o que te ilude é roliúde


fotos: daryan dornelles

Presente nos periódicos brasileiros desde a segunda década do século XIX, por um longo tempo a crítica musical limitou-se à produção erudita. Gonçalves Dias, José de Alencar, Martins Pena, Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis foram ilustres colaboradores dos jornais da época. Entretanto, em sua grande maioria, as críticas eram limitadas à descrição detalhada dos espetáculos operísticos e teatrais, além de divulgar intrigas, desavenças e polêmicas de seus bastidores. No início do século XX, ainda voltada para a música erudita, a crítica ganhou contornos literários, com Mário de Andrade, Murilo Mendes e Otto Maria Carpeaux sendo estes responsáveis por diversas resenhas em jornais e revistas. Somente após a Segunda Guerra, com o avanço da indústria fonográfica e o surgimento da cultura de massa, os periódicos passaram a dar atenção à musica pop, surgindo neste período as primeiras publicações voltadas ao gênero. No exterior, destacaram-se a inglesa New Music Express (1952) e a norte-americana Rolling Stone (1967). No Brasil, tardiamente, surgiram a Geração Pop (1972), Somtrês (1979), Pipoca Moderna (1980) e Bizz (1985), todas extintas atualmente.
Se, já em seus primeiros anos, a crítica musical brasileira já despertava animosidades, no decorrer de quase dois séculos e já devidamente adaptada ao formato pop, manteve-se, grosso modo, distante de uma efetiva análise estética ou musical. Muito mais preocupada em promover e abalizar novas tendências, a crítica tornou-se fomentadora de um circo midiático fortemente atrelado aos anseios do mercado fonográfico e, principalmente, aos caprichos de editores e redatores. Mesmo com a derrocada da indústria de discos e o impressionante avanço de sites e blogs independentes, o que se viu na última década foi, salvo raríssimas exceções, a reprodução dos mesmos modelos encontrados nos jornais e revistas tradicionais.
Pode-se questionar se esta perspectiva não seria um tanto natural em se tratando de um produto que, embora criativo e sujeito a preocupações estéticas, é submetido às leis de mercado. Mesmo os músicos independentes se vêem por vezes atrelados às grandes corporações para viabilizar seus projetos e dar continuidade às suas carreiras. Indo mais além, a própria cena musical contemporânea brasileira tem suas origens em artistas que, em maior ou menor grau, foram assimilados pela indústria de entretenimento, caso dos tropicalistas e do movimento manguebeat. Contudo, esta estrutura acabou criando um paradigma que vem se acentuando nos últimos anos: O ineditismo se tornou uma necessidade não mais exclusiva dos anseios estéticos do artista, mas também das grandes corporações e dos veículos de comunicação, objetivando a criação de tendências e comportamentos de consumo massivo. Se, por um lado, a música popular é fruto de contingências históricas e sociais, prevalecendo um amadorismo nato que a despe dos cânones acadêmicos e a torna um produto sedutor aos olhos da indústria e da mídia, por outro, chega a ser constrangedor que boa parte das resenhas dedicadas a ela não se atente aos seus elementos básicos - melodia, harmonia, ritmo, timbre, etc - ou mesmo a questões tecnoestéticas relativas à sua produção. Assim, o crítico musical acaba por deixar à mostra seu crivo ambíguo e por vezes perverso, onde a inaptidão ou a falta de interesse fazem de sua escrita nada mais que uma curadoria de suas predileções.
Assunto polêmico e que volta e meia vem à tona, o papel da crítica musical foi um dos temas abordados nesta acalorada entrevista com o produtor e multinstrumentista Kassin. Membro fundador da Orquestra Imperial, Kassin integrou o projeto +2, ao lado de Moreno Veloso e Domenico, o eletrônico e experimental Artificial e a banda Acabou La Tequila, considerada por muitos como uma das precursoras da atual cena musical brasileira. Sendo o produtor mais influente desta geração, Kassin esteve presente nos álbuns “Eu não peço desculpas” (2002), de Caetano Veloso e Jorge Mautner; “Cantada” (2002), de Adriana Calcanhotto; “Ventura” (2003) e “4” (2005), do Los Hermanos; “Sim” (2007), de Vanessa da Mata; “Peixes Pássaros Pessoas” (2009), de Mariana Aydar; entre outros. Também foi responsável pela trilha sonora do anime Michiko e Hatchin (2008) e de diversos espetáculos e programas de TV. Em 2011, finalmente lançou seu primeiro álbum solo, o elogiado “Sonhando devagar”.
Figura essencial para a compreensão da cena musical brasileira contemporânea, Kassin foi convidado pelo Banda Desenhada para esta entrevista. Em meio às gravações de uma trilha sonora e do novo álbum de Wilson das Neves, acabamos por levar o produtor para um local no mínimo inusitado: o anexo da Paróquia de Santa Cruz de Copacabana, localizada na cobertura de um antigo shopping, onde funciona uma escola de alfabetização. Lá, Kassin falou, entre outros assuntos, de seus trabalhos e das últimas polêmicas envolvendo os seus colegas de geração.

BD - É mais do que falada a sua influência na produção musical brasileira dos últimos anos e a importância do Acabou La Tequila para esta geração. Isto deve ter algum peso para você, não?

Kassin – É engraçado, porque, fora o fato de ter duas filhas, não faço nada de diferente do que fazia quando tinha 17 anos. Absolutamente nada. Eu vou aos sebos, compro discos, vou ao estúdio, gravo... A diferença agora é que alguém acha que aquilo que eu faço é importante! [Risos]. Mas o meu dia-a-dia mudou muito pouco. É óbvio que agora sou bem remunerado, o que me possibilita realizar projetos que realmente me interessam. Mas, acima de tudo, eu faço porque gosto. A minha relação com o trabalho sempre foi esta. Quando tocava no Acabou La Tequila não era tanta gente que achava aquilo legal. Nos shows, efetivamente, tinha umas 15 pessoas... Não nos sustentávamos com aquilo. Fico feliz pelo atual reconhecimento e por perceberem que havia na banda uma proposta inovadora. Mas, para mim, a imagem que tenho, ainda é de uma banda de colégio. A minha relação com a música era de curtição, como ainda é um pouco hoje.
  
BD – Você acabou sendo chamado por alguns jornalistas, de forma um tanto pejorativa, de “produtor hype” ou “da moda”. Isto lhe afetou muito? 

Kassin – Tento não pensar muito no que os jornalistas escrevem ou no que as pessoas comentam. Sinceramente, no que se refere à música, a grande maioria é muito desinformada. Quase ninguém se aprofunda na história do artista, nem se preocupa em tomar conhecimento do trabalho que é fazer um disco... Uma coisa que é interessante nesta história é que se criou um foco em mim como produtor. Então, independente de ser o produtor da moda ou não, é impressionante que dentro de um mercado limitado e em crise exista alguém que possa ser chamado de “o produtor da moda”. Isto é um negócio psicodélico! [Risos]. Muitos produtores que eu admiro já foram considerados da moda e eles nunca deixaram de ser bons. Não sei, cara, mas a necessidadede de me colocarem um rótulo talvez tenha surgido porque as pessoas precisaram lidar com o fato de que estou fazendo muitos trabalhos. Sempre que existe alguém que se destaca, principalmente em um país com excesso de culpa cristã, acontece isto. Parece que é proibido sermos bem sucedidos. Pessoalmente, tenho muito orgulho de chegar aos 37 anos tendo conseguido sobreviver de música estes anos todos, podendo ter um estúdio [o Monoaural] e fazer discos. Ainda me surpreendo quando olho para o passado e vejo o que fiz. Não imaginava que faria tudo isso. Com 17 anos  não imaginava sequer que viraria músico. Foi uma questão de oportunidade. Em algum momento alguém falou: “Faz essa parada aí”!  Aí fui fazendo e aquilo foi se tornando a minha profissão...  Na verdade, tenho muito orgulho do meu trabalho. Costumo pensar assim: “As pessoas estão me chamando de produtor da moda? Beleza, tomara que continuem falando isto por mais vinte anos, pois vou continuar fazendo exatamente o que sempre fiz”. Isto nunca foi a minha aspiração, entende? A arte é um pouco assim, você não é necessariamente isto ou aquilo, é o foco midiático que sempre se desloca para outro ponto. É uma questão de momento, das pessoas estarem preparadas para consumir a sua música ou não. Quer ver um exemplo? Fui para São Paulo no show de lançamento do CD ["Feito pra acabar"] do [Marcelo] Jeneci, que eu havia produzido. Nesta apresentação o Arthur Verocai conduziu as cordas, como no disco. Peguei um avião e fui. O disco ainda não havia saído nem fisicamente nem digitalmente. Então quase ninguém conhecia as suas músicas naquele momento. O show começou, o auditório lotado... Na segunda música, as pessoas já estavam aplaudindo de pé. Minha observação a respeito disso: Mesmo que ainda não houvesse o mínimo de tempo para que a plateia se envolvesse com o espetáculo, ela foi tomada por um sentimento de que tudo aquilo era especial. E isso é muito positivo para todos. Isso faz surgir uma cena. O fato de todo mundo achar que o Criolo é muito legal faz com que outros artistas que dialogam com ele também sejam considerados legais. E isso acontece basicamente porque todo mundo está pensando e desejando a mesma coisa. O artista não é só o artista. O artista é o artista e o que as pessoas acham dele.

BD - Ótima definição. 

Kassin - Não estou neste ofício especificamente por dinheiro, sabe? Se as pessoas do meu meio trabalhassem somente por conta da remuneração, já teriam desistido. A música não é uma área em que você entra porque quer ficar rico. É muito desgastante. Você só pode estar ali por paixão. E isto vale para mim, para o Chitãozinho e Xororó, para o Biafra, para todo mundo das artes em geral. Se você está a mais de 15 anos trabalhando com música, é por paixão. Não é uma vida glamorosa, sabe? A gente faz porque gosta. Há certo amadorismo inicial na profissão de músico. Por isto que é um terreno tão dúbio em termos de valores. Você começa a fazer porque gosta e, em algum momento, aquilo se torna a sua profissão. 


BD – E como você vê o papel do produtor musical hoje em dia?

Kassin – É importante pensar nisto tendo em mente a crise por que passa a indústria fonográfica... Eu, pela minha idade e pela idade com que comecei a trabalhar, peguei o fim das grandes gravadoras e o início da era digital. Peguei o fim da fita e o início do Pro Tools. Lembro quando as gravações começaram a ser caseiras... O fato de não haver mais uma indústria como conhecíamos acaba gerando profissionais menos refinados. É muito difícil hoje você ter um produtor com a idade menor do que a minha. Com longevidade. Porque, mesmo tendo as chances de fazer alguns discos, ele não terá oportunidade de depurar o seu ofício, de perceber como certas coisas funcionam ou não. Claro, também é um pouco de visão, mas também passa pela possibilidade do fazer. Vejo que há um gap nesta área, sabe? São raros os produtores mais jovens que sabem lidar com uma grande diversidade de músicos no estúdio ou mesmo opinar sobre arranjos. Isto é interessante, porque o próprio conceito do ofício é vago hoje em dia. O que é ser produtor? Sou chamado de o produtor do momento, o moderninho e o não sei o que lá, mas, pô! Estou com 37 anos! [Risos]. Não sou tão novo assim, né? Estou fazendo discos há duas décadas. O problema é que não tem outro! Há dez anos eu sou o moderninho! [Gargalhadas]. E acho que não vai mudar muito. E, daqui a pouco, vou ser o moderninho de cabelos brancos! [Risos]. É um pouco como a cena de hoje em dia. Se você analisar com certa frieza, a maioria dos artistas está acima dos trinta. O que é bem esquisito... Existem hoje algumas bandas no Rio em que os caras têm menos de vinte, como a Dorgas. Mas quando comecei, todos tinham menos de vinte! Há um problema de continuidade. Há um gap real. Mallu Magalhães, Romulo Fróes, Hurtmold e o Cidadão Instigado fazem parte de uma mesma geração e há, entre eles, uma diferença de idade de 20 anos!

BD – Ao que se deve este hiato? Falta de conteúdo e interesse? Já li algumas pesquisas que apontam que mesmo com todos os recursos da internet, a maioria dos jovens ainda prefere consumir um produto mais palatável e comercial...

Kassin – Acho que não. No passando era muito mais difícil comprar um disco e ter acesso à informação. Quando eu comecei a tocar guitarra havia apenas dois modelos e um de pedal. Se não comprasse aquele, não compraria outro. Não havia escolha. O pessoal cortava a guitarra para ficar igual à do Iron Maiden! Se você quisesse comprar um disco meio desconhecido, teria que importar. Hoje, o cara entra na internet e baixa a discografia inteira do Kraftwerk! Em uma hora se consegue baixar toda a produção musical de uma década inteira! Existe até a possibilidade de você estudar virtualmente qualquer instrumento: “Pô, como é que toca piano”? Aí você vai lá e digita “how to play piano?” e aparece um vídeo de um cara ensinando a tocar. É mais fácil ter bagagem hoje em dia. Acho que o grande problema desse gap foi a falta de um circuito onde as novas bandas pudessem se apresentar e, assim, desenvolver as suas carreiras. Teve um momento no Rio em que não havia mais o Circo Voador, o Cinemathèque e nem o [Espaço Cultural] Sérgio Porto. Houve um hiato de cinco anos entre a minha geração e a próxima. Não havia a possibilidade de você fazer seu trabalho e apresentá-lo publicamente... E é isto que faz uma carreira seguir adiante. Sem casas de shows, a cena foi se dissolvendo. Porque o músico tenta uma, tenta duas, mas depois desiste e vai buscar um emprego em num banco.

BD – Mas finalmente a cena atual está começando a mostrar certa estabilidade. Inclusive passando a receber as suas primeiras críticas mais severas por parte das mídias tradicionais. O que você vem achando disto? Alguns dias atrás, o jornal O Globo chegou a ocupar boa parte de seu caderno cultural com questionamentos a respeito da qualidade do trabalho de vários nomes da sua geração e abrindo espaço para outros tantos novos artistas...

Kassin – Eu cheguei a ler... Aquela matéria me pareceu muito estranha. Achei questionáveis tanto a editoração quanto a edição. O texto induz o leitor a achar que a Orquestra [Imperial], a Tulipa [Ruiz], o Criolo e a Maria Gadú estão no mesmo saco, o que é um equívoco. Não conheço aqueles músicos, mas achei o seu discurso bastante natural. Na verdade, achei bem paulista. [Risos]. Sem preconceitos! Não vejo mal em afirmarem que estão mais para uma coisa do que para outra. Seria como se eu falasse que estou mais para o Tom Zé do que para o Metallica, o não quer dizer que não goste do Metallica. Então, não considero uma agressão. O que me parece como ponto duvidoso é a maneira como tudo foi colocado. Há uma construção um pouco maldosa, eu acho. 

BD – Mas, para você realmente não há nenhuma característica em comum entre os artistas desta nova cena?

Kassin – Sim: Todos moram no Brasil. [Risos]. Esta é a única relação que eu percebo entre nós. São trabalhos completamente distintos. É algo que eu não entendo: Como se põem tantos artistas diferentes no mesmo saco? O Romulo, o Cidadão, a Tulipa e o Jeneci estão em São Paulo e mesmo assim são totalmente diferentes. A Mallu, o Hurtmold... São pessoas e bandas diferentes, com estéticas diferentes. Eles flertam muito pouco entre si. 


BD – Mas o diálogo entre a cena paulistana e carioca é bem intensa. A vinda da Iara Rennó para o Rio, o Camelo indo para São Paulo... Você mesmo chegou a tocar no álbum da Tulipa, não?

Kassin – Toquei em algumas faixas. O Gustavo [Ruiz] é meu amigo. Realmente existe um grande diálogo, mas não acho que necessariamente vá criar afinidades artísticas. Não acho o disco do Romulo parecido com o da Mallu Magalhães, por exemplo. Talvez a única semelhança seja os dois álbuns terem bateria, baixo e guitarra. [Risos]. São da mesma geração, mas não são próximos. Os dois irão fatalmente tocar nos mesmos lugares, mas, pode ter certeza, não ouvem as mesmas coisas e não sofrem as mesmas influencias. Não consigo perceber nenhum ponto que os uma. Não há um novo ambiente tropicalista ou um novo clube da esquina ondem os artistas compartilhem as mesmas ideias. Não acho que tenha, cara. E acho superpositivo. Por exemplo, o som do Criolo. O que tem a ver com o restante? Nada! Não tem a ver nem com o Emicida! Eu admiro a Tulipa, se ela pedir para gravar no meu estúdio, vou adorar, será superbem-vinda, mesmo eu não fazendo o mesmo som que ela. 

BD- Mas é possível observar a existência de alguns grupos ou subgrupos dentro desta geração, mesmo que não comunguem totalmente de um ideário estético. Por exemplo: Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Thiago França, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Juçara Marçal dialogam artisticamente e possuem semelhanças. 

Kassin – Eles comungam das mesmas ideias porque ali há uma situação de grupo. É claro que dentro do +2, o meu trabalho e o do Domenico dialogam bastante. Nós nos vemos todos os dias, fazemos música e nossas filhas brincam juntas. Aí sim, aí existe. Estamos ouvindo os mesmos discos, somos da mesma banda. A gente está vivendo as mesmas coisas e viajando para os mesmos lugares. Eu, Domenico, Thalma [de Freitas], Nina [Becker]... Fazemos o baile juntos... Realmente existe um elo. Óbvio. Compartilhamos do mesmo universo.

BD – Voltando à matéria do O Globo, uma coisa que me chamou a atenção foi o fato deles questionarem o uso indiscriminado que a sua geração faz das referências pop ou consideradas de gosto duvidoso...

Kassin– Eu não concordo com o ponto de vista deles, de acharem que isto é envolvido por culpa. Eles não viveram o tropicalismo e, conhecendo o [Gilberto] Gil, aquele discurso me pareceu mais equivocado ainda. Porque vejo o quanto ele é realmente interessado em tudo, o quanto a sua cabeça é realmente aberta. Os tropicalistas vêm defendendo esta posição ao longo de quarenta anos! Percebo isto muito mais como um gesto de amor do que de culpa. 

BD – E você parece ter um grande prazer neste diálogo entre os diversos gêneros musicais...

Kassin – Sim. A parte do meu ofício que mais gosto é esta, a de ter a possibilidade de fazer com que todos os meus dias sejam diferentes. Ontem encontrei o Erasmo Carlos e a gente ficou conversando. Sou muito fã dele e fiquei até meio nervoso, sabe? E, certa hora, ele me fez uma pergunta: “Bicho, às vezes você se cansa de ser você mesmo? Porque tem dias que eu não aguento mais a minha música, não aguento mais o Erasmo Carlos”! Aí eu disse a ele que pelo fato do meu trabalho de produtor possibilitar o envolvimento com diferentes sons todos os dias, acabava não me deixando ficar cansado. Ficaria muito entediado se tivesse que ser o artista Kassin todos os dias, cantando as minhas músicas, tocando guitarra, falando em toda apresentação “boa noite, que bom que vocês vieram”. Por mais que fosse a minha música, por mais que representasse a minha verdade, em algum ponto aquilo me entediaria. Hoje de manhã fui gravar o disco novo do Wilson das Neves. Acordei para uma gravação de samba. Sairei daqui para gravar uma trilha da HBO, com canções de reggae. É muito prazeroso. Na verdade, para mim esta é a graça! A graça de não ser o mesmo todos os dias, de não ter que representar uma verdade absoluta ou de levantar a bandeirada de uma verdadeira música ou de uma falsa. Tanto faz, cara. Aquele som pode ser bom naquele momento, mas daqui a duas semanas pode já não ser tão bom assim. Qual disco você está ouvindo hoje? Hoje pode ser este [pega de uma sacola o LP “Steve McQueen” do Prefab Sprout], mas daqui a duas semanas posso não estar ouvindo mais. 

BD- Claro, mas no caso da arte existe uma coerência...

Kassin – Essa coerência não é rígida. Durante o Carnaval fiquei assistindo South Park, ouvindo Phil Spector e piano solo de Debussy. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, nem muito menos o Carnaval em volta. E ao voltar para casa hoje vou ouvir outra coisa. Para você ter uma ideia: Um dos compositores preferidos do Marcelo Camelo é o Jon Bon Jovi! E é verdade! Ele sabe tocar e tudo! Mas o fato dele adorar uma música do Bon Jovi não quer dizer que ele seja aquilo. O Guinga foi gravar outro dia lá no estúdio. Ele é um dos caras que eu mais sou fã. Sem sacanagem, eu o acho foda. É um negócio absurdo! Ele é de uma complexidade... Parece mágico, sabe? [Risos]. E aí, no meio da gravação, ele falou: “Aquela música que você fez com a Vanessa da Mata, ‘Amado’, é sensacional, cara. Adoro aquela gravação”. Entende? Ninguém está preso a um único estilo musical. Se você está, pode ter certeza que está errado. Não é possível que outros sons e outras experiências não te afetem. Imagina: Cai um cara morto aqui do lado e você fala que não é bem a sua estética?! Aquilo vai “baixo-astralizar” a sua vida! Não é possível! 

BD - Sim, vai fazer parte da sua história. E depois você poderá utilizar esta experiência como inspiração para algo. Mas todo este processo é bastante íntimo e pessoal.

Kassin – Tem a ver com o momento. No caso do meu Carnaval, foi um momento que durou três dias. Não vou defender com a vida a obra do Phil Spector ou do Debussy. [Risos]. Quando voltar para casa, vou ouvir metal, cara! Vou pôr Meshuggah e ficar curtindo. Está ótimo. [Risos].


BD – E como foi trabalhar com a Ana Carolina [Kassin foi um dos produtores do álbum “N9ve” da cantora]? Não houve certo mal estar ou policiamento ideológico por parte de outros músicos e críticos?

Kassin – Tem uma coisa que me incomoda na crítica brasileira em geral... Percebo isto principalmente quando vou aos prêmios, sabe? É que existe a ideia de que a música popular é a porta dos fundos. É um erro. O Brasil sofre de um grande complexo de inferioridade em relação ao exterior. É muito mais provável você ver uma primeira página de caderno cultural com a Britney Spears ou a Whitney Houston do que com o Wando. Que morreu e... Até me surpreendi em vê-lo nas primeiras páginas! Na verdade, só morrendo ele conseguiu chegar lá. Se ele lançasse um disco de estúdio, ninguém ia dar a menor bola. Só se estivesse de calcinha na capa ou em qualquer outra situação polêmica. Um disco da Ivete [Sangalo] não é tratado com a mesma seriedade que um disco da Rihanna, por exemplo. É mais provável que um disco do Pretenders tenha boas críticas e melhores espaços nas publicações do que um disco do Barão Vermelho ou do Frejat. A grande maioria dos jornalistas usa as revistas importadas como principal fonte de consulta. Pegue a Fader [aponta para a revista norte-americana que se encontra sobre a bolsa do fotógrafo Daryan Dornelles], que é a que todos os jornalistas lêem e me diga... Qual a diferença entre a banda que aparece aqui e a Dorgas? Nenhuma! Mas aqui tem uma foto bonitona, sacou? E é a novidade da parada. É o que está foda! Aí a imprensa faz um movimento! Bota o pau na mesa e diz que é do caralho. E os sites e blogs repetem. É esta a lógica. Já fui a festivais lá fora: Roskild, Primavera Sound, Sónar... Você chega lá e, cara, a grande maioria, está uma merda! O som é um horror, todo mundo toca mal, desafina... Tecnicamente e esteticamente é uma merda. É banda sem estrada, é banda com gente que não sabe tocar... Mas eu acho do caralho! Estou falando de algo que vejo e que admiro, mas por que aquilo é melhor do que o que se faz aqui? Aquilo é tão pop quanto o que nós produzimos. Na minha concepção de música pop, Timbalada e Timbaland são a mesma coisa. Não pode haver aí uma escala de valores, nem muito menos de status. Não aceito estes parâmetros. Acho de uma ignorância só. Jay-Z e Mc Marcinho para mim são a mesma coisa. O que muda é o valor que as pessoas dão. E você percebe isto nos cadernos culturais. Cara, qual a diferença entre a Paula Fernandes e a Taylor Swift?! Nenhuma! É a mesma parada. Então porque ninguém comenta o disco dela com seriedade? Porque ninguém escreve um texto que não seja um ataque? Na crítica do disco da Taylor Swift os jornalistas parecem saber os nomes de todos os músicos e produtores que estão na ficha técnica! Cara, isto é complexo de inferioridade. E acho que ultimamente os jornalistas estão cada vez mais mal preparados. Os textos são fracos. E há também outra coisa: Se você tem uma revista, deveria falar bem do que está nela. Porque, afinal, você se dedicaria a falar de algo que odeia?! Porque não utilizar então este espaço para falar positivamente de outro artista?

BD – E quanto ao “Sonhando Devagar”? Mesmo sendo extremamente bem recebido pelos críticos e entrando em diversas listas de melhores álbuns de 2011, alguns voltaram a falar das suas limitações vocais, como aconteceu no lançamento de “Futurismo”. Isto o incomodou? 

Kassin – Sinceramente... A esta altura?! Quem canta bem, cara? Eu não tenho vontade de cantar. Sou compositor e mostro as minhas músicas ali no disco. Se eu não cantar, ninguém vai cantar. Não tenho pretensões nesta área. Não mesmo. Sei que canto mal. Mas os arranjos e as minhas composições justificam tanto a voz quanto o discurso que estão sendo apresentados. Na verdade, até acho estranho quando ouço algumas das minhas músicas em outras vozes. Porque são canções com pontos de vista muito específicos. São letras muito pessoais. O meu foco é a transmissão de uma ideia e não o canto. Nunca sonhei em ser cantor e desconsidero este tipo de crítica. Porque, na real, se for falar de cantor, de cantor mesmo, não sobra quase ninguém. Você sabe, né? [Risos]. Cara, sem sacanagem, quando eu ouço um disco, o que percebo é um monte de parada errada, fora do tempo, desafinada... Mas a graça da música é justamente este caos. É o resultado geral, mais do que tudo. O mundo está muito careta. Com tantas e novas tecnologias, deveríamos estar mais criativos e, no entanto, sinto as pessoas cada vez menos vivas e interessantes. Só preocupadas com as referências... Se a galera não tomar mais drogas, o mundo vai ficar chato, cara! [Risos]. Todos estão se levando muito a sério. Não é bem assim. O som é algo vivo. Não é para ser tratado como um vinho raro.

BD – Mudando um pouco de assunto, como começou a sua relação com a música eletrônica? Você teve o projeto Artificial e também participou da produção do novo álbum da Gal Costa.

Kassin – O meu primeiro trabalho com música foi aos 16, 17 anos, quando fazia uns tapes de K-7. Tinha um gravador de quatro canais e aí fazia direto para o tape, criando alguns loops, com vitrola e tocando guitarra. E aí tinha o sintetizador e um pouco de bateria eletrônica com loop por cima. Aquilo foi o que me deu os primeiros trabalhos. Fui chamado para fazer uma trilha da Débora Colker e ali conheci o Berna [Ceppas], com quem trabalho até hoje. Só havia dois samplers no Rio, um do Chico Neves e o outro do Berna. E nós todos trabalhávamos juntos e aprendi muito com eles. Sempre gostei de sintetizador. Tive um e ficava estudando em casa. Ele é muito próximo do mundo do áudio, da ideia de acústica, de reflexão e de captação. Quando você começa a entender aquilo tecnicamente, percebe a semelhança com o sintetizador. Você trabalha com tipos de ondas, fases e filtros. Um é um pouco complementar do outro, sabe? Foi por causa do fascínio pelo áudio que entrei nesta história de música eletrônica. Isso foi nos anos 90, em 91, 92... E segui. Até hoje me divirto com os meus brinquedinhos. [Risos].

BD – Por falar em música eletrônica, você ia produzir o álbum da Gaby Amarantos, não?

Kassin – Sim, mas acabou sendo feito pelo [Carlos Eduardo] Miranda, pelo Waldo [Squash, da Gang do Eletro] e pelo Félix [Robatto, do La Pupuña]... Fui a Belém com o +2 logo que o meu disco do projeto [“Futurismo”] saiu... Tinha aquela faixa, “Água”, com influência da guitarrada e o pessoal de Belém nos chamou para um festival.  Foi demais! Assistimos ao momento exato em que o tecnobrega se tornou um fenômeno de massa. Vi pela primeira vez a Gaby ao vivo. Ela é incrível! E aí fiquei um pouco por lá, com eles, indo às festas, ouvindo as músicas e participando da vida cultural da cidade. Quando voltamos, a Tam veio até nós com um projeto em que poderíamos trazer para o Rio alguns artistas de outros estados... E aí convidamos todo mundo de Belém. Chamamos o La Pupuña, o Aldo Sena e a Gaby e fizemos um show. A relação foi se estreitando, por admiração, e daí foi seguindo.

BD – Você parece gostar bastante do tecnobrega...

Kassin – Eu admiro muito estes fenômenos populares de musica eletrônica: O tecnobrega, o funk carioca, a cumbia villera, o kuduro... Para mim, presenciar o surgimento destes gêneros é como se eu estivesse vendo o nascimento do samba. Você está vendo um estilo sendo gerado, ganhando forma. Não creio que o tecnobrega ou o funk sejam diferentes do samba quando este surgiu. Os padrões vão se repetindo até chegar ao ponto em que se tornam um recurso estilístico definível. Esteticamente, é algo muito interessante de se acompanhar. Há um frescor nestes sons, por não estarem atrelados ao formato de disco, por não haver um assessor de imprensa e por não estarem inseridos dentro dos padrões tradicionais de consumo... As músicas são crônicas do que acontece durante a semana. Elas tocam por um tempo e depois somem. Você não acompanha o artista propriamente... Acho um fenômeno interessantíssimo. 






6 Responses to o que te ilude é roliúde

  1. Muito bons texto e fotos!
    Sugestão de pauta: uma entrevista com o próprio Daryan para ele contar como é o trabalho dele com os retratos, como ele pensa os quadros e como escolhe as locações.
    Que tal?
    Longa vida ao BD! Parabéns!

  2. : :

    Excelente. Tudo. Entrevista, entrevistado, visão, idéias. Obrigada por me fazerem ler isso :)

  3. Clarice Bueno :

    Muito bacana ter acesso a uma entrevista tão bem feita! Kassin é sempre enriquecedor.
    Parabéns.

  4. Um cara desse fala de música e a gente aprende sobre a música e sobre a vida - e o melhor, sem pretensão, sem querer ser aparecido. Por isso que eu escuto e não deixo mais. Kassin, meu bem, a sua voz é massa e tem tudo a ver com essas coisas que só você canta. Fica bem tanto em "Pra lembrar" como em "Calça de ginástica". Continue! E venha mais pra Fortaleza, que aquele carnaval com a Orquestra foi pouco.

  5. Belíssima entrevista. ;)

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