TEMPOS ABSURDOS EM BANQUETE DE MÁRCIO BULK E CADU TENÓRIO

foto: daryan dornelles


Agora percebo, então, que a esperança não pode ser eludida para sempre e que
pode assaltar os mesmos que se achavam livres dela. 
(CAMUS, Albert. A criação sem amanhã. O Mito de Sísifo)

Em 2013, o Brasil conseguiu se tornar um lugar mais esquisito do que sempre foi: os protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro transmutavam-se em algo que a teoria não dava conta. Diferentemente de Hardt e Negri, pensava-se em pauta, em discurso, em enunciado e, quando menos se percebeu, o choque com o Estado e a revolta com a “mídia golpista” caminhava para um apaziguamento com muito orgulho, com muito amor. O ano de 2013 também é o ano do lançamento de E Volto Pra Curtir, disco tributo a Jards Macalé.

Capitaneado pelo artista plástico de formação, jornalista e letrista nascido em Nova Iguaçu, Márcio Bulk, o disco era uma homenagem ao maldito e a sua atuação pelas bordas da MPB. Macalé havia se tornado um tema recorrente à contemporaneidade viva e dialeticamente desperta: recuperou-se sua obra e sua figura, deslocando-o do armazém de mercadorias culturais, onde se costuma buscar receitas abstratas. A análise crítica do presente e a possibilidade de uma apropriação produtiva da herança do passado tomavam forma no documentário Jards (2012), de Eryk Rocha, e na reprensagem, em 2013, do disco compacto Só Morto (1969-1970), o primeiro da carreira do compositor. Sim, Walter Benjamin descarado justificando o Macalé que balbuciou sobre o presente lá do passado.


Bulk ouviu o compacto e, como costuma acontecer com todo mundo que tem contato com este disco, apaixonou-se por “Soluços”. O contato, por conta de E Volto Pra Curtir, com músicos da cena experimental do Rio de Janeiro, como Marcos Campello e Bruno Cosentino (este mais “poroso” à canção que o primeiro) acabou providenciando o encontro com Cadu Tenório, músico crescido na zona norte do Rio, beirando a linha do trem, onde vive até hoje. Juntos, realizaram o EP Soluços com a participação de Alice Caymmi.


“Eu chapei! Achei aquilo demais. Não que seja uma fórmula, mas saca quando você vê algo que é a sua cara? Foi isso que eu achei. É isso! Isso é meu!” — comenta Bulk sobre o trabalho de Tenório, reconstruindo a sonoridade da canção a partir de uma gravação voz (Alice Caymmi) e guitarra (Lucas Vasconcellos), esta completamente extirpada do resultado final. Desenhava-se, nesta obra, neste processo, o modus operandi de Banquete (2014).


Composto a partir de letras que Bulk recuperou e remixou de um blog que mantinha nos anos 90, Banquete é um disco composto de 4 faixas: “Café Expresso”, “Estela”, “Electric Fish” e “Em Transe”. As letras foram enviadas a Bruno Cosentino, Rafael Rocha e César Lacerda, que providenciaram a primeira encarnação das canções, arranjadas ao violão para as vozes de Michele Leal, Alice Caymmi, Livia Nestróvski e Letícia Novaes, que não participou do disco, sendo substituída pela voz de César Lacerda em “Electric Fish” (curiosamente, nenhuma mulher se dispôs a cantar uma canção que versa sobre sexo oral).


Voz e violão, formato clássico de canção, aquela mesma que disseram ter acabado, dez anos antes da produção deste álbum.


Antes de falar da implosão deste formato no processamento de cada fonograma, é interessante olhar para o disco. A capa é uma natureza morta, do séc. XVII, de Jacques Linard. Ao enviar as letras que virariam canções, Bulk enviou também a capa do disco para os músicos. A tela é feita de corais e conchas dispostas sobre um fundo preto — o fundo do oceano — e é impossível não associar esta imagem ao trabalho de Tenório no arranjo das canções.


O mar está presente em "Estela”; o peixe, em “Electric Fish”; a comida, em “Café Expresso”; e “Em Transe”, um banquete oceânico. Quando da construção das letras, Bulk lia O Banquete, de Platão, e Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Para remixar as letras de 20 anos antes, a leitura de ambos foi retomada. Quase o nome do disco virou Fragmentos..., mas seria óbvio demais. Banquete ganhou a parada.


E, como Aristófanes pontua no diálogo platônico, o disco trata do complexo caminho — e dos desdobramentos disso — até a outra metade, aquela que faz homens e mulheres correrem esbaforidos, em pânico, no desejo de voltarem a ser inteiros, uma vez divididos pela sabedoria de Zeus. O discurso é amoroso, quase perverso; a forma, primeira, é do samba-canção.


A ordem das canções era outra e contavam uma história contemporânea: um encontro casual, o enlace, a despedida e a avaliação. Uma vez alterada por conta de dinâmicas e da necessidade de conceber um álbum mais coeso na sonoridade que no sentido, produzem outro enunciado, mais focado nas realizações a partir de um passado cristalizado/consagrado — a forma samba-canção, apontando para outras possibilidades de escuta e produção da canção: a corporificação da letra na performance não está inteira no primeiro plano, é tensionada pela mancha sonora que ocupa o lugar consolidado do violão/harmonia na forma canção.


“A canção existe e sabemos que ela é de suma importância junto à sua letra. No Banquete também o é, muito. Porém, rolou o cuidado de que a voz pudesse descer do palanque e, entre aspas, disputasse por vezes com o peso musical, com a emoção e o peso do arranjo, como numa relação de simbiose. Uma tentativa de diálogo com menos formalidade” — explica Tenório sobre a concepção dos arranjos e da sonoridade que perpassa o disco.


“Café Expresso” abre o disco na interpretação de Michele Leal. De início, um ruído e um violão processado até se parecer com um piano, dão pistas do que está por vir. Uma música sem refrão, com algo que se aproxima de parte A e B, porém, com um trecho de spoken word ao final, submerso entre ruídos de fita e cordas tocadas ao contrário. Anuncia-se aí a diferença de escuta: dificilmente irá se entender toda a letra na primeira escuta pois, de fato, existe uma disputa com o arranjo pelo lugar de atenção do ouvinte.


A tecnologia utilizada para tensionar os limites da linguagem: esta é a tese que interessa em Banquete. Este disco não seria possível sem um olhar para o passado que tensiona ao invés de explicar o presente; tampouco seria realizado sem a invenção do transistor, da fita, do processamento digital do som, da contínua evolução da tecnologia.


Bulk e Tenório foram muito felizes em propor outro lugar para a canção. Um lugar que parte do samba-canção, mas que o implode no som e na letra (É pela voz que eu desisto/Não preciso levantar/Enamoro a derrota/vou ao fundo/abraçando o desafino em um samba-canção manco — em "Em Transe"); um lugar coletivo e desmaterializado, parecido com a forma como nos relacionamos hoje, e é sintomático que o disco não tenha ganhado espaço na mídia impressa, chegando até nós via post no Facebook.


A música de Macalé já tinha cantado a bola, partindo da borda, desafinando o coro dos contentes, apontando que as mudanças estão ocorrendo e, talvez, o desejo de ver o mundo através de um filtro, de sobrepor um sistema racional a sua aparente aleatoriedade, seja o limitador da canção. Vivemos tempos absurdos — sempre vive(re)mos — e, retomando o Camus da citação que abre o texto, “ [...] todo pensamento que renuncia à unidade exalta a diversidade. E a diversidade é o lugar da arte. O único pensamento que liberta o espírito é o que o deixa sozinho, certo de seus limites e do seu fim próximo[...] Por isso, peço à criação absurda o mesmo que exigia do pensamento: revolta, liberdade e diversidade. Depois ela manifestará sua profunda inutilidade [...]”.


Banquete trata-se de uma obra sem esperança de organizar as coisas, calcada mais na disputa do que no enlace de letra e música. Este, nos parece, é um caminho interessante para a canção, uma apropriação produtiva da herança do passado. Ser diversa, revolta e livre para, ao final, não importar, pois está ali enquanto tensão, sem moral, sem princípio organizador uma vez que não há o que organize a vida e a linguagem é espelho desse universo caótico, correndo atrás de algo impossível de alcançar.



Raul Lorenzeti é editor web do Selo Sesc. A resenha foi escrita originalmente para a conclusão da disciplina Canção Popular e Cultura, ministrada por Cacá Machado, no curso de pós-graduação sobre canção popular brasileira, da Faculdade Santa Marcelina.

BANQUETE




| BANQUETE | CADU TENÓRIO + MÁRCIO BULK |
Alice Caymmi | Bruno Cosentino | César Lacerda | Lívia Nestrovski | Michele Leal | Rafael Rocha


1. “Café expresso”
César Lacerda/Márcio Bulk
Voz: Michele Leal
Violão: César Lacerda
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

2. “Estela”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Voz: Alice Caymmi e Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

3. “Electric fish”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Versão para o inglês: Sylvio Fraga Neto
Voz: Cesar Lacerda
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

4. “Em transe”
Rafael Rocha/Márcio Bulk
Voz: Lívia Nestrovski
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

Produzido por Cadu Tenório e Márcio Bulk
Arranjos: Cadu Tenório
Gravado nos estúdios 503, Audio Rebel, Marini e Clemente II
Mixado por Cadu Tenório e Emygdio Costa
Masterizado por Emygdio Costa
Projeto gráfico: Márcio Bulk e Rodrigo Sommer
Capa: “Nature morte aux coquillages et au corail”, Jacques Linard


Banquete, o samba-canção manco de Cadu Tenório e Márcio Bulk
Marcos Lacerda

A canção é uma linguagem artística generosa, múltipla e com uma densidade presente tanto em suas formas harmônico-melódicas mais complexas, quanto nos mais simples samba-canções e boleros. Quem realmente a conhece sabe da sua capacidade de gerar encontros e atritos entre as mais diversas linguagens, inclusive em experimentos sonoros radicais, como vem fazendo um segmento expressivo da canção brasileira contemporânea. Esta desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um diálogo forte com a música “experimental” ou “de invenção”, algo que podemos constatar de forma clara em Banquete, o mais novo projeto de Cadu Tenório e Márcio Bulk.

Integrante da chamada cena experimental carioca, o músico e produtor Cadu Tenório é conhecido por encabeçar diversos projetos musicais, dentre eles, Sobre a Máquina, VICTIM! e Ceticências. Em quatro anos de carreira, esteve envolvido na produção e lançou mais de 20 discos. Nesse mesmo período, através do blog Banda Desenhada, o pesquisador musical Márcio Bulk dirigiu e lançou o álbum E volto para curtir (2013), no qual nomes da nova geração regravaram o primeiro disco de Jards Macalé (homônimo, 1972). No final de 2013, lançou o single Soluços (Jards Macalé), sua primeira parceria com Cadu Tenório. Agora, com o EP Banquete, Bulk exibe pela primeira vez sua veia poética. Com influência do samba-canção e das obras de Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, suas letras foram musicadas e interpretadas por alguns dos artistas mais relevantes da atual cena carioca: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha. As canções, inicialmente gravadas com acompanhamento de violão, foram desconstruídas e recriadas por Tenório através de processos eletroacústicos que dialogam de forma direta com as letras e com a interpretação dos cantores, remetendo, por vezes, aos trabalhos inventivos de artistas como Scott Walker, Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono e Björk.

Dessa forma, podemos dizer que Banquete é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada.

A primeira faixa, “Café expresso” (César Lacerda/Márcio Bulk), é interpretada por Michele Leal. A canção se inicia ao som de um violão, como se saído de uma fita antiga, interrompido bruscamente pelo ruído de uma máquina ou veículo acelerando. Esta instabilidade entre a forma sonora inteligível e a aceleração abrupta permeia todo o disco e é o “recanto escuro” no qual as formas poético-musicais das canções vão se fissurando e se esgarçando. Nesse primeiro caso, temos a experiência da frustração diante da perda, na voz do outro cuja presença ainda se sente (“a sua voz ainda/ecoa pelo meu dorso”) e no corpo, que se perde e se anula, em meio a tantos suportes materiais (cama, remédios, escadas, aço, vidros). Michele consegue, de forma bastante criativa, enriquecer essa trama, deixando de lado, ao final da canção, o seu tom dramático e, tomada de ironia, se aventurar em um spoken word. A canção seguinte, “Estela” (Márcio Bulk/Bruno Cosentino), trata-se de uma bela e sensível homenagem à cantora Stella Maris (1922–2008), esposa de Dorival Caymmi (1914–2008). Interpretada por Bruno Cosentino e Alice Caymmi, neta de Stella, a canção é um apelo desolador diante do medo da separação e da morte. A paisagem oceânica (recifes, pedras, embarcações, horizontes) torna-se símbolo de incomunicabilidade, personificada como testemunha ocular de todo o drama. A forma sonora do álbum, emaranhada de melancolia, só é levemente superada na transgressão do sexo e do gozo — de raras figurações ou mediações simbólicas — como se vê na canção “Eletric fish” (Bruno Cosentino/Márcio Bulk), interpretada por César Lacerda. O cantor dá vida a um personagem cambaleante e bêbado, o que é a deixa para que Tenório possa brincar com a métrica da canção, repleta de mudanças drásticas e vai e vens. Por fim, temos “Em transe” (Rafael Rocha/Márcio Bulk), interpretada de forma impressionante por Lívia Nestrovski. A música amalgama e dá cabo dos principais temas de Banquete: a solidão, a perversidade do discurso amoroso, o ruído e o seu incômodo, impresso por Tenório nas camadas e mais camadas sonoras que ele utiliza ao trabalhar a voz de Lívia. Esta, na busca por sua inteireza, produz uma melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção (“um samba-canção manco”).

Com Banquete, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.


Marcos Lacerda é sociólogo, crítico, pesquisador da história da canção e editor da revista Polivox.

sem preconceito ou mania de passado

fotos: daryan dornelles
Nos últimos anos, uma nova geração de músicos cariocas ganhou destaque em blogs e jornais locais. Flertando em maior ou menor grau com a MPB e o indie rock, nomes como Cícero, Letuce, Tono e Do Amor, somados aos veteranos da Orquestra Imperial, configuraram a cena independente da cidade. Paralelamente, outros grupos também se desenvolveram e ganharam destaque, como o samba da Lapa, o Coletivo Chama e a cena experimental. Contudo, se é fato que esta última nunca teve grandes dificuldades em dialogar com seus colegas indies, também se tornou perceptível a quase ausência de diálogo entre os outros grupos. Ausência esta provocada, na maioria das vezes, por polêmicas e posicionamentos artísticos conflitantes.
É sobre estas e outras questões que conversamos esta semana com o cantor e compositor Fernando Temporão. O músico começou a sua carreira na Lapa em 2005, onde integrou o grupo Sereno da Madrugada, com quem lançou, em 2010, o álbum “Modificado” (Biscoito Fino). Dois anos depois, em parceria com João Callado, Fernando gravou o disco “Primeira Nota” (Biscoito Fino), com participações especiais de Mônica Salmaso, Teresa Cristina, Moyseis Marques, Áurea Martins e Marcos Sacramento. Em 2013, sob a produção de Kassin e Alberto Continentino e contando com a presença de Domenico Lancelotti, Donatinho, Stéphane Sanjuan, entre outros, o músico lançou seu primeiro álbum solo, “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. O disco, de forte influência pop e facilmente inserível no nicho indie carioca, foi disponibilizado para download gratuito pelo Musicoteca.
Interessados em saber a respeito de sua experiência no samba carioca e de seu diálogo com seus colegas de geração, convidamos Fernando para uma entrevista ao Banda Desenhada. O músico nos recebeu em seu apartamento, no bairro do Jardim Botânico (RJ) e nos falou de seus tempos de Lapa, da cena da cidade e de seu álbum.

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quedas e curvas

fotos: daryan dornelles
Em 2013, o Banda Desenhada realizou a primeira de uma série de entrevistas onde jornalistas de diversas capitais do país analisam a cena local. Na ocasião, coube a Marcus Preto a tarefa de relatar a evolução e a ascensão da cena independente paulistana. Agora, colocado em situação mais espinhosa, Leonardo Lichote analisa o cenário carioca, sua crise e desdobramentos, relacionando-os com a atual e conturbada conjuntura política do país.
Atuando desde 2001 como repórter e crítico musical do jornal O Globo, Lichote colaborou com o livro de memórias de Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (Objetiva), sendo responsável por assinar o seu texto final. Também é autor dos textos críticos que acompanham a caixa de Chico Buarque, “De Todas as Maneiras” (Universal), que contém os 22 primeiros discos do artista. Comentarista do programa Faro MPB (rádio MPB FM) e jurado dos dois principais prêmios de música do país  Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira , Lichote também é uma das figuras mais presentes e incentivadoras do cenário independente carioca.
A entrevista que se segue, desenvolveu-se ao longo de alguns meses, com algumas interrupções e retomadas, em meio a longas conversas e uma troca constante de e-mails.

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soluços

download: desenhada.banda@gmail.com

Entre surtos e soluços 
Fred Coelho

Até pouco, achava que o Banda Desenhada, blog de Márcio Bulk, já tinha feito um trabalho fundamental na renovação da obra de Jards Macalé com o álbum virtual E volto pra curtir. Eis que, no fim desse ano de surtos e rupturas, ganhamos ainda esta versão de “Soluços”, feita com maestria por Alice Caymmi e Cadu Tenório. A faixa, composta por Macao, foi originalmente lançada em 1969/1970, no compacto “Só Morto (Burning Night)”. O disco ainda continha mais três composições: “O crime” (Macalé e Capinam), “Só morto (burning night)” (Macalé e Duda) e “Sem essa” (Macalé e Duda).
Portanto, é impactante ouvir uma música completamente esquecida no repertório de Macalé (foi relançada recentemente em um disco de arquivos do selo Discobertas) sendo renovada de forma impecável pela jovem dupla carioca. Vindos de universos sonoros aparentemente distantes, o encontro entre Alice e Cadu nos mostra como a música brasileira contemporânea tem uma vasta trilha de possibilidades pela frente. Alice, com sua voz etérea, vem de um universo sonoro cuja maior referência, claro, é sua própria família musical. Mas essa referência é apenas o ponto de partida para sua curiosidade e pesquisas, cada vez mais amplas e criativas. Já Cadu, articulador e produtor intenso da música experimental carioca e que hoje ganha cada vez mais visibilidade na cidade, coloca sua experiência com projetos e bandas como Sobre a Máquina e Ceticências à serviço de uma delicada canção. E de um desafio muito bem enfrentado.
A junção entre a voz e a interpretação precisas de Alice e a marca musical e maquínica de Cadu fazem com que a canção original, um rock típico de bandas hard rock da época como Cream ou Mutantes, torne-se uma torrente densa de sonoridades, experimentos, teclados, efeitos e vozes. Alice leva a interpretação original de Macalé para um patamar de dramaticidade que joga com o tema da canção na medida certa. Em 1969, tínhamos uma voz masculina, tensa e raivosa pela aparente fragilidade do homem que canta a própria incapacidade de encarar nos olhos seu amor que o abandonou. Na versão atual, Alice subverte o lugar da fala e torna-se a afirmativa voz feminina que fulmina o ex-amado, deixando-o desarmado frente à situação. Ela, sem os óculos escuros, ordenando que ele não fale e não olhe para ela. Pois ela não fugirá do encontro. Dominando a dramaticidade do tema, Alice canta com a maturidade de uma pessoa que entende perfeitamente o mundo poético que atravessou para gravar “Soluços”. 
A produção de Cadu Tenório, por sua vez, arremessa o mundo de Jards Macalé para dentro de sua usina de sons, ruídos, experimentos e transgressões dos códigos que a canção brasileira sempre evitou, na medida do possível. A voz de Alice tem como chão (e céu) camadas sonoras que atravessam a melodia e ajudam a compor o clima inóspito, sufocante e de abandono que a letra nos passa. Com a colaboração de Lucas Vasconcellos (backing vocal) e Emygdio (produção e masterização), o arranjo respira, hesita, agride, sofre. Com a faixa bônus “Soluços (Epílogo)”, Cadu atinge o cerne do universo mais escuro de Jards Macalé, como se entrássemos na mente daquele que odeia soluços e esqueceu seus óculos escuros. Estamos em plena alucinação sonora, sem esperanças. E, mesmo assim, em algum momento, encontramos a paz. 
A nova versão de “Soluços”, portanto, faz com que possamos sentir, em 2013, a barra pesar ainda mais nesta versão do que nos sufocantes dias de 1970. Talvez as transformações e perplexidades de hoje nos deem pistas sobre essa faixa pungente, certeira e desnorteadora para os que buscam águas mansas e lugares comuns para a música brasileira. Isso, essa percepção transgressora do seu tempo, é a prova de que a nova versão de “Soluços” nos mostra o quão atual é a canção. E nos mostra, principalmente, que Alice Caymmi e Cadu Tenório são um dos mais felizes encontros que ocorreram na música brasileira contemporânea.

curadoria – márcio bulk
capa – rodrigo sommer
masterização – emygdio costa

1 – alice caymmi + cadu tenório
soluços (jards macalé) fermata do brasil
alice caymmi – vocais
lucas vasconcellos – backing vocal
produzido por cadu tenório e emygdio costa.
gravado por cadu, emygdio e lucas vasconcellos.

2 – cadu tenório + alice caymmi
soluços  epílogo (cadu tenório, alice caymmi)
alice caymmi – vocais
produzido e gravado por cadu tenório.

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venha até são paulo ver o que é bom pra tosse

marcus preto | foto: vitor jorge
Há alguns anos, São Paulo já vinha dando sinais de que algo importante estava por acontecer. Bastava dar uma passada pelo Studio SP, na Vila Madalena, e observar a movimentação. Ou então notar alguns nomes que começavam a pipocar nos principais jornais da cidade: Céu, Tiê, Romulo Fróes, Curumin, Thiago Pethit... Todos artistas independentes, com forte trabalho autoral e tendo como QG a capital paulistana. Nessa mesma época, também era possível assistir a um acontecimento importante: músicos de diversos estados do país – com o predomínio dos pernambucanos e cearenses – passaram a circular pela cidade, fomentando ainda mais a cena local. Toda essa agitação serviu para arrumar o terreno para que, em 2010, três novos artistas lançassem seus primeiros e festejados trabalhos: Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci e Karina Buhr (ex-Comadre Fulozinha) foram a prova definitiva do quão estimulante e pertinente era a música que vinha sendo feita na cidade. Essa efervescência atingiu seu auge no ano seguinte, quando Criolo e seu álbum “Nó Na Orelha” alcançaram uma popularidade inimaginável para o nicho independente.
Encontrando-se bem no olho do furacão, o jornalista Marcus Preto foi um dos responsáveis pela consolidação dessa cena. Após passar por revistas como Rolling Stone, Bravo! e Época, trabalhou por quatro anos como crítico e repórter musical da Folha de S.Paulo, dando destaque a vários artistas como Rodrigo Campos, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Andreia Dias e Romulo Fróes. Paralelamente, foi diretor musical do site Música de Bolso, projeto que, ao lado do veterano TramaVirtual, serviu como guia para o que vinha acontecendo de novo no cenário musical brasileiro. Em 2013, após sua saída da Folha, realizou a curadoria do álbum “Coitadinha Bem Feito”, em que artistas da nova geração interpretaram canções de Ângela Ro Ro. Nesse mesmo ano, tornou-se apresentador do programa “Com a Boca no Mundo”, na Oi FM, e passou a comandar os projetos “Trampolim”, na Miranda (RJ), e “Grandes Artistas”, no Espaço Revista Cult (SP), entrevistando diversos nomes da MPB. Também atuou diretamente no EP “Tribunal do Feicebuqui”, de Tom Zé, com quem vem, há alguns anos, elaborando uma biografia.
Expandindo os limites de sua área de atuação, Marcus tornou-se figura ativa da cena musical paulistana e um de seus principais personagens. Sendo assim, o Banda Desenhada o convidou para uma entrevista, realizada através de uma troca constante de e-mails e bate-papos, onde o jornalista e produtor musical falou a respeito de sua carreira, projetos e, claro, da cena de São Paulo.

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de volta ao seu penhasco

fotos: daryan dornelles
Crise, crise, crise. Crise aos borbotões: crise fonográfica, crise cultural, crise criativa. Pelo menos essa é a lamúria que se vem ouvindo há praticamente uma década nas mídias brasileiras. Diversas vozes já se levantaram indignadas com a qualidade da atual produção musical. Como em um mantra, ouve-se a mesma fala: não há um novo Dorival Caymmi, nem um novo Tom Jobim ou mesmo um novo Chico Buarque. Mas talvez caiba aqui uma indagação: será realmente necessário o surgimento de artistas que sejam tão miméticos a esses grandes nomes? O fato é que vivemos novos tempos, com outra dinâmica, outros valores, outras inquietações e, consequentemente, outro discurso. A nova geração da música popular brasileira, mapeada pelo Banda Desenhada há quase dois anos, ainda está dando seus primeiros passos se a compararmos com as carreiras de nomes consagrados, como Caetano Veloso ou Paulinho da Viola. Certamente, ainda demorará algum tempo para dizermos, por exemplo, que tal cantora é a maior do país, como outrora foram Marisa Monte, Gal Costa, Elis Regina e Dalva de Oliveira. Além disso, como negar a prolificidade de nossa música contemporânea? De forma totalmente independente, dezenas de artistas de diversas partes do país surgem mensalmente, lançando álbuns e fomentando a cena nacional. Uma cena atípica, surgida em um momento de crise que transcende meramente a questão do mercado fonográfico. Ganhando força em tempos de total questionamento da identidade – seja regional, nacional ou mesmo estética –, a atual geração possui um leque de referências que muito pouco se assemelha ao que até então se tinha como modelo na MPB, destacando-se pela identidade plural, por vezes amorfa e inacabada, em constante processo de construção. Talvez ainda seja um pouco difícil para ouvidos mais tradicionais chamar de MPB os trabalhos de alguns artistas, como Jair Naves, Rafael Castro, Thiago Pethit, Holger, Nevilton, Banda Uó ou Macaco Bong. Entretanto, na falta de um termo melhor, todos estes certamente fazem parte da atual música popular brasileira. Música esta que já não mais se abala com a pressão da indústria cultural ou o crivo midiático que até pouco tempo dava as coordenadas para toda a produção do país.
Todas estas tensões talvez tenham se concentrando mais fortemente em um dos mais novos nomes da neoMPB: Alice Caymmi. Filha de Danilo, sobrinha de Nana e Dori e neta de Dorival Caymmi, a cantora tem em si um dos maiores legados da música brasileira, além de todas as inquietações características de sua geração. Entre elas, a que tange o processo criativo: como desenvolver um trabalho autêntico e que traduza um momento tão singular como o atual sem, necessariamente, romper com suas raízes? Este questionamento também é pertinente aos seus colegas de geração, onde a busca por uma linguagem própria só é validada através de um conflito benigno entre o passado e o presente.
Estudante de artes cênicas, Alice iniciou a sua carreira aos 11 anos, ao gravar “Seus Olhos”, um dueto com sua tina Nana. Em 2012, lançou seu primeiro trabalho solo, “Alice Caymmi” (Kuarup). Nele, além de composições próprias, a cantora regravou “Sargaço Mar”, de Dorival Caymmi, e “Unravel”, de Björk, e apresentou “Arco da Aliança”, uma parceria sua com Paulo César Pinheiro. Convidada para esta entrevista, realizada em um café na zona sul carioca, Alice nos falou a respeito de suas apreensões artísticas e de seu processo criativo, além de abordar temas pertinentes à sua geração.

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de papel crepom e prata


thalma touro e tigre | foto de yuri pinheiro

O primeiro contato com o trabalho do ilustrador Gabriel Mar foi enigmático: poucos meses atrás, durante a entrevista com a cantora e compositora Iara Rennó, uma imagem colada à parade, bem acima de sua cabeça, me chamava a atenção. Tratava-se de uma espécie de colagem, quase uma mandala, repleta de animais e plantas selvagens que emolduravam um retrato. Multicolorido e de forte referência ssessentista, a figura era magnetizante. Algum tempo se passou e novamente fui ao Miradouro, local de encontro de diversos artistas e morada não só de Iara Rennó, mas também da então entrevistada Thalma de Freitas. Não resisti e a indaguei sobre o autor do trabalho. Por sorte, Thalma me contou que o menino prodígio era mais um habitante da casa e que possuía um portfólio repleto de ilustrações, pôsters e capas de CDs de artistas da nova música brasileira. Por certo, suas colagens caíam como uma luva nas experimentações estéticas desta nova geração, marcada tanto por sua pluralidade quanto por sua inquietude. 
Não pensei duas vezes e logo convidei Gabriel para uma entrevista ao Banda Desenhada. Como de hábito, não faltaram participações especiais: Thalma e Felipe Benoliel, do coletivo carioca Apavoramento Sound System e também morador do Miradouro, fizeram pequenas intervenções na conversa que tive com o designer/ilustrador. Confiram agora o nosso colóquio: 

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