TEMPOS ABSURDOS EM BANQUETE DE MÁRCIO BULK E CADU TENÓRIO

foto: daryan dornelles


Agora percebo, então, que a esperança não pode ser eludida para sempre e que
pode assaltar os mesmos que se achavam livres dela. 
(CAMUS, Albert. A criação sem amanhã. O Mito de Sísifo)

Em 2013, o Brasil conseguiu se tornar um lugar mais esquisito do que sempre foi: os protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro transmutavam-se em algo que a teoria não dava conta. Diferentemente de Hardt e Negri, pensava-se em pauta, em discurso, em enunciado e, quando menos se percebeu, o choque com o Estado e a revolta com a “mídia golpista” caminhava para um apaziguamento com muito orgulho, com muito amor. O ano de 2013 também é o ano do lançamento de E Volto Pra Curtir, disco tributo a Jards Macalé.

Capitaneado pelo artista plástico de formação, jornalista e letrista nascido em Nova Iguaçu, Márcio Bulk, o disco era uma homenagem ao maldito e a sua atuação pelas bordas da MPB. Macalé havia se tornado um tema recorrente à contemporaneidade viva e dialeticamente desperta: recuperou-se sua obra e sua figura, deslocando-o do armazém de mercadorias culturais, onde se costuma buscar receitas abstratas. A análise crítica do presente e a possibilidade de uma apropriação produtiva da herança do passado tomavam forma no documentário Jards (2012), de Eryk Rocha, e na reprensagem, em 2013, do disco compacto Só Morto (1969-1970), o primeiro da carreira do compositor. Sim, Walter Benjamin descarado justificando o Macalé que balbuciou sobre o presente lá do passado.


Bulk ouviu o compacto e, como costuma acontecer com todo mundo que tem contato com este disco, apaixonou-se por “Soluços”. O contato, por conta de E Volto Pra Curtir, com músicos da cena experimental do Rio de Janeiro, como Marcos Campello e Bruno Cosentino (este mais “poroso” à canção que o primeiro) acabou providenciando o encontro com Cadu Tenório, músico crescido na zona norte do Rio, beirando a linha do trem, onde vive até hoje. Juntos, realizaram o EP Soluços com a participação de Alice Caymmi.


“Eu chapei! Achei aquilo demais. Não que seja uma fórmula, mas saca quando você vê algo que é a sua cara? Foi isso que eu achei. É isso! Isso é meu!” — comenta Bulk sobre o trabalho de Tenório, reconstruindo a sonoridade da canção a partir de uma gravação voz (Alice Caymmi) e guitarra (Lucas Vasconcellos), esta completamente extirpada do resultado final. Desenhava-se, nesta obra, neste processo, o modus operandi de Banquete (2014).


Composto a partir de letras que Bulk recuperou e remixou de um blog que mantinha nos anos 90, Banquete é um disco composto de 4 faixas: “Café Expresso”, “Estela”, “Electric Fish” e “Em Transe”. As letras foram enviadas a Bruno Cosentino, Rafael Rocha e César Lacerda, que providenciaram a primeira encarnação das canções, arranjadas ao violão para as vozes de Michele Leal, Alice Caymmi, Livia Nestróvski e Letícia Novaes, que não participou do disco, sendo substituída pela voz de César Lacerda em “Electric Fish” (curiosamente, nenhuma mulher se dispôs a cantar uma canção que versa sobre sexo oral).


Voz e violão, formato clássico de canção, aquela mesma que disseram ter acabado, dez anos antes da produção deste álbum.


Antes de falar da implosão deste formato no processamento de cada fonograma, é interessante olhar para o disco. A capa é uma natureza morta, do séc. XVII, de Jacques Linard. Ao enviar as letras que virariam canções, Bulk enviou também a capa do disco para os músicos. A tela é feita de corais e conchas dispostas sobre um fundo preto — o fundo do oceano — e é impossível não associar esta imagem ao trabalho de Tenório no arranjo das canções.


O mar está presente em "Estela”; o peixe, em “Electric Fish”; a comida, em “Café Expresso”; e “Em Transe”, um banquete oceânico. Quando da construção das letras, Bulk lia O Banquete, de Platão, e Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Para remixar as letras de 20 anos antes, a leitura de ambos foi retomada. Quase o nome do disco virou Fragmentos..., mas seria óbvio demais. Banquete ganhou a parada.


E, como Aristófanes pontua no diálogo platônico, o disco trata do complexo caminho — e dos desdobramentos disso — até a outra metade, aquela que faz homens e mulheres correrem esbaforidos, em pânico, no desejo de voltarem a ser inteiros, uma vez divididos pela sabedoria de Zeus. O discurso é amoroso, quase perverso; a forma, primeira, é do samba-canção.


A ordem das canções era outra e contavam uma história contemporânea: um encontro casual, o enlace, a despedida e a avaliação. Uma vez alterada por conta de dinâmicas e da necessidade de conceber um álbum mais coeso na sonoridade que no sentido, produzem outro enunciado, mais focado nas realizações a partir de um passado cristalizado/consagrado — a forma samba-canção, apontando para outras possibilidades de escuta e produção da canção: a corporificação da letra na performance não está inteira no primeiro plano, é tensionada pela mancha sonora que ocupa o lugar consolidado do violão/harmonia na forma canção.


“A canção existe e sabemos que ela é de suma importância junto à sua letra. No Banquete também o é, muito. Porém, rolou o cuidado de que a voz pudesse descer do palanque e, entre aspas, disputasse por vezes com o peso musical, com a emoção e o peso do arranjo, como numa relação de simbiose. Uma tentativa de diálogo com menos formalidade” — explica Tenório sobre a concepção dos arranjos e da sonoridade que perpassa o disco.


“Café Expresso” abre o disco na interpretação de Michele Leal. De início, um ruído e um violão processado até se parecer com um piano, dão pistas do que está por vir. Uma música sem refrão, com algo que se aproxima de parte A e B, porém, com um trecho de spoken word ao final, submerso entre ruídos de fita e cordas tocadas ao contrário. Anuncia-se aí a diferença de escuta: dificilmente irá se entender toda a letra na primeira escuta pois, de fato, existe uma disputa com o arranjo pelo lugar de atenção do ouvinte.


A tecnologia utilizada para tensionar os limites da linguagem: esta é a tese que interessa em Banquete. Este disco não seria possível sem um olhar para o passado que tensiona ao invés de explicar o presente; tampouco seria realizado sem a invenção do transistor, da fita, do processamento digital do som, da contínua evolução da tecnologia.


Bulk e Tenório foram muito felizes em propor outro lugar para a canção. Um lugar que parte do samba-canção, mas que o implode no som e na letra (É pela voz que eu desisto/Não preciso levantar/Enamoro a derrota/vou ao fundo/abraçando o desafino em um samba-canção manco — em "Em Transe"); um lugar coletivo e desmaterializado, parecido com a forma como nos relacionamos hoje, e é sintomático que o disco não tenha ganhado espaço na mídia impressa, chegando até nós via post no Facebook.


A música de Macalé já tinha cantado a bola, partindo da borda, desafinando o coro dos contentes, apontando que as mudanças estão ocorrendo e, talvez, o desejo de ver o mundo através de um filtro, de sobrepor um sistema racional a sua aparente aleatoriedade, seja o limitador da canção. Vivemos tempos absurdos — sempre vive(re)mos — e, retomando o Camus da citação que abre o texto, “ [...] todo pensamento que renuncia à unidade exalta a diversidade. E a diversidade é o lugar da arte. O único pensamento que liberta o espírito é o que o deixa sozinho, certo de seus limites e do seu fim próximo[...] Por isso, peço à criação absurda o mesmo que exigia do pensamento: revolta, liberdade e diversidade. Depois ela manifestará sua profunda inutilidade [...]”.


Banquete trata-se de uma obra sem esperança de organizar as coisas, calcada mais na disputa do que no enlace de letra e música. Este, nos parece, é um caminho interessante para a canção, uma apropriação produtiva da herança do passado. Ser diversa, revolta e livre para, ao final, não importar, pois está ali enquanto tensão, sem moral, sem princípio organizador uma vez que não há o que organize a vida e a linguagem é espelho desse universo caótico, correndo atrás de algo impossível de alcançar.



Raul Lorenzeti é editor web do Selo Sesc. A resenha foi escrita originalmente para a conclusão da disciplina Canção Popular e Cultura, ministrada por Cacá Machado, no curso de pós-graduação sobre canção popular brasileira, da Faculdade Santa Marcelina.

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colagem: márcio bulk

A música nasceu para mim, no meu delírio genealógico, do enleio entre o útero da minha mãe, sua musicalidade e o seu canto. Penso nos meses da sua gravidez, penso nela ao tocar piano e, por fim, lembro-me de que os pequenos acalantos improvisados para me ninar foram o nosso primeiro código tácito de afeto. Inicio assim, com uma digressão, como forma de explicar (e também compreender) o papel da música para mim como gesto afetivo, completamente ligado aos sentidos, e determinantemente empírico; subjetivo.

Sou nascido numa pequena cidade do interior de Minas Gerais: Diamantina. Uma cidadela tradicional mineira, que tem hoje algo em torno de cinquenta mil habitantes, com uma história muito interessante e de especial protagonismo por um período da história do Brasil. Com profunda vocação para a música e para a musicalidade, é uma cidade festiva e de arquitetura barroca leve e clara. Minha mãe, uma pianista mulata, nasceu e foi criada lá, tendo sido por alguns anos a diretora do Conservatório de Música. Casou-se com meu pai, um comerciante de olhos claros nascido na região central de Minas Gerais, Moema. A influência mais direta da música na vida da minha família, através de um ensino mais formal, está relacionado efetivamente à minha mãe. Cresci junto dela, fazendo aulas e oficinas na sua escola de música. Somos três irmãos, dois homens e uma mulher, e todos temos a música apontando para o norte de nossas bússolas. Meu pai, por sua vez, sempre foi um profundo admirador da música e na sua adolescência chegou a ser percussionista numa banda de baile. Toda a informação de música regional e verdadeiramente popular, com traço romântico ou mesmo brega, veio dele. E portanto, na nossa família a música deve ser compreendida sempre através dessa narrativa ambivalente. A porosidade do nosso tecido é atuante desde o encontro dos nossos pais.

Algo marcante nessa trajetória em busca do fazer música, tornar-se um músico, surgiu ainda na infância quando os heróis dos desenhos animados da TV começaram a dividir o seu protagonismo com os músicos pop stars que surgiam através da chegada da adolescência dos meus irmãos mais velhos. E que eu, naturalmente, ouvia. Isso coincidiu com a chegada de um aparelho que tocava CD lá em casa. Lembro-me com clareza das tardes que passei ouvindo discos, imitando os músicos, e formulando em mim um incipiente desejo de ser aquilo, e não mais jogador de futebol ou, sei lá, astronauta.

A história se desdobra nos diversos momentos que vieram a seguir. A descoberta, pouco a pouco, dos universos mais distintos, dos territórios mais maravilhosos que a música viria a ocupar no centro da minha fruição; tantos e tantos e tantos e tantos discos, shows, concertos, elevadores, propagandas... Não obstante, foi entre e infância e adolescência que tive a chance de me aproximar de diversos instrumentos e me sentir seduzido pela oportunidade de querer todos como forma de expressão. Estudei violão, piano, flauta, violino, percussão, bateria, canto... enfim, uma infinidade de possibilidades. E isso, para mim, só explica o fato de que a música foi se tornando exclusivamente um meio de expressão. Uma língua inventada por mim, pela minha compreensão das coisas, onde seria possível me conectar com o mundo através das formas mais subjetivas. É como se a música fosse, em suma, o meu meio de me ligar a esse centro sagrado, esse magma espiritual que, de uma forma ou de outra, a existência de todos aqui na Terra tenta, ao menos, triscar. Fazer música, tê-la comigo como algo além de uma profissão, mas um status que me define para além até da sociedade, é dividir com o mundo uma instabilidade que toca a todos. Essa busca do eu, de afunilar a percepção do mundo para uma compilação de sensações (uma canção!), tentar reproduzir isso, fazer com essa expressão chegue à sensibilidade do outro e o atravesse... em suma, a música foi se tornando isso para mim.

Agora, ocorre-me o exemplo da luz, do feixe de luz que atravessa uma pessoa, preenche seu corpo, sua saúde, sua matéria desse finíssimo pó de existência. Penso na música através desse exemplo e encontro abrigo. Percebo nela uma fragilidade, uma ambígua coadunação com o silêncio. E ao mesmo tempo, e por isso mesmo, uma força violenta que pode abrir canais da existência de formas avassaladoras, e se manifestar através de lágrimas, sorrisos, decisões, apontamentos, coragem, amor.

E tendo dito isso, coloco-me em vida à prova disso tudo. Sabendo que a deusa Música abre seus canais de diálogo com uma sensibilidade única, ligar-se a ela é exercício meditativo diário. Penso sempre que esses canais que foram abertos com grandeza épica nesta época que vivemos, trouxe também uma desordem grande, um cansaço, um distúrbio, um sintoma. E música, para mim, tem também se tornado uma busca pelo silêncio. Fazê-la tem sido oportunidade de não persegui-la.

Em suma, esse castelo de areia que se constrói para se explicar o artesanato da feitura da música se choca diretamente com a existência dela nas nossas vidas. Afinal, música e silêncio serão sempre maiores que o nosso falatório (‘inda que o falatório deseje ser poesia, e portanto música). E por fim, respondo-te: Porque você faz música? Não sei.

César Lacerda é cantor, compositor e multi-instrumentista. Lançou seu primeiro álbum, Porquê da voz (independente) em 2013. Seu disco seguinte, Paralelos & infinitos, foi lançado em 2015 pela gravadora Joia Moderna. Paralelamente, participou de diversos projetos, como Instantâneos (DOBRA/Bolacha Discos), Banquete (Banda Desenhada Records) e Mar Azul (Slap).

BANQUETE




| BANQUETE | CADU TENÓRIO + MÁRCIO BULK |
Alice Caymmi | Bruno Cosentino | César Lacerda | Lívia Nestrovski | Michele Leal | Rafael Rocha


1. “Café expresso”
César Lacerda/Márcio Bulk
Voz: Michele Leal
Violão: César Lacerda
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

2. “Estela”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Voz: Alice Caymmi e Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

3. “Electric fish”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Versão para o inglês: Sylvio Fraga Neto
Voz: Cesar Lacerda
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

4. “Em transe”
Rafael Rocha/Márcio Bulk
Voz: Lívia Nestrovski
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

Produzido por Cadu Tenório e Márcio Bulk
Arranjos: Cadu Tenório
Gravado nos estúdios 503, Audio Rebel, Marini e Clemente II
Mixado por Cadu Tenório e Emygdio Costa
Masterizado por Emygdio Costa
Projeto gráfico: Márcio Bulk e Rodrigo Sommer
Capa: “Nature morte aux coquillages et au corail”, Jacques Linard


Banquete, o samba-canção manco de Cadu Tenório e Márcio Bulk
Marcos Lacerda

A canção é uma linguagem artística generosa, múltipla e com uma densidade presente tanto em suas formas harmônico-melódicas mais complexas, quanto nos mais simples samba-canções e boleros. Quem realmente a conhece sabe da sua capacidade de gerar encontros e atritos entre as mais diversas linguagens, inclusive em experimentos sonoros radicais, como vem fazendo um segmento expressivo da canção brasileira contemporânea. Esta desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um diálogo forte com a música “experimental” ou “de invenção”, algo que podemos constatar de forma clara em Banquete, o mais novo projeto de Cadu Tenório e Márcio Bulk.

Integrante da chamada cena experimental carioca, o músico e produtor Cadu Tenório é conhecido por encabeçar diversos projetos musicais, dentre eles, Sobre a Máquina, VICTIM! e Ceticências. Em quatro anos de carreira, esteve envolvido na produção e lançou mais de 20 discos. Nesse mesmo período, através do blog Banda Desenhada, o pesquisador musical Márcio Bulk dirigiu e lançou o álbum E volto para curtir (2013), no qual nomes da nova geração regravaram o primeiro disco de Jards Macalé (homônimo, 1972). No final de 2013, lançou o single Soluços (Jards Macalé), sua primeira parceria com Cadu Tenório. Agora, com o EP Banquete, Bulk exibe pela primeira vez sua veia poética. Com influência do samba-canção e das obras de Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, suas letras foram musicadas e interpretadas por alguns dos artistas mais relevantes da atual cena carioca: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha. As canções, inicialmente gravadas com acompanhamento de violão, foram desconstruídas e recriadas por Tenório através de processos eletroacústicos que dialogam de forma direta com as letras e com a interpretação dos cantores, remetendo, por vezes, aos trabalhos inventivos de artistas como Scott Walker, Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono e Björk.

Dessa forma, podemos dizer que Banquete é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada.

A primeira faixa, “Café expresso” (César Lacerda/Márcio Bulk), é interpretada por Michele Leal. A canção se inicia ao som de um violão, como se saído de uma fita antiga, interrompido bruscamente pelo ruído de uma máquina ou veículo acelerando. Esta instabilidade entre a forma sonora inteligível e a aceleração abrupta permeia todo o disco e é o “recanto escuro” no qual as formas poético-musicais das canções vão se fissurando e se esgarçando. Nesse primeiro caso, temos a experiência da frustração diante da perda, na voz do outro cuja presença ainda se sente (“a sua voz ainda/ecoa pelo meu dorso”) e no corpo, que se perde e se anula, em meio a tantos suportes materiais (cama, remédios, escadas, aço, vidros). Michele consegue, de forma bastante criativa, enriquecer essa trama, deixando de lado, ao final da canção, o seu tom dramático e, tomada de ironia, se aventurar em um spoken word. A canção seguinte, “Estela” (Márcio Bulk/Bruno Cosentino), trata-se de uma bela e sensível homenagem à cantora Stella Maris (1922–2008), esposa de Dorival Caymmi (1914–2008). Interpretada por Bruno Cosentino e Alice Caymmi, neta de Stella, a canção é um apelo desolador diante do medo da separação e da morte. A paisagem oceânica (recifes, pedras, embarcações, horizontes) torna-se símbolo de incomunicabilidade, personificada como testemunha ocular de todo o drama. A forma sonora do álbum, emaranhada de melancolia, só é levemente superada na transgressão do sexo e do gozo — de raras figurações ou mediações simbólicas — como se vê na canção “Eletric fish” (Bruno Cosentino/Márcio Bulk), interpretada por César Lacerda. O cantor dá vida a um personagem cambaleante e bêbado, o que é a deixa para que Tenório possa brincar com a métrica da canção, repleta de mudanças drásticas e vai e vens. Por fim, temos “Em transe” (Rafael Rocha/Márcio Bulk), interpretada de forma impressionante por Lívia Nestrovski. A música amalgama e dá cabo dos principais temas de Banquete: a solidão, a perversidade do discurso amoroso, o ruído e o seu incômodo, impresso por Tenório nas camadas e mais camadas sonoras que ele utiliza ao trabalhar a voz de Lívia. Esta, na busca por sua inteireza, produz uma melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção (“um samba-canção manco”).

Com Banquete, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.


Marcos Lacerda é sociólogo, crítico, pesquisador da história da canção e editor da revista Polivox.

tropical condimentado

fotos: daryan dornelles
Tendências, traços geracionais, influências, cenas, coletivos e parcerias... Ao longo dos últimos três anos, todas estas questões nortearam as entrevistas do Banda Desenhada. Mesmo havendo uma tendência natural do blog em recortar e classificar a produção musical brasileira, sempre houve espaço para críticas e opiniões discordantes. Afinal, é a partir desta diversidade de vozes e de seus embates que se torna possível o aprofundamento de questões nevrálgicas que, futuramente, não só ajudarão a criar um painel mais multifacetado deste período como também apontarão para novos paradigmas. Assim, é de relevância o que o músico mineiro César Lacerda aponta nesta entrevista, ao criticar não só a própria historiografia da neoMPB como também a fragilidade técnica e certos vícios e tendências desta produção musical.
Nascido em Diamantina, César Lacerda iniciou sua carreira ainda na adolescência, ao integrar em Belo Horizonte o grupo (cLAP!), com quem lançou o EP “13’31”” e o álbum “um3” (2006). Em 2007, mudou-se para o Rio, inicialmente trabalhando como instrumentista em grupos de samba, jazz e choro. Em 2009, gravou “Ouça de Fone”, disco realizado em parceira com a cantora e compositora mineira Luiza Brina. Lançado no ano seguinte pelo site Musicoteca com o título “Vem aí, Coletivo Abigail”, foi mais tarde relançado, após nova produção e mixagem, pelo Jardim da MPB. Em 2010, ao lado de Luiza e de Luiz Gabriel Lopes (Graveola e o Lixo Polifônico), César idealizou o projeto “Por Um Passado Musicável: Notícias Numa Fita”, onde, por meio do Skype, o trio criava novas composições para, em seguida, apresentá-las em shows. Em 2013, dois anos após disponibilizar para download seu EP homônimo, César lançou seu primeiro disco, o elogiado “Porquê da Voz”, contando com diversas participações especiais, entre elas: Lenine, Marcos Suzano, Carlos Posada e Juliana Perdigão.
Após assistir a sua apresentação na temporada Gancho, no Espaço Multifoco (Lapa), em novembro do ano passado, convidamos César Lacerda para esta entrevista, que se realizou em um bar tradicional do bairro de Santa Tereza (RJ). Lá, conversamos a respeito de sua carreira, influências, geração e a cena independente brasileira.

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a frase, o conceito, o enredo, o verso


fotos: daryan dornelles




Desde o século passado, a música popular brasileira vem desenvolvendo um intenso diálogo com a literatura nacional. Poetas como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira tiveram alguns de seus trabalhos adaptados por importantes nomes da MPB e tornou-se notória a parceria do escritor Jorge Amado com o compositor e cantor Dorival Caymmi. Entretanto, foi somente no final dos anos 50, com o aparecimento da bossa nova, que esta conversação se intensificou. O poeta Vinicius de Moraes, unindo-se a Tom Jobim, foi responsável por estreitar esses elos, produzindo uma obra que ainda hoje é referência para boa parte dos compositores do país.
Tomando para si o espírito modernizador bossanovista, o tropicalismo trouxe para o seu ideário a antropofagia de Oswald de Andrade e aproximou-se dos poetas concretos. Não à toa, também estiveram presentes direta ou indiretamente no movimento o escritor e cineasta José Agripino de Paula e os poetas Torquato Neto, Capinan e Waly Salomão. Caetano Veloso - um dos principais articuladores do tropicalismo - tornou-se parceiro do poeta e ensaísta Ferreira Gullar, com quem compôs “Onde Andarás?”. Mais tarde, o músico baiano veio a musicar “Circuladô de Fulô”, poema de Haroldo de Campos, e o clássico "Navio Negreiro" de Castro Alves. Ferreira Gullar ainda teve dois de seus poemas musicados por Fagner. Este se dedicou também a adaptar alguns trabalhos de Cecília Meirelles, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Já Chico Buarque, que em 1966 lançou em disco uma adaptação para “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, voltou-se mais à frente à carreira de escritor, publicando em 1991 “Estorvo”, seu primeiro romance. Fazendo o caminho inverso, antes de tornar-se um músico cultuado, Jorge Mautner se enveredou pela literatura, ganhando o Prêmio Jabuti pelo livro “Deus da Chuva e da Morte” (1962). Ainda nos anos 60, o poeta Cacaso passou a desenvolver uma sólida carreira de letrista, colaborando com inúmeros artistas, como Edu Lobo, Tom Jobim, Sueli Costa, Joyce, Toninho Horta, Francis Hime e João Donato. Mais à frente, oriundos da vanguarda paulista, os músicos e ensaístas Luiz Tatit e José Miguel Wisnik aprofundaram as ligações entre a música popular e a literatura ao publicarem diversos textos a respeito desse tema. Até mesmo o BRock, com o seu forte acento pop, não deixou de dar continuidade a esse diálogo: Cazuza e Frejat musicaram trecho de “Água Viva”, de Clarice Lispector; os poetas Chacal e Bernardo Vilhena colaboraram com diversos artistas e bandas, como Blitz, Barão Vermelho, Ritchie, Lulu Santos e Lobão; Renato Russo adaptou o Soneto de Camões e da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios para criar seu “Monte Castelo”; Paula Toller e George Israel inspiraram-se em poemas de Murilo Mendes e Olavo Bilac para compor, respectivamente, “Tomate” e “Ouvir Estrelas”. Ainda nessa época, o cantor e compositor Arnaldo Antunes passou a se dedicar à literatura, com forte influência da poesia concreta. Entretanto, talvez o exemplo mais pertinente desse período seja a frutífera parceria de Marina Lima com o seu irmão, o poeta e filósofo Antonio Cícero. Este veio posteriormente a contribuir com Adriana Calcanhotto, uma das artistas que mais vem se dedicando ao entrecruzamento de literatura e música popular.
Nos anos 2000, sob a alcunha de nova MPB ou neoMPB, viu-se uma nova geração dar continuidade a esse legado: Iara Rennó musicou “Macunaíma”, de Mário de Andrade; o poeta Omar Salomão integrou a banda Vulgo Qinho & Os Cara; Tulipa Ruiz prestou sua homenagem a Manoel de Barros ao compor “A Ordem das Árvores Não Altera o Passarinho”; o poeta arrudA incursionou pela música em projetos com Alzira E e Peri Pane; em “Bogotá”, Criolo fez referência a “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira; Botika, da banda Os Outros, e Estrela Leminski construíram suas carreiras onde música e literatura se tornaram indissociáveis; Alexandre Kumpinski, da banda gaúcha Apanhador Só, em parceria com o poeta Marcelo Noah, compôs “Peixeiro”; Romulo Fróes desenvolveu boa parte de seu repertório a partir de sua parceria com o artista plástico e escritor Nuno Ramos; e, entre outros tantos exemplos, está o grupo Isadora, que, ao lançar seu primeiro disco, “A Eletrônica e Musical Figuração das Coisas” (2012), trouxe para o seu universo a poética de Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Britto e do colombiano Carlos Patiño Milán.
Formado em 2005, Isadora é composto atualmente por Bruno Cosentino (voz, violão e guitarra), Andrés Patiño (violão e guitarra), Alexandre Jannuzzi (baixo), Gabriel Carneiro (bateria) e Pedro Tié (piano e eletrônica). Tendo passado pelo programa Experimente, do canal Multishow, e se apresentado no projeto Levada Oi Futuro, o grupo é um dos nomes da nova cena musical carioca. Tendo conhecimento disso, o Banda Desenhada convidou para esta entrevista seu vocalista e principal compositor, Bruno Cosentino. Este, que atualmente está envolvido na produção de seu disco solo, além de um projeto em parceria com o cantor Arthur Nogueira, falou de sua experiência na cena independente, suas influências e a forte ligação com a literatura. A entrevista, a princípio realizada em um café no bairro da Glória (RJ), foi posteriormente desenvolvida em e-mails e bate-papos em redes sociais.

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COM QUANTOS GIGABYTES SE FAZ UMA JANGADA

foto: vitor jorge

Nas últimas duas décadas, as inovações promovidas na área tecnológica produziram uma série de mudanças que alteraram por completo a indústria do entretenimento e o consumo de música. O MP3 solapou a venda de CDs e produziu a mais grave crise da indústria fonográfica. Só no Brasil, de 2000 à 2009, houve uma queda inacreditável de 77% das vendas. As gravadoras passaram então a limitar seus gastos, reduzindo drasticamente seus catálogos e casting, promovendo velozmente uma reformulação em todas as mídias. Ao mesmo tempo, a popularização dos PCs e o avanço das conexões à rede favoreceram o surgimento de blogs que ocuparam a lacuna deixada pelas revistas, programas de TV e rádio. Ainda com certa ingenuidade e sem o assédio das grandes corporações, os blogs serviram para estimular uma nova geração de produtores de conteúdo que, mesmo ao largo do jornalismo tradicional, reproduziam inicialmente as mesmas fórmulas dos antigos veículos de comunicação. Contudo, muito além da crítica, os blogs passaram a servir de espaço para compartilhamento de arquivos e, mais adiante, divulgação de trabalhos de músicos independentes. Estes viram no espaço virtual um local mais fluido e menos opressor que o encontrado nas grandes gravadoras e nos veículos de massa. Assim, através de um caminho alternativo, expandiram carreiras que já vinham ganhando força graças às facilidades proporcionadas pelo barateamento dos home studios e de outros aparatos tecnológicos. Em meio aos milhões de downloads, à fracassada guerra contra a pirataria e à flexibilização das regras de propriedade intelectual, os novos artistas deixaram de lado o improvável lucro que teriam com a venda de seus álbuns e direitos autorais e os disponibilizaram em blogs cujos leitores são garantia relativamente segura de divulgação para sua música.Toda essa agitação despertou o interesse dos grandes portais corporativos, que passaram a hospedar alguns blogs independentes, na tentativa de abarcar um novo público e, assim, aumentar sua lucratividade em um espaço que vem se tornando cada vez mais regido pelas leis de mercado.

Criado despretensiosamente em 2003 pelo mineiro Web Mota, a Musicoteca tornou-se um dos principais endereços para a divulgação e compartilhamento da música independente brasileira. Com uma assombrosa média de 20000 downloads efetuados semanalmente, o blog manteve a sua autonomia ao longo destes anos e conta hoje com seis colaboradores: Swã Medeiros, Pedro Ferreira, Igor Cruz, Sílvia Iama, Lucas Rossi e George Walmsley. Site de referência para o Banda Desenhada, entramos em contato com seu fundador para que nos contasse a história de sua bem-sucedida empreitada e nos falasse sobre os próximos projetos. A entrevista que se segue foi realizada através de e-mails e bate-papos em redes sociais.

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