Utilizado anteriormente para descrever boa parte da produção musical da década de 1990, o termo neotropicalista acabou por voltar à cena, em mais uma tentativa de classificar a atual geração da música independente brasileira. Mesmo que utilizado com bastante moderação, o termo não deixa de ter sua relevância. Surgido no final dos anos 60, em meio ao recrudescimento da ditadura militar e a um veloz desenvolvimento urbano-industrial, o tropicalismo veio a se opor esteticamente ao que se produzia nas fileiras da então chamada MPB. Forjada nos festivais de música do período e com forte influência da bossa nova, a MPB se caracterizava mais pelo seu caráter contestatório e doutrinário – com destacada preocupação pelas causas sociais e a defesa das tradições populares – do que, necessariamente, por seu espírito vanguardista. O tropicalismo, por sua vez, propunha uma ruptura brutal dos dogmas de então e promovia um sincretismo que, endossado pela antropofagia modernista de Oswald de Andrade, mostrava-se voraz ao deglutir elementos considerados distintos ou mesmo antagônicos: o erudito e o kitsh, a cultura nacional e a cultura de massa, o arcaico e o moderno. Na tentativa de internacionalizar e adequar, de forma propositadamente tensa, a cultura brasileira aos paradigmas da época, o tropicalismo concebeu uma nova e dinâmica identidade nacional que ainda reverbera na atual produção artística do país, seja nas artes plásticas, no teatro ou, mais destacadamente, na música.
Cerca de 40 anos após o surgimento do tropicalismo, o Brasil passa novamente por uma crise. Com o desenvolvimento e a popularização das novas tecnologias e recursos como o mp3 e os sites de armazenamento, o mercado fonográfico vem, paulatinamente, sofrendo perdas que provocaram a redução drástica dos castings das gravadoras, quando não a extinção destas. Paralelamente, sem os investimentos de outrora, viu-se a severa redução de espaços na mídia para a divulgação de trabalhos de novos artistas, principalmente os considerados menos comerciais. Assim, apostando em nomes que rendem uma incontestável e propícia margem de lucros, as gravadoras, juntamente com os grandes veículos de comunicação, foram por certo tempo responsáveis pelo empobrecimento da produção artística do país, limitando-se, fora raras exceções, aos axés, sertanejos, pagodes e outros tantos gêneros devidamente pasteurizados. Somente com o fortalecimento da cena independente – muito por conta do barateamento das tecnologias de gravação e da expansão das redes sociais - é que a música popular brasileira pôde ganhar novo fôlego e, por assim dizer, retomar a tão falada “linha evolutiva” que Caetano Veloso idealizara nos anos 60. Obviamente, não faltam diferenças entre o tropicalismo e a atual geração que, carente de um nome melhor, vem sendo chamada, entre outros termos, de neoMPB. Contudo, é curioso perceber a capacidade de resposta que tanto artistas da geração 60 quanto a 00 foram capazes de elaborar em meio à crise, seja social, de mercado ou política. Curiosamente, mesmo que imbuída de um vocabulário pop e sendo fortemente caracterizada por um niilismo e cosmopolitismo típicos de nossa época, a neoMPB, diferentemente do tropicalismo, desenvolveu uma relação dúbia com as antigas corporações, pendendo muito mais para a animosidade do que para a conciliação. Entretanto, se em seu discurso, a cena independente brasileira parece, por vezes, distante de qualquer propósito vanguardista, ela ainda consegue, ao seu modo e com suas devidas limitações, expressar em sua produção as mudanças e contradições de seu tempo, construindo assim uma nova identidade para a música brasileira que remete claramente ao substrato tropicalista. Assim, tal qual um moto contínuo, o ideário de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, José Celso Martinez Corrêa, Hélio Oiticica e Glauber Rocha ainda se faz presente e se torna de extrema valia não só como referência para a atual produção, mas também para a análise desta.
Filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán, Ava Rocha parece representar melhor do que ninguém as tensões por que vem passando a música contemporânea brasileira. Reconhecida por seus trabalhos como montadora e diretora na área de audiovisual, Ava tem em seu currículo dezenas de projetos, entre eles “O Naufrágio Lento no País das Maravilhas” (2002), “Quimera” (2004), “Dramática” (2005), “Intervalo Clandestino” (2006), “A Estrada Real da Cachaça” (2008) e “Transeunte” (2010). Mais recentemente, lançou seu primeiro longa metragem, o documentário experimental “Ardor Irresistível” (2011), onde registrou a montagem e a encenação de “Os Sertões”, do Grupo Oficina, na cidade de Canudos (BA). Não por acaso, Ava já havia integrado o grupo de Zé Celso, onde teve a oportunidade de cantar pela primeira vez. A partir desta experiência, a artista uniu-se a Emiliano Sette (violão), Daniel Castanheira (percussão e eletrônicos) e Nana Carneiro (violoncelo e vocal) para formar a banda AVA. Caracterizada por uma experimentação artística que promove o entrecruzamento de música, happening, literatura e vídeo-arte, o grupo chamou a atenção da Warner Music e lançou pela gravadora seu primeiro álbum, “Diurno” (2011).
Envolvida com a montagem do primeiro clipe oficial da banda, “Filha da Ira”, e os preparativos para a chegada de sua primeira filha, Uma, Ava Rocha aceitou o convite do Banda Desenhada e nos concedeu esta entrevista que começou com um bate papo em uma praça no bairro da Glória (RJ) e se estendeu por mais algum tempo em uma sucessiva troca de e-mails e conversas em redes sociais. Neles, a cantora nos falou a respeito de sua carreira, do seu processo de criação, do cenário musical brasileiro e, entre outras coisas, da influência de seu pai e do tropicalismo na atual geração da MPB:
Cerca de 40 anos após o surgimento do tropicalismo, o Brasil passa novamente por uma crise. Com o desenvolvimento e a popularização das novas tecnologias e recursos como o mp3 e os sites de armazenamento, o mercado fonográfico vem, paulatinamente, sofrendo perdas que provocaram a redução drástica dos castings das gravadoras, quando não a extinção destas. Paralelamente, sem os investimentos de outrora, viu-se a severa redução de espaços na mídia para a divulgação de trabalhos de novos artistas, principalmente os considerados menos comerciais. Assim, apostando em nomes que rendem uma incontestável e propícia margem de lucros, as gravadoras, juntamente com os grandes veículos de comunicação, foram por certo tempo responsáveis pelo empobrecimento da produção artística do país, limitando-se, fora raras exceções, aos axés, sertanejos, pagodes e outros tantos gêneros devidamente pasteurizados. Somente com o fortalecimento da cena independente – muito por conta do barateamento das tecnologias de gravação e da expansão das redes sociais - é que a música popular brasileira pôde ganhar novo fôlego e, por assim dizer, retomar a tão falada “linha evolutiva” que Caetano Veloso idealizara nos anos 60. Obviamente, não faltam diferenças entre o tropicalismo e a atual geração que, carente de um nome melhor, vem sendo chamada, entre outros termos, de neoMPB. Contudo, é curioso perceber a capacidade de resposta que tanto artistas da geração 60 quanto a 00 foram capazes de elaborar em meio à crise, seja social, de mercado ou política. Curiosamente, mesmo que imbuída de um vocabulário pop e sendo fortemente caracterizada por um niilismo e cosmopolitismo típicos de nossa época, a neoMPB, diferentemente do tropicalismo, desenvolveu uma relação dúbia com as antigas corporações, pendendo muito mais para a animosidade do que para a conciliação. Entretanto, se em seu discurso, a cena independente brasileira parece, por vezes, distante de qualquer propósito vanguardista, ela ainda consegue, ao seu modo e com suas devidas limitações, expressar em sua produção as mudanças e contradições de seu tempo, construindo assim uma nova identidade para a música brasileira que remete claramente ao substrato tropicalista. Assim, tal qual um moto contínuo, o ideário de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, José Celso Martinez Corrêa, Hélio Oiticica e Glauber Rocha ainda se faz presente e se torna de extrema valia não só como referência para a atual produção, mas também para a análise desta.
Filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán, Ava Rocha parece representar melhor do que ninguém as tensões por que vem passando a música contemporânea brasileira. Reconhecida por seus trabalhos como montadora e diretora na área de audiovisual, Ava tem em seu currículo dezenas de projetos, entre eles “O Naufrágio Lento no País das Maravilhas” (2002), “Quimera” (2004), “Dramática” (2005), “Intervalo Clandestino” (2006), “A Estrada Real da Cachaça” (2008) e “Transeunte” (2010). Mais recentemente, lançou seu primeiro longa metragem, o documentário experimental “Ardor Irresistível” (2011), onde registrou a montagem e a encenação de “Os Sertões”, do Grupo Oficina, na cidade de Canudos (BA). Não por acaso, Ava já havia integrado o grupo de Zé Celso, onde teve a oportunidade de cantar pela primeira vez. A partir desta experiência, a artista uniu-se a Emiliano Sette (violão), Daniel Castanheira (percussão e eletrônicos) e Nana Carneiro (violoncelo e vocal) para formar a banda AVA. Caracterizada por uma experimentação artística que promove o entrecruzamento de música, happening, literatura e vídeo-arte, o grupo chamou a atenção da Warner Music e lançou pela gravadora seu primeiro álbum, “Diurno” (2011).
Envolvida com a montagem do primeiro clipe oficial da banda, “Filha da Ira”, e os preparativos para a chegada de sua primeira filha, Uma, Ava Rocha aceitou o convite do Banda Desenhada e nos concedeu esta entrevista que começou com um bate papo em uma praça no bairro da Glória (RJ) e se estendeu por mais algum tempo em uma sucessiva troca de e-mails e conversas em redes sociais. Neles, a cantora nos falou a respeito de sua carreira, do seu processo de criação, do cenário musical brasileiro e, entre outras coisas, da influência de seu pai e do tropicalismo na atual geração da MPB:

