a bela da tarde


fotos: daryan dornelles


Rio de Janeiro, meados do século XVIII. Já sob os efeitos da missão artística francesa de 1916, a então capital do império se encanta com todo o tipo de novidade vinda de Paris: desde as costureiras francesas e suas maisons que tomam boa parte da Rua do Ouvidor e ditam a moda da época até os cafés-cantantes, com o seu vaudeville e as chansonnettes. Importados dos palcos franceses pelo empresário Joseph Arnaud, um grande número de artistas causam alarde no Alcazar Lyrique, no Casino Franco-Brésilien e em outros tantos teatros cariocas.
São Paulo, século XXI. Uma nova geração de músicos traz à tona uma insuspeita influência tanto da chanson – gênero musical surgido na década de 1940 -, quanto do rock sessentista francês. Assim, inspirado no ícone Serge Ginsbourg, em 2008 o guitarrista Edgard Scandurra cria o grupo Les Provocateurs, realizando uma série de shows com o repertório do músico. No mesmo ano, também envolvido pelo clima boêmio e sensual de Gainsbourg, o projeto 3namassa lança “Na Confraria das Sedutoras”. Pouco depois, é a vez de Fabiana Cozza, ao lado da Orquestra Jazz Sinfônica, realizar diversas apresentações com o seu “Tributo a Edith Piaf” e Tiê lançar em seu álbum de estreia,“ Sweet Jardim”,  a canção bilíngue “Aula de francês”, composta por ela, Flávio Juliano e Nathalia Catharina. Em 2010, sob os efeitos de Jacques Brel, Piaf e dos cabarés, Thiago Pethit grava “Voix de ville”, enquando Renato Godá lança o álbum "Canções para embalar marujos". No mesmo ano, surge o projeto “Le Temps de Souvenirs”, reunindo músicos como Juliana Kehl e Isabela Lages, para celebrar as cantoras francesas da década de 1960. Ainda em 2010, Bárbara Eugênia lança seu primeiro álbum, “Journal de BAD”, fortemente influenciado  por Fraçoise Hardy, Jacques Dutronc e Gainsbourg.
Nascida em Niterói, Rio de Janeiro, Bárbara Eugênia vive desde 2005 na capital paulista. Amiga de Edgard Sacandurra, em 2008 foi convidada pelo guitarrista a participar em seu bistrô de um tributo a Serge Gainsbourg. Na mesma época, convidada pelo produtor musical Apollo 9, esteve presente na trilha sonora do filme “O cheiro do ralo”, compondo uma canção inspirada em poema de Charles Baudelaire. Ainda no mesmo ano, Bárbara participou intensamente do projeto musical 3namassa, composto por Rica Amabis, Dengue e Pupillo – estes dois últimos também integrantes do Nação Zumbi. Em 2009, finalmente passou a se dedicar ao seu primeiro álbum solo: “Journal da BAD”. O título e boa parte de suas letras foram retirados de diversos e-mails confessionais e poéticos que por um longo tempo enviou aos amigos que viviam fora do país. Arregimentando uma constelação de músicos, em sua esmagadora maioria originários da cena cearense e pernambucana, Bárbara contou em seu disco com as participações de: Junior Boca, Dustan Gallas (Cidadão Instigado), Felipe Maia, Pupillo, Dengue, Otto, Karina Buhr, Juliana R. e do iconoclástico Tom Zé. O álbum, lançado em 2010, recebeu diversos elogios, figurando na lista dos melhores do ano em sites e revistas especializas.
Já se preparando para o próximo álbum, Bárbara veio ao Rio em dezembro passado para fazer sua primeira apresentação em solo carioca. Não podendo deixar passar esta oportunidade, o Banda Desenhada convidou a cantora para uma entrevista, realizada pouco antes de sua participação no show de Nina Becker no Studio RJ:

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rio, 40 graus


Junto a qualquer cena ou geração musical sempre haverá ilustradores, designers, estilistas, videomakers e outros tantos profissionais que darão forma, cor e movimento às canções de uma época. Acreditando nisto, o Banda Desenhada convidou o designer Duda Simões para a entrevista desta semana. Nascido em Salvador, mas radicado no Rio desde 1981, Duda, junto com Synesio Neto, Murilo Ferreira e Marcelo Macedo, formam a Tangerina, agência de design responsável por diversos trabalhos em empresas como Globo.com, Complexo B, Coca-Cola, OI, Funart, Centro Cultural Banco do Brasil, entre outras. Duda também vem se destacando devido à sua grande participação nos projetos gráficos de uma boa parte da atual cena musical carioca. Colaborador no design dos álbuns da Bolacha Discos, coautor do projeto Semente da Música Brasileira e responsável pela direção de arte e ilustração dos discos de Seu Jorge, Rogê, Baia, 4 Cabeça, João Hermeto e outros tantos, Duda Simões tornou-se um dos responsáveis pela cara da nova MPB carioca.
O designer recebeu o Banda Desenhada em seu ateliê, Olga, que divide com os artistas Rafael Dória e Mateu Velasco, no bairro de Laranjeiras, e nos contou sobre seu processo de criação, a amizade com diversos nomes da música carioca e o trabalho com a Bolacha Discos, entre outras coisas:

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molho, ritmo e balangandãs


fotos: daryan dornelles


Technopop mexicano, jazz alemão, rock psicodélico brasileiro, country dinamarquês, indie filipino, heavy metal japonês... Em tempos de universalização da cultura, assistimos nas última década uma avalanche de artistas dos mais diferentes pontos do planeta ganhando destaque em diferentes nichos do mercado fonográfico ao articular em seu som, até então taxado de regional ou mesmo folclórico, uma identidade “universal”. Se por um lado há de se comemorar o consumo pelo mundo afora da obra destes artistas, é importante perceber que, para que tal aconteça, se faz necessário a rotulação de seu trabalho por olhos e ouvidos dominantes pouco aptos à diversidade cultural. Assim, para estes, a nacionalidade de um som ganha ar cosmopolita ao agregar-se a um gênero internacionalmente conhecido. Mesmo que, em pleno século XXI, seja um tanto questionável discutir “brasilidade” e que haja pouco consenso sobre de que forma devemos preservar e estimular as tradições e os ritmos ditos regionais, é importante perceber que certos processos estigmatizantes ainda são devidamente estimulados por uma cultura de massa globalizada. 
Ao mesmo tempo, vivemos em um período que se destaca pela efemeridade das tendências e pelo descarte quase automático de artistas que, na estação anterior, foram considerados a grande revelação do momento. Assim, tornou-se imperativo que os jovens músicos, inclusive brasileiros, adquirissem um aspecto amorfo ou, utilizando um termo mais pertinente, líquido, sem se prenderem a um gênero que, por ventura, mídia e público facilmente descartariam após seu consumo. Deste modo, ganhou um tom quase ofensivo a associação dos novos nomes da música brasileira com a agora antiquada MPB, termo que envelheceu rapidamente nos últimos anos e que de fato se viu incapaz de abarcar a pluralidade estética da nova geração. Esta, que em boa parte se autointitula pop, se diferencia de suas predecessoras não só pelas questões estilísticas ou por se ver inserida em um novo contexto do mercado, mas também pela enorme valorização das particularidades inerentes a cada artista, inviabilizando as muitas tentativas de classificá-los por gênero ou mesmo inseri-los em algum possível movimento. 
Representante inconteste de uma cultura universalizada, propulsionada pelo desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, a música contemporânea brasileira e, de forma mais nítida a cena independente, ao mesmo tempo em que se tornou mais democrática, potencializando sua diversidade e dando voz a um sem número de artistas das mais variadas regiões do país, vive as idiossincrasias e os tormentos por que passa a cultura de qualquer nação periférica: A busca por uma mobilidade que, se por um lado, a desenraiza e a liberta de qualquer identidade monolítica, por outro, a torna vítima de um mercado cultural globalizado extremamente voraz e competitivo.
Nadando contra a correte e buscando um olhar mediador voltado tanto para a tradição quanto para a contemporaneidade, Fabiana Cozza é um dos casos raros de sua geração que levanta a bandeira da música popular, ou melhor, do samba. Considerada uma das maiores intérpretes da atual música brasileira e dona de uma voz prodigiosa, Fabiana cresceu em meio às rodas de samba paulistanas e ouvindo em casa os LPs de samba e jazz de seu pai, Oswaldo dos Santos, ex-puxador da escola Camisa Verde e Branco. Em 2004, lançou seu primeiro álbum, “O samba é meu dom”. Três anos depois, seria a vez de “Quando o céu clarear”, onde estreitou laços com a música cubana. Em 2008, gravou seu primeiro DVD, no Auditório Ibirapuera, com as participações da cantora Maria Rita e do rapper Rappin Hood. Em 2009, interpretou o repertório de Elizeth Cardoso no espetáculo “Fabianíssima” e, ainda no mesmo ano, realizou um tributo a Edith Piaf ao lado da Orquestra Jazz Sinfônica. Em 2010, ano em que foi celebrado o centenário de Adoniran Barbosa, a cantora realizou uma série de shows em homenagem ao compositor, com a participação do rapper Emicida. Seu terceiro álbum, “Fabiana Cozza”, lançado em 2011, reiterou suas convicções, mostrando uma cantora atenta não só aos grandes nomes da música brasileira, mas também aos novos compositores de sua geração, gravando duas canções de Kiko Dinucci, “São Jorge” e “Santa Bamba”.
Dias antes da estreia de seu novo show no Rio de Janeiro, em dezembro passado, Fabiana Cozza aceitou o convite do Banda Desenhada e nos encontrou no boêmio bairro de Vila Isabel para a entrevista. Generosa, fez uma análise profunda sobre a sua geração e ofício, comentando também a sua trajetória e influências:

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um anticomputador sentimental


fotos: daryan dornelles


Os anos 60, tanto no Brasil quanto no exterior, ainda permanecem como o mais importante manancial de uma produção artística que, não se limitando apenas às questões estéticas, agitou política e comportamentalmente a sociedade da época. Sob os efeitos da ditadura militar e em meio aos festivais e às manifestações estudantis, os jovens artistas, tendo o tropicalismo como estandarte, não só renovaram a música popular brasileira como, ainda hoje, permanecem como as mais festejadas figuras de vanguarda do cenário cultural. Assim como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa e outros tantos artistas, José Celso Martinez Corrêa e seu Teatro Oficina vem se mostrando extremamente pertinente e atuante, exercendo grande fascínio às novas gerações. Fundado em 1958, o Teatro Oficina se tornou um marco por suas montagens controversas, onde o experimentalismo e a provocação davam o tom. Também reconhecido por formar centenas de atores, o Teatro Oficina, juntamente com os tropicalistas, veriam nos anos 70 o desdobramento de seu ideário, com o aparecimento dos Secos e Molhados, Novos Baianos, Dzi Croquettes, Edy Star, Walter Franco e, bem mais adiante, a Vanguarda Paulista
Na última década, com a gradual ascensão da cena independente brasileira, Tom Zé, Caetano Veloso e Ney Matogrosso iniciaram um forte diálogo com a chamada NeoMPB, dividindo os palcos com diversos nomes desta geração. Mesmo negando-se enquanto movimento e não crendo em qualquer linha estética passível de convergência, estes novos artistas, em releituras bastante heterogêneas e diversas, retomaram certos paradigmas do movimento tropicalista, absorvendo tanto a tradicional cultura popular, quanto a alta cultura, o pop e o kitsch. Curiosamente, vários nomes desta cena passaram pelo Teatro Oficina, alguns chegando mesmo a integrá-lo por um determinado período, caso de Karina Buhr e Dan Dakagawa
Fortemente influenciado pelas décadas de 1960 e 1970, o músico e ator paulistano Dan Nakagawa montou sua primeira banda aos 10 anos. Mais tarde, levado por Celso Sim, ingressou no Teatro Oficina, participando da montagem do espetáculo "Mistérios Gozozos". Gravou seu primeiro trabalho musical em 1996, ganhando certo destaque com a canção “Aniversário”, bastante executada nas rádios de São Paulo. Alguns anos depois, indo para a Alemanha, compôs a trilha sonora do espetáculo de dança “RE-SorT”, do coreógrafo Thomas Plishke. Em 2005 lançou então seu primeiro álbum, “O Primeiro Círculo” (Lua Music), com participações de Paula Lima e da atriz Camila Morgado. Após realizar alguns trabalhos como ator para a Rede Globo, onde atuou nas novelas “Bang Bang” (2005) e “Pé na Jaca” (2006), Dan lançou em 2011, “O oposto de dizer adeus” (YB Music). Com forte acento pop e inspirado em Heráclito e Nietzsche, seu segundo álbum contou com as participações especiais de conhecidos nomes da nova geração, como Tulipa Ruiz, Bluebell e Pélico. Fazendo juz ao legado tropicalista, Dan transformou seu disco em um projeto coletivo, produzindo ao lado de amigos - diretores de cinema, artistas plásticos, músicos e fotógrafos – os 10 clipes das músicas que se encontram no álbum e os disponibilizando em seu site. 
Dividindo o palco em uma série de apresentações com Ney Matogrosso – que resultará em um DVD -, Dan Nakagawa passou com seu show pelo Studio RJ e, pouco antes de voltar para São Paulo, em pleno aeroporto, nos deu esta rápida e divertida entrevista: 

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ponta de lança


fotos: daryan dornelles

Há uma ou duas décadas, ainda não causava tanto estranhamento o apoio, mesmo que bastante comedido, das grandes gravadoras a artistas que partiam em determinado momento de suas carreiras em busca de experimentações ou novas estéticas. Assim, nos anos 70, Caetano Veloso lançou pela Polygram o seu álbum mais polêmico, “Araçá azul” (1972). Milton Nascimento veio, por sua vez, com “Milagre dos Peixes” (EMI Odeon, 1973), álbum com 11 músicas, sendo oito delas instrumentais, onde, junto com Naná Vasconcellos, fazia entrecruzar a música mineira com a africana. Já Tom Zé, após "Todos Os Olhos" (1973, Continetal), revolveu o mais representativo gênero musical do país, criando o experimental “Estudando o Samba” (1976, Continental). Em 1974, Jorge Ben Jor, baseando-se em textos alquímicos, lançou o icônico “A Tábua de Esmeralda” (Philips). Mesmo na década seguinte, ainda pôde-se observar uma geração de músicos capaz de encontrar, ao seu modo, um equilíbrio entre liberdade artística e mercado, como foi o caso dos Titãs em seu álbum “Õ Blésq Blom” (1989, WEA), que flertava com o tropicalismo e a world music impregnados de programações eletrônicas. Ainda antes, em 1987, a RCA arriscava suas fichas com a inimaginável banda de rock progresso/psicodélico Violeta de Outono. Por fim, no ano de 1994, o maisntream dava seus últimos suspiros de criatividade, ao lançar os álbuns de estreia de Chico Science & Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos” (Sony Music) e “Samba Esquema Noise” (Banguela Records/Warner), do Mundo Livre S/A. Tempos depois, já submerso em crise e optando por um pragmatismo atroz, o mercado fonográfico tornou clara a sua opção por uma música incolor, inodora e insípida que, aparentemente, não apresentaria risco financeiro algum às empresas. Deste modo, há quase uma década, a cena independente, que até então era vista como um nicho limitadíssimo e de visibilidade nula dentro das mídias tradicionais, vem apresentando o que de mais relevante e criativo é produzido na música brasileira. E assim foi em 2011, com Pélico (“Que isso Fique entre nós”); Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes (“Passo torto”), Criolo (“Nó na orelha”); BiD (“Bambas 2”), Cícero (“Canções de Apartamento”); Bixiga 70 (“Bixiga 70”); o projeto “Metá Metá” de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França; e Gui Amabis (“Memórias Luso Africanas”). Todos estes, artistas independentes, vêm tendo seus álbuns listados entre os melhores do ano em diversas publicações e sites.
“Memórias Luso Africanas” do produtor, compositor e multi-instrumentista paulistano Gui Amabis poderia ser considerado por muitos um álbum “difícil”: Baseando-se nas histórias contadas por sua avó materna, a imigrante portuguesa Firmina dos Prazeres, falecida em 2006,o músico criou uma série de canções em que narra, de forma sutil e pouco linear, a história de sua família, remetendo não só à imigração portuguesa, mas também à sua afro-descendência e ao nascimento de sua filha, Rosa Morena. Disponibilizado gratuitamente para download, o álbum teve ótima recepção por parte da crítica, fazendo com que Amabis se enveredasse pelos palcos e deixasse um pouco de lado seu reconhecido trabalho em trilhas sonoras. O músico participou de uma infinidade de trabalhos para cinema e TV, dentre eles: “Cidade dos Homens” (2003), “Lord of War” (2005), “A estranha perfeita” (2007), “Antonia” (2007), “Filhos do Carnaval” (2009), “Quincas Berro D'água" (2010) e "Bruna Surfistinha" (2011). Também foi responsável pela produção de “Vagorosa”, segundo álbum de CéU, e coproduziu “São Matheus não é um lugar assim tão longe”, álbum de estreia de Rodrigo Campos.
De passagem pelo Rio de Janeiro com sua turnê que contou com as participações especiais de Tulipa Ruiz, Criolo e Lucas Santtana, Gui Amabis recebeu o Banda Desenhada para uma entrevista no Espaço SESC, onde, mais tarde, realizou sua segunda noite de apresentação. Lá, o músico nos falou de sua carreira, de sua geração, da passagem por Hollywood e do projeto “Sonantes”:

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adeus, batucada

romulo fróes | fotos: daryan dornelles



A música brasileira, em especial a de origem popular e distante do eixo Rio–São Paulo, por um longo tempo foi submetida a uma hierarquia criada pelas elites do país que buscavam como símbolo máximo de sofisticação e modernidade os modismos importados da Europa e, a partir da década de 1920, dos Estados Unidos. Prática esta assimilada e reproduzida por uma classe média que sempre se esforçou em maquiar seu status, repudiando gêneros como o samba, o forró e, mais recentemente, o pagode, o funk carioca e o tecnobrega. Mesmo incorporado de forma definitiva à identidade nacional a partir dos anos 30, o samba não foi capaz de retirar totalmente a aura de marginalidade que tanto o acompanhou. Somente a partir da década de 1960, com a segunda geração da bossa nova e o surgimento do tropicalismo, é que, aos poucos, deu-se início a desconstrução deste imaginário. Nesta época, de forma transgressora, Nara Leão era vista cantando composições dos sambistas das favelas cariocas e Caetano Veloso interpretava a trágica “Coração materno” de Vicente Celestino, além de dividir o palco com Odair José  no show Phono 73. Mais adiante, na primeira década do século XXI, surgiu uma nova geração de músicos que, sob os efeitos da pós-modernidade e de sua descrença, se mostrou capaz de abarcar referências tão díspares quanto o poeta e musicólogo Mário de Andrade, a compositora e performer Meredith Monk, o funk carioca e a Banda Calypso. Sendo influenciados por diversos artistas que até bem pouco tempo eram considerados de gosto duvidoso, estes músicos, em sua grande maioria independentes, começaram a produzir um som absolutamente novo, rompendo, sem alarde, as barreiras entre os gêneros e fazendo cair por terra qualquer tipo de possível hierarquia. Assim, vemos a influência da música brega e passional no som de Andreia Dias e Filipe Catto; a regravação de “Você não vale nada” da banda de forró Calcinha Preta por Tiê; a constante presença de pagodes radiofônicos no repertório da dupla Letuce; o diálogo de Kassin, Iara Rennó e Thalma de Freitas com a diva do tecnobrega Gaby Amarantos; e outros tantos exemplos. Sem vergonha de sua origem, a música brasileira produzida por esta geração, digital e globalizada, vem se caracterizando não só por sua diversidade, mas também pela ruptura com a tradicional MPB e por reiterar a máxima punk "Do it yourself".
Presença e voz constante tanto na atual cena musical quanto em seu debate, Romulo Fróes tornou-se um dos principais observadores e críticos de sua geração. Iniciou a sua carreira em 98 com a banda Losango Cáqui, com a qual lançou dois discos. Em 2001, já em vôo solo, lançou um EP, prensado em edição limitada pelo selo Bizarre. Dois anos depois, veio finalmente seu primeiro álbum: "Calado" (Bizarre Records), onde se destacava a forte influência do samba e as parcerias com os artistas plásticos Eduardo Climachauska, o Clima, e Nuno Ramos. Em seu segundo álbum, “Cão” (2006, YB Music) regravou “Mulher sem Alma”, música composta por uma de suas maiores influências: Nelson Cavaquinho. Em 2009, tentando fugir da pecha de “sambista indie”, Romulo lançou o elogiado e complexo “No chão sem o chão” (YB Music), álbum duplo que contou com a presença de Mariana Aydar, Nina Becker, Lanny Gordin, entre outros. No ano seguinte passou a se dedicar exclusivamente à música, deixando de lado seu trabalho de assistente do artista plástico Nuno Ramos. Em 2011 gravou o quarto álbum, “Um labirinto em cada pé”, disponibilizado para download em seu próprio site. Artista irrequieto, Romulo se uniu a Rodrigo Campos e Kiko Dinucci para lançar, em outubro, “Passo Torto”, projeto em que se aprofundou nas experimentações dentro do universo da música popular brasileira e, em especial, do samba.
Rodrigo, por sua vez, lançou seu álbum de estréia “São Mateus não é um lugar assim tão longe” em 2009, baseado em personagens e histórias retiradas de seu cotidiano no bairro da periferia de São Paulo. Lá, o músico viveu dos três aos 24 anos, começando cedo a participar de suas famosas rodas de samba, onde, com o seu cavaquinho, tocava o repertório dos cariocas Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Fundo de Quintal. Ainda como instrumentista, acompanhou diversos nomes da MPB, como Maria Rita, Vanessa da Mata, Paulo Moura e Fabiana Cozza. Entretanto, mesmo tendo o samba como cerne de seu trabalho, Rodrigo não se deixou levar pelo caminho mais fácil, “São Mateus não é um jugar assim tão longe” se destaca por seus arranjos pouco usuais que levam as canções para outro território, mais climático e repleto de texturas, lembrando, em alguns momentos, uma trilha sonora. Atualmente, além do projeto “Passo Torto”, Rodrigo vem se dedicando à gravação de seu novo álbum: “Bahia Fantástica”, onde, estendendo as suas referências, trouxe para a sua música o soul de Curtis Mayfield e Funkadelic e o misticismo baiano.
Envolvidos em mil e um projetos, Romulo e Rodrigo se uniram para uma apresentação no Rio de Janeiro, no Solar de Botafogo, em outubro passado. O Banda Desenha aproveitou a oportunidade e os entrevistou um pouco antes do show, em seu camarim. Lá, os músicos comentaram sobre seus trabalhos e Romulo, que já foi chamado de  “arauto da neo-MPB”, reiterou suas ideias a respeito de sua geração:

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entre cabelos, olhos e furacões

fotos: daryan dornelles




Filipe Catto poderia ser facilmente apontado como o enfant terrible de sua geração. Ainda na adolescência, o cantor e compositor gaúcho já se dedicava à música, gravando suas canções de forma caseira e se apresentando em saraus e bares de Porto Alegre. Nessa época, chegou a integrar algumas bandas como Catto & Os Corujas, Ácido Vinil e Nancy Nancy, até lançar seu primeiro trabalho, o EP “Saga”, em 2009, atraindo a atenção de público e crítica com sua voz e interpretação peculiares.
No ano seguinte, já radicado em São Paulo, Filipe assinou contrato com a gravadora Universal, lançando em 2011 seu álbum de estreia, “Fôlego”. Nele, reuniu canções autorais e de outros composições, como Zé Ramalho, Arnaldo AntunesReginaldo Rossi e seus conterrâneos Cachorro Grande e Nei Lisboa. Assim, sem premeditar, Filipe adotou uma postura que o distinguiu de seus demais colegas. Sendo um dos pouquíssimos artistas de sua geração a pertencer ao casting de uma major, o músico trouxe para o seu canto um tom teatral que remete às grandes cantoras do passado, como Elis ReginaMaria Bethânia, traduzindo uma reverência que contrasta e muito com o desapego e a busca por novas linguagens que tão bem caracterizam a cena independente. Em meio a estas questões e sendo constantemente comparado a Ney Matogrosso, Felipe conseguiu ainda assim se mostrar um intérprete de fôlego, produzindo um trabalho que, ao seu modo, acrescenta novos ingredientes à atual música brasileira.
Em fase de divulgação de seu álbum e já iniciando a turnê de lançamento, Filipe recebeu o Banda Desenhada após duas apresentações no Rio de Janeiro. No saguão do hotel onde estava hospedado, no centro da cidade, o cantor nos falou a respeito de sua carreira, influências e, inevitavelmente, de suas diferenças e semelhanças com seus colegas de geração:

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