classificá-los por gênero ou mesmo inseri-los em algum possível movimento. 
Representante inconteste de uma cultura universalizada, propulsionada pelo desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, a música contemporânea brasileira e, de forma mais nítida a cena independente, ao mesmo tempo em que se tornou mais democrática, potencializando sua diversidade e dando voz a um sem número de artistas das mais variadas regiões do país, vive as idiossincrasias e os tormentos por que passa a cultura de qualquer nação periférica: A busca por uma mobilidade que, se por um lado, a desenraiza e a liberta de qualquer identidade monolítica, por outro, a torna vítima de um mercado cultural globalizado extremamente voraz e competitivo.
Nadando contra a correte e buscando um olhar mediador voltado tanto para a tradição quanto para a contemporaneidade, Fabiana Cozza é um dos casos raros de sua geração que levanta a bandeira da música popular, ou melhor, do samba. Considerada uma das maiores intérpretes da atual música brasileira e dona de uma voz prodigiosa, Fabiana cresceu em meio às rodas de samba paulistanas e ouvindo em casa os LPs de samba e jazz de seu pai, Oswaldo dos Santos, ex-puxador da escola Camisa Verde e Branco. Em 2004, lançou seu primeiro álbum, “O samba é meu dom”. Três anos depois, seria a vez de “Quando o céu clarear”, onde estreitou laços com a música cubana. Em 2008, gravou seu primeiro DVD, no Auditório Ibirapuera, com as participações da cantora Maria Rita e do rapper Rappin Hood. Em 2009, interpretou o repertório de Elizeth Cardoso no espetáculo “Fabianíssima” e, ainda no mesmo ano, realizou um tributo a Edith Piaf ao lado da Orquestra Jazz Sinfônica. Em 2010, ano em que foi celebrado o centenário de Adoniran Barbosa, a cantora realizou uma série de shows em homenagem ao compositor, com a participação do rapper Emicida. Seu terceiro álbum, “Fabiana Cozza”, lançado em 2011, reiterou suas convicções, mostrando uma cantora atenta não só aos grandes nomes da música brasileira, mas também aos novos compositores de sua geração, gravando duas canções de Kiko Dinucci, “São Jorge” e “Santa Bamba”.
Dias antes da estreia de seu novo show no Rio de Janeiro, em dezembro passado, Fabiana Cozza aceitou o convite do Banda Desenhada e nos encontrou no boêmio bairro de Vila Isabel para a entrevista. Generosa, fez uma análise profunda sobre a sua geração e ofício, comentando também a sua trajetória e influências:

- continue lendo >

ponta de lança


fotos: daryan dornelles

Há uma ou duas décadas, ainda não causava tanto estranhamento o apoio, mesmo que bastante comedido, das grandes gravadoras a artistas que partiam em determinado momento de suas carreiras em busca de experimentações ou novas estéticas. Assim, nos anos 70, Caetano Veloso lançou pela Polygram o seu álbum mais polêmico, “Araçá azul” (1972). Milton Nascimento veio, por sua vez, com “Milagre dos Peixes” (EMI Odeon, 1973), álbum com 11 músicas, sendo oito delas instrumentais, onde, junto com Naná Vasconcellos, fazia entrecruzar a música mineira com a africana. Já Tom Zé, após "Todos Os Olhos" (1973, Continetal), revolveu o mais representativo gênero musical do país, criando o experimental “Estudando o Samba” (1976, Continental). Em 1974, Jorge Ben Jor, baseando-se em textos alquímicos, lançou o icônico “A Tábua de Esmeralda” (Philips). Mesmo na década seguinte, ainda pôde-se observar uma geração de músicos capaz de encontrar, ao seu modo, um equilíbrio entre liberdade artística e mercado, como foi o caso dos Titãs em seu álbum “Õ Blésq Blom” (1989, WEA), que flertava com o tropicalismo e a world music impregnados de programações eletrônicas. Ainda antes, em 1987, a RCA arriscava suas fichas com a inimaginável banda de rock progresso/psicodélico Violeta de Outono. Por fim, no ano de 1994, o maisntream dava seus últimos suspiros de criatividade, ao lançar os álbuns de estreia de Chico Science & Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos” (Sony Music) e “Samba Esquema Noise” (Banguela Records/Warner), do Mundo Livre S/A. Tempos depois, já submerso em crise e optando por um pragmatismo atroz, o mercado fonográfico tornou clara a sua opção por uma música incolor, inodora e insípida que, aparentemente, não apresentaria risco financeiro algum às empresas. Deste modo, há quase uma década, a cena independente, que até então era vista como um nicho limitadíssimo e de visibilidade nula dentro das mídias tradicionais, vem apresentando o que de mais relevante e criativo é produzido na música brasileira. E assim foi em 2011, com Pélico (“Que isso Fique entre nós”); Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes (“Passo torto”), Criolo (“Nó na orelha”); BiD (“Bambas 2”), Cícero (“Canções de Apartamento”); Bixiga 70 (“Bixiga 70”); o projeto “Metá Metá” de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França; e Gui Amabis (“Memórias Luso Africanas”). Todos estes, artistas independentes, vêm tendo seus álbuns listados entre os melhores do ano em diversas publicações e sites.
“Memórias Luso Africanas” do produtor, compositor e multi-instrumentista paulistano Gui Amabis poderia ser considerado por muitos um álbum “difícil”: Baseando-se nas histórias contadas por sua avó materna, a imigrante portuguesa Firmina dos Prazeres, falecida em 2006,o músico criou uma série de canções em que narra, de forma sutil e pouco linear, a história de sua família, remetendo não só à imigração portuguesa, mas também à sua afro-descendência e ao nascimento de sua filha, Rosa Morena. Disponibilizado gratuitamente para download, o álbum teve ótima recepção por parte da crítica, fazendo com que Amabis se enveredasse pelos palcos e deixasse um pouco de lado seu reconhecido trabalho em trilhas sonoras. O músico participou de uma infinidade de trabalhos para cinema e TV, dentre eles: “Cidade dos Homens” (2003), “Lord of War” (2005), “A estranha perfeita” (2007), “Antonia” (2007), “Filhos do Carnaval” (2009), “Quincas Berro D'água" (2010) e "Bruna Surfistinha" (2011). Também foi responsável pela produção de “Vagorosa”, segundo álbum de CéU, e coproduziu “São Matheus não é um lugar assim tão longe”, álbum de estreia de Rodrigo Campos.
De passagem pelo Rio de Janeiro com sua turnê que contou com as participações especiais de Tulipa Ruiz, Criolo e Lucas Santtana, Gui Amabis recebeu o Banda Desenhada para uma entrevista no Espaço SESC, onde, mais tarde, realizou sua segunda noite de apresentação. Lá, o músico nos falou de sua carreira, de sua geração, da passagem por Hollywood e do projeto “Sonantes”:

- continue lendo >

adeus, batucada

romulo fróes | fotos: daryan dornelles



A música brasileira, em especial a de origem popular e distante do eixo Rio–São Paulo, por um longo tempo foi submetida a uma hierarquia criada pelas elites do país que buscavam como símbolo máximo de sofisticação e modernidade os modismos importados da Europa e, a partir da década de 1920, dos Estados Unidos. Prática esta assimilada e reproduzida por uma classe média que sempre se esforçou em maquiar seu status, repudiando gêneros como o samba, o forró e, mais recentemente, o pagode, o funk carioca e o tecnobrega. Mesmo incorporado de forma definitiva à identidade nacional a partir dos anos 30, o samba não foi capaz de retirar totalmente a aura de marginalidade que tanto o acompanhou. Somente a partir da década de 1960, com a segunda geração da bossa nova e o surgimento do tropicalismo, é que, aos poucos, deu-se início a desconstrução deste imaginário. Nesta época, de forma transgressora, Nara Leão era vista cantando composições dos sambistas das favelas cariocas e Caetano Veloso interpretava a trágica “Coração materno” de Vicente Celestino, além de dividir o palco com Odair José  no show Phono 73. Mais adiante, na primeira década do século XXI, surgiu uma nova geração de músicos que, sob os efeitos da pós-modernidade e de sua descrença, se mostrou capaz de abarcar referências tão díspares quanto o poeta e musicólogo Mário de Andrade, a compositora e performer Meredith Monk, o funk carioca e a Banda Calypso. Sendo influenciados por diversos artistas que até bem pouco tempo eram considerados de gosto duvidoso, estes músicos, em sua grande maioria independentes, começaram a produzir um som absolutamente novo, rompendo, sem alarde, as barreiras entre os gêneros e fazendo cair por terra qualquer tipo de possível hierarquia. Assim, vemos a influência da música brega e passional no som de Andreia Dias e Filipe Catto; a regravação de “Você não vale nada” da banda de forró Calcinha Preta por Tiê; a constante presença de pagodes radiofônicos no repertório da dupla Letuce; o diálogo de Kassin, Iara Rennó e Thalma de Freitas com a diva do tecnobrega Gaby Amarantos; e outros tantos exemplos. Sem vergonha de sua origem, a música brasileira produzida por esta geração, digital e globalizada, vem se caracterizando não só por sua diversidade, mas também pela ruptura com a tradicional MPB e por reiterar a máxima punk "Do it yourself".
Presença e voz constante tanto na atual cena musical quanto em seu debate, Romulo Fróes tornou-se um dos principais observadores e críticos de sua geração. Iniciou a sua carreira em 98 com a banda Losango Cáqui, com a qual lançou dois discos. Em 2001, já em vôo solo, lançou um EP, prensado em edição limitada pelo selo Bizarre. Dois anos depois, veio finalmente seu primeiro álbum: "Calado" (Bizarre Records), onde se destacava a forte influência do samba e as parcerias com os artistas plásticos Eduardo Climachauska, o Clima, e Nuno Ramos. Em seu segundo álbum, “Cão” (2006, YB Music) regravou “Mulher sem Alma”, música composta por uma de suas maiores influências: Nelson Cavaquinho. Em 2009, tentando fugir da pecha de “sambista indie”, Romulo lançou o elogiado e complexo “No chão sem o chão” (YB Music), álbum duplo que contou com a presença de Mariana Aydar, Nina Becker, Lanny Gordin, entre outros. No ano seguinte passou a se dedicar exclusivamente à música, deixando de lado seu trabalho de assistente do artista plástico Nuno Ramos. Em 2011 gravou o quarto álbum, “Um labirinto em cada pé”, disponibilizado para download em seu próprio site. Artista irrequieto, Romulo se uniu a Rodrigo Campos e Kiko Dinucci para lançar, em outubro, “Passo Torto”, projeto em que se aprofundou nas experimentações dentro do universo da música popular brasileira e, em especial, do samba.
Rodrigo, por sua vez, lançou seu álbum de estréia “São Mateus não é um lugar assim tão longe” em 2009, baseado em personagens e histórias retiradas de seu cotidiano no bairro da periferia de São Paulo. Lá, o músico viveu dos três aos 24 anos, começando cedo a participar de suas famosas rodas de samba, onde, com o seu cavaquinho, tocava o repertório dos cariocas Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Fundo de Quintal. Ainda como instrumentista, acompanhou diversos nomes da MPB, como Maria Rita, Vanessa da Mata, Paulo Moura e Fabiana Cozza. Entretanto, mesmo tendo o samba como cerne de seu trabalho, Rodrigo não se deixou levar pelo caminho mais fácil, “São Mateus não é um jugar assim tão longe” se destaca por seus arranjos pouco usuais que levam as canções para outro território, mais climático e repleto de texturas, lembrando, em alguns momentos, uma trilha sonora. Atualmente, além do projeto “Passo Torto”, Rodrigo vem se dedicando à gravação de seu novo álbum: “Bahia Fantástica”, onde, estendendo as suas referências, trouxe para a sua música o soul de Curtis Mayfield e Funkadelic e o misticismo baiano.
Envolvidos em mil e um projetos, Romulo e Rodrigo se uniram para uma apresentação no Rio de Janeiro, no Solar de Botafogo, em outubro passado. O Banda Desenha aproveitou a oportunidade e os entrevistou um pouco antes do show, em seu camarim. Lá, os músicos comentaram sobre seus trabalhos e Romulo, que já foi chamado de  “arauto da neo-MPB”, reiterou suas ideias a respeito de sua geração:

- continue lendo >

Z DA QUESTÃO

fotos: daryan dornelles

Década de 1930. Em busca de uma identidade nacional, o Estado Novo de Getúlio Vergas, aliado às elites do país, encontra no samba dos morros cariocas a musicalidade perfeita para enaltecer um Brasil que se almeja moderno e industrial. Tornando-se símbolo máximo de brasilidade e unificador da nação, o samba deixa para trás suas restrições étnicas e religiosas, sai dos terreiros e passa a ser consumido por uma classe média emergente. Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva, Silvio Caldas, entre tantos outros, se tornam os grandes nomes da música popular brasileira de então. Curiosamente, todos elegantemente trajados e, em sua esmagadora maioria, brancos ou pardos. Num segundo momento, vê-se surgir na década de 50, em São Paulo, uma geração de compositores e intérpretes que, sem temer suas origens, fazem do samba sua matéria prima e com ele elaboram as mais incríveis e representativas crônicas da cidade. Contudo, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Germano Mathias jamais chegaram a importunar a majestade de seus vizinhos cariocas. Nos anos 70, ainda se ouviria do poeta e compositor Vinícius de Mores a célebre sentença: “São Paulo é o túmulo do samba”. Mesmo que proferido em circunstância extremada – Vinícius defendia seu amigo Johnny Alf de uma descortês platéia paulistana – o comentário já deixava clara a importância que ganhou, ao longo do tempo, não só o samba, mas a cidade que inicialmente o fomentou e, acima de tudo, seu status dentro da cultura nacional.

Década de 2000. Em meio às fortes tensões do mercado fonográfico, surge em São Paulo uma geração de cantores e compositores que atualizam o gênero criado há décadas na cidade. Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Douglas Germano, Rodrigo Campos e Romulo Fróes tornam-se as figuras de maior destaque desta cena e, dentre eles, Kiko mostra-se o mais prolifero. Flertando com sambas, batuques, macumbas, modas de viola, pós-punk e a onipresente vanguarda paulista, o músico já lançou cinco álbuns, quase todos em parceria: Padê (2007, com Juçara Marçal), Pastiche Nagô (2008, com o Bando Afromacarrônico), Retrato de Artista Quando Pede (2008, com Douglas Germano), Na Boca dos Outros (2010, com diversas participações especiais) e Metá Metá (2011, com Juçara Marçal e Thiago França). Em 2006, enveredou pelo audiovisual, produzindo o documentário Dança das Cabaças - Exu no Brasil. Atualmente, o músico se divide entre a turnê de seu último álbum, os preparativos para o lançamento de seu livro de quadrinhos chamado Cabeça de Homem e um novo projeto musical: Cortes Curtos.

De passagem pelo Rio de Janeiro, onde realizaram o show de lançamento do álbum Metá Metá, Kiko e Juçara foram responsáveis por uma das mais contundentes entrevistas do Banda Desenhada. Em meio a bolinhos de bacalhau e alguns chopes, a dupla falou sobre a sua carreira, o samba paulista, Itamar Assunpção e, claro, a derrocada da MPB:

- continue lendo >

outras conversas

da esquerda para direita: duani, pablo francischelli, caio jobim, tulipa ruiz e gustavo chagas. foto: aline arruda.

O Banda Desenhada sempre teve como principal objetivo retratar o cenário musical brasileiro contemporâneo e, para tanto, optou não só por entrevistar músicos e produtores, mas também toda uma gama de profissionais que, de uma maneira ou de outra, estão envolvidos com esta geração. Pelo site já passaram fotógrafos, artistas plásticos, designers, etc. Contudo, ainda estava faltando uma análise da produção audivisual deste momento. Pensando nisto, convidamos os documentaristas Caio Jobim e Pablo Francischelli, da produtora DobleChapa. Pioneiros na documentação da chamada Nova MPB, a dupla foi responsável pelo mais relevante programa a abordar o tema: “Pelas Tabelas”, produzido pela Carioca Filmes e exibido por duas temporadas (2009/2010) no Canal Brasil. A conversa não se limitou apenas ao trabalho dos rapazes e tocou diversas vezes em  pontos delicados do cenário atual da música popular. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, MTV, mangue beat, a cena carioca e outros tantos assuntos foram discutidos sem meias-palavras nesta que é, com certeza, uma das mais elucidativas entrevistas do site:

- continue lendo >