Manifesto Baile Primitivo
rompe & rasga & come
publicado em 20 de jan. de 2014 1 comentário »
Manifesto Baile Primitivo
1. Com livros, com fuzil e sem Coca-Cola: por que não?
O carnaval é a explicitação de uma sociedade desigual, violenta, desesperada, rebelde e potencialmente revolucionária. O avesso do pacto nacional de conciliação de classes. Diabinhos armados com artefatos luminosos, zé pereiras de faca amolada, índios com metralhadoras, capoeiras e cucumbis comandando tanques de guerra ao som de saraivadas de balas, em meio às troças dos mascarados. Você me conhece?
Baile primitivo é entrudo, vilas místicas dos caboclos do contestado, canhões do almirante negro, movimentos anarquistas, conferência de Bandung, movimento dos países não-alinhados, luta armada guerrilheira revolucionária, os três impérios de Joaquim de Fiori, Agostinho da Silva, “propaganda pelo fato”, Darcy Ribeiro, Prata Preta, neopaganismos, levante zapatista, bate-bola, black bloc, marcha das vadias e pinkbloc.
Sobrevivendo no inferno.
As grandes sociedades (Tenentes do Diabo, Democráticos, Os Fenianos, etc.) eram os pacificadores do carnaval carioca do século XIX. Eram os amenizadores, amortecedores, controladores da força popular do carnaval da cisão, da fratura social, da fissura, o carnaval do conflito social, do antagonismo, da luta de classes, sem conciliação. O carnaval primitivo. Vândalo é o Estado e o Mercado.
Filhas e filhos da ira no delírio antitotalitário da cola de sapateiro metendo o grelo na geopolítica da mulher maravilha. Jacarandá, que flor seria essa?
Podem surgir dos bairros, das ruas, dos conjuntos residenciais, das favelas, mocambos, malocas e alagados e do Conhecimento e conversação do Santo Anjo da Guarda.
Cavalos, vacas, ovelhas e insetos. Todos mudarão. A humanidade ainda está na sua infância. Sob o silêncio das máquinas, carne verdes e vacina e elementos belicosos da classe temerosa. O vanguardista está na ponta de qual corrida? Uma zona de furta-cor de onde emerge o supereu humorístico: pai, afasta de mim este riso de sangue
Demarcação de terras indígenas. Seringueiros, ribeirinhos, índios, operários e a lista de morte dos latifundiários do capitalismo 2.0. Poemas do cárcere de Ho Chi Min. Grupos de crime organizado (Coca-Cola, McDonald’s, FIFA) colonizando países emergentes. Não vai ter Copa! Meu cu é laico! Todo poder para o povo! Bancos públicos e privados quebram vidas. Anarquismos, comunismos e milenarismos. Pálidos economistas pedem calma...
2. Macaco é outro.
O ecletismo das ideias liberais escravocratas da conciliação. A transição classista da anistia para os orangotangos do conservadorismo militarizado. O obscurantismo do realismo capitalista na redemocratização.O poder moderador do imperador da canção popular (guardado por Deus, contando vil metal) entre os gaviões e os passarinhos de São Francisco de Assis.
Protegidas pela Guarda Nacional e pelo comitê policial da cultura letrada e do bom gosto, caras rosadas, nutridas, branquíssimas ou douradas pelo sol, se pintam de verde e amarelo e manifestam sua indignação contra a falta de cultura do público da nova vedete da música popular brasileira.
O pêndulo fica em cima do muro, entre a direita e a esquerda, e sempre retorna ao centro. Os liberais vibram, mas quando o pêndulo se mantém no centro, o relógio para.
Nora Ney. Jorge Goulart. Conjunto Farroupilha. Maria Helena Raposo. Celia de La Serna. Carlos Marighella. Oscar Niemeyer. Lúcio Costa. Cortina de Ferro. Janelas Abertas. Antes do Ornitorrinco.
Não se trata de realismo socialista, realismo capitalista, nacionalismo fantasioso, exotismo ilegível, “arte pela arte” burguesa. Os intelectuais e artistas juntam livros e rifles e, como últimos soldados da guerra-fria, começam a ouvir o diabinho cubano desafiador.
Rádio e TV Martí informa: indígenas, gays, mulheres, negros e brancos acabam de se filiar ao Alpha 66. Para o delírio totalitário dos estudos culturais. Enquanto isso, sujeitos monetários sem dinheiro transitam pela cidade e assustam turistas em transe e jovens adultos de classe média, que ainda não saíram do jardim da infância.
Mas a Rede Vespa está de campana...
Arrastão na praia de Ipanema. Rolezinho nos shoppings de São Paulo. Coquetéis molotov no consulado dos EUA e no Clube Militar. Pedras quebrando vidraças de agências bancárias. Carros da PM queimados por militantes anarquistas. Ocupação de prédios para moradia popular. Ocupação de terras do latifúndio: baile primitivo.
Contra a despolitização com interesse político liberal mercadológico e classista hierárquico. Contra os novos conformistas, as variações contemporâneas da patrulha odara, as aves de rapina travestidas de cordeirinhos “amigos do povo”. Abaixo intelectuais tecnocratas dublês de banqueiros. Abaixo aristocracias de burocratas do Estado. Abaixo relativismos culturais pós-tudo e seus pares reacionários: os elitistas esnobes acríticos e suas reações de pavor diante do protagonismo popular. Basta de relativismo liberal mascarado de barroquismos tropicais, “modos de ser do Brasil” e figuras míticas sem história. A estátua de Glauco enfim mostra as suas feições aterradoras. O rei está nu e não é bonito.
3. O que resta da ditadura? Os patetas adoram o discurso do poder.
Filósofos gays liberais, musas do topless, artistas rebeldes de classe média, estudantes barbudos de esquerda universitária, burguesia folclórica Rio-Paris, profissionais liberais e potenciais integrantes do Big Brother se divertem na praia de Ipanema, enquanto mulheres e homens negros pobres são vigiados ostensivamente pelas forças repressoras do mercado livre e do Estado democrático de direito.
Ao invés do equilíbrio de antagonismos (tão ao gosto dos nossos intelectuais malemolentes da “democracia racial” e da conciliação de classe ) a explicitação das contradições e o chamado ao confronto direto e à luta: baile primitivo.
O líder camponês. O líder sindical. A máscara negra da fome na melancolia dos trópicos. “Está vendo o que é o artista? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado, em festa permanente, rebolando no caos da miséria globalizada, enquanto o capitalismo ri de si mesmo e se faz paródia, alegria, alegoria”.
Bárbaros mandirobas com pés espalhados entoam a copla ao som do mestre de pancadaria e se juntam ao Rompe e Rasga e aos Destemidos da Chama, assustando os amenos carnavais do Resedá.
Quando o Brasil mítico, pré e pós-ocidente, encontra a história da luta de classes. Capoeiras, caboclos, milenaristas, indígenas e a plebe proletarizada e não proletarizada. O espírito de Deus se agita e no mar revolto a jangada volta cheia. É a Hora! É a Hora!
Exército anarquista de libertação. Alguém me disse, e o peixe amarelo eu vi navegar. Eles eram muito cavalos. A garoa rasga a carne. Quando os barquinhos da Bossa Nova integrarem a esquadra revolucionária. Ele disse a ela e escancarou os dentes, esperando a morte chegar.
Entre as duas torres, um clarão. Imagens e fantasmagorias. Subflor e mais flor. Dinamitar a ilha Brasil, pairando, porque não podes. O futuro só pode vir na forma da monstruosidade. O tigre agachado e o dragão enroscado estão mais majestosos do que nas eras passadas, enquanto a lâmina aguda ceifa as raízes da propriedade privada.
Justiçamentos. Tribunal do povo. Justiça popular. Nos meus retiros espirituais. Cortar a cabeça do capitalismo. Censurar ninguém se atreve. Balança rede, balança.
Uma bandeira negra e vermelha tremula nas ruas do Brasil. Da ditadura democrática do povo. O terror revolucionário. A grande onda da liberdade de amar. Eu não nasci pra morrer.
Marcos Lacerda
e volto pra curtir
publicado em 23 de jun. de 2013 11 comentários »
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| fotos: daryan dornelles |
É redundante dizer que a neoMPB possui fortes ligações com a produção musical dos anos 60 e 70, em especial, com a tropicália e a sua figura mais célebre: Caetano Veloso. Sem qualquer esforço, há de se observar a desenvoltura com que este vem dialogando e, de certa forma, se apropriando da geração 00. Em seus mais recentes trabalhos, Caetano deixou evidente não só a durabilidade de seu legado, mas também a sua capacidade de se mesclar à atual produção musical do país. Contudo, outros artistas de igual importância também vêm se mostrando intimamente ligados às novas gerações. Geniais, mas considerados por muito tempo “malditos” pela imprensa e pelas grandes gravadoras, Tom Zé, Jorge Mautner, Jards Macalé e Itamar Assumpção (falecido em 2003) passaram por períodos de total ostracismo até, nos últimos anos, ganharem visibilidade e reconhecimento através de relançamento de álbuns, documentários ou parcerias com novos nomes da música. Violonista primoroso e um dos mais importantes compositores do país, Macalé tornou-se notório por suas declarações que, mesmo cercadas de humor, o levaram a ter embates antológicos com diretores de gravadoras e colegas de profissão. Sua postura radical e seu discurso sem firulas o obrigaram a passar longo tempo fora da mídia e do mercado fonográfico. O que foi brutalmente nefasto não só para a sua carreira como para a sua vida pessoal.
Operando em diversas frentes, Macalé esteve intimamente ligado aos principais nomes de vanguarda de sua época. Transitou pelas artes visuais, tornando-se amigo de Hélio Oiticica e Lygia Clarke e colaborando com Rubens Gerchman. Em sua homenagem, Oiticica criou em 1978, a instalação “Macaleia”. Jards também atuou e foi responsável pelas trilhas sonoras dos filmes “O Amuleto de Ogum” (1974) e “Tenda dos Milagres” (1977), de Nelson Pereira dos Santos. Sua relação com o cinema o levou a fazer trilhas para filmes de Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Antônio Carlos Fontoura, Hugo Carvana, entre outros.
Musicalmente, além de dialogar com os tropicalistas, Jards participou de alguns importantes espetáculos de protesto, como “Arena Canta Zumbi” e “Opinião”. Em 1969, causou estardalhaço ao participar do 4.º Festival Internacional da Canção com a música “Gotham City”. No ano seguinte, lançou seu primeiro compacto, "Só Morto (Burning Night)”, e dirigiu Gal Costa no disco “Legal”. Neste período, a cantora tornou-se sua principal intérprete, tendo em seu repertório “Hotel das Estrelas”, “Vapor Barato”, “Mal Secreto”, “Pulsars e Quasars”, “Love, Try and Die”, “The Archaic Lonely Star Blues” e “Pontos de Luz”. “Vapor Barato”, apresentado pela cantora no espetáculo "-FA-TAL-", aderiu-se de forma definitiva ao seu repertório, ganhando, décadas mais tarde, novo destaque ao ser trilha do filme “Terra Estrangeira” (1995), de Walter Salles, e ser regravada pelo grupo O Rappa. Em 2012, foi novamente interpretada por Gal, na turnê “Recanto”, sendo o ápice do espetáculo em seu festejado retorno aos palcos.
Ainda nos anos 70, Macalé foi responsável por dois dos mais importantes discos da música brasileira: “Transa” (1972), de Caetano Veloso, gravado em Londres sob sua direção; e seu primeiro álbum, “Jards Macalé” (1972). Neste, firmou importantes parceiras com os poetas Capinam, Waly Salomão, Torquato Neto e Carlos Eduardo Machado (Duda). O álbum ganhou vida nova em 2007, ao ser revisitado por Jards na terceira edição da Virada Cultural, no Teatro Municipal de São Paulo. Cinco anos depois, o disco foi relançado em vinil pela Polysom, sendo acompanhado por apresentações no SESC Belenzinho (SP), pelo projeto “Álbum”, e no Instituto Moreira Salles (RJ), na oitava edição do projeto “Grandes Discos da Música Brasileira”. Este ano, foi a vez de seu primeiro compacto ser reeditado pelo selo Discobertas, acrescido de 10 faixas bônus com registros de sua produção setentista.
Em nova fase e bastante assediado, Jards vem sendo convidado nos últimos anos a realizar parcerias, shows e gravações ao lado de seus contemporâneos, como Kassin, Pedro Sá, Graveola e o Lixo Polifônico, Brasov, Mombojó, Ava Rocha, Dorgas, Thais Gulin, entre outros. Além disso, o músico passou a ser acompanhado em seus shows pela Lets Play That, a jovem banda composta por Leandro Joaquim, Thiago Queiroz, Victor Gottardi, Ricardo Rito, Thomas Harres e Pedro Dantas. Jards passou também a ser homenageado no cinema, sendo objeto de estudo em dois documentários: “Um Morcego na Porta Principal” (2008), de Marco Abujamra e João Pimentel, e “Jards” (2012), de Érik Rocha. Este último retratou o processo de gravação de seu décimo primeiro álbum, “Jards” (2011), lançado pela Biscoito Fino. Em 2013, já merecidamente entronizado e cercado de novos fãs e parceiros, o músico comemorou seus 70 anos em um histórico show no Circo Voador, no Rio, e, dias depois, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.
Citado repetidas vezes como referência pelos artistas que passaram pelo Banda Desenhada, Jards Macalé foi o escolhido para a entrevista comemorativa dos dois anos do site. O músico, em meio a uma agenda cheia e prestes a embarcar para Nova Iorque para a exibição do documentário “Jards” no MoMA, nos recebeu em março, em seu apartamento, no Jardim Botânico. Conversamos a respeito de sua carreira, álbuns, a relação com as novas gerações e a admiração por Gal Costa. Recebemos também a sua permissão para uma homenagem: o lançamento do álbum virtual “E Volto Pra Curtir”, com 11 artistas reinterpretando seu disco de estreia. O álbum estará disponível para download por tempo determinado, sendo, em seguida, colocado para streaming.
Tenham uma ótima leitura e excelente audição.
Operando em diversas frentes, Macalé esteve intimamente ligado aos principais nomes de vanguarda de sua época. Transitou pelas artes visuais, tornando-se amigo de Hélio Oiticica e Lygia Clarke e colaborando com Rubens Gerchman. Em sua homenagem, Oiticica criou em 1978, a instalação “Macaleia”. Jards também atuou e foi responsável pelas trilhas sonoras dos filmes “O Amuleto de Ogum” (1974) e “Tenda dos Milagres” (1977), de Nelson Pereira dos Santos. Sua relação com o cinema o levou a fazer trilhas para filmes de Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Antônio Carlos Fontoura, Hugo Carvana, entre outros.
Musicalmente, além de dialogar com os tropicalistas, Jards participou de alguns importantes espetáculos de protesto, como “Arena Canta Zumbi” e “Opinião”. Em 1969, causou estardalhaço ao participar do 4.º Festival Internacional da Canção com a música “Gotham City”. No ano seguinte, lançou seu primeiro compacto, "Só Morto (Burning Night)”, e dirigiu Gal Costa no disco “Legal”. Neste período, a cantora tornou-se sua principal intérprete, tendo em seu repertório “Hotel das Estrelas”, “Vapor Barato”, “Mal Secreto”, “Pulsars e Quasars”, “Love, Try and Die”, “The Archaic Lonely Star Blues” e “Pontos de Luz”. “Vapor Barato”, apresentado pela cantora no espetáculo "-FA-TAL-", aderiu-se de forma definitiva ao seu repertório, ganhando, décadas mais tarde, novo destaque ao ser trilha do filme “Terra Estrangeira” (1995), de Walter Salles, e ser regravada pelo grupo O Rappa. Em 2012, foi novamente interpretada por Gal, na turnê “Recanto”, sendo o ápice do espetáculo em seu festejado retorno aos palcos.
Ainda nos anos 70, Macalé foi responsável por dois dos mais importantes discos da música brasileira: “Transa” (1972), de Caetano Veloso, gravado em Londres sob sua direção; e seu primeiro álbum, “Jards Macalé” (1972). Neste, firmou importantes parceiras com os poetas Capinam, Waly Salomão, Torquato Neto e Carlos Eduardo Machado (Duda). O álbum ganhou vida nova em 2007, ao ser revisitado por Jards na terceira edição da Virada Cultural, no Teatro Municipal de São Paulo. Cinco anos depois, o disco foi relançado em vinil pela Polysom, sendo acompanhado por apresentações no SESC Belenzinho (SP), pelo projeto “Álbum”, e no Instituto Moreira Salles (RJ), na oitava edição do projeto “Grandes Discos da Música Brasileira”. Este ano, foi a vez de seu primeiro compacto ser reeditado pelo selo Discobertas, acrescido de 10 faixas bônus com registros de sua produção setentista.
Em nova fase e bastante assediado, Jards vem sendo convidado nos últimos anos a realizar parcerias, shows e gravações ao lado de seus contemporâneos, como Kassin, Pedro Sá, Graveola e o Lixo Polifônico, Brasov, Mombojó, Ava Rocha, Dorgas, Thais Gulin, entre outros. Além disso, o músico passou a ser acompanhado em seus shows pela Lets Play That, a jovem banda composta por Leandro Joaquim, Thiago Queiroz, Victor Gottardi, Ricardo Rito, Thomas Harres e Pedro Dantas. Jards passou também a ser homenageado no cinema, sendo objeto de estudo em dois documentários: “Um Morcego na Porta Principal” (2008), de Marco Abujamra e João Pimentel, e “Jards” (2012), de Érik Rocha. Este último retratou o processo de gravação de seu décimo primeiro álbum, “Jards” (2011), lançado pela Biscoito Fino. Em 2013, já merecidamente entronizado e cercado de novos fãs e parceiros, o músico comemorou seus 70 anos em um histórico show no Circo Voador, no Rio, e, dias depois, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.
Citado repetidas vezes como referência pelos artistas que passaram pelo Banda Desenhada, Jards Macalé foi o escolhido para a entrevista comemorativa dos dois anos do site. O músico, em meio a uma agenda cheia e prestes a embarcar para Nova Iorque para a exibição do documentário “Jards” no MoMA, nos recebeu em março, em seu apartamento, no Jardim Botânico. Conversamos a respeito de sua carreira, álbuns, a relação com as novas gerações e a admiração por Gal Costa. Recebemos também a sua permissão para uma homenagem: o lançamento do álbum virtual “E Volto Pra Curtir”, com 11 artistas reinterpretando seu disco de estreia. O álbum estará disponível para download por tempo determinado, sendo, em seguida, colocado para streaming.
Tenham uma ótima leitura e excelente audição.
marcadores adriana calcanhotto, ava rocha, jards macalé, jr tostoi, mombojó, porcas borboletas, qinho
maciunas vol.1 a.k.a. sic, sic, sic
publicado em 10 de mai. de 2013 comente »
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marcadores ava rocha, bruno cosentino, cadu tenório, chinese cookie poets, digital ameríndio, doutor fritz, eueueu, itamar assumpção, jards macalé, negro leo, pedrinhu junqueira, thomas harres, trupe chá de boldo
rebento, substantivo abstrato
publicado em 16 de jul. de 2012 comente »
Utilizado anteriormente para descrever boa parte da produção musical da década de 1990, o termo neotropicalista acabou por voltar à cena, em mais uma tentativa de classificar a atual geração da música independente brasileira. Mesmo que utilizado com bastante moderação, o termo não deixa de ter sua relevância. Surgido no final dos anos 60, em meio ao recrudescimento da ditadura militar e a um veloz desenvolvimento urbano-industrial, o tropicalismo veio a se opor esteticamente ao que se produzia nas fileiras da então chamada MPB. Forjada nos festivais de música do período e com forte influência da bossa nova, a MPB se caracterizava mais pelo seu caráter contestatório e doutrinário – com destacada preocupação pelas causas sociais e a defesa das tradições populares – do que, necessariamente, por seu espírito vanguardista. O tropicalismo, por sua vez, propunha uma ruptura brutal dos dogmas de então e promovia um sincretismo que, endossado pela antropofagia modernista de Oswald de Andrade, mostrava-se voraz ao deglutir elementos considerados distintos ou mesmo antagônicos: o erudito e o kitsh, a cultura nacional e a cultura de massa, o arcaico e o moderno. Na tentativa de internacionalizar e adequar, de forma propositadamente tensa, a cultura brasileira aos paradigmas da época, o tropicalismo concebeu uma nova e dinâmica identidade nacional que ainda reverbera na atual produção artística do país, seja nas artes plásticas, no teatro ou, mais destacadamente, na música.
Cerca de 40 anos após o surgimento do tropicalismo, o Brasil passa novamente por uma crise. Com o desenvolvimento e a popularização das novas tecnologias e recursos como o mp3 e os sites de armazenamento, o mercado fonográfico vem, paulatinamente, sofrendo perdas que provocaram a redução drástica dos castings das gravadoras, quando não a extinção destas. Paralelamente, sem os investimentos de outrora, viu-se a severa redução de espaços na mídia para a divulgação de trabalhos de novos artistas, principalmente os considerados menos comerciais. Assim, apostando em nomes que rendem uma incontestável e propícia margem de lucros, as gravadoras, juntamente com os grandes veículos de comunicação, foram por certo tempo responsáveis pelo empobrecimento da produção artística do país, limitando-se, fora raras exceções, aos axés, sertanejos, pagodes e outros tantos gêneros devidamente pasteurizados. Somente com o fortalecimento da cena independente – muito por conta do barateamento das tecnologias de gravação e da expansão das redes sociais - é que a música popular brasileira pôde ganhar novo fôlego e, por assim dizer, retomar a tão falada “linha evolutiva” que Caetano Veloso idealizara nos anos 60. Obviamente, não faltam diferenças entre o tropicalismo e a atual geração que, carente de um nome melhor, vem sendo chamada, entre outros termos, de neoMPB. Contudo, é curioso perceber a capacidade de resposta que tanto artistas da geração 60 quanto a 00 foram capazes de elaborar em meio à crise, seja social, de mercado ou política. Curiosamente, mesmo que imbuída de um vocabulário pop e sendo fortemente caracterizada por um niilismo e cosmopolitismo típicos de nossa época, a neoMPB, diferentemente do tropicalismo, desenvolveu uma relação dúbia com as antigas corporações, pendendo muito mais para a animosidade do que para a conciliação. Entretanto, se em seu discurso, a cena independente brasileira parece, por vezes, distante de qualquer propósito vanguardista, ela ainda consegue, ao seu modo e com suas devidas limitações, expressar em sua produção as mudanças e contradições de seu tempo, construindo assim uma nova identidade para a música brasileira que remete claramente ao substrato tropicalista. Assim, tal qual um moto contínuo, o ideário de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, José Celso Martinez Corrêa, Hélio Oiticica e Glauber Rocha ainda se faz presente e se torna de extrema valia não só como referência para a atual produção, mas também para a análise desta.
Filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán, Ava Rocha parece representar melhor do que ninguém as tensões por que vem passando a música contemporânea brasileira. Reconhecida por seus trabalhos como montadora e diretora na área de audiovisual, Ava tem em seu currículo dezenas de projetos, entre eles “O Naufrágio Lento no País das Maravilhas” (2002), “Quimera” (2004), “Dramática” (2005), “Intervalo Clandestino” (2006), “A Estrada Real da Cachaça” (2008) e “Transeunte” (2010). Mais recentemente, lançou seu primeiro longa metragem, o documentário experimental “Ardor Irresistível” (2011), onde registrou a montagem e a encenação de “Os Sertões”, do Grupo Oficina, na cidade de Canudos (BA). Não por acaso, Ava já havia integrado o grupo de Zé Celso, onde teve a oportunidade de cantar pela primeira vez. A partir desta experiência, a artista uniu-se a Emiliano Sette (violão), Daniel Castanheira (percussão e eletrônicos) e Nana Carneiro (violoncelo e vocal) para formar a banda AVA. Caracterizada por uma experimentação artística que promove o entrecruzamento de música, happening, literatura e vídeo-arte, o grupo chamou a atenção da Warner Music e lançou pela gravadora seu primeiro álbum, “Diurno” (2011).
Envolvida com a montagem do primeiro clipe oficial da banda, “Filha da Ira”, e os preparativos para a chegada de sua primeira filha, Uma, Ava Rocha aceitou o convite do Banda Desenhada e nos concedeu esta entrevista que começou com um bate papo em uma praça no bairro da Glória (RJ) e se estendeu por mais algum tempo em uma sucessiva troca de e-mails e conversas em redes sociais. Neles, a cantora nos falou a respeito de sua carreira, do seu processo de criação, do cenário musical brasileiro e, entre outras coisas, da influência de seu pai e do tropicalismo na atual geração da MPB:
Cerca de 40 anos após o surgimento do tropicalismo, o Brasil passa novamente por uma crise. Com o desenvolvimento e a popularização das novas tecnologias e recursos como o mp3 e os sites de armazenamento, o mercado fonográfico vem, paulatinamente, sofrendo perdas que provocaram a redução drástica dos castings das gravadoras, quando não a extinção destas. Paralelamente, sem os investimentos de outrora, viu-se a severa redução de espaços na mídia para a divulgação de trabalhos de novos artistas, principalmente os considerados menos comerciais. Assim, apostando em nomes que rendem uma incontestável e propícia margem de lucros, as gravadoras, juntamente com os grandes veículos de comunicação, foram por certo tempo responsáveis pelo empobrecimento da produção artística do país, limitando-se, fora raras exceções, aos axés, sertanejos, pagodes e outros tantos gêneros devidamente pasteurizados. Somente com o fortalecimento da cena independente – muito por conta do barateamento das tecnologias de gravação e da expansão das redes sociais - é que a música popular brasileira pôde ganhar novo fôlego e, por assim dizer, retomar a tão falada “linha evolutiva” que Caetano Veloso idealizara nos anos 60. Obviamente, não faltam diferenças entre o tropicalismo e a atual geração que, carente de um nome melhor, vem sendo chamada, entre outros termos, de neoMPB. Contudo, é curioso perceber a capacidade de resposta que tanto artistas da geração 60 quanto a 00 foram capazes de elaborar em meio à crise, seja social, de mercado ou política. Curiosamente, mesmo que imbuída de um vocabulário pop e sendo fortemente caracterizada por um niilismo e cosmopolitismo típicos de nossa época, a neoMPB, diferentemente do tropicalismo, desenvolveu uma relação dúbia com as antigas corporações, pendendo muito mais para a animosidade do que para a conciliação. Entretanto, se em seu discurso, a cena independente brasileira parece, por vezes, distante de qualquer propósito vanguardista, ela ainda consegue, ao seu modo e com suas devidas limitações, expressar em sua produção as mudanças e contradições de seu tempo, construindo assim uma nova identidade para a música brasileira que remete claramente ao substrato tropicalista. Assim, tal qual um moto contínuo, o ideário de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, José Celso Martinez Corrêa, Hélio Oiticica e Glauber Rocha ainda se faz presente e se torna de extrema valia não só como referência para a atual produção, mas também para a análise desta.
Filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán, Ava Rocha parece representar melhor do que ninguém as tensões por que vem passando a música contemporânea brasileira. Reconhecida por seus trabalhos como montadora e diretora na área de audiovisual, Ava tem em seu currículo dezenas de projetos, entre eles “O Naufrágio Lento no País das Maravilhas” (2002), “Quimera” (2004), “Dramática” (2005), “Intervalo Clandestino” (2006), “A Estrada Real da Cachaça” (2008) e “Transeunte” (2010). Mais recentemente, lançou seu primeiro longa metragem, o documentário experimental “Ardor Irresistível” (2011), onde registrou a montagem e a encenação de “Os Sertões”, do Grupo Oficina, na cidade de Canudos (BA). Não por acaso, Ava já havia integrado o grupo de Zé Celso, onde teve a oportunidade de cantar pela primeira vez. A partir desta experiência, a artista uniu-se a Emiliano Sette (violão), Daniel Castanheira (percussão e eletrônicos) e Nana Carneiro (violoncelo e vocal) para formar a banda AVA. Caracterizada por uma experimentação artística que promove o entrecruzamento de música, happening, literatura e vídeo-arte, o grupo chamou a atenção da Warner Music e lançou pela gravadora seu primeiro álbum, “Diurno” (2011).
Envolvida com a montagem do primeiro clipe oficial da banda, “Filha da Ira”, e os preparativos para a chegada de sua primeira filha, Uma, Ava Rocha aceitou o convite do Banda Desenhada e nos concedeu esta entrevista que começou com um bate papo em uma praça no bairro da Glória (RJ) e se estendeu por mais algum tempo em uma sucessiva troca de e-mails e conversas em redes sociais. Neles, a cantora nos falou a respeito de sua carreira, do seu processo de criação, do cenário musical brasileiro e, entre outras coisas, da influência de seu pai e do tropicalismo na atual geração da MPB:
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