outros bárbaros, tão doces, tão cruéis


fotos: daryan dornelles




Ao redigir, durante as filmagens, o manifesto que deu suporte ao seu primeiro longa metragem, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), o cineasta Rogério Sganzerla acabou por definir o que seria conhecido no Brasil como cinema marginal: produções autorais de baixo custo, filmadas em super-oito, intencionalmente kitsch e caracterizadas pelo experimentalismo, o improviso e a colagem conflituosa de vários gêneros cinematográficos. Em seu filme, Sganzerla burilou na fala de seu personagem principal o que bem poderia tornar-se a definidora de toda a produção underground da época: “Quando não se pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba”. Em contraponto à grande mídia, o cinema marginal desenvolveu uma nova estética que possui muitos pontos em comum com a atual geração da música popular brasileira. Se a comparação, a princípio, pode parecer estapafúrdia, basta ater-se à história e a alguns trabalhos destes novos artistas para perceber as semelhanças. Forjada distante do grande mercado e em um processo quase artesanal, a neoMPB, assim como o cinema marginal, criou uma nova identidade à produção cultural do país, assumidamente fragmentada e caótica. Mesmo sem a virulência do cinema marginal, encontra-se certa dose de agressividade e de humor corrosivo em artistas como Rafael Castro, Lulina, Otto, Andreia Dias, Karina Buhr, Tatá Aeroplano, Clarisse Falcão e Banda Uó. As tensões entre a alta e a baixa cultura, tão presentes nas produções da Boca do Lixo, são devidamente replicadas pela neoMPB, visto os trabalhos de Cidadão Instigado, João Brasil, Bonde do Rolê, Felipe Cordeiro, Gaby Amarantos, ou mesmo as regravações de hits da música romântica, do forró ou do pagode, como “Garçom” por Filipe Catto, “Você não vale nada” por Tiê e “Poderosa” pela dupla Letuce. O experimentalismo também se revela um ponto em comum, ao se ouvir os álbuns de Rabotnik, Guizado, Isadora, 1/2 Dúzia de 3 ou 4 e Metá Metá. Por fim, mas por certo o mais importante, vê-se nesta geração a mesma capacidade inventiva do cinema marginal, ao tomar para si, na maioria das vezes de forma precária, a quase totalidade da produção de seus trabalhos. Assim, Kiko Dinucci tornou-se o principal responsável pela arte de seus álbuns e de seus projetos paralelos; Tulipa utilizou um de seus trabalhos em Paintbrush como capa de seu disco de estreia, “Efêmera”; Ava Rocha, munida de sua experiência na área de audiovisual, criou diversos clipes experimentais para sua banda, AVA, assim como também o fez a dupla Letuce. De forma artesanal, com uma liberdade conquistada por sua independência e ciente de sua transitoriedade, a neoMPB tem aí as suas mais pertinentes e revolucionárias características que, verdadeiramente, criaram uma nova estética dentro da música popular brasileira.
Exemplo desta comparação, a dupla carioca Letuce, mesmo que não intencionalmente, parece renovar determinados valores apontados por Sganzerla na década de 60: desde o discurso sexual desconcertante de suas composições, passando pela forte presença da estética kitsch, até a confecção de clipes autorais e de baixo custo. Formada em 2008 pelo músico Lucas Vasconcellos e pela multiartista Letícia Novaes, a banda se tornou um dos principais nomes da cena independente carioca. O casal, um misto de Rita Lee e Roberto de Carvalho com Serge Gainsbourg e Jane Birkin, lançou seu primeiro álbum, “Plano de Fuga Para Cima dos Outros e de Mim” (Bolacha Discos) em 2009, seguindo para uma série de shows pelo país, incluindo os festivais Grito do Rock (Volta Redonda) e SWU (SP), e também pelo exterior -Paris e Londres-. Em 2011, a banda foi indicada ao Prêmio Multishow na categoria “Experimente”, além de ter sido uma das Apostas MTV. Neste mesmo ano, no Festival de Gramado, a dupla recebeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original de Longa Metragem pelo filme “Riscado”, de Gustavo Pizzi. Em 2012, através de um financiamento coletivo, o casal lançou seu segundo álbum,“Manja Perene”, e participou de “A Take Way Show”, série de filmes do cineasta e fotógrafo francês Vincent Moon, lançado em seu site, “La Blogothèque”. Também conhecidos por suas múltiplas atividades, Lucas e Letícia foram os responsáveis pelos projetos “Churrasquinho Sunset” - onde interpretaram sucessos radiofônicos nacionais e internacionais - e, juntamente com qinhO e a bateria da escola São Clemente, pelos anticonvencionais bailes carnavalescos do “Bloco dos Clementianos”. Atualmente, a dupla se apronta para o projeto “Palavras Cruzadas”, onde, acompanhada pelo cartunista André Dahmer e pela poeta Bruna Beber, transformará o centro cultural Oi Futuro Ipanema em uma grande embarcação e apresentará um repertório inédito e temático.
Mesmo ocupados com tantos projetos e uma intensa agenda de shows, Lucas e Letícia receberam o Banda Desenhada em sua casa, no Rio Comprido. A longa e bem humorada entrevista, devidamente acompanhada por um bœuf bourguignon e algumas garrafas de vinho, se deu em meio à comemoração de aniversário do primeiro ano do site. Nela, o casal fala de sua carreira, influências, da banda Binário – precursora de grande parte da atual cena carioca -, e a relação com a crítica e seus colegas de geração.

BD – A entrevista não pode começar por outro assunto que não seja o Binário. Parece que a banda tem uma importância muito grande para a novíssima cena carioca.

Letícia Novaes – Antes de o Lucas contar como ela surgiu, queria só dizer que conhecer e ouvir Binário é fundamental pra quem gosta de música ou está pensando em montar uma banda. Tem que ouvir.

Lucas Vasconcellos – Eu tinha vindo fazer uma peça de teatro no Rio como ator e músico.

Letícia Novaes – Conta qual foi a peça...

Lucas Vasconcellos – "Confissões de Adolescente"! [Gargalhadas]. Eu morava em Petrópolis, era professor de música. Dava aula em meu próprio apartamento e estava me encaminhando para ser um músico de Petrópolis. Mas uma amiga, a Beta Perez, me avisou do teste para essa peça. Fui fazer, passei e imaginei: “Caralho! Vou pro Rio de Janeiro! Todo mundo conhece essa peça! Vai bombar pra cacete!”. E, no final, acabei em uma temporada no Norte Shopping pagando as dívidas com a produção [Risos]. Na “Confissões” eu conheci o Berna, o Bernardo Palmeira, que se tornou o dono do Bolacha Discos, que é o nosso selo. Figuraça total. Ele também atuava na peça e andava sempre com uma zabumba. Viajamos o Brasil todo de ônibus! Uma loucura! A gente fazia vários sons. Aí falei: “Vamos montar uma banda!”. Chamei um baixista, o Bruno Di Lullo, que hoje em dia toca com a Gal Costa, o Tono e o Rabotnik. Formamos a banda, comecei a fazer músicas com o Berna e, aos poucos, fomos agregando mais gente.

BD – Mas já tinha este nome, Binário?

Lucas Vasconcellos – Sim. O Berna que batizou. Era eu, ele, o Bruno... o Estevão [Casé] e o [Eduardo] Manso que agora são do Rabotnik…o Fabio Lima, que toca baixo com a gente no Letuce, o Paulo Camacho, que fazia os vídeos e as projeções nos shows...

Letícia Novaes – E o Rafael Rocha, que é integrante do Tono. O Binário tinha dois bateristas: o Rafael e o Berna.

Lucas Vasconcellos – Também conheci o Rafael na “Confissões de Adolescente”! [Risos].

BD – Então toda a novíssima cena carioca surgiu na “Confissões de Adolescentes”? Flores para Maria Mariana [autora da peça, do livro e da série de TV “Confissões de Adolescente”]! [Risos].

Letícia Novaes – A galera dessa peça rendeu! [Risos].

Lucas Vasconcellos – Começamos a fazer umas músicas meio experimentais. Gostávamos dessa brincadeira. Ouvíamos umas coisas malucas e queríamos parecer modernos, mas sem entrar numa onda Rio de Janeiro. Eu cantava e compunha. Começamos a tocar e percebemos que não havia lugares disponíveis para fazer shows. Então compramos um inversor de eletricidade e o ligamos em uma bateria de carro. Com isso, a gente passou a usar os amplificadores em qualquer lugar que quiséssemos, sem precisar de tomadas, autorizações ou não sei lá mais o quê. Fizemos uma temporada no Coqueirão [trecho da praia de Ipanema, entre as ruas Maria Quitéria e Joana Angélica], no Posto Nove. Chegávamos às três da tarde e sempre conseguíamos uma vaga no mesmo lugar! Uma coisa mágica! E logo no domingo! No pior dia do mundo! Aproveitávamos que a calçada estava sem carro e fazíamos o show. Durava umas três horas. A gente suava, suava, gastava o dedo... era o nosso ensaio.

Letícia Novaes – Era lindo.

BD – Você então chegou a assistir esses ensaios?

Letícia Novaes – Cheguei! Mas não tinha o menor interesse no Lucas. Não pensava: “Ai, ele é lindo! Hummmm”...

Lucas Vasconcellos – [Interrompendo] Não foi isso que ele perguntou! [Gargalhadas].

Letícia Novaes – Cacete! [Risadas]. Eu sou mulher, eu estava pensando além!

Lucas Vasconcellos – Era uma banda, Letícia! Você só pensava em sexo?! [Gargalhadas]. Não tinha interesse pela música?! Vão achar que você era groupie do Binário! [Risos].

Letícia Novaes – É que tem gente que pensa assim: “a Letícia foi ver o Binário, se apaixonou pelo Lucas e fim!”. Não é nada disso! Eu nem te via! Até porque eram muitos homens. [Risos].

Lucas Vasconcellos – Por isso que a banda não deu em nada! Como é que uma banda independente e experimental iria viajar com oito pessoas?! [Risos].

Letícia Novaes – Mas lembro que o som me chamava muito a atenção. Até fiz um vídeo do Binário com o Bob Lester [cantor, músico e sapateador brasileiro que se destacou nas décadas de 1930 e 1940]... ele já estava com uns 95 anos... Estava passando, e perguntou: “Posso tocar uma música com vocês?”. Eu estava neste dia. Peguei minha máquina fotográfica... naquela época só gravava um minuto de vídeo. Mas gravei mesmo assim e está lá no Youtube: “Bob Lester com Binário”.

Lucas Vasconcelos – Ele chegou a acompanhar a Carmen Miranda nos Estados Unidos. É foda esse vídeo. A gente toca um blues...

Letícia Novaes – Mas eu juro, não tinha reparado no Lucas mesmo... Até penso: “Que louca! Como você não viu que ele era gato?! Que mongol!”. Naquela época eu deveria estar ligada em outras pessoas, afetivamente falando. Só muito tempo depois é que me toquei: “Ah, é ele! O Lucas!”. Foi a Ana Cláudia, [vocalista] do Tono, que nos apresentou. Aí eu passei a visitar o Fotolog dele! [Risos].

Lucas Vasconcellos – A gente é muito vintage. Trocávamos umas ideias pelo Fotolog.

Letícia Novaes – Quando o Lucas escreveu pela primeira vez para mim, eu estava lendo “A Paixão Segundo G. H.” [de Clarice Lispector]. Eu havia acabado de ler uma página muito bonita que me fez pensar: “É tão lindo que eu vou parar de ler”. Sabe quando a felicidade é demais? Tem gente que tem medo. E eu era esse tipo de pessoa. Fechei o livro, bati uma foto e escrevi: “Parei”. Ele então escreveu: “Não pare, isso é a cartilha do amor, é a cartilha da paixão”. Foi bonito, sabe? Comecei a falar com ele e só aí que eu percebi: “Ah, o menino do Binário!”.


BD – Mas voltando ao Binário, o que aconteceu depois do encontro com o Bob Lester?

Lucas Vasconcellos – A gente ficou tocando durante uns dois anos na praia. Foi o maior barato. Gravamos um disco que saiu na Europa e no Japão.

Letícia Novaes – Foi um cara da gringa, um produtor inglês, que quis produzir. Foi emocionante quando estivemos na Inglaterra e vimos o álbum do Binário na Rough Trade, a maior loja de discos de Londres. Foi muito legal. Mas a história não rendeu tanto.

Lucas Vasconcellos – Metade da banda estava interessada em fazer um trabalho instrumental e a outra metade queria compor canções, com uma roupagem diferente, mas ainda assim, canções. Aí houve a ruptura: O Estevão e o Manso formaram o Rabotnik, eu fui ter uma banda com a Letícia e o Rafa criou o Tono.

BD – O Binário acabou se tornando um manancial da cena carioca...

Letícia Novaes – Muito!

Lucas Vasconcellos – E isso é maravilhoso, porque a gente realmente não compunha imbuído de um espírito carioca, sabe? Quando começamos, mais ou menos em 2001, a maioria das bandas estava naquela de misturar funk com samba. Era o que estava rolando. Pensávamos em fazer outra coisa, com outras referências. O som do Binário ia na contramão do que estava sendo feito pela cidade.

BD – O início de 2000 foi um momento bem complicado para a música brasileira... No Rio, chegou a ter uma pequena cena muito influenciada pelo indie rock, mas que acabou não tento grande repercussão...

Lucas Vasconcellos – Teve uma cena, mas eu não tenho lembranças. Estava em Petrópolis e ouvia pagode. [Risos].

Letícia Novaes – Realmente, houve um gap total, mas também não posso dizer muito porque em 2000 eu tinha 18 anos, era uma tijucana fazendo faculdade de letras no Fundão...

Lucas Vasconcellos – A nossa referência era a MTV! E antes de MTV eu era total rádio popular.

Letícia Novaes – Exatamente! E isso nos une muito. Porque a gente não estudou naquele colégio da Zona Sul que todo mundo estudou. Ele é filho de petropolitanos e eu de tijucanos, então... temos uma união pela radio popular sim.  Meus pais até ouviam Bethânia, Chico, mas... nossa! Eles são zilhões de gerações distantes da minha! Entretanto, a música clássica teve uma grande influência na minha vida e na do Lucas. Sempre vi a música clássica como uma espécie de trilha sonora, um lugar de sonhos, de possibilidades. Meu pai e minha mãe costumavam botar, no domingo, o “Bolero” de Ravel. Minha mãe ia pra cozinha fazer o almoço e meu pai ficava bebendo uísque... era uma cena linda! E eu pensando: “Que bonito!”. E foda-se qual era a tendência! [Risos].  Porque naquele momento o “Bolero” de Ravel era a coisa mais linda do mundo! Então, como não tivemos acesso aos locais aonde as coisas aconteciam, a rádio, assim como a música clássica, nos tocaram muito fortemente.

Lucas Vasconcellos – No início, eu só ouvia as músicas das aulas de piano clássico da minha mãe. Ela dava aulas em casa e havia por lá uma boa discoteca de clássicos. Só comecei a ouvir outros tipos de música quando já estava tocando violão, sabe? Eu tocava violão, clássico também. Gostava de Villa-Lobos, mas também me interessei por jazz e rock. Passei então para a guitarra e comecei a tocar com outras  pessoas. Foram estes trabalhos que acabaram direcionando as minhas referências musicais.

Letícia Novaes – O ascendente dele é em gêmeos. Gêmeos é o outro.

Lucas Vasconcellos – Até hoje é o outro que me proporciona imersões na música. Eu não sou um pesquisador. Não vou atrás de música. Elas é que vem até mim. Eu ligava o rádio e elas chegavam. Depois, elas passaram a chegar através das pessoas que vinham tocar ou cantar comigo... Quando era bossa nova, eu imergia na bossa nova, quando era rock, eu imergia no rock. Sempre fui direcionado pelas demandas profissionais.

BD – Graças às redes sociais, a sua geração tem uma proximidade com o público que nenhuma outra teve. Isto assusta? Como vocês lidam com esta intimidade?

Letícia Novaes – Temos dois fãs que tenho certeza que são de outra natureza... mas sempre os cumprimentamos, tratamos bem, mesmo sabendo que são de outro planeta.

Lucas Vasconcellos – Alguns fãs  já se acostumaram com esta nova relação e são extremamente respeitosos. Encontram com a gente, como amigos mesmo, e não são invasivos, absolutamente.

Letícia Novaes – Temos um fã que eu tenho que citar, que é o Donnie Darko, o Fábio Fernandes. Não só um fã nosso, mas um fã da música carioca. Ele tem um canal no Youtube com mais de 2000 vídeos. Vídeos de shows do Letuce, da Silvia Machete, do Del Rey, de várias bandas... Ele é um grande admirador de música. Ele é uma pessoa que vai nas apresentações, cumprimenta, mas sabe o local dele. Há um respeito. Ele não invade. Conversamos sobre as músicas... É incrível! O último show que a gente fez, no Studio RJ, uma menina bem alterada, falou assim: “Amei seu show! Amei seu show! Eu e uma amiga fomos para o Nordeste fazer uma viagem e o Letuce foi a trilha sonora do carro! Eu gosto de você porque, praticamente, se tornou nossa amiga!”. Uau, que forte isso! É bem por aí. Nunca quis passar uma imagem de distante, gatinha mistério, apesar de nossas músicas não serem tão diretas. O que significa uma música? Nem a gente mesmo sabe! [Risos]. Só sei que essa liberdade é extremamente atraente. Pra gente não há regras, nem formatos, a verdade e a emoção acima de tudo, sempre.

BD – O que é um pouco arriscado. Ainda mais hoje, com tantas mudanças, não só das mídias, mas também do mercado. As gravadoras têm grandes dificuldades em absorver os novos nomes da cena independente...

Lucas Vasconcellos – Mas o que importa estar em uma gravadora hoje em dia? É a coisa mais anacrônica que existe para qualquer artista. Algumas, acreditando que farão você bombar, oferecem um contrato de edição tentador. Mas, geralmente, só uma ou outra aposta dá certo. Elas não divulgam, não lançam o disco direito, tentam inserir o trabalho em lugares incompatíveis e desistem do artista. Ou seja, é um negócio ruim, sabe? Quando a gravadora compra a edição, ela quer que o artista faça uma porrada de shows e que apareça em um monte de lugares para poder lucrar com ele. Quando a gravadora percebe que não está arrecadando... é a maior jogação de dinheiro fora! Eles não conseguem achar uma nova fórmula para comercializar e lucrar com música. Mas estão tentando. Está tudo mudando muito rápido e as pessoas não conseguem acompanhar, mesmo sendo de uma empresa foda! Uma major, pelo tamanho da estrutura e do investimento, acaba mais engessada e tendo mais problemas para se reestruturar do que as empresas pequenas, que não têm nada a perder. Com certeza as gravadoras não lucram com esses novos artistas vindos da cena independente. Salvo raras exceções. O dinheiro que elas oferecem para a gravação não tem retorno. E aí, o que acontece? O tempo passa, a gravadora perde o interesse, o segundo disco tem que ser lançado, o artista faz seu trabalho meio às pressas, a empresa bota na rua de qualquer jeito e tchau! Acabou o contrato.


 BD – Por falar em relacionamento com empresas e mídias, vocês receberam críticas severas por parte da imprensa, principalmente do [crítico e colunista] Mauro Ferreira, do [jornal] O Dia. Como reagiram?

Letícia Novaes – O único crítico, o único! Dos 15 críticos que falaram do disco, de Minas, do Sul, do Nordeste, de sei lá onde, um falou mal.  

Lucas Vasconcellos – Esculachou, na verdade.

Letícia Novaes – Ele falou: “Disco brochante”! Sendo que no fundo, no fundo, eu achei legal ele ter dito isto. Pensei: “Bacana. O amor pode ser brochante”. O primeiro álbum é mais aquático, apaixonado, delirante... o segundo disco, já é um mergulho mais sombrio.

Lucas Vasconcellos – Mais reflexivo... Esse crítico tem uma relação muito nostálgica com a música. Ele pensa: “Cantora de música brasileira é igual a x”. Só que aí, quando ele ouve uma y, dá um tilt. Não se entrega ao mistério. Tenho certeza que ele é o tipo de cara que coloca os artistas em gavetinhas certas, então, para mim, não interessa a sua opinião. Quero ler quem escreve livremente. Quero que todas as pessoas que nos botam em gavetinhas se fodam. Nosso lugar é nenhum e todos. Nossa música não segue um padrão ou um estilo fechado.

Letícia Novaes – “Ela até canta bem, mas...”! “Usa palavras despudoradas”! “Banda hype”! Oi?! [Risos]. Respirei e deixei passar. Ele é uma pessoa pela qual eu não tenho interesse. Já li algumas resenhas dele. Quando lançamos o nosso primeiro disco, até recebemos elogios. Mas do que é que ele falou bem? Das regravações da Rita Lee, da Marina Lima e por incluirmos um trecho de “Cabecinha no ombro”. Mas não falou bem do nosso trabalho autoral. Então, resumindo, o santo não bate. É uma explicação antiga, mas ainda atual e...

Lucas Vasconcellos – Clássica! Nós, como artistas, expressamos em nosso trabalho o que somos.

Letícia Novaes – Quer dizer então que ser espontâneo, livre, especulativo e não querer imitar a Marisa Monte é ser hype?! É isso?! A nossa poesia não bate nele. E, até de certa forma, que bom!

Lucas Vasconcellos – E pra bater o martelo sobre este assunto: a gente mandou os CDs para diversos jornalistas e publicações, sem saber para quem exatamente. 

Letícia Novaes – Sem critérios.

Lucas Vasconcellos – Então, na realidade, não podemos reclamar de uma ou outra crítica negativa porque fomos nós que mandamos o disco. Ele não ficou falando: “Ah, me dá seu disco aí, para fazer a crítica”. A gente é que mandou! E a reação que temos é totalmente pessoal e explicável.

Letícia Novaes – Eu me lembro que quando saiu essa crítica, um fã no Twitter disse assim: “Olha, fulano falou isso”... Aí pensei: “Ouça sozinho, ouça sem ler!”.

Lucas Vasconcellos – Isso depende de cada um, Letícia. Tem gente que gosta de saber de tudo antes de assistir a um filme, por exemplo. Descobre quem é o diretor, quantos filmes ele já fez, bilheteria, quantos prêmios ganhou, lê as críticas...  A princípio, se você tem um espaço onde se predispõem a falar sobre arte, imagina-se que você irá informar a respeito de trabalhos que te emocionam, que considera interessantes. Você não quer ter um canal de comunicação para alertar os outros de que um disco ou um show é ruim! Não compensa! As coisas ruins falam por si!

BD – De modo geral, os artistas têm o hábito de reclamar bastante da imprensa...

Lucas Vasconcellos – Eu li também outra crítica: “Letícia, numa saudável autocrítica, diz que não tem ouvido para afinação”...

Letícia Novaes – Fiquei tão incomodada... Era pra ser uma autocrítica? Como as coisas chegam para os outros? Beira o hilário. Mas o Lucas me acalmou: “Você não faz autocrítica, você faz poesia!”. Falei: “Obrigada, baby!”. Era uma crítica de um jornalista que nunca foi ao nosso show, embora more no Rio. Mas ele falou superbem do Lucas! [Risos]. Existem alguns críticos e jornalistas que nunca vão aos shows e que nem sequer ouvem os discos. A gente deu uma entrevista para um dos jornais mais importantes do país e era visível que a pessoa não tinha escutado o nosso trabalho. Olha que periclitante! Que sujeira! Que equívoco!

Lucas Vasconcellos – A pessoa fazia perguntas assim: “Como vocês se sentem?”, “E vocês e a internet? Como é essa parada da internet?”! [Risos].

Letícia Novaes – “O primeiro disco teve francês, né?”! Bate uma preguiça... E como eu lido muito com a internet, conheço todos esses jornalistas. Não são tão anônimos assim. Então, quando você observa, percebe que eles costumam ir somente aos showzinhos dos gringos! Cadê eles falando da galera da nossa geração? Não tem! Só alguns. E dentre esses, uns sabem do que falam, outros cumprem pauta.

BD – Mudando um pouco de assunto, o trabalho de vocês tem um lado artesanal e lúdico que parece perpassar por todo o processo de criação. Esta intimidade e delicadeza são intencionais?

Lucas Vasconcellos – É a nossa assinatura. A gente até questionou um pouco isso. O nosso trabalho é totalmente associado à nossa vida pessoal, amorosa... é meio "bigbrotheriano"...

Letícia Novaes – Mas também é muito chato quando as pessoas nos veem como se fossemos siameses, sabe? “Vocês do Letuce”, “Lucas e eu”...

Lucas Vasconcellos – Mas tudo isso foi uma ideia que se construiu a partir de nós. Nunca sofri com essa questão...

Letícia Novaes – [Interrompendo] Quem está falando em sofrer?! [Gargalhadas generalizadas]. Não estou falando em sofrimento. Estou falando que é muito legal quando percebem que somos duas pessoas diferentes que piram numa loucura em comum, num ideal. É chato quando pensam que nascemos um para o outro.  Que nos completamos! [Faz uma expressão de nojo]... Como se eu fosse duas pernas esperando um tronco...

Lucas Vasconcellos – “Vocês são fofos”... isto é chato. Porque fazemos questão de manter algum defeito em nossa obra.

Letícia Novaes – Exatamente. Mas essa imperfeição está relacionada à nossa busca por uma estética mais orgânica.

Lucas Vasconcellos – Existem trabalhos mais sérios, mais profundos. Em alguns casos o acabamento é tudo, em outros a pós-produção ou o conceito são mais importantes... E têm trabalhos que não estão interessados nestes aspectos, que a sua própria confecção fala por si. E por isto mesmo agrega a história pessoal dos artistas envolvidos. Este é o nosso objetivo.

Letícia Novaes – Uma coisa que eu sempre penso é que o Letuce não é a coisa mais importante da minha vida. Eu posso viver sem a banda. Vai ser uma merda, eu vou ficar triste, mas ela não é a coisa mais importante do mundo. Não é! Sou uma mulher de trinta anos, inteligente... É óbvio que eu vou conseguir outra coisa. Vou ser feliz? Não sei... Talvez não, mas se não deixar isso acontecer naturalmente eu vou enlouquecer... Para mim, a coisa mais importante da vida é a minha saúde, a do Lucas, a da minha mãe, do meu pai... É outro patamar, outro plano. Que bom que as coisas estão acontecendo, mas se não acontecer, não vou cortar os pulsos. Não vou! Porque tenho a consciência de que é uma fase. Tenho a noção de que a gente pode não agradar o grande público... e por quantos anos conseguiremos viver sendo apenas alternativos? Por quantos anos a gente aguenta isso?

Lucas Vasconcellos – Talvez um trabalho de música só se mantenha por muitos anos se tiver certo nível de aceitação. Mas ao mesmo tempo, nesses três anos e meio de Letuce, percebemos que existe uma nova realidade onde você pode não ficar rico com música, mas pode ter uma vida legal.  Igual ao dono de uma padaria que vai planejar o seu faturamento e cria, dentro do possível, suas estratégias de marketing. Viramos uma padaria! [Risos]. Somos uma microempresa de fundo de quintal cuja matéria prima é a nossa música e vamos administrando nossas carreiras igual a qualquer outro profissional.    

BD – A sua geração desmitificou totalmente a figura do artista...

Lucas Vasconcellos – Exatamente! É uma profissão igual a de advogado. Meu pai era advogado. Ele saía todo dia, trabalhava, voltava cansado, às vezes fazia o que não gostava... Às vezes tinha êxito e se envaidecia. Em outras ocasiões se envolvia em alguma mesquinharia para ganhar uns trocados. Igualzinho ao nosso trabalho com música.

Letícia Novaes – Eu nem consegui mitificar o que já me foi apresentado tão desmitificado! [Risos]. A não ser que tivesse transitado ou frequentado outra realidade e pensasse: “É isso que eu quero!”. 

Lucas Vasconcellos – Aliás, todos os músicos que eu conheço têm olheiras e trabalham pra cacete!

Letícia Novaes – E pagam a conta um dia após o vencimento! [Risos]. A realidade  que nos foi apresentada foi esta.



BD – Alguns reclamam da falta de tempo para estudar, para ler ou se aperfeiçoar. Como vocês veem isto?

Lucas Vasconcellos – Eu duvido que um cara que trabalha no Correio, por exemplo, quando chega à sua casa, tenha tempo para ler um livro.

Letícia Novaes – Um entre cem vai!

Lucas Vasconcellos – Mas você precisa de tempo para produzir. E isto realmente é o maior dilema. Alguns músicos que conheço têm uma rotina parecida com a minha: dão aula, trabalham em estúdio e durante o dia fazem produções mil. E tudo isto tira o tempo que você tem para criar. É uma merda, mas  também faz parte da história de cada um. Alguns artistas nasceram em famílias que podiam auxiliá-los enquanto se dedicavam à música, sem se preocupar com a questão financeira. Outros tiveram uma vida mais classe média, que é o nosso caso. Se pararmos de trabalhar, não teremos como pagar as contas. Estou planejando a minha vida para que no ano que vem não precise mais lecionar. Passei três meses no início deste ano sem dar aulas e produzi pra caralho, foi muito bom.

BD – Eu me pergunto quando os músicos desta geração tem tempo para compor...

Letícia Novaes – Na estrada, querido!

BD – Mas dá?

Letícia Novaes – Dá super pra compor na estrada!

Lucas Vasconcellos – A estrada é um lugar onde só tem novidade. Nada mais inspirador para compor do que um monte de novidades. O marasmo do estúdio, a mesma casa, a rotina, a televisão... você acaba ficando sem ideias.

Letícia Novaes – O ineditismo traz muitas sensações. O distante é um lugar muito curioso.

Lucas Vasconcellos – Tudo muda quando se está em turnê. Você conhece novos lugares, conhece pessoas diferentes. Seu senso de humor é outro, seus horários são outros. Sua rotina é invadida por novidades inspiradoras. Isto é melhor para compor do que ficar em casa.

Letícia Novaes – Mas é claro que a rotina também tem sua importância. Dá para compor estando em casa. Mas é outro tipo de mergulho. É outro tipo de especulação.

BD – O primeiro álbum, “Plano de Fuga Pra Cima dos Outros e de Mim”, parece muito acanhado se comparado ao “Manja Perene”.  É como se vocês pedissem licença para apresentar aquelas canções. Já o trabalho novo é muito mais certeiro e percebe-se que ali existe uma identidade. Vocês também têm esta sensação?

Lucas Vasconcellos – No primeiro disco, a gente estava tentando se colocar no mundo.

Letícia Novaes – Sabe o que eu pensei hoje, na fila do banco? Que, inconscientemente, não ficamos satisfeitos com o que as pessoas pensaram de nós com o primeiro disco: “Ai, que fofos! São namorados! Amor! Ah!”. Porque  nunca fomos isto, mesmo quando nos conhecemos, no início, no auge da paixão, da loucura e da demência. Então, talvez não tenhamos ficado tão satisfeitos assim com a repercussão. Claro, muita gente gostou. Foi uma grande surpresa. Que bom, críticas boas. Que bom ser aceito de cara, ufa! Mas fiquei penando: “Ai, esse 'nhonnhonnhon'.... Não é nada disso!”. Aí, no segundo disco, a gente falou: “Ó, vocês aí, que tão viajando, olha isto aqui! Raios e trovões!”.

Lucas Vasconcellos – Eu racionalizei totalmente esta mudança. São coisas reais, eu acho. No nosso primeiro disco existia uma atmosfera de composição, com os violões... as músicas tinham uma abordagem mais sublimada, mais irreal, cheia de mise-en-scène. Antes de gravarmos o segundo disco, fizemos muitos shows, descobri como arranjador uma onda muito forte com a guitarra. Entendi que ela é capaz de manipular a dinâmica do show.

Letícia Novaes – No “Manja Perene” a gente quase não tem violões.

Lucas Vasconcellos – E a Letícia também teve um entendimento com a sua voz. Ela resgatou sua época rock’n’roll que sempre foi muito forte e que a influencia até hoje. Assumimos isto tudo no segundo disco. E no primeiro disco não, estávamos mais interessados um no outro, especulando sobre o nosso estilo e querendo apresentar para o outro algo mais delicado, mais envolto em cuidados.

Letícia Novaes – No primeiro disco eu sinto que ainda negava o posto que no fundo, no fundo, eu não sabia que poderia estar, que é o de cantora. Porque vocês são homens e...

Lucas Vasconcellos – Não é isso...
        
Letícia Novaes – [Interrompendo] Cala! Cala! Eu não acabei de falar, caramba! [Gargalhadas]. Vocês não sabem o que é ser uma guria na Tijuca e pensar: “Vou ser cantora!”. Não existe esta possibilidade. Meus pais nem me incentivavam a isto. Eles ouviam música boa, que bom! Era um incentivo. Mas ninguém falava: “Canta aí, Letícia!”. Não, imagina! Então estas questões estavam muito internalizadas... Quando eu entrei para a CAL [Casa das Artes de Laranjeiras], a primeira aula era de música. Eu cheguei atrasada e no primeiro minuto da aula, o professor disse: “Você aí, atrasada, canta uma música”. Bradei “Mercedes Benz”, porque amava Janis, e pela ironia de ter chegado atrasada. Eu pegava dois ônibus e o metrô pra chegar lá. Foi muito impactante, meus amigos lembram disso até hoje. A primeira coisa que fiz no curso de teatro foi cantar. Sabe? Mensagens do universo. Com 22 anos comecei a compor no violão. Minha primeira música se chamava “Love sucks”. Olha que ironia. Formei uma banda com uns amigos tijucanos, Letícios. Mas era pura loucura, shows em lugares bizarros, sem ganhar nada. Depois tive uma banda de música eletrônica, o Ménage à Trois, com o João Brasil e o Pcatran. Era divertido, mas ainda não era o mundo dos diários, sabe? Só quando eu conheci o Lucas, é que consegui abrir a cabeça de verdade. A voz já estava aberta, o coração também já estava pra jogo, faltava a cabeça assimilar tudo isto.
  
Lucas Vasconcellos – Quando conheci a Letícia, eu pensei: “É a cantora! A gente vai fazer uma parada!”.

Letícia Novaes – Todo apaixonado é cego. Hoje em dia eu penso: “Caramba! Eu sou cantora!”. Adquiri esta consciência. No início, nem imaginava o poder que isto teria. Mas agora fico pirando.  [Risos]. Passo noites sem dormir pensando na minha forma de cantar. Um negócio maluco! Mas acredito que foi na hora que tinha que ser. Nunca atropelei nada na minha vida. Eu tô pobre, mas não atropelo nada nem ninguém. [Risos].

BD – Letícia, você falou em uma entrevista recentemente que o rock mudou a sua vida. Como foi isso?

Letícia Novaes – Falei. Porque durante a minha adolescência de bullying, existiu uma banda chamada Legião Urbana. Sei que algumas pessoas vão pesar: “Ai, que vergonha!”, “Ai, que brega!”. Mas, falando sério, o Renato Russo pode ter sido o meu grande salvador em um momento suicida da minha vida. As suas músicas, desde as mais clichês até as mais obscuras e introspectivas, foram muito importantes para mim. A Legião Urbana e o Renato Russo mudaram a minha vida. Eu ouvia e pensava: “Ai, ele tá falando comigo! Eu tenho solução, tenho uma chance. Não vou ser zoada e me fuder. Olha só esse maluco! O cara é gay, morou em Brasília e era discriminado! E olha onde está! Fazendo música pro Brasil inteiro!”.  Foi um período de delírio, de devaneio... Sou muito fã de Renato Russo, por mais cafona que isso possa parecer. Para mim ele é antes de tudo. Ainda mais porque ele era um compositor da língua portuguesa. Posso amar Beatles, posso amar P. J. Harvey, mas a língua portuguesa é muito forte para mim. Eu sempre vou chorar em português, sempre vou gozar em português...

Lucas Vasconcellos – E a gente sabe como é complicado fazer uma música foda em português, com referências literárias... É muito difícil criar uma música simples e, ao mesmo tempo, com aquela grandeza que havia nas composições do Renato Russo...

BD – A geração de vocês tem, entre os principais álbuns, o “Efêmera” da Tulipa Ruiz e “Feito para acabar” do Marcelo Jeneci. O que evocou, na época, a questão da modernidade líquida, da superficialidade das relações contemporâneas. E agora vocês lançam “Manja Perene”. Foi intencional este antagonismo?

Letícia Novaes – Nunca tinha pensado nisso! [Risos]. Que legal! Eu gosto muito do “Efêmera”. A Tulipa realmente é uma querida. Que figura! Que consciência! Que iluminação! Gosto muito do “Feito pra acabar”. Não tive a mesma epifania de quando ouvi “Efêmera”, mas também adoro. “Manja Perene” veio de uma poesia. E na poesia pode-se tudo, meu amor! [Risos]. Poesia é a coisa mais livre do mundo. Posso escrever o que quiser, posso declamar o que quiser. E um dia fiz uma poesia para o Lucas. Sobre o amor. Eu olhei para ele e pensei: “Eu quero eternizar este amor”. Eu ficava: “Sabe pra sempre? Manja perene?”. Ele achou engraçado quando leu “manja perene”. E guardou. Um ano depois, quando a gente estava pensando no nome do novo disco, um olhou para o outro e falamos: “Manja Perene!”... Nunca tinha pensado nesta relação com o “Efêmera” e o “Feito para acabar”... Mas são antíteses muito fortes, realmente: efêmero e perene... Eu não sou muito fã da modernidade líquida, seja por educação ou pelo meu próprio destino. Sempre gostei de caule, de tronco, de raiz. Sou extremamente humanista, e ainda romântica. Até tenho sensações superficiais ou efêmeras na minha vida, óbvio, também não quero ser “a profundona”. Tem que saber dosar. E estou conseguindo. O que pensei ao compor este disco é perene. Mais do que o primeiro. No “Plano de Fuga”, estava admirada com o susto que é perceber que se pode compor com a pessoa por quem se está apaixonada. Tudo era um susto: Ah, que graça. No “Manja Perene”, tudo veio mais profundo, as letras, as melodias... vinham desse núcleo da Terra, que eu tanto respeito.

BD – Letícia, li que você está envolvida em um projeto de um disco-livro...

Letícia Novaes – O que acontece? Eu e o Lucas temos uma relação muito telepática. Um sabe o que o outro quer passar com o seu trabalho. Então, em determinado momento, sentimos que seria legal ele fazer um disco solo. O Lucas tem músicas lindas. É um grande produtor e instrumentista. Eu sou a sua maior incentivadora. E ele também me incentiva muito a escrever. Escrever o quê? Um livro, poesias... Daí eu pensei: Porque não faço um livro com uma trilha sonora? Um livro com disco? Então, este projeto existe, ele já está sendo fomentado e o disco do Lucas também. Já está super...

Lucas Vasconcellos – Tem umas gravações de celular...

Letícia Novaes – Hoje em dia gravações de celular já são muita coisa!

Lucas Vasconcellos – É pré-produção! [Risos].

Letícia Novaes – E eu fico muito feliz com isto! O Lucas tem a cabeça dele, eu tenho a minha... Claro que ele vai ser o produtor do disco que virá no livro e claro que eu serei a primeira pessoa a ouvir as músicas de seu trabalho.

Lucas Vasconcellos – Certo que sim. E a gente é muito tranquilo um com o outro. Isto não irá representar uma ruptura da nossa trajetória.

Letícia Novaes – Imagina! Nem eu nem ele somos mais crianças. A gente é muito terra: o Lucas é touro e eu sou capricórnio. Somos muito pé no chão, mas com uma luazinha doida. [Risos]. Eu até falo isso na análise: “Como eu queria ter vícios, ser locona!”. Não tenho nenhum... Porque vício é uma sensação muito estranha, do “não posso viver sem”. A gente é muito tranquilo em relação a isto.

Lucas Vasconcellos – Você é até mais pé no chão do que eu.


BD – Voltando à questão geracional, Letícia, você já falou algumas vezes da admiração que tem pelo Romulo Fróes. O que a encanta em seu trabalho? A princípio ele parece tão austero perto do Letuce...

Letícia Novaes – Eu conheci o Romulo Fróes através da Nina [Becker], que é uma grande querida. Ela me contou que havia gravado algumas vozes em um disco do Romulo. Eu nem conhecia o trabalho dele ainda... olha que lerda! [Risos]. Só fui conhecê-lo no “Labirinto em cada pé”, que é o seu último álbum. E aí pirei, derreti o cérebro. Fui ao show no OI Futuro, sozinha, porque o Lucas estava viajando, em turnê com o Lucas Santtana. E fiquei muito feliz quando ele disse... não sei as palavras certas, mas o Romulo bateu no peito mais forte e gritou “Eu sou o ilê!”, ao dizer que na nossa geração havia gênios musicais ou algo assim, enaltecendo as músicas feitas atualmente. Fiquei feliz, porque é raro ouvir isto, o povo é nostálgico ou peca para os gringos.

Lucas Vasconcellos – O Lucas [Santtana] me falava sempre dele. Acho interessante a sua parceira com o [artista plástico] Nuno Ramos. Porque você jura que é o Romulo que escreve! Mas não! A primeira coisa que falei pro Lucas foi: “Porra, o Romulo Fróes é foda, escreve bem pra caralho!”. E aí o Lucas: “Ele não escreve. Quem escreve é o Nuno”.

Letícia Novaes – E isto é mais maravilhoso ainda! Queria deixar muito claro: acho fabuloso quando surgem parcerias com pessoas que não são do meio da música. É um saco gente de música que só fala sobre música, gente de teatro que só fala sobre teatro, gente da dança que só fala sobre dança... Vamos misturar tudo! As possibilidades são infinitas e tamanhas! E ainda bem que conheço algumas pessoas, sejam do teatro ou da música, que se mesclam mais. Temos uma música do [cartunista] André Dahmer no nosso segundo álbum,  “Ninguém muda ninguém. E fizemos questão de terminar o disco com ela. Os processos de criação deveriam ser mais misturados. Isso rende que é uma beleza. Pode ser caótico, mas sai do lugar comum.

BD – Vocês fizeram o Churrasquinho Sunset, gravaram o “EP de couves” e, no carnaval passado, montaram uma espécie de bloco, os Clementianos. Não tem como não associar estes projetos aos bailes da Orquestra Imperial. Ela é uma referência?

Lucas Vasconcellos – No Rio de Janeiro tudo é muito lúdico. Fazemos as coisas no chinelão mesmo. Mas a pesquisa de repertório da Orquestra Imperial é um pouco mais profunda do que a nossa. Sem querer desmerecer a qualidade de repertório de ninguém, mas sabendo que eles tocam Ataulfo Alves e a gente toca...

Letícia Novaes – Molejo! E isto não é forjado. É a nossa vida.

Lucas Vasconcellos – A nossa realidade é tocar músicas da Sade e do Molejo e a da Orquestra Imperial não. Conheci o Moreno [Veloso] há pouco tempo e troquei umas ideias... E ele realmente ouve Ataulfo Alves! É diferente. Cada um de nós tem a sua história e o pessoal da Orquestra é muito honesta com a sua. Eu sei que este tipo de música faz parte da vida deles. Tanto quanto da nossa faz parte...   

Letícia Novaes – O Molejo! [Risos].

Lucas Vasconcellos – E atraímos a mesma galera. Garanto! O nosso público ouve tudo e é tão curioso pelo Assis Valente quanto pela Sade. Você percebe que não faz diferença se é a Britney [Spears] ou...

Letícia Novaes – Eu! [Gargalhadas].







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5 Responses to outros bárbaros, tão doces, tão cruéis

  1. Swã Medeiros :

    Muitooooooooooo Boom!!

  2. ótima entrevista! Quando conheci Letuce, confesso que não entendi e logo disse não ter gostado. Sem precisar insistir, logo entrei na onda, quis enxergar que o som que faziam, do modo como faziam, era maior do que eu pude supor num primeiro momento e era apaixonante. A gente peca nessa coisa de querer fazer tudo rápido.

    Acho que fui fisgado mesmo por Undererê, era demais poder cantar aquilo sem sentir vergonha por conhecer Eliana de Lima, haha. Fui me vendo nos detalhes que percebia nas letras e nos sons e admiro cada vez mais o trampo deles. Dá uma satisfação e tanto ver gente boa crescendo, se mostrando... ótimo. Ah, e o show arrepia. Entrega, verdade e música.

  3. Letuce não é pra entender, é pra sentir! <3
    Adorei a entrevista! Mas poderia ter falado mais da Letícia e suas multiplicidades.

  4. Márcio,
    veja só, tardiamente essa semana "descobri" melhor o casal francês, estudando a língua, e fiquei doida.
    O lance da semelhança do letuce com o casal Lee-Carvalho eu concordava, mas Birkin-Gainsbourg nunca pensara. E, pois, batata!
    Clap clap!
    Mara entrevista.
    Bjs

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