TEMPOS ABSURDOS EM BANQUETE DE MÁRCIO BULK E CADU TENÓRIO

foto: daryan dornelles


Agora percebo, então, que a esperança não pode ser eludida para sempre e que
pode assaltar os mesmos que se achavam livres dela. 
(CAMUS, Albert. A criação sem amanhã. O Mito de Sísifo)

Em 2013, o Brasil conseguiu se tornar um lugar mais esquisito do que sempre foi: os protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro transmutavam-se em algo que a teoria não dava conta. Diferentemente de Hardt e Negri, pensava-se em pauta, em discurso, em enunciado e, quando menos se percebeu, o choque com o Estado e a revolta com a “mídia golpista” caminhava para um apaziguamento com muito orgulho, com muito amor. O ano de 2013 também é o ano do lançamento de E Volto Pra Curtir, disco tributo a Jards Macalé.

Capitaneado pelo artista plástico de formação, jornalista e letrista nascido em Nova Iguaçu, Márcio Bulk, o disco era uma homenagem ao maldito e a sua atuação pelas bordas da MPB. Macalé havia se tornado um tema recorrente à contemporaneidade viva e dialeticamente desperta: recuperou-se sua obra e sua figura, deslocando-o do armazém de mercadorias culturais, onde se costuma buscar receitas abstratas. A análise crítica do presente e a possibilidade de uma apropriação produtiva da herança do passado tomavam forma no documentário Jards (2012), de Eryk Rocha, e na reprensagem, em 2013, do disco compacto Só Morto (1969-1970), o primeiro da carreira do compositor. Sim, Walter Benjamin descarado justificando o Macalé que balbuciou sobre o presente lá do passado.


Bulk ouviu o compacto e, como costuma acontecer com todo mundo que tem contato com este disco, apaixonou-se por “Soluços”. O contato, por conta de E Volto Pra Curtir, com músicos da cena experimental do Rio de Janeiro, como Marcos Campello e Bruno Cosentino (este mais “poroso” à canção que o primeiro) acabou providenciando o encontro com Cadu Tenório, músico crescido na zona norte do Rio, beirando a linha do trem, onde vive até hoje. Juntos, realizaram o EP Soluços com a participação de Alice Caymmi.


“Eu chapei! Achei aquilo demais. Não que seja uma fórmula, mas saca quando você vê algo que é a sua cara? Foi isso que eu achei. É isso! Isso é meu!” — comenta Bulk sobre o trabalho de Tenório, reconstruindo a sonoridade da canção a partir de uma gravação voz (Alice Caymmi) e guitarra (Lucas Vasconcellos), esta completamente extirpada do resultado final. Desenhava-se, nesta obra, neste processo, o modus operandi de Banquete (2014).


Composto a partir de letras que Bulk recuperou e remixou de um blog que mantinha nos anos 90, Banquete é um disco composto de 4 faixas: “Café Expresso”, “Estela”, “Electric Fish” e “Em Transe”. As letras foram enviadas a Bruno Cosentino, Rafael Rocha e César Lacerda, que providenciaram a primeira encarnação das canções, arranjadas ao violão para as vozes de Michele Leal, Alice Caymmi, Livia Nestróvski e Letícia Novaes, que não participou do disco, sendo substituída pela voz de César Lacerda em “Electric Fish” (curiosamente, nenhuma mulher se dispôs a cantar uma canção que versa sobre sexo oral).


Voz e violão, formato clássico de canção, aquela mesma que disseram ter acabado, dez anos antes da produção deste álbum.


Antes de falar da implosão deste formato no processamento de cada fonograma, é interessante olhar para o disco. A capa é uma natureza morta, do séc. XVII, de Jacques Linard. Ao enviar as letras que virariam canções, Bulk enviou também a capa do disco para os músicos. A tela é feita de corais e conchas dispostas sobre um fundo preto — o fundo do oceano — e é impossível não associar esta imagem ao trabalho de Tenório no arranjo das canções.


O mar está presente em "Estela”; o peixe, em “Electric Fish”; a comida, em “Café Expresso”; e “Em Transe”, um banquete oceânico. Quando da construção das letras, Bulk lia O Banquete, de Platão, e Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Para remixar as letras de 20 anos antes, a leitura de ambos foi retomada. Quase o nome do disco virou Fragmentos..., mas seria óbvio demais. Banquete ganhou a parada.


E, como Aristófanes pontua no diálogo platônico, o disco trata do complexo caminho — e dos desdobramentos disso — até a outra metade, aquela que faz homens e mulheres correrem esbaforidos, em pânico, no desejo de voltarem a ser inteiros, uma vez divididos pela sabedoria de Zeus. O discurso é amoroso, quase perverso; a forma, primeira, é do samba-canção.


A ordem das canções era outra e contavam uma história contemporânea: um encontro casual, o enlace, a despedida e a avaliação. Uma vez alterada por conta de dinâmicas e da necessidade de conceber um álbum mais coeso na sonoridade que no sentido, produzem outro enunciado, mais focado nas realizações a partir de um passado cristalizado/consagrado — a forma samba-canção, apontando para outras possibilidades de escuta e produção da canção: a corporificação da letra na performance não está inteira no primeiro plano, é tensionada pela mancha sonora que ocupa o lugar consolidado do violão/harmonia na forma canção.


“A canção existe e sabemos que ela é de suma importância junto à sua letra. No Banquete também o é, muito. Porém, rolou o cuidado de que a voz pudesse descer do palanque e, entre aspas, disputasse por vezes com o peso musical, com a emoção e o peso do arranjo, como numa relação de simbiose. Uma tentativa de diálogo com menos formalidade” — explica Tenório sobre a concepção dos arranjos e da sonoridade que perpassa o disco.


“Café Expresso” abre o disco na interpretação de Michele Leal. De início, um ruído e um violão processado até se parecer com um piano, dão pistas do que está por vir. Uma música sem refrão, com algo que se aproxima de parte A e B, porém, com um trecho de spoken word ao final, submerso entre ruídos de fita e cordas tocadas ao contrário. Anuncia-se aí a diferença de escuta: dificilmente irá se entender toda a letra na primeira escuta pois, de fato, existe uma disputa com o arranjo pelo lugar de atenção do ouvinte.


A tecnologia utilizada para tensionar os limites da linguagem: esta é a tese que interessa em Banquete. Este disco não seria possível sem um olhar para o passado que tensiona ao invés de explicar o presente; tampouco seria realizado sem a invenção do transistor, da fita, do processamento digital do som, da contínua evolução da tecnologia.


Bulk e Tenório foram muito felizes em propor outro lugar para a canção. Um lugar que parte do samba-canção, mas que o implode no som e na letra (É pela voz que eu desisto/Não preciso levantar/Enamoro a derrota/vou ao fundo/abraçando o desafino em um samba-canção manco — em "Em Transe"); um lugar coletivo e desmaterializado, parecido com a forma como nos relacionamos hoje, e é sintomático que o disco não tenha ganhado espaço na mídia impressa, chegando até nós via post no Facebook.


A música de Macalé já tinha cantado a bola, partindo da borda, desafinando o coro dos contentes, apontando que as mudanças estão ocorrendo e, talvez, o desejo de ver o mundo através de um filtro, de sobrepor um sistema racional a sua aparente aleatoriedade, seja o limitador da canção. Vivemos tempos absurdos — sempre vive(re)mos — e, retomando o Camus da citação que abre o texto, “ [...] todo pensamento que renuncia à unidade exalta a diversidade. E a diversidade é o lugar da arte. O único pensamento que liberta o espírito é o que o deixa sozinho, certo de seus limites e do seu fim próximo[...] Por isso, peço à criação absurda o mesmo que exigia do pensamento: revolta, liberdade e diversidade. Depois ela manifestará sua profunda inutilidade [...]”.


Banquete trata-se de uma obra sem esperança de organizar as coisas, calcada mais na disputa do que no enlace de letra e música. Este, nos parece, é um caminho interessante para a canção, uma apropriação produtiva da herança do passado. Ser diversa, revolta e livre para, ao final, não importar, pois está ali enquanto tensão, sem moral, sem princípio organizador uma vez que não há o que organize a vida e a linguagem é espelho desse universo caótico, correndo atrás de algo impossível de alcançar.



Raul Lorenzeti é editor web do Selo Sesc. A resenha foi escrita originalmente para a conclusão da disciplina Canção Popular e Cultura, ministrada por Cacá Machado, no curso de pós-graduação sobre canção popular brasileira, da Faculdade Santa Marcelina.

BANQUETE




| BANQUETE | CADU TENÓRIO + MÁRCIO BULK |
Alice Caymmi | Bruno Cosentino | César Lacerda | Lívia Nestrovski | Michele Leal | Rafael Rocha


1. “Café expresso”
César Lacerda/Márcio Bulk
Voz: Michele Leal
Violão: César Lacerda
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

2. “Estela”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Voz: Alice Caymmi e Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

3. “Electric fish”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Versão para o inglês: Sylvio Fraga Neto
Voz: Cesar Lacerda
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

4. “Em transe”
Rafael Rocha/Márcio Bulk
Voz: Lívia Nestrovski
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

Produzido por Cadu Tenório e Márcio Bulk
Arranjos: Cadu Tenório
Gravado nos estúdios 503, Audio Rebel, Marini e Clemente II
Mixado por Cadu Tenório e Emygdio Costa
Masterizado por Emygdio Costa
Projeto gráfico: Márcio Bulk e Rodrigo Sommer
Capa: “Nature morte aux coquillages et au corail”, Jacques Linard


Banquete, o samba-canção manco de Cadu Tenório e Márcio Bulk
Marcos Lacerda

A canção é uma linguagem artística generosa, múltipla e com uma densidade presente tanto em suas formas harmônico-melódicas mais complexas, quanto nos mais simples samba-canções e boleros. Quem realmente a conhece sabe da sua capacidade de gerar encontros e atritos entre as mais diversas linguagens, inclusive em experimentos sonoros radicais, como vem fazendo um segmento expressivo da canção brasileira contemporânea. Esta desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um diálogo forte com a música “experimental” ou “de invenção”, algo que podemos constatar de forma clara em Banquete, o mais novo projeto de Cadu Tenório e Márcio Bulk.

Integrante da chamada cena experimental carioca, o músico e produtor Cadu Tenório é conhecido por encabeçar diversos projetos musicais, dentre eles, Sobre a Máquina, VICTIM! e Ceticências. Em quatro anos de carreira, esteve envolvido na produção e lançou mais de 20 discos. Nesse mesmo período, através do blog Banda Desenhada, o pesquisador musical Márcio Bulk dirigiu e lançou o álbum E volto para curtir (2013), no qual nomes da nova geração regravaram o primeiro disco de Jards Macalé (homônimo, 1972). No final de 2013, lançou o single Soluços (Jards Macalé), sua primeira parceria com Cadu Tenório. Agora, com o EP Banquete, Bulk exibe pela primeira vez sua veia poética. Com influência do samba-canção e das obras de Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, suas letras foram musicadas e interpretadas por alguns dos artistas mais relevantes da atual cena carioca: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha. As canções, inicialmente gravadas com acompanhamento de violão, foram desconstruídas e recriadas por Tenório através de processos eletroacústicos que dialogam de forma direta com as letras e com a interpretação dos cantores, remetendo, por vezes, aos trabalhos inventivos de artistas como Scott Walker, Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono e Björk.

Dessa forma, podemos dizer que Banquete é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada.

A primeira faixa, “Café expresso” (César Lacerda/Márcio Bulk), é interpretada por Michele Leal. A canção se inicia ao som de um violão, como se saído de uma fita antiga, interrompido bruscamente pelo ruído de uma máquina ou veículo acelerando. Esta instabilidade entre a forma sonora inteligível e a aceleração abrupta permeia todo o disco e é o “recanto escuro” no qual as formas poético-musicais das canções vão se fissurando e se esgarçando. Nesse primeiro caso, temos a experiência da frustração diante da perda, na voz do outro cuja presença ainda se sente (“a sua voz ainda/ecoa pelo meu dorso”) e no corpo, que se perde e se anula, em meio a tantos suportes materiais (cama, remédios, escadas, aço, vidros). Michele consegue, de forma bastante criativa, enriquecer essa trama, deixando de lado, ao final da canção, o seu tom dramático e, tomada de ironia, se aventurar em um spoken word. A canção seguinte, “Estela” (Márcio Bulk/Bruno Cosentino), trata-se de uma bela e sensível homenagem à cantora Stella Maris (1922–2008), esposa de Dorival Caymmi (1914–2008). Interpretada por Bruno Cosentino e Alice Caymmi, neta de Stella, a canção é um apelo desolador diante do medo da separação e da morte. A paisagem oceânica (recifes, pedras, embarcações, horizontes) torna-se símbolo de incomunicabilidade, personificada como testemunha ocular de todo o drama. A forma sonora do álbum, emaranhada de melancolia, só é levemente superada na transgressão do sexo e do gozo — de raras figurações ou mediações simbólicas — como se vê na canção “Eletric fish” (Bruno Cosentino/Márcio Bulk), interpretada por César Lacerda. O cantor dá vida a um personagem cambaleante e bêbado, o que é a deixa para que Tenório possa brincar com a métrica da canção, repleta de mudanças drásticas e vai e vens. Por fim, temos “Em transe” (Rafael Rocha/Márcio Bulk), interpretada de forma impressionante por Lívia Nestrovski. A música amalgama e dá cabo dos principais temas de Banquete: a solidão, a perversidade do discurso amoroso, o ruído e o seu incômodo, impresso por Tenório nas camadas e mais camadas sonoras que ele utiliza ao trabalhar a voz de Lívia. Esta, na busca por sua inteireza, produz uma melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção (“um samba-canção manco”).

Com Banquete, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.


Marcos Lacerda é sociólogo, crítico, pesquisador da história da canção e editor da revista Polivox.

BONDE DOS BRABOS

fotos: daryan dornelles

Nas últimas décadas, o barateamento e a acessibilidade de novas tecnologias foram responsáveis não só pelo crescimento e diversificação da música brasileira, como também pela criação de espaços para crítica e desenvolvimento de diferentes narrativas. Assim, blogs e revistas virtuais adquiriram um papel importantíssimo na fomentação e apreciação da produção artística, destacando-se pela qualidade de seus textos e competindo em pé de igualdade ou mesmo superando revistas e jornais especializados.

Ex-integrante da banda Zumbi do Mato e professor de filosofia da UFRJ, Bernardo Oliveira é um dos principais nomes dessa nova crítica. Responsável pelo blog Matéria e colaborador de diversas revistas virtuais, Bernardo também vem ganhando projeção por ser um dos produtores do projeto Quintavant, que além de promover a cena experimental carioca, também traz ao Rio nomes importantes da música de vanguarda internacional, como Kevin Drumm, The Ex, Matana Roberts e Paal Nilssen-Love.

A entrevista foi realizada ao longo do mês de maio, em uma sucessão de e-mails e bate-papos em redes sociais. Nela, falamos a respeito de seus projetos, crítica musical, samba e funk cariocas, entre outros assuntos.

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rompe & rasga & come

baile primitivo  | primeira fileira, da esquerda para direita:  michele leal, diana daou, bella meirelles, ava rocha e gabriela campos | segunda fileira da esquerda para direita: bruno cosentino, marcos lacerda e negro leo | fotos: daryan dornelles



Manifesto Baile Primitivo

1. Com livros, com fuzil e sem Coca-Cola: por que não?

O carnaval é a explicitação de uma sociedade desigual, violenta, desesperada, rebelde e potencialmente revolucionária. O avesso do pacto nacional de conciliação de classes. Diabinhos armados com artefatos luminosos, zé pereiras de faca amolada, índios com metralhadoras, capoeiras e cucumbis comandando tanques de guerra ao som de saraivadas de balas, em meio às troças dos mascarados. Você me conhece?

Baile primitivo é entrudo, vilas místicas dos caboclos do contestado, canhões do almirante negro, movimentos anarquistas, conferência de Bandung, movimento dos países não-alinhados, luta armada guerrilheira revolucionária, os três impérios de Joaquim de Fiori, Agostinho da Silva, “propaganda pelo fato”, Darcy Ribeiro, Prata Preta, neopaganismos, levante zapatista, bate-bola, black bloc, marcha das vadias e pinkbloc. 

Sobrevivendo no inferno.

As grandes sociedades (Tenentes do Diabo, Democráticos, Os Fenianos, etc.) eram os pacificadores do carnaval carioca do século XIX. Eram os amenizadores, amortecedores, controladores da força popular do carnaval da cisão, da fratura social, da fissura, o carnaval do conflito social, do antagonismo, da luta de classes, sem conciliação. O carnaval primitivo. Vândalo é o Estado e o Mercado.

Filhas e filhos da ira no delírio antitotalitário da cola de sapateiro metendo o grelo na geopolítica da mulher maravilha. Jacarandá, que flor seria essa? 

Podem surgir dos bairros, das ruas, dos conjuntos residenciais, das favelas, mocambos, malocas e alagados e do Conhecimento e conversação do Santo Anjo da Guarda. 

Cavalos, vacas, ovelhas e insetos. Todos mudarão. A humanidade ainda está na sua infância. Sob o silêncio das máquinas, carne verdes e vacina e elementos belicosos da classe temerosa. O vanguardista está na ponta de qual corrida? Uma zona de furta-cor de onde emerge o supereu humorístico: pai, afasta de mim este riso de sangue

Demarcação de terras indígenas. Seringueiros, ribeirinhos, índios, operários e a lista de morte dos latifundiários do capitalismo 2.0. Poemas do cárcere de Ho Chi Min. Grupos de crime organizado (Coca-Cola, McDonald’s, FIFA) colonizando países emergentes. Não vai ter Copa! Meu cu é laico! Todo poder para o povo! Bancos públicos e privados quebram vidas. Anarquismos, comunismos e milenarismos. Pálidos economistas pedem calma...

2. Macaco é outro.

O ecletismo das ideias liberais escravocratas da conciliação. A transição classista da anistia para os orangotangos do conservadorismo militarizado. O obscurantismo do realismo capitalista na redemocratização.O poder moderador do imperador da canção popular (guardado por Deus, contando vil metal) entre os gaviões e os passarinhos de São Francisco de Assis.
Protegidas pela Guarda Nacional e pelo comitê policial da cultura letrada e do bom gosto, caras rosadas, nutridas, branquíssimas ou douradas pelo sol, se pintam de verde e amarelo e manifestam sua indignação contra a falta de cultura do público da nova vedete da música popular brasileira.

O pêndulo fica em cima do muro, entre a direita e a esquerda, e sempre retorna ao centro. Os liberais vibram, mas quando o pêndulo se mantém no centro, o relógio para. 

Nora Ney. Jorge Goulart. Conjunto Farroupilha. Maria Helena Raposo. Celia de La Serna. Carlos Marighella. Oscar Niemeyer. Lúcio Costa. Cortina de Ferro. Janelas Abertas. Antes do Ornitorrinco. 

Não se trata de realismo socialista, realismo capitalista, nacionalismo fantasioso, exotismo ilegível, “arte pela arte” burguesa. Os intelectuais e artistas juntam livros e rifles e, como últimos soldados da guerra-fria, começam a ouvir o diabinho cubano desafiador.

Rádio e TV Martí informa: indígenas, gays, mulheres, negros e brancos acabam de se filiar ao Alpha 66. Para o delírio totalitário dos estudos culturais. Enquanto isso, sujeitos monetários sem dinheiro transitam pela cidade e assustam turistas em transe e jovens adultos de classe média, que ainda não saíram do jardim da infância. 

Mas a Rede Vespa está de campana...

Arrastão na praia de Ipanema. Rolezinho nos shoppings de São Paulo. Coquetéis molotov no consulado dos EUA e no Clube Militar. Pedras quebrando vidraças de agências bancárias. Carros da PM queimados por militantes anarquistas. Ocupação de prédios para moradia popular. Ocupação de terras do latifúndio: baile primitivo.

Contra a despolitização com interesse político liberal mercadológico e classista hierárquico. Contra os novos conformistas, as variações contemporâneas da patrulha odara, as aves de rapina travestidas de cordeirinhos “amigos do povo”. Abaixo intelectuais tecnocratas dublês de banqueiros. Abaixo aristocracias de burocratas do Estado. Abaixo relativismos culturais pós-tudo e seus pares reacionários: os elitistas esnobes acríticos e suas reações de pavor diante do protagonismo popular. Basta de relativismo liberal mascarado de barroquismos tropicais, “modos de ser do Brasil” e figuras míticas sem história. A estátua de Glauco enfim mostra as suas feições aterradoras. O rei está nu e não é bonito. 

3. O que resta da ditadura? Os patetas adoram o discurso do poder.

Filósofos gays liberais, musas do topless, artistas rebeldes de classe média, estudantes barbudos de esquerda universitária, burguesia folclórica Rio-Paris, profissionais liberais e potenciais integrantes do Big Brother se divertem na praia de Ipanema, enquanto mulheres e homens negros pobres são vigiados ostensivamente pelas forças repressoras do mercado livre e do Estado democrático de direito.

Ao invés do equilíbrio de antagonismos (tão ao gosto dos nossos intelectuais malemolentes da “democracia racial” e da conciliação de classe ) a explicitação das contradições e o chamado ao confronto direto e à luta: baile primitivo.

O líder camponês. O líder sindical. A máscara negra da fome na melancolia dos trópicos. “Está vendo o que é o artista? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado, em festa permanente, rebolando no caos da miséria globalizada, enquanto o capitalismo ri de si mesmo e se faz paródia, alegria, alegoria”.

Bárbaros mandirobas com pés espalhados entoam a copla ao som do mestre de pancadaria e se juntam ao Rompe e Rasga e aos Destemidos da Chama, assustando os amenos carnavais do Resedá.

Quando o Brasil mítico, pré e pós-ocidente, encontra a história da luta de classes. Capoeiras, caboclos, milenaristas, indígenas e a plebe proletarizada e não proletarizada. O espírito de Deus se agita e no mar revolto a jangada volta cheia. É a Hora! É a Hora! 

Exército anarquista de libertação. Alguém me disse, e o peixe amarelo eu vi navegar. Eles eram muito cavalos. A garoa rasga a carne. Quando os barquinhos da Bossa Nova integrarem a esquadra revolucionária. Ele disse a ela e escancarou os dentes, esperando a morte chegar.

Entre as duas torres, um clarão. Imagens e fantasmagorias. Subflor e mais flor. Dinamitar a ilha Brasil, pairando, porque não podes. O futuro só pode vir na forma da monstruosidade. O tigre agachado e o dragão enroscado estão mais majestosos do que nas eras passadas, enquanto a lâmina aguda ceifa as raízes da propriedade privada. 

Justiçamentos. Tribunal do povo. Justiça popular. Nos meus retiros espirituais. Cortar a cabeça do capitalismo. Censurar ninguém se atreve. Balança rede, balança. 

Uma bandeira negra e vermelha tremula nas ruas do Brasil. Da ditadura democrática do povo. O terror revolucionário. A grande onda da liberdade de amar. Eu não nasci pra morrer.


Marcos Lacerda

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soluços

download: desenhada.banda@gmail.com

Entre surtos e soluços 
Fred Coelho

Até pouco, achava que o Banda Desenhada, blog de Márcio Bulk, já tinha feito um trabalho fundamental na renovação da obra de Jards Macalé com o álbum virtual E volto pra curtir. Eis que, no fim desse ano de surtos e rupturas, ganhamos ainda esta versão de “Soluços”, feita com maestria por Alice Caymmi e Cadu Tenório. A faixa, composta por Macao, foi originalmente lançada em 1969/1970, no compacto “Só Morto (Burning Night)”. O disco ainda continha mais três composições: “O crime” (Macalé e Capinam), “Só morto (burning night)” (Macalé e Duda) e “Sem essa” (Macalé e Duda).
Portanto, é impactante ouvir uma música completamente esquecida no repertório de Macalé (foi relançada recentemente em um disco de arquivos do selo Discobertas) sendo renovada de forma impecável pela jovem dupla carioca. Vindos de universos sonoros aparentemente distantes, o encontro entre Alice e Cadu nos mostra como a música brasileira contemporânea tem uma vasta trilha de possibilidades pela frente. Alice, com sua voz etérea, vem de um universo sonoro cuja maior referência, claro, é sua própria família musical. Mas essa referência é apenas o ponto de partida para sua curiosidade e pesquisas, cada vez mais amplas e criativas. Já Cadu, articulador e produtor intenso da música experimental carioca e que hoje ganha cada vez mais visibilidade na cidade, coloca sua experiência com projetos e bandas como Sobre a Máquina e Ceticências à serviço de uma delicada canção. E de um desafio muito bem enfrentado.
A junção entre a voz e a interpretação precisas de Alice e a marca musical e maquínica de Cadu fazem com que a canção original, um rock típico de bandas hard rock da época como Cream ou Mutantes, torne-se uma torrente densa de sonoridades, experimentos, teclados, efeitos e vozes. Alice leva a interpretação original de Macalé para um patamar de dramaticidade que joga com o tema da canção na medida certa. Em 1969, tínhamos uma voz masculina, tensa e raivosa pela aparente fragilidade do homem que canta a própria incapacidade de encarar nos olhos seu amor que o abandonou. Na versão atual, Alice subverte o lugar da fala e torna-se a afirmativa voz feminina que fulmina o ex-amado, deixando-o desarmado frente à situação. Ela, sem os óculos escuros, ordenando que ele não fale e não olhe para ela. Pois ela não fugirá do encontro. Dominando a dramaticidade do tema, Alice canta com a maturidade de uma pessoa que entende perfeitamente o mundo poético que atravessou para gravar “Soluços”. 
A produção de Cadu Tenório, por sua vez, arremessa o mundo de Jards Macalé para dentro de sua usina de sons, ruídos, experimentos e transgressões dos códigos que a canção brasileira sempre evitou, na medida do possível. A voz de Alice tem como chão (e céu) camadas sonoras que atravessam a melodia e ajudam a compor o clima inóspito, sufocante e de abandono que a letra nos passa. Com a colaboração de Lucas Vasconcellos (backing vocal) e Emygdio (produção e masterização), o arranjo respira, hesita, agride, sofre. Com a faixa bônus “Soluços (Epílogo)”, Cadu atinge o cerne do universo mais escuro de Jards Macalé, como se entrássemos na mente daquele que odeia soluços e esqueceu seus óculos escuros. Estamos em plena alucinação sonora, sem esperanças. E, mesmo assim, em algum momento, encontramos a paz. 
A nova versão de “Soluços”, portanto, faz com que possamos sentir, em 2013, a barra pesar ainda mais nesta versão do que nos sufocantes dias de 1970. Talvez as transformações e perplexidades de hoje nos deem pistas sobre essa faixa pungente, certeira e desnorteadora para os que buscam águas mansas e lugares comuns para a música brasileira. Isso, essa percepção transgressora do seu tempo, é a prova de que a nova versão de “Soluços” nos mostra o quão atual é a canção. E nos mostra, principalmente, que Alice Caymmi e Cadu Tenório são um dos mais felizes encontros que ocorreram na música brasileira contemporânea.

curadoria – márcio bulk
capa – rodrigo sommer
masterização – emygdio costa

1 – alice caymmi + cadu tenório
soluços (jards macalé) fermata do brasil
alice caymmi – vocais
lucas vasconcellos – backing vocal
produzido por cadu tenório e emygdio costa.
gravado por cadu, emygdio e lucas vasconcellos.

2 – cadu tenório + alice caymmi
soluços  epílogo (cadu tenório, alice caymmi)
alice caymmi – vocais
produzido e gravado por cadu tenório.

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noise goiabada cascão

chinese cookie poets (da esquerda para direita): felipe zenicola, marcos campello e renato godoy | fotos: daryan dornelles
Há pelo menos três anos, com a ascensão da cena experimental carioca, boa parte dos críticos e pesquisadores da música popular se viu obrigada a ir atrás de sons até então pouco associados à MPB. Improvisação eletroacústica, drone, industrial, dark ambient, glitch, noise e no wave entraram na pauta do dia por conta de artistas como Cadu Tenório, Duplexx, Chineese Cookie Poets, Negro Leo, Bemônio, Rabotnik, Dorgas, BIU e Digital Ameríndio.
Criado em 2010 por Marcos Campello (guitarra e violão), Felipe Zenícola (baixo elétrico e acústico) e Renato Godoy (bateria), o Chinese Cookie Poets é um dos projetos de improvisação de maior destaque na cena carioca. O trio lançou seu primeiro EP homônimo em 2010. No ano seguinte, lançou o bootleg “Dragonfly Catchers and Yellow Dog”, realizando uma turnê por algumas cidades do Chile. Em 2012, foi a vez do single “En La Mano Del Payaso”, que veio acompanhado do clipe da faixa título. Nesse mesmo ano, lançou o elogiado álbum “Worm Love”, que conteve a participação de Arto Lindsay na faixa “Discipline And Manners”. Em 2013, após realizar diversas apresentações pelo país, o trio divulgou o seu quarto disco, “Danza Cava”, com a colaboração do trompetista Nicolau Lafetá. Nesse mesmo ano, Marcos Campello e Felipe Zenícola foram covidados, respectivamente, por Bruno Cosentino e Ava Rocha para participarem do álbum em homenagem aos 70 anos de Jards Macalé, “E Volto Pra Curtir”, lançado em junho pelo blog Banda Desenhada.
Convidado para uma entrevista, o trio se encontrou conosco mês passado em um restaurante no Humaitá (RJ), onde conversamos demoradamente a respeito de seus diversos projetos, MPB e a cena experimental carioca.

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cérebro magnético

fotos: daryan dornelles
Alguns certamente dirão: “O quê?! E desde quando Cadu Tenório virou neoMPB?”. Outros, mais cínicos, talvez pensem: “Ahã, improvisação e música experimental é tão popular, né?”. E os mais exaltados irão esbravejar: “P*! De novo esse papo de neoMPB?! Que m* é essa, c*?”. Bem, a grande questão é que a música popular e a sua indústria mantenedora passaram por grandes transformações nos últimos vinte anos. Enquanto o mainstream tornou-se extremamente restrito, abrigando artistas que, em sua maioria, possuem enorme apelo popular, coube à cena independente gerar trabalhos mais ousados, sem necessariamente contestar o que esteticamente a precedeu. Por conta disso, parte desta nova geração chegou a ser rotulada de neotropicalista, graças aos vínculos com alguns cânones desse movimento. Entretanto, ao longo da década de 2000, músicos relacionados a gêneros até então incomunicáveis com a MPB também conseguiram espaço nesse cenário, trazendo a tona influências de post-rock, industrial, electroclash, indie pop, entre outros. Esta ascensão tornou-se clara quando, ao produzir “Recanto” (2011, Universal Music), o elogiadíssimo álbum de Gal Costa, Caetano e Moreno Veloso solicitaram a colaboração de Duplexx e Rabotnik, nomes associados à música de improviso e experimentação carioca. Todos esses entrecruzamentos desgastaram bastante o termo MPB, tornando-o obsoleto por ter, em sua origem, gêneros agora vistos como indesejáveis e anacrônicos, caso da bossa nova e da música regional. Entretanto, conceitualmente, a sigla continuou mantendo uma de suas principais características: a capacidade de absorver estilos distintos, intercambiando e aglutinando-os das mais diversas formas. Assim, por essa ótica e com certa ironia, pode-se dizer que nunca a música produzida no país foi tão “MPB” como agora. E é a partir deste ponto de vista que o Banda Desenhada adotou para si o termo neoMPB. Por mais que também o achemos questionável, ele ainda é o que melhor classifica a produção brasileira contemporânea. Produção esta que teve como estopim a crise de um mercado e que gerou uma nova dinâmica de produção, divulgação e comercialização de uma música que, mesmo “impopular”, traz em si, em maior ou menor grau, o substrato da MPB. Assim, nada mais lógico para nós do que dialogar com a chamada cena experimental carioca. Composta por nomes como Cadu Tenório, Chinese Cookie Poets, Rabotnik, Negro Leo, Bemônio, Dorgas e Duplexx, a cena passou a ganhar destaque na mídia a partir de 2011, muito por conta dos blogs especializados e do pequeno, mas heroico, circuito de casas que abrigam estes artistas.
O mais prolífero e inquieto destes, Cadu Tenório encabeça cinco projetos: Sobre a Máquina, VICTIM!, Santa Rosa’s Family Tree, Ceticências e Gruta. Lançou, em diversos formatos e suportes, nada menos que 14 discos em um período de três anos. Flertando com o noise, industrial, post-rock, dark ambiente, drone e minimal, seu trabalho se caracteriza pela improvisação e pesquisa sonora de elementos do seu dia a dia. Em 2010, ao lado de Emygdio Costa e Ricardo Gameiro, lançou o primeiro EP do Sobre a Máquina, “Decompor”. No ano seguinte, lançou os EPs “Areia” e “Anomia”, do Sobre a Máquina, e “Please Don’t Be Shy/It’s Not So Easy But I’ll Try”, este último pelo Ceticências. Em 2012, lançou “I Like To Smell The Dirty Panties That You Leave In The Bathroom”, primeiro EP do Santa Rosa’s Family Tree, o EP “Beksiński Hug” pelo Ceticências, os álbuns “This Is What You Love, Young Man, And It Isn’t Beautiful!” e “Sexually Reactive Child” pelo VICTM!, “Sobre a Máquina” pelo projeto homônimo – agora contando com o saxofonista Alex Zhemchuzhnikov – e “Grito”, primeiro disco do Gruta, parceria com Thiago Miazzo. Neste mesmo ano, fundou com Thiago a TOC Label e participou do festival Novas Frequências, sendo o único artista brasileiro convidado desta 2ª edição. Em 2013, lançou “Lacuna” e os EPs “Lar” e “Ecos” pelo VICTIM! e o álbum “Issamu Minami” pelo Ceticências. Seus trabalhos com o Sobre a Máquina recebeu elogios e chegaram a figurar na lista de melhores do ano em diversos sites e blogs nacionais e estrangeiros.
Em meio a apresentações e envolvido na produção do segundo disco de seu parceiro Emygdio, Cadu aceitou ser entrevistado pelo Banda Desenhada. Conversamos a respeito de sua carreira, influências, cena experimental, MPB e outros assuntos. A entrevista desenvolveu-se através de constantes trocas de e-mails e conversas em redes sociais.

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