a dona da voz


fotos: daryan dornelles




Criolo, Tulipa Ruiz, Karina Bhur, Letuce, Cícero, Tono, Apanhador Só, Graveola e o Lixo Polifônico, Nevilton, A Banda Mais Bonita da Cidade, Márcia Castro, Siba, Mombojó, Lirinha, SILVA, Wado, Banda Uó, Felipe Cordeiro... Sim, a música independente brasileira vai muito bem, obrigado. Nos últimos anos, em meio às turbulências do mercado fonográfico e a ascensão das mídias alternativas, centenas de artistas de diferentes regiões do país finalmente conseguiram espaço para apresentarem seus trabalhos. Estes, em grande parte, revigoraram um cenário musical que há tempos se mostrava restrito e esteticamente saturado. Alguns nomes conseguiram até mesmo ultrapassar as barreiras de seu nicho, circulando em áreas exclusivas ao mainstream, consagrando-se em prêmios e obtendo visibilidade inimaginável para artistas deste porte. Contudo, paralelamente à democratização dos meios de produção e divulgação, se consolidou uma estrutura bastante peculiar que, com o passar do tempo, mostrou-se hierárquica e limitadora para a produção independente. Nesta nova engrenagem, assessorias de imprensa assumiram o papel que até bem pouco tempo era limitado às grandes gravadoras, exercendo um poder - ainda que bastante sutil - sobre os veículos de comunicação tradicionais e alternativos. Além disso, preocupados com a divulgação de seus trabalhos e a inserção em um mercado tão complexo, alguns artistas passaram a cumprir uma questionável rotina, onde discos são lançados visando as supervalorizadas listas dos melhores do ano elaboradas por revistas, sites e blogs. Estes últimos, dando pouco espaço para crítica e discussão, replicam releases e conteúdos previamente formatados por assessorias e outras mídias. Por fim, vem se observando uma clara preferência de alguns jornalistas e formadores de opinião por determinadas cenas ou tendência que, mais do que um recorte devidamente embasado, caracteriza-se pelo destaque às suas predileções. Assim, ainda que em sua essência resida uma rica pluralidade, a cena independente brasileira começa a exibir as suas primeiras fissuras, abrindo espaço para reflexões e críticas necessárias para o seu amadurecimento.
Inserida na cena mineira e ciente do árduo trabalho que desempenha um músico distante do foco midiático, a cantora e multi-instrumentista Juliana Perdigão é a entrevistada da semana no Banda Desenhada. Nascida em Belo Horizonte, Juliana iniciou sua carreira em 1996, participando do coral Voz e Companhia. Formou-se em licenciatura em música pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, a partir de 2000, passou a colaborar com diversos músicos da sua geração, como Kristoff Silva, Pablo Castro, Flávio Henrique e Vitor Santana, integrando também os projetos Elefante Groove e Misturada Orquestra. Como clarinetista, participou do grupo de choro Corta Jaca, com quem lançou dois álbuns, “Corta Jaca” (2005) e “Mina de Choro” (2007), e um DVD, “Na Levada do Choro - Um Almanaque Musical” (2007). Em 2010, ingressou na banda Graveola e o Lixo Polifônico, uma das mais importantes da cena independente mineira. No ano seguinte, patrocinada pela Natura Musical, lançou seu primeiro disco solo, o “Álbum Desconhecido”, onde deu destaque aos compositores contemporâneos de Minas e São Paulo.
Atualmente dividia entre o Graveola, a carreira solo e a participação na banda de Tulipa Ruiz, Juliana Perdigão concedeu esta entrevista em meio à pequena temporada que realizou em agosto, no Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Recebendo o Banda Desenhada em um hostel no Bairro Peixoto, a musicista nos falou de sua carreira, da influência do choro e as dificuldades por que passa a cena independente mineira.

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giro na roda viva

fotos: daryan dornelles
De fato vivemos um momento de incertezas. O mercado fonográfico e, em especial, as gravadoras multinacionais instaladas no país, não sabem lidar com as mudanças que as novas tecnologias promoveram no consumo e fruição dos produtos culturais. Inseguras, optaram pela redução de seus castings e, na esperança de obter um retorno certo, passaram a investir basicamente em artistas de enorme apelo popular. Se, em sua origem global, as companhias de discos eram pequenos empreendimentos dirigidos por profissionais que conciliavam tino comercial com paixão à música, no Brasil, o que se viu desde o início foi a presença das grandes corporações – exceção para a mítica Casas Edson e, posteriormente, as gravadoras Elenco, RGE e Copacabana Discos. Entretanto, mesmo diante desta cena, ainda era possível perceber nestas corporações um comportamento bastante diferente do que se estabeleceu nas últimas décadas. O artista, então visto como um aliado, era o verdadeiro patrimônio da empresa que, de forma geral, mostrava-se sensível às suas inquietações estéticas e investia no desenvolvimento de suas carreiras em médio ou mesmo longo prazo. Tal comportamento permitiu que, por boa parte do século passado, surgissem artistas do porte de Orlando Silva, Dorival Caymmi, Dalva de Oliveira, Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Gonzaga, Elza Soares, Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Jorge Ben Jor, Rita Lee, Tim Maia e outros tantos que se consolidaram como referências na música popular brasileira. Inimaginável para os dias atuais, em 1973, Caetano Veloso lançou, endossado pela Philips, “Araçá Azul”, seu disco mais experimental e também o maior fracasso de vendas na história da indústria fonográfica brasileira. Porém, ao longo da década de 70 e de forma mais enfática a partir dos anos 80, os grandes conglomerados passaram a assumir uma nova postura. Imediatistas e mais preocupados em lucrar com hits do que investir na carreira de seus contratados, as gravadoras optaram por deixar de lado a criatividade e a audácia que sempre permearam o mercado fonográfico. Assim, assumiu-se uma visão tecnocrata que tornou, no mínimo, conflituosa a relação entre empresa e artistas, considerados dali em diante, figuras irresponsáveis e fonte de inúmeros problemas. Além disto, a utilização de certas ferramentas alterou por completo a estrutura do mercado, provocando a supervalorização do jabá e a onipresença de um poderoso e ostensivo marketing que pulverizou nas décadas seguintes qualquer tentativa bem sucedida de formação de uma cena musical mais democrática ou mesmo independente. Geridas de forma austera e por um viés eticamente questionável, as majors causaram sérios danos ao desenvolvimento da carreira de artistas notáveis, como o caso de Tom Zé e Itamar Assumpção. Assim, na virada do século, quando a internet e as novas tecnologias mostraram-se irrefreáveis e invadiram o cotidiano de boa parte da população global, viu-se a paulatina derrocada da indústria fonográfica que vinha, já há algum tempo, dando sinais de comprometimento. No Brasil, essa crise acabou estimulando, mesmo que de forma um tanto acanhada, o surgimento de uma nova geração de músicos que não mais necessitando das grandes gravadoras para desenvolver suas carreiras, passaram a ocupar o lugar de vanguarda na música popular. Coube então às antigas empresas a difícil tarefa de se reorganizar e iniciar, mesmo que de forma incipiente, um diálogo com essa nova cena. 
Convidada para a entrevista desta semana, Roberta Sá é uma das poucas artistas que, inseridas diretamente ou indiretamente em uma grande corporação, conseguiu desenvolver uma carreia onde seu apuro estético pôde associar-se, sem traumas, a uma respeitável e lucrativa venda de discos. Radicada no Rio de Janeiro desde os nove anos, a cantora potiguar iniciou a sua carreira em 2002, na segunda edição do programa de TV “Fama”, da Rede Globo. Três anos depois, lançou seu primeiro disco, “Braseiro” produzido por Rodrigo Campello. Em agosto de 2007, foi a vez de "Que Belo Estranho Dia Para se Ter Alegria", seu segundo trabalho. Neste mesmo ano, recebeu os prêmios de “Melhor Álbum” e de “Melhor Cantora” pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Em 2010, uniu-se ao Trio Madeira Brasil e gravou “Quando o Canto é Reza”, em homenagem ao compositor baiano Roque Ferreira. Com apoio da Natura Musical, lançou em 2012 seu mais recente álbum de estúdio, “Segunda Pele”, com composições de Caetano Veloso, Pedro Luís, Rubinho Jacobina, Gustavo Ruiz, Lula Queiroga, Moreno Veloso e Domenico Lancellotti, entre outros.
Capaz de circular por diferentes gêneros da música brasileira, Roberta também vem se destacando por seu discurso articulado, expondo suas opiniões ao analisar o atual momento da música brasileira. Ciente disto, o Banda Desenhada a convidou para esta entrevista, onde, em um final de tarde no Outeiro da Glória, a cantora nos falou do início de sua carreira, suas influências e a relação com o mercado fonográfico.

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sobre a verdade e a mentira


fotos: daryan dornelles

Desde seu início, o Banda Desenhada vem tendo por objetivo mapear a atual cena da música brasileira, com foco em dezenas de artistas independentes do eixo Rio-São Paulo. Sabíamos, porém, tratar-se de uma tarefa árdua. Afinal, quais seriam os critérios utilizados para diagnosticar uma geração tão heterogênea como esta? Mesmo com o esforço de jornalistas e pesquisadores em agrupar figuras como Criolo, Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Kiko Dinucci, qualquer catalogação cai por terra diante de suas falas tão antagônicas. Se, por um lado, são tidas como certas a ausência de um movimento e o forte elo com o tropicalismo, por outro, as diferenças estéticas são de tal ordem que seria no mínimo ingênuo querer inseri-los em algum novo estilo. Ao longo dos últimos seis meses, em mais de vinte entrevistas, o que mais se destacou para nós do Banda Desenhada foi a idiossincrasia destes artistas, com opiniões tão diversas que, muito mais do que promover atritos, acabam por validar a sua tão decantada pluralidade. E assim não seria diferente com a entrevistada desta semana, a cantora e compositora Andreia Dias. Uma das principais figuras da intitulada Neo-MPB, Andreia chegou a participar do grupo Farofa Carioca e integrou a Banda Glória e a seminal DonaZica, composta em sua grande maioria por músicos que se tornariam, poucos anos depois, figuras emblemáticas da cena atual: Anelis Assumpção, Iara Rennó, Guizado e Gustavo Ruiz. Em 2008, já em carreira solo, lançou o primeiro álbum de sua trilogia, o elogiado “Vol. 1”. Nele estavam presentes Fernando Catatau (compositor e guitarrista, líder do Cidadão Instigado) e Marcelo Jeneci. Com este álbum, a cantora excursionou pelas principais capitais do país, além de apresentar-se na WOMEX, em Sevilha, e realizar alguns shows em Barcelona e Paris. Dando continuidade ao seu trabalho, lançou em 2010 o “Vol. 2”, contando com as participações especiais, entre outros, de Zeca Baleiro, Arrigo Barnabé e Alzira E, deixando clara a sua ligação com a Vanguarda Paulista e, em especial, a obra de Itamar Assumpção
Uma das mais criativas compositoras da atualidade, destacando-se por sua verve debochada e corrosiva, Andreia recebeu o Banda Desenhada no Miradouro – QG de Thalma de Freitas -, em Santa Teresa (RJ), onde se preparava para mais uma de suas viagens pelo Norte-Nordeste do país, onde vem gravando seu próximo álbum. Despojada como poucas, a encontramos cuidando dos jardins da casa. Em meio às plantas e na companhia de dois filhotes de labrador que alegremente a atrapalhavam em sua tarefa, a cantora foi relatando suas experiências ao longo dos vinte anos de carreira:

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BOMBSHELL DE SARAPANTAR

ilustrações: márcio bulk | fotos de iara rennó: daryan dornelles

E no princípio era Iara... 
Sobre a face das águas, a sereia de rosto borrado pelos sumos tropicais assim entoou: “Tupi, or not tupi, that is the question”. Viu Iara que o som era bom e, serelepe, passou a fazer cantorias no país da cobra grande. 

Ano 455 da Deglutição do Bispo Sardinha.

Desculpe-nos Oswald de Andrade e Velho Testamento, mas seria injusto de nossa parte descrever Iara Rennó de outra forma. Filha da cantora Alzira Espíndola e do compositor e jornalista Carlos Rennó, Iara é peça chave para entender a cena contemporânea de São Paulo. Iniciou sua carreia artística em 1994, apresentando-se ao lado de sua mãe. Na mesma década, passou a integrar o conjunto de Itamar Assunção. Em 2000, formou a DonaZica, banda com quem gravou dois álbuns: Composição (2003) e Filme Brasileiro (2005). Todos produzidos de forma independente. Em 2008, lançou seu primeiro disco solo, Macunaíma Ópera Tupi, musicando trechos de Macunaíma, a obra clássica de Mário de Andrade.
De mudanças para o Rio, Iara aceitou o convite do Banda Desenhada para esta entrevista, descrevendo com paciência e bom humor, o início de sua carreira, além de falar de seus muitos projetos e fazer um resumo bastante peculiar da história da música popular brasileira. Todo ouvidos, fomos encontrá-la em uma tarde chuvosa na residência de Thalma de Freitas, em Santa Teresa (RJ). A entrevista contou com a participação especial de Thalma e uma voz desconhecida (?!), que gritava incessantemente o nome da cantora Andreia Dias.

BANDA DESENHADA – Sua geração possui duas características marcantes: um desconforto enorme a rótulos e um leque de influências muito variado e pessoal. O que, no final das contas, poderiam ser vistos como particularidades de uma cena ou mesmo de um movimento, não?

IARA RENNÓ – É, isso é verdade. Eu me sinto até uma das pioneiras dessa turma. Porque há 10 anos montei a banda DonaZica, de onde saíram Andreia Dias, Anelis [Assumpção], Gustavo Ruiz, Mariá Portugal, Gustavo Souza e o Guizado. A partir dali, eles foram trabalhar com outros músicos, formar novas bandas, e levaram esses conceitos que você mencionou, na verdade “anti-pré-conceitos”. Entendo que o ser humano precise catalogar as coisas para ordená-las, para melhor entendê-las. É normal. Mas, quando a gente começa a tocar, a primeira pergunta que fazem é: “Ah, é tipo o quê?”. Ainda hoje, quando alguém me pergunta isso, eu falo: “Ouça aí e vê o que você acha!”. [risos].

BD – O seu caso é um dos mais emblemáticos da cena independente: Macunaíma..., além de apontar musicalmente para diversas direções, é um projeto complexo e de grande porte, sendo nítido que nenhuma grande gravadora se interessaria por ele. E o resultado é fabuloso! 

IARA – Eu consegui fazer por conta do prêmio, o edital da Petrobrás. E isso foi maravilhoso, porque até então eu só tinha feito dois discos independentes com a DonaZica, onde tivemos que levantar a grana e pagar tudo com o suor do nosso trabalho. Já no Macunaíma..., não. Eu já estava desenvolvendo o projeto há bastante tempo: comecei a fazer o disco há 11 anos, anterior à formação da banda. Estava impregnada por essa pluralidade sonora, que é inerente à própria obra do Mário [de Andrade]. O livro tem informações de diversos lugares, ecos da cultura popular e da música folclórica. Então, foi primordial ter conseguido o patrocínio, porque consegui concretizar o meu desejo de trabalhar com várias pessoas de diferentes formações. Eu acreditava realmente nisso... mas, é claro que no meio do processo vinham as indagações: “É muita gente! Será que não vai ficar extravagante demais?”. Um pouco antes, na pré-produção, pensei: “Nossa... Tô com medo de ficar meio sem pé nem cabeça...”. E no fim ninguém falou isso e realmente não acho que tenha ficado. Existe um fio condutor, inclusive sonoro. Havia a coisa da vibração do momento. Era louco, porque eu trabalhava com diferentes produtores que não tinham acesso a todas as faixas e aí via o Beto Villares usando uma ambientação que tinha a ver com a criada pelo Buguinha Dub! É claro que as pessoas que chamei têm um gosto, uma estética musical, não exatamente parecida, mas que, em termos de produção, eu aprecio...

BD – Você esteve presente em todas as partes do processo de produção, não é?

IARA – Sim.

BD – E ter esse controle, esse envolvimento, não lhe causava aflição? 

IARA – É tudo em seu nome, né? No meu, no caso. [risos]. Cara, você tem que estar disposto! A partir do momento em que você inscreve um projeto, ele estará com o seu CPF. Você abre a conta no seu nome e entra aquele dinheiro. Você tem que administrar... Fiz uma empresa. Eu fui uma empresa! Trabalhei com quase 70 pessoas, entre pessoal da administração, músicos e tal. Realmente, sempre estive na cabeça de tudo. E foi o máximo! Era o meu trabalho, entende? Um projeto que há oito anos eu tinha começado a idealizar e a musicar. Já havia uma maturidade. Eu considero um projeto muito feliz. Todo esse processo se desenvolveu de forma natural. Não foi uma coisa feita às pressas, sabe? Tipo “a cantora que tem que lançar um disco por ano!”. Não tinha nada a ver com isso. E também tive o apoio do selo Sesc, que se interessou pelo disco. Eles tinham acabado de lançar a caixa com a Missão de Pesquisas Folclóricas, do Mário de Andrade. E, só com as vendas na loja do Sesc, o álbum já está na sua segunda prensagem. Em um período em que não se vende mais discos, acho que está sendo bem legal. E é isso... Partindo daquela ideia de “sair dos rótulos”, o projeto não era para ser um disco de cantora, e sim um disco de artista. Agora, também não gosto que classifiquem meu trabalho de “acadêmico” ou “erudito”. Não aceito estes rótulos. Não acho que seja verdade, porque a partir do momento em que as pessoas ouvem as canções, elas assimilam rapidamente e, com isso, o trabalho continua a se expandir. Além do mais, esse projeto não foi puramente racional. Eu não pensei: [com voz afetada] “Vou pegar este livro que é uma grande obra da nossa cultura e...”. Ele aconteceu e eu me senti imbuída de fazê-lo. É por isso que deu tão certo. Em dezembro do ano passado, montei Macunaíma... no Teatro Oficina. Uma montagem grande, mais próxima do que eu havia visualizado lá no início, quando comecei a compor as músicas e as imaginei como uma ópera tupi multimídia.

BD – Então recapitulando: Você concebeu o projeto, o enviou para a Petrobrás e o produziu. Só depois vieram as montagens?

IARA – Sim, primeiro veio o álbum. Eu comecei a produzi-lo em 2007 e o lancei em 2008. Aí fiz uns shows. No lançamento do disco, fiz algo maior, com banda e dançarinos. Depois, com a banda reduzida, levei o show para o interior de São Paulo. Em dezembro de 2010 fiz esse bem maior, no Oficina, através de incentivo fiscal estadual.

BD – Mas voltando à DonaZica: quando o grupo se formou você tinha noção do que aconteceria depois? Que vocês se tornariam a nova MPB? Afinal, quer queira, quer não, tudo foi fomentado naquele momento. Lá estava o Gustavo, você, o Guizado, a Andreia e a Anelis. Os outros que vieram posteriormente, mais jovens, eram nitidamente influenciados pelo DonaZica. Havia essa ideia de que estava sendo criado uma espécie de movimento? Por mais que este termo seja pesado...

IARA – Olha, “criar um movimento” é pesado e ao mesmo tempo não é. Eu já escutei isso várias vezes. Na época mesmo se falava muito...

– ANDREIA! ANDREIA! [alguém fora da casa grita pelo nome de Andreia Dias].

IARA – [rindo]. Cara, assim, a Andreia até dizia que não éramos uma banda, e sim um movimento musical. Eu posso lhe dizer que nunca gostei muito desse termo. Não era uma coisa premeditada. Não estava no meu consciente essa ideia de que daqui vão sair as pessoas e lálálá... mas era natural, juntou-se um monte de gente ali, desenvolvendo várias ideias e fazendo música.

BD – Diversos jornalistas já disseram que a sua geração possui uma influência forte da tropicália e da vanguarda paulista...

IARA – Cara, assim, é absolutamente natural na linha evolutiva...

– ANDREIA! [novamente alguém grita o nome de Andreia Dias].

IARA – [gargalhadas] Eu não estou aguentando, vou ter que atender! [risos]... [Iara sai da casa e, após alguns minutos, retorna]. Bem, é natural nessa linha evolutiva... porque primeiro você tem, lá no início do século XX, o modernismo, que é o tal olhar para a cultura genuinamente brasileira, parar de copiar a França e ver o que se está produzindo por aqui. Esse era o olhar do Mario [de Andrade], mais até do que de outros que estavam presentes naquele momento. O Mario e o Raul Bopp tinham essa característica de olhar para a cultura brasileira, o folclore, e a partir daí, passar a documentá-la. Depois surge o samba, o ritmo vai emergindo e vem a febre das marchinhas: Braguinha, Carmen Miranda... Nos anos 50 começa então a influência da cultura norte-americana. O pessoal pega referências de lá, junta com o samba e dá a bossa nova. Após a bossa, começa a produção de rock, a jovem guarda. Depois veio a tropicália e o rock psicodélico dos anos 70 que pegaram tudo isso e começaram a questionar as categorizações: por que é que tem que ser assim ou assado? É claro que, conhecendo a história, inclusive as pessoas envolvidas, como o Caetano [Veloso] e [Gilberto] Gil, sei que não foi assim tão racionalmente premeditado. Era o que estava sendo pedido, um sentimento de romper com essas classificações. Já naquela época! Então eles foram brincar com tudo isso. Aí nos anos 80 veio o quê? O rock nacional, a indústria fonográfica bombando no rádio...

BD – E teve a vanguarda paulista...

IARA – Exatamente. O lado B da história, que é um pouco de onde eu venho. A família da minha mãe é toda de músicos. Nessa época eles lançaram... [pensativa] É até engraçado, tem um clipe do Fantástico: “Bem-Te-Vi”, com a Tetê e o Lírio Selvagem... é de 1978, uma coisa incrível, muito engraçada. Minha tia [Tetê Espíndola] tem uns vídeos ótimos no YouTube, ela cantando com Clementina de Jesus...

BD – Da cena, a Tetê foi a que mais conseguiu entrar no mercado fonográfico, não?

IARA – Sim. E com isso conseguiu um campo maior pra produzir suas coisas. Bom, mas voltando... Aí teve a vanguarda. O Arrigo [Barnabé] já conhecia minha tia e a minha mãe e serviu de elo para que elas entrassem em contato com o Itamar [Assumpção]. Depois minha mãe veio a montar um trabalho com o Itamar e, em 1997, eu mesma fui cantar com ele. Então, depois de tudo isso, quando eu começo a finalmente fazer música... bem, primeiro eu não queria, estudava teatro e não estava querendo nem saber desse negócio de música, não tinha nada a ver. [risos]. Meio que fobia, né? Casa de ferreiro, espeto de pau. Não aguentava mais ver aquele negócio! E tem também a questão do peso, da responsabilidade de ser a filha deles e bláááá-blááá-blááá. Mas, apesar de tudo, de todos esses conceitos e preconceitos, a música irrompeu. Naturalmente eu tinha que fazer isso. Então fui procurar a minha turma. Pensei em chamar o Gustavo [Ruiz]... eu já o conhecia e sabia da sua pegada. Além disso, nós temos a mesma informação genética [Gustavo é filho de Luiz Chagas, que participou da banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção]. Enfim, essas afinidades foram montando a banda. Não tinha como ser diferente, nessa longa linha evolutiva, nessa passagem do tempo. A DonaZica foi uma banda muito pouco conhecida. Nós fizemos só dois discos, um em 2003 e outro em 2005, e eles estão esgotados há muitos anos. Foi uma produção independente, um deve ter tido uma tiragem de 1000 e o outro de 2000 e pouco. E, apesar disso, foi um som que acabou servindo de referência pro pessoal, para os artistas, para os músicos. A DonaZica não alimentou a massa, mas alimentou um grupo de pessoas que contribuem para a produção musical de hoje.

BD – Virou um ponto de partida. Foi possível observar o que vocês estavam fazendo e dar continuidade...

IARA – Exato. Rolou muito isso, eu acho. Naquela época as coisas eram bem diferentes. A internet não era como hoje. A gente não tinha esse tempo. Era outro modo de produção, de disseminação... Era ainda mais difícil botar a cara pra bater. Bem mais. Colocar um trabalho na rua era complicadíssimo. Então todo esse nosso trabalho foi boi de piranha mesmo! [risos]. Fomos bandeirantes! [risos]. Nossa, nem foi tanto... No tempo da minha mãe era bem mais difícil, ainda mais não estando no mainstream, sem gravadora...

BD – E essa passagem de alguns de vocês pelo Rio? Você, Andreia [Dias], Karina [Bhur]... Iniciou-se um diálogo entre os músicos de São Paulo e os da Orquestra Imperial. Como está sendo isso? Porque por mais que as cidades sejam próximas, há diferenças…

IARA – Total. O modus operandi... parece que é outro país! Por terem essa proximidade, por terem essas diferenças e por serem duas cidades expoentes de produção cultural e artística, a coisa mais interessante que se pode fazer é este intercâmbio, esta troca. Pra mim, que nasci e fui criada em São Paulo e que já tenho um tempo de trabalho lá, chega uma hora que a cidade se exaure. Você não precisa mais ficar lá! Pelo contrário, você tem mais é que sair para se alimentar. Vim primeiro para o Rio, o grande centro mais próximo. Aqui as pessoas trabalham com música de uma maneira bem diferente, muito menos cerebral. É outro tempo.

BD – Mas em que grau esta mudança afetou o seu som?

Iara Rennó – Bem, assim... esse namoro com outras regiões eu já havia começado com o Macunaíma...

BD – Sim, mas ainda era o olhar de uma paulistana sob uma obra literária. Ao sair de São Paulo e vir para o Rio, o seu ponto de observação foi alterado.

Iara Rennó – Sim, mas o meu olhar já estava sendo outro antes mesmo de sair de São Paulo. Afinal, eu só vim pra cá agora, em janeiro... e os discos da DonaZica já possuíam influências sonoras de outros lugares do Brasil. Mas ainda era um olhar paulistano, realmente. Já Macunaíma... eu não acho tanto... Tem uma parada que costumo falar quando alguém me pergunta se sou de São Paulo: "Não, não sou de São Paulo, sou do universo!”. [risos]. Pra que essa necessidade de pertencimento? Eu não sou de São Paulo, não pertenço a ninguém e nem a nenhum lugar! [risos]. Deixem-me livre! [risos]. Então, mais ou menos voltamos a essa questão dos rótulos, né? Mas a sua pergunta é pertinente, porque essa mudança para o Rio influenciou de fato o meu processo de criação. Mas não de forma radical, porque eu já estava desregionalizada. A música tem muito disso, essa universalidade, o inconsciente coletivo. Temos que sair daquela necessidade primeira de “preciso ter uma personalidade”. É como o desenvolvimento da psique do ser humano: na infância você tem que desenvolver o seu ego, você tem que aprender a falar, compreender que é um indivíduo. E depois tem que dissolver isso. Acho que no som é a mesma coisa. Nos primeiros discos eu pensava assim: “Tenho que ter uma personalidade”, e durante a produção do Macunaíma..., comecei a dissolução, porque pretendia fazer vários tipos de sons. Não quero ter uma personalidade. Ao mesmo tempo, é um paradoxo, porque sei que ela está ali, que ainda continua. Mas não preciso reiterá-la...


BD – Então a mudança para o Rio serviu para intensificar essa desconstrução da sua identidade?

Iara Rennó – Há um ano e meio, quase dois, eu me aproximei da Thalma e ela me chamou para fazer uma música sobre o amor universal. Decidi então vir para cá. Pesquisamos física quântica e fizemos a música do amor molecular [“Amor Imenso”]. Viramos amigas, parceiras e começamos a fazer outras coisas. No ano passado apresentamos o Circus Serendipitus, que foi um projeto de música espontânea, criada na hora. A gente fez um show inteirinho assim no Sesc Pompeia! Foi sensacional, uma experiência bem louca. Aí já não era mais nem se desregionalizar, era romper com tudo. Não tínhamos músicas nem ensaios... chegávamos no palco e pronto. Faziam-se práticas, não ensaios. E não era uma jam. Era uma criação serendipità [processo criativo onde predomina o acaso]. Essa era a proposta. Então foi uma experiência muito interessante que enriqueceu a minha prática musical e a minha visão artística. Depois... [Thalma entra na sala]... Ó, falando nela. [pausa rápida para as apresentações]. Depois, a gente fez uma música pra Gaby Amarantos [“Chuva”], um tecnobrega! Aí alguém dirá: “mas o que é que isso tem a ver? Iara Rennó, que saiu lá da vanguarda paulista, compondo tecnobrega com a Thalma”...

Thalma de Freitas – Isso é o Brasil, é isso que a gente tem que fazer, tem que se misturar, senão não anda! Nem eu iria conseguir fazer uma letra incrível e nem você iria conseguir fazer um tecnobrega! [risos]. E nem a Gaby teria um hit cult! [risos].

Iara Rennó – Ah, na verdade, eu também fiz outra música pra Gaby. Uma música sobre Belém, sendo que nunca estive lá. [risos]. Muita cara de pau, né? Fiquei conversando com a Thalma e a Gaby, peguei uns dados e fiz a música, mas o repertório do disco já estava fechado, então não vai entrar.

BD – E os seus próximos projetos?

Iara Rennó – Bom, paralelo a isso tudo, no final de 2009, gravei um disco que não foi lançado ainda. Também fiz uma instalação sonora no Museu Afro Brasil [SP], a Oriki In Corpore. É um projeto temático, sobre os orikis do [poeta e antropólogo] Antônio Risério. A maioria das músicas são orikis [versos ou frases usados para saudar os orixás] que retirei da obra do Risério e as outras eu escrevi. Então, também tenho esse disco que ainda não sei como vou lançar nem quando. Não há nada fechado nem estipulado. Eu coloquei duas músicas no TNB [Toque no Brasil], em uma página que criei agora. É uma plataforma nova, do pessoal da Fora do Eixo que está trabalhando nessa rede de produção independente. Semana que vem [05 a 11 de junho] vou à São Paulo, pretendo fazer algumas apresentações. Estou montando um show novo, sendo que não fiz nenhum ensaio ainda. [risos]. Ele terá no repertório um pouquinho de cada disco e também bastante coisa inédita, que será para outro álbum que não está gravado ainda. E ainda tenho um projeto com o Kiko Dinucci, também com essa temática dos orixás, da cultura yorubá... Hã, e o que mais?... Ah! Com o fato de estar aqui, de ter mudado de cidade, de estar nesta casa, neste pólo de produção artística onde passa uma quantidade absurda de gente, eu acabei fazendo parcerias com a Cibelle e o Rubinho Jacobina, fora aquelas com a Thalma. Enfim, os horizontes estão abertos e tenho muita coisa a fazer. Para quem está do lado de fora, parece que não estou fazendo nada, que estou aqui no Rio só dando canja nos shows dos amigos. [risos]. Mas, na verdade, estou compondo, escrevendo projetos e outras tantas coisas, tudo do portão para dentro.

BD – Para finalizar: Quase todos de sua geração atuam em diversas frentes, não se limitando à música. Você utiliza a literatura e o teatro. Já a Tulipa, o Kiko Dinucci e a Karina Buhr trabalham com artes plásticas...

Iara Rennó – Sim, e passei por essa primeira experiência de instalação sonora que era algo que já estava querendo fazer a um bom tempo. Desde Macunaíma... eu queria fazer uma exposição multimídia, interativa. Porque, voltando àquela questão de sair dos rótulos, todos nós produzimos de diversas maneiras e nos manifestamos artisticamente de diversas formas. Eu faço principalmente música, só que a música é que nem água, é um veículo fluido, é um fio condutor, onde você mistura um pozinho e faz um suco! [risos].