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venha até são paulo ver o que é bom pra tosse

marcus preto | foto: vitor jorge
Há alguns anos, São Paulo já vinha dando sinais de que algo importante estava por acontecer. Bastava dar uma passada pelo Studio SP, na Vila Madalena, e observar a movimentação. Ou então notar alguns nomes que começavam a pipocar nos principais jornais da cidade: Céu, Tiê, Romulo Fróes, Curumin, Thiago Pethit... Todos artistas independentes, com forte trabalho autoral e tendo como QG a capital paulistana. Nessa mesma época, também era possível assistir a um acontecimento importante: músicos de diversos estados do país – com o predomínio dos pernambucanos e cearenses – passaram a circular pela cidade, fomentando ainda mais a cena local. Toda essa agitação serviu para arrumar o terreno para que, em 2010, três novos artistas lançassem seus primeiros e festejados trabalhos: Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci e Karina Buhr (ex-Comadre Fulozinha) foram a prova definitiva do quão estimulante e pertinente era a música que vinha sendo feita na cidade. Essa efervescência atingiu seu auge no ano seguinte, quando Criolo e seu álbum “Nó Na Orelha” alcançaram uma popularidade inimaginável para o nicho independente.
Encontrando-se bem no olho do furacão, o jornalista Marcus Preto foi um dos responsáveis pela consolidação dessa cena. Após passar por revistas como Rolling Stone, Bravo! e Época, trabalhou por quatro anos como crítico e repórter musical da Folha de S.Paulo, dando destaque a vários artistas como Rodrigo Campos, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Andreia Dias e Romulo Fróes. Paralelamente, foi diretor musical do site Música de Bolso, projeto que, ao lado do veterano TramaVirtual, serviu como guia para o que vinha acontecendo de novo no cenário musical brasileiro. Em 2013, após sua saída da Folha, realizou a curadoria do álbum “Coitadinha Bem Feito”, em que artistas da nova geração interpretaram canções de Ângela Ro Ro. Nesse mesmo ano, tornou-se apresentador do programa “Com a Boca no Mundo”, na Oi FM, e passou a comandar os projetos “Trampolim”, na Miranda (RJ), e “Grandes Artistas”, no Espaço Revista Cult (SP), entrevistando diversos nomes da MPB. Também atuou diretamente no EP “Tribunal do Feicebuqui”, de Tom Zé, com quem vem, há alguns anos, elaborando uma biografia.
Expandindo os limites de sua área de atuação, Marcus tornou-se figura ativa da cena musical paulistana e um de seus principais personagens. Sendo assim, o Banda Desenhada o convidou para uma entrevista, realizada através de uma troca constante de e-mails e bate-papos, onde o jornalista e produtor musical falou a respeito de sua carreira, projetos e, claro, da cena de São Paulo.

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apenas castelos queimando

fotos: daryan dornelles

Há um bom tempo vem-se falando que a MPB já não é mais a mesma. Nos últimos anos, o termo ganhou uma faceta anacrônica que encobriu seu caráter mais relevante: a capacidade de se reinventar através da associação ou fusão com gêneros musicais diversos. Por total ironia, talvez aí resida o motivo para a queda de seu prestígio. Até o início deste século, ainda era bastante perceptível a fronteira entre a MPB e os demais gêneros que coexistiam no país. Entretanto, com o surgimento e ascensão da cena independente, tal fronteira se desfez por completo. Mesmo que, em um primeiro momento, fosse possível fazer algum paralelo entre esta geração e as anteriores, aos poucos, se tornou difícil agrupar artistas com referências tão díspares nessa antiga sigla. Assim, tal desgaste acabou por exigir de jornalistas e pesquisadores a utilização de novos termos, como neoMPB, nova MPB e afins. Contudo, nos últimos anos, estas designações também vêm se mostrando frágeis para abarcar gêneros tão atípicos à música brasileira, como o synthpop de SILVA e Mahmundi, o post-rock de A Banda de Joseph Tourton, Sexy Fi e do pianista Vitor Araújo, o hardcore de Macaco Bong e o pós-punk de Jair Naves. Entretanto, mesmo que, a princípio, cause espanto ou desconforto associar estes novos nomes à MPB ou às suas derivações, é reconfortante notar que, embora um tanto debilitados, estes termos ainda detêm uma força capaz de abrigar estéticas tão distintas e promover o diálogo entre elas.
Vindo da cena indie rock paulistana, Jair Naves começou a sua carreira ainda nos anos 90, como baixista do Okotô e, posteriormente, frontman do Ludovic. Após o fim do grupo, em 2008, o músico passou algum tempo afastado dos palcos, até lançar, em 2010, o EP “Araguari”, onde, flertando com o folk e a música popular, enveredou por temas relacionados à cidade de sua infância. Com o novo trabalho, passou a excursionar pelo país e, em 2011, lançou o documentário “Araguari, o que foi que aconteceu?”, retratando as gravações e os shows de divulgação do EP. Mais tarde, disponibilizou virtualmente o single “Um Passo Por Vez”, que abriu caminho para seu primeiro álbum solo: “E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas”, lançado em 2012. O disco obteve grande repercussão, despontando em diversas listas de melhores do ano e ganhando o prêmio de “Revelação” da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
Vindo ao Rio para um show na Audio Rebel, Jair Naves foi convidado pelo Banda Desenhada para esta entrevista, realizada após a sessão de fotos no estúdio Fotonauta, no bairro da Glória. O músico nos falou do processo de criação de seu primeiro álbum, das mudanças do cenário musical brasileiro e da relação com seus colegas de cena..

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samba tarja preta


fotos: daryan dornelles

Agregadora. Esta é muito provavelmente a melhor palavra para designar a atual produção musical brasileira. Muito por conta da severa crise por que passa o mercado fonográfico, surgiu nos últimos anos, mais acentuadamente em São Paulo, uma nova e diversificada geração de artistas independentes cujos trabalhos vêm se caracterizando pela intensa cooperação de instrumentistas e produtores. Estes, se tornaram responsáveis por fomentar o diálogo entre os representantes desta nova cena, criando, ainda que de forma tênue, perceptíveis afinidades estéticas. Assim, Fernando Catatau, Gustavo Ruiz, Régis Damasceno, Guilherme Held, Dustan Gallas, Marcelo Cabral, Kassin, Pedro Sá, Thiago França, entre outros, vêm afirmando com seus trabalhos o caráter colaborativo da nova música brasileira.
Proveniente das rodas de choro e das noitadas de gafieira, o saxofonista Thiago França já se apresentou ao lado de grandes nomes como Nelson Sargento, Beth Carvalho e Roberto Silva. Em 2009, lançou seu primeiro álbum solo, “Na Gafieira”, ainda sob forte influência do samba. Entretanto, foi ao lado de Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral que o músico mineiro encontrou o espaço que buscava para dar vazão as suas experimentações, flertando com diversos gêneros como jazz, funk, música latina, afrobeat, rap e punk. Assim, em 2011, Thiago lançou, em parceria com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, o elogiado Metá Metá. No mesmo ano, dessa vez com Marcelo Cabral e Tony Gordin, o saxofonista promoveu o álbum de seu projeto MarginalS. Mais recentemente, acompanhado de Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Samba Ossalê e Pimpa (Wellington Moreira), Thiago desenvolveu o Sambanzo, lançando este ano o álbum “Etiópia”. Em meio a tantos projetos, o músico ainda encontra disposição para participar de shows e gravações de seus colegas de geração, desde seus parceiros mais constantes, como Romulo Fróes e Rodrigo Campos, até artistas de outras searas, como Criolo, Gui Amabis, CéU e Lurdez da Luz.
Figura extremamente atuante na musica contemporânea brasileira, Thiago esteve de passagem pelo Rio acompanhando a turnê “Nó Na Orelha” de Criolo. O Banda Desenhada aproveitou a oportunidade para convidá-lo para esta entrevista onde nos contou de sua carreira, projetos, a relação com o samba e as religiões afro-brasileiras.

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filha de janaína com wolverine

fotos: daryan dornelles
Ainda que alguns puristas da música popular torçam o nariz, é fato que o rap há muito faz parte da cultura nacional. Sem ater a certas teorias que remetem a origem do rap brasileiro às cantorias dos repentistas do nordeste ou mesmo a uma ou outra produção do nosso cancioneiro (como a famosa música “Deixa Isso Pra Lá”, de Edson Menezes e Alberto Paz), foi somente na década de 80 que a cultura hip-hop chegou ao país. Importado das comunidades latinas e afro-americanas de Nova York, o rap encontrou nas periferias da cidade de São Paulo um local fértil para se desenvolver e, aos poucos, ganhar sua própria identidade. 
O primeiro disco de rap nacional, lançado pela gravadora Eldorado em 1988, tratava-se na verdade de uma coletânea. Produzido por Nasi e André Jung, então integrantes da banda Ira!, “Hip-Hop Cultura de Rua” contava com as participações de Thaíde & DJ Hum, MC Jack, Código 13 e O Credo. Ainda sofrendo grande discriminação, foi somente na década seguinte que o rap paulistano conseguiu sair de seu gueto e ganhar destaque nas mídias, graças ao trabalho de grupos como Racionais MCs, que obteve enorme repercussão com o seu quarto álbum, “Sobrevivendo no Inferno”, de 1997. Atrelada à dura realidade da periferia, suas letras abordavam temas como miséria, violência e preconceito racial. Neste mesmo período, Pavilhão 9, Face da Morte, Câmbio Negro e Detentos do Rap, entre outros, também conseguiram certa visibilidade nos veículos de comunicação. Entretanto, não foi somente na capital paulistana que o rap se difundiu e ganhou contornos, por assim dizer, mais regionais: no Rio, o Planet Hemp tratou de misturar o gênero com hardcore e funk, posteriormente adicionando até mesmo bossa nova e samba em seu caldeirão de influências; em Pernambuco, Chico Science & Nação Zumbi, ícones do movimento manguebeat, se apropriaram do gênero e o fizeram dialogar com maracatu, funk, rock e música eletrônica. Assim, durante toda a década, diversos artistas passaram a flertar com o rap, amalgamando-o aos mais diversos gêneros e fazendo jus à tão decantada permissividade que caracteriza a música popular brasileira. Assim, na década seguinte, já com seu espaço devidamente conquistado, surgiu uma nova leva de rappers paulistanos: Sabotage, Xis, Negra Li, SNJ, Rappin' Hood, Projota, C4bal, Flora Matos, Lurdez da Luz, Emicida, Criolo, entre outros tantos. Contudo, ainda que tenha dado continuidade à fusão de referências que tão bem caracterizou a década anterior, esta nova geração vem se diferenciando de sua antecessora graças à enorme variação temática de suas composições, excedendo a crítica social e incorporando elementos de nossa cultura popular. Com efeito, viu-se nos último ano a ascensão de Criolo, cujo último trabalho, o incensado “Nó na Orelha” (2010), transcendeu e muito o universo do rap tradicional, abarcando em seu espectro gêneros tão diversos quanto bolero, trip hop,  afrobeat, jazz e dub.
O mesmo pode-se dizer de Lurdez da Luz: conhecida por ter integrado - ao lado de Rodrigo Brandão, Prof. M. Stereo e Dj PG - o projeto Mamelo Sound System, a rapper lançou em 2010 seu disco de estréia, um EP cujo título leva seu próprio nome. Com forte influência de música brasileira, o álbum foi produzido por Daniel Bozzio e pelo baixista Marcelo Cabral, figura importantíssima nos trabalhos de Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, entre outros nomes da neoMPB. O disco ainda contou com a presença de Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, e do trompete do jazzista norte-americano Rob Mazurek. Apropriando-se da iconografia pop e lançando-a em um peculiar sincretismo com elementos de nossa cultura, Lurdez da Luz extrapola as fronteiras do hip-hop, tornando-se uma nítida representante da pluralidade da atual música popular brasileira. Assim, versátil, a mc se faz presente em uma infinidade de projetos, como os álbuns “Na Confraria das Sedutoras”(2008), do 3 Na Massa"Na boca dos Outros" (2009), de Kiko Dinucci; e “Ekundayo” (2011), onde trabalhou ao lado de Naná Vasconcelos, Scotty Hard, M. Takara, Guilherme Granado, Rob Mazurek, Rodrigo Brandão e Mike Ladd.
Vindo ao Rio para o Festival Faro MPB, Lurdez foi convidada pelo Banda Desenhada para uma entrevista, onde nos falou sobre o rap paulistano, sua carreira, a neoMPB, políticas culturais  e seus novos projetos:

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