agitando a casbah


fotos: daryan dornelles




Karina Buhr é a própria síntese das mudanças por que passa a música brasileira nestes últimos tempos. Com destacada e ativa participação de uma nova cena de artistas independentes, a produção nacional vem se distanciando do que por um longo tempo se convencionou chamar de MPB. Muito por conta do caráter híbrido desta  geração que, se por um lado, não teme em dialogar com gêneros até então mal vistos por nossa elite cultural, por outro, se aparata com novas tecnologias e mídias que a faz assumir uma identidade pop e globalizada. 
Nascida na Bahia e criada no Recife, Karina iniciou a sua carreira em Pernambuco, nos anos 90, durante a eclosão do manguebeat. Participou dos Maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante e chegou a integrar o Véio Mangaba e Suas Pastoras Endiabradas e a então punk rock Banda Eddie. Posteriormente, fundou a Comadre Fulozinha, grupo feminino de percussão e voz de forte acento regional. Ainda nesta cena, tocou com Bonsucesso Samba Clube e DJ Dolores. No final da década, Karina foi convidada pelo diretor e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa para integrar a Cia.Teatro Oficina, levando-a a participar das montagens de As Bacantes (2001), A Terra (2002) e Os Sertões (2003). Este foi o pontapé inicial para que a cantora deixasse Recife e, ao se mudar para São Paulo, retomasse antigas ideias e desenvolvesse de forma consistente a sua carreira solo. Ainda assim, neste meio tempo, Karina lançou o terceiro álbum da Comadre Fulozinha, Vou voltar andando(2009). Após cinco anos no Teatro Oficina, finalmente passou a se dedicar de forma integral à música e, em 2010, lançou o festejado álbum Eu menti pra você, seguido de um sem número de shows e participações em festivais nacionais e internacionais. Em 2011, pouco antes de se apresentar no palco Sunset do Rock in Rio, ao lado de Marcelo Yuka, Cibelle e Amora Pêra, Karina lançou o primeiro clipe de seu segundo álbum,Cara palavra, filmado pelo fotógrafo Jorge Bispo no Marrocos. O disco, Longe de onde, gravado através do edital Natura Musical, foi então disponibilizado para download no mês seguinte.
Sem qualquer preocupação em vir a ser baluarte da música regional ou ícone da pós-modernidade, Karina se tornou uma das figuras mais importantes do atual cenário da música brasileira. Negando o cargo de porta-voz de uma cena em que foi arbitrariamente inserida - a neoMPB -, a cantora aceitou participar do Banda Desenhada e não hesitou em dar suas opiniões, mesmo que em meio a um insuportável rush de uma sexta-feira carioca:

BD - Como você entrou em contato com a cultura popular/regional? Sempre foi algo presente na sua vida?

Karina Buhr – Pode rolar uma visão meio romântica de que eu ia ao Maracatu e ao Cavalo Marinho desde criança, mas não foi assim. Tive o primeiro contato com Cavalo Marinho por volta dos dezoito anos. Comecei indo para o interior de Pernambuco com Siba,  Eder ["O" Rocha] e Helder [Vasconcelos], que, na época, eram do Mestre Ambrósio. Passei então a tocar, só que estas festas sempre foram muito fechadas, as mulheres não participavam. Ficavam apenas lá, assistindo. Era frustrante, porque ao mesmo tempo em que era massa tentar quebrar essas barreiras, era também muito exaustivo. Toquei ganzá por algumas vezes no Cavalo Marinho de Mestre Inácio, depois saí no Piaba de Ouro, que é o Maracatu de Mestre Salustiano. E neste, mulher não podia tocar mesmo! Nos Cavalos Marinhos também não, mas não havia um decreto. No Piaba havia. Salu costumava dizer que: “Maracatu bom era na época em que até as baianas eram homens”! Quando ele não estava, tocava junto com os músicos até que aparecesse e chamasse algum homem para colocar em meu lugar.

BD – O seu primeiro álbum solo é extremamente cosmopolita e integrado com uma sonoridade mais pop, se formos comparar com o período em que esteve na [Nação de Maracatu] Estrela Brilhante e à frente da Comadre Fulozinha. A ideia de diversificação do seu trabalho, desse desenraizamento, sempre a acompanhou? É intencional?

Karina Buhr – Não é um desenraizamento, sempre gostei de caminhar por vários universos diferentes. Consigo me divertir tanto numa roda de ciranda quanto em um show dos Racionais, ouvindo Kraftwerk ou Luiz Gonzaga. Antes da Comadre Fulozinha, eu já tocava no Eddie, a convite de Fabinho [Fábio Trummer, vocalista da banda]. Eu era muito fã! Na época eles faziam covers de Ramones e Sex Pistols. Depois que saí do Eddie, entrei para o Bonsucesso Samba Clube e cheguei a tocar com o DJ Dolores e a participar de trilhas para teatro e cinema. Acho do caralho rock'n'roll com baixo, bateria e guitarra; e o coco só com percussão e voz! Sempre gostei muito disso, mas não acredito que obrigatoriamente eles precisem se misturar. Pode até vir a acontecer. Eu mesma já fiz algumas vezes, mas não vejo necessidade de juntar os dois estilos para que eles supostamente melhorem ou se tornem mais contemporâneos. Fiquei muito tensa quando entrei para o Eddie, pois não via muito espaço para percussão. Aos poucos é que foi rolando. Já na Comadre, o formato da banda acabou me aprisionando. E não era essa a nossa intenção, mas com essa coisa de release, entrevistas, matérias...  Era tudo muito repetitivo e acabamos criando, sem querer, um discurso programado que era reiterado e incentivado pelos jornalistas que, por sua vez, tinham um conceito prévio em relação a uma banda só de mulheres com percussão e voz... Então ficava um monte de fantasmas pairando ao redor da Comadre Fulozinha, como se já não bastasse ela mesma ser um fantasma [Comadre Fulozinha é uma personagem mitológica do Nordeste brasileiro, trata-se do espírito de uma cabocla que vive na mata protegendo a natureza dos caçadores]! [Risos]. Eu gostava e ainda gosto desse formato, mas fiquei muito aprisionada e estava sentindo falta do rock'n'roll que havia no Eddie. Depois rolou o convite de Zé Celso para participar do Teatro Oficina. Foi em 1998, mais ou menos, mas só fui de vez para São Paulo em 2003. Precisei tomar coragem para essa mudança: quebrar com o ciclo da Comadre e partir para o meu trabalho solo. Passei cinco anos no Oficina, até que saí e, finalmente, comecei esta história. 

BD - Mas e a questão da sonoridade, de você buscar as referências para o Eu menti pra você

Karina Buhr – Eu já queria esse tipo de som há muito tempo. Estava buscando novamente um formato rock'n'roll, mas ao mesmo tempo não queria botar guitarra. Comecei a fazer os arranjos junto com o Otávio Ortega e o [Guilherme] Calzavara, que formaram a minha primeira banda. Depois, já com Mau no baixo, Guizado no trompete e Bruno Buarque na bateria, ficamos por um ano sem guitarra. Eu batia o pé nisso, porque realmente não sentia falta e queria lidar com essa dificuldade de não ter a guitarra e, ao mesmo tempo, buscar uma sonoridade mais pesada. Mas acabou que, na hora de gravar o disco, chamei o [Fernando] Catatau, que é um grande amigo e uma pessoa com quem sempre comentei a respeito deste trabalho. Fui ver no que ia dar, já desconfiando que, no final das contas, iria querer guitarra no show. Só que aí, do nada, o Edgard [Scandurra] foi assistir uma apresentação, ainda com o antigo formato, e, no dia seguinte, falou: “Se precisarem de uma guitarrinha”... Estava na última semana de gravação! Foi tudo muito louco. Já havia uma guitarra que era uma coisa que eu bati muito o pé com um “não quero, não quero, não quero, não quero”, sendo que já tinha querido, né? [Risos]. E, no fim, rolou o Edgar aos 47 minutos do segundo tempo! Na hora, pensei em duas músicas que achei que tinham muito a ver com ele, que eram “Eu menti para você” e “Nassira e Najaf”. Não fazia a menor idéia de como iria rolar daí pra frente, mas acabou que foi bem natural. A banda ficou com este formato desde o show de lançamento e não consegui mais me desfazer das duas guitarras! [Risos]



BD – É interessante porque por mais que haja rock'n'roll, você acabou entrando para o hall da Neo MPB, junto com outros artistas que vivem em São Paulo. Você vê alguma ligação entre seu trabalho e o de outros de sua geração?

Karina Buhr – Na verdade, acho que cada um está em seu canto. O único elo que percebo é o temporal, de estarmos produzindo e atuando neste momento. E, mesmo assim, não considero como algo relacionado à geração, já que exite uma grande diferença de idade entre a gente. Nosso som não é parecido e nem começamos a fazer música na mesma época. Essa história de cena ou movimento dificulta bastante a divulgação das nossas ideias, das nossas particularidades. Quando a informação se espalha, ela já vai com mil filtros. Você sabe da sua história, da sua intenção, mas quem vai escrever, ler e ouvir, talvez não. E acaba ficando muito reducionista. Muitas vezes a notícia rola de um jeito que o artista e o seu trabalho se tornam uma fantasia de quem está escrevendo. Tudo bem, é normal você criar uma versão sobre o que está ouvindo, da maneira que entendeu, que sentiu. É válido, mas a realidade é muito mais ampla e diversificada. Essa coisa de geração, de Nova MPB... Tenho muita dificuldade em lidar. Ao mesmo tempo que é real, realmente diversos artistas estão aparecendo na mídia neste momento, você vai ver que na sua história, no seu dia a dia, cada um trilhou caminhos completamente diferentes do outro. Não existe apenas um som, nem um só começo. Então acaba se forjando uma panela forçada.

BD – Mas inegavelmente há uma cena. Existe um grupo de músicos fazendo um som na mesma cidade. 

Karina Buhr – Sim, existe uma cena forte, mas o louco de falar sobre movimento é porque, se realmente existe, ele é esquizofrênico: Cada um tem sua história e quer falar sobre ela. Entretanto, quem está vendo de fora só consegue pensar que em 2010 apareceu tal e tal artista... É o que se divulga... E, na verdade, boa parte de nós surgiu em situações e momentos bem diferentes. Como é o meu caso. Comecei a tocar em 94 no Maracatu! Em 92 já fazia um monte de coisas lá em Recife! Em  circunstâncias totalmente diferentes da Tulipa (Ruiz), por exemplo. Então, muitas vezes quando as notícias são dadas, vários detalhes passam despercebidos. Só que estes são fundamentais para se entender como tudo realmente aconteceu. 

BD – Mesmo que esta história de movimento seja questionável, você percebe uma forte ligação entre o mangue beat e o som que está sendo produzido atualmente em São Paulo, não?

Karina Buhr – Acho que o que aconteceu em Recife inspirou muita gente tanto de lá quanto de outras partes do país, mas essa inspiração pode ter se dado de várias maneiras e não somente através da música. Em Recife o que sempre rolou foi isso: um monte de sons totalmente diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Tinha Devotos do Ódio, Comadre Fulozinha, Mundo Livre, Nação Zumbi, Faces do Subúrbio, Mestre Ambrósio, Eddie... Fora todos os Maracatus, orquestras de frevo e o carnaval... Sempre foi assim. E foi nessa realidade que, inclusive, comecei a tocar. Enquanto isso, em São Paulo, estavam acontecendo outras coisas, bem diferentes das que rolavam em Pernambuco. É difícil dizer em que grau, mas acredito que exista realmente uma influência, sobretudo se olharmos para a música independente. Lá em Recife rolava uma coisa muito punk, no sentido de diversão, de tocar e ver no que vai dar. Se por um lado este comportamento foi um pouco prejudicial, por outro conservou uma espontaneidade que é do caralho e ajudou a desenvolver o tipo de som que ainda é feito por lá. 

BD – Você já chegou a dizer que seu processo de aprendizagem é prático, quase intuitivo, que você não se dedica de forma metódica ao estudo da percussão, que inegavelmente está associada à questão técnica. Como você encara isso em seu trabalho? 

Karina Buhr – Podia não me dedicar de forma metódica, mas sempre me dediquei muito à música. Realmente não estudava em casa. Durante muito tempo eu fiquei pensando: “Meu Deus, como assim?! Todo mundo que toca percussão ou bateria passa não sei quantas horas por dia lá malhando o instrumento e eu não”! [Risos]. Mas a minha escola estava ali, no Estrela Brilhante, no Piaba de Ouro, nas ladeiras de Olinda cantando e tocando tambor com Aurinha do Coco, Dédo do Coco, dançando e batendo palma para Dona Selma, no afoxé, em um Cavalo Marinho em Goiana ou na bandinha de Pífano Zabumba Véia do Badalo... Se por um lado eu não estudava em casa, tocar por tantos anos ao lado desses artistas foi uma fonte de aprendizado tão importante quanto qualquer universidade ou conservatório de musica. E,  embora amasse tocar tambor no Maracatu ou zabumba na Comadre Fulozinha, sempre dei grande importância à minha produção autoral. Eu sou percussionista, mas nunca foi meu objetivo tocar todos os instrumentos de percussão e estar disponível para executar qualquer arranjo. Admiro muito quem faz. Tenho muitos amigos que trabalham assim e que são músicos impressionantes, criativos e originais, mas nunca foi minha praia. Deve ser algum defeito de fabricação mesmo. [Risos] Já toquei percussão nos trabalhos de outras pessoas, mas somente nos que me identificava. Teve uma ocasião em que fui só pelo dinheiro e realmente não me adaptei. Preferi ficar com pouquíssima grana a ter que tocar contrariada, em um trabalho que não acreditava e que não sentia emoção. Foi uma questão de escolha mesmo, eu realmente não quis.

BD – Em sua banda toca o Edgard Scandurra e você acabou de fazer uma parceira com Marina Lima. Como é a sua relação com estes artistas dos anos 80?

Karina Buhr – Não penso neles como artistas dos anos 80, até porque os dois ainda são muito atuantes hoje e cada um de um jeito muito particular. Acho que a relação que eu tinha com o Ira! e a Marina era muito parecida com a que um monte de gente teve naquela época. A forma como recebíamos a informação era muito diferente. Não havia internet. Era impossível saber o que estava rolando do outro lado do mundo. Sempre achei a Marina incrível, sua figura, suas músicas... Desde “A Arca de Noé[disco infantil que posteriormente foi convertido em especial para TV, onde Marina cantou “O gato”]! Já o Ira!, eu sabia cantar um monte de músicas que ouvia no rádio, achava o Edgard impressionante, mas não chegava a ser fã de carteirinha da banda, de ir aos shows. A aproximação foi bem natural. Eles se interessaram pelo meu trabalho e vieram falar comigo. Achei fantástico e, ao mesmo tempo, muito louco: Edgard Sacandurra se oferecendo para tocar guitarra e Marina Lima me ligando para fazer parceira?! Nossa! Agora é outro momento, eles se tornaram amigos queridos. Com a Teresa Cristina foi a mesma coisa. Sempre fui muito fã dela. Amo, amo, amo! A gente se conheceu no Festival Tensamba, nas Ilhas Canárias, em 2007. Fui com a Comadre Fulozinha e ela com o [Grupo] Semente. Nos encontramos depois no lançamento de seu disco em São Paulo e Teresa me perguntou se não queria encontrá-la para trocarmos umas ideias e ver no que dava. E assim nasceu nossa primeira parceria, “Vagalume”.

BD – Não sei qual será o próximo passo na carreira da Teresa Cristina, mas ela vem mostrando que as suas referências são muito mais diversificadas do que até então se imaginava: Fez esta parceira com você e agora vem realizando uma série de shows ao lado da banda Os Outros.

Karina Buhr – Ela é fã do Iron Maiden! [Risos]. Para mim esta parceria é muito especial: a Teresa tem essa ligação com o samba, de um modo muito verdadeiro e autêntico, o que eu gosto muito, além de Iron Maiden! [Risos]. Ela me disse que voltou a ouvir rock'n'roll após ouvir o "Eu menti para você". Acho muita responsa pro meu caminhãozinho! [Risos]. A gente quer fazer mais coisas juntas. Ainda não sabemos se um disco, um show... Pensamos muito nisso, mas acaba que por enquanto estamos muito envolvidas  com nossos trabalhos e não conseguimos tempo para desenvolver novas ideias. Mas há de rolar logo!



BD - No primeiro álbum havia “Nassira e Najaf” e o primeiro clipe de seu próximo disco, “Cara palavra”, se passa no Marrocos. Porque essa ligação com a cultura árabe?

Karina Buhr – Tenho interesse por esse tema em várias frentes. Na política, na música, no comportamento... Os conflitos no Oriente Médio há tempos vêm fazendo parte do nosso dia a dia. Há um discurso vazio focado na oposição entre o Ocidente e o Oriente, mas isso não passa de clichê. Compus “Nassira e Najaf” de um jeito muito natural. Tinha a ver com o bombardeio no Iraque, com as primeiras crianças que foram vitimadas pela guerra. Era uma história muito específica. Já “Cara palavra”, é uma música que se encaixa em diversos contextos, pode ter um sentido pessoal ou mesmo geográfico. Fala sobre como as palavras e as ideias podem perder ou mudar seu significado. O próprio título do álbum, “Longe de onde”, também remetia a isso. E, querendo se aprofundar mais nesta questão, há um  forte elo entre a musica árabe e a musica nordestina [devido à  influência moura na cultura portuguesa e a presença de malês muçulmanos entre os escravos trazidos para o país]. O clipe até poderia ter sido feito de outro modo, em outro local. Mas acabou seguindo este caminho por compatibilidades mil.

BD – Mas você deve ter imaginado que ocorreria esse questionamento, não? 

Karina Buhr – Sim, mas também achei muito legal poder lidar com este tema e, ao meu modo, questionar a ideia de que o Ocidente é o normal e o Oriente é o exótico. O problema é que saíram reportagens nas quais fui chamada de mulher bomba! Gente, mulher bomba?! Eu estava só com um véu na cabeça! Acharam que era uma fantasia! Ali babá e os quarenta ladrões! Aladin e a lâmpada mágica! E este clipe não tem nada a ver com o Iraque! Muita gente embarcou nesse clichê e até chegou a afirmar que eu estava de burca! Sendo que usei aquele véu várias vezes para sair pela cidade, não era figurino. Não estava fantasiada para fazer um clipe! Eu andava daquele jeito para cima e para baixo. Eu tenho uma preocupação insana com estas questões, até evito ver o que escrevem sobre mim. Porque eu enlouqueço! Sai cada coisa, meu Deus do céu! Você não tem controle sobre isto e muitas vezes rola um julgamento muito foda que acaba diminuindo o seu trabalho.

BD – Para alguns pareceu que você estava apenas reiterando o clichê do mundo árabe exótico.

Karina Buhr - Se tem uma coisa que o clipe não é, é isso. Só se for vê-lo com má vontade. Quando o fizemos, tomamos muito cuidado, mas, ainda assim, sabíamos que alguém poderia achá-lo clichê. A gente foi tocar no Roskilde [Festival] , na Dinamarca, e na volta resolvemos tirar férias de uma semana em Casablanca. Percebemos então que o local tinha muito a ver com a proposta do álbum e, principalmente, de “Cada palavra”. E se tivéssemos filmado o clipe na Dinamarca? Teria algum problema? Aí não soaria preconceituoso?! Estávamos lá, no Marrocos, andando com roupas iguais a todos, não estávamos fantasiados. Isso é uma questão de convivência e de respeito, de não querer fazer uma separação. 

BD – Uns dos trunfos da sua geração é a liberdade criativa que há muito não se via em artistas atrelados às grandes gravadoras. Mas, ao produzirem seus clipes, salta-se aos olhos a preocupação em captar recursos e divulgar a música, muito mais do que buscar uma identidade audiovisual ou mesmo realizar alguma experimentação. Você concorda?

Karina Bhur – Olha, a música precisa fazer uma infinidade de interações para chegar ao público. O som que você faz, a sua ideia, pura, é uma coisa. Você até consegue manter certo domínio sobre os shows, mas, em determinada hora, já não é mais capaz de lidar com todas as questões relativas à sua carreira e imagem. Não tem como. Aí você começa a ter uma equipe que o ajudará a conduzir seu trabalho, a fazer seu clipe, a cuidar dos shows... Você começa a se relacionar com um monte de gente, com várias propostas diferentes, e vai tendo que lidar com tudo isso. O problema é que existe uma ideia muito romântica de que você vai conseguir fazer tudo sozinho. Só que The Clash, Sex Pistols, todas essas bandas, dependeram de um super produtor que fazia a história junto com eles. Então, ao mesmo tempo que conseguiam manter o som, com aquele peso todo e aquela verdade, havia uma equipe trabalhando pra caralho para que a música fosse ouvida pelo mundo todo. É preciso ter noção que para se fazer um clipe, um disco, ou sei lá o quê, você tem que ter dinheiro! Então, ou você tira do seu bolso ou vai contar com algum patrocínio, que pode ser de uma empresa, por crowdfunding ou através de alguma mandinga que você inventar. Só que quando você consegue fechar um negócio com uma grande marca e finalmente passa a ter dinheiro para realizar suas coisas, você começa a ativar "demoniozinhos" em algumas pessoas. É como se você tivesse se vendido! Gente, não é assim! Mas você precisa sempre ter muito cuidado com a forma com que vai se relacionar com as marcas, para não se tornar um fantoche. Como já dizia Chico Buarque... “O Carrefour, digo o baticum/da Benetton, não da beira do mar...”

BD – Sim, é necessário ter clareza na hora de escolher com qual empresa você quer que a sua imagem e a sua música fiquem associadas.

Karina Buhr – Sim, a cada dia que passa, essas empresas estão mais presentes no nosso cotidiano. E a música não iria ficar fora disso. Mas eu não quero que quando alguém ouça minhas músicas fique pensando em nenhuma  marca! Não é por aí. Precisamos tentar lidar com isso. Precisamos interagir, porque vem daí a possibilidade de realizar muitas coisas. Pode ser bem legal. Hoje você tem a liberdade para fazer o que quiser e tem as marcas para patrocinar os seus projetos. Isso não irá obrigatoriamente te escravizar. Várias pessoas me perguntam: “Como você pôde conseguir este patrocínio cantando a ‘Ciranda do incentivo’”?! Se as coisas realmente fossem assim tão terríveis, não teria nenhum projeto aprovado! Porque eu não fico pensando nestas questões na hora de compor. Se alguém quer bancar meu trabalho, banque, mas não vou alterá-lo por nada. Não vou deixar de fazer algo para agradar alguém. Por isso tenho que ter muito cuidado na hora de procurar parcerias. E não pense que é porque você toca de graça no palco da prefeitura que você não está negociando. Eu já tive essa ilusão. Acreditava que estando ali, militava pela música, pela minha verdade, mas a prefeitura estava muito mais preocupada em se autopromover, juntamente com a cervejaria que patrocinava o evento! E eu ali tocando de graça, achando que liderava uma revolução!  



BD – Por falar em apresentações, essa sua preocupação cênica veio da experiência com o teatro Oficina ou já havia anteriormente? 

Karina Buhr – Sempre fui apaixonada pelo teatro: o palco, a luz, o figurino, a maquiagem... Mas na prática, tinha um conflito. No Recife eu vivia tocando ao lado de um monte de homens, sendo que, praticamente,  era  só eu de mulher. Era muito punk. Deixei de fazer muita coisa por conta do machismo. Várias vezes fui impedida de tocar e isso acabou me tolhendo, me forçando a deixar de lado o meu interesse pelo  espetáculo, pela performance. Durante muito tempo passei a negá-lo totalmente. Ia para as apresentações com qualquer roupa, sem maquiagem nenhuma! Não queria ser a gatinha enfeite de palco! Eu falava: “AHHHHH! Quero ter o direito de ser medíocre”!  Veja só que frase merda! [Gargalhadas]. Via os meninos tocando, se divertindo e eu louca para chegar lá e “AAAAAAAAAAHHH!”, ficar gritando também. Com a Comadre Fulozinha comecei a me soltar, mas o formato acabou nos aprisionando e não conseguíamos mais sair daquilo. A gente queria pirar nos shows, fazer um monte de coisas, mas não conseguia. Até que decidi ir para o Oficina fazer aquelas peças absurdas! Eu me enfurnei lá. Foi muito bom. Precisei desse tempo para depois poder sair e começar a minha carreira solo.

BD - Mas como foi a construção da sua identidade visual?

Karina Buhr – Ela foi sendo trabalhada durante as apresentações. O show foi ficando mais pesado e passou a pedir isso. O Duda [Vieira, produtor e namorado de Karina] me ajudou muito estando ali, entendendo as minhas questões e observando o que acontecia. Sabe aquela forcinha, aquela aprovação que você precisa na hora em que veste algo absurdo e está meio sem coragem? [Risos]. É ótimo quando você encontra alguém que não só te ajude, mas te instigue. Para mim o palco é uma coisa muito especial. Um lugar onde você sai da realidade, desse dia a dia, dessa história de almoçar, jantar e pagar o aluguel. O figurino e a maquiagem ajudam muito nisto. Já nos primeiros shows, quando pensei em roupa, vi que não dava para usar vestidinho ou algo muito delicado, porque fico me jogando. Saio com o joelho roxo! Então houve essa preocupação. Como sou eu mesma quem faz a maquiagem, vou me concentrando e me distanciando desta realidade, disto aqui... deste túnel! [Risos]. [Estávamos presos há um bom tempo em um engarrafamento monstro no túnel Zuzu Angel].  

BD - Poderia falar um pouco dos seus desenhos? Eles são criados em paralelo ao seu trabalho musical ou só aparecem neste contexto?

Karina Buhr – Gosto de desenhar, escrever e, muitas vezes, faço as duas coisas juntas. Desenho todos os dias, mas o que aparece para o público, o que é divulgado, é apenas uma parte. Além das capas e dos encartes dos discos, nunca fiz nada de oficial com eles. Já tive várias ideias, mas, por conta dos álbuns e dos shows, não coloco em prática e isso vai caminhando por fora. Os meus desenhos ficam de escanteio, mas, aos poucos, vou postando no Flickr e no Twitter.





comentários - agitando a casbah

  1. Taí um bela e cativante artista que, de cara, ao ouvir o seu primeiro disco solo me fez pensar "que louco, velho". Karina... Bem o tipo que merece ser ouvido e apreciado com todo o prazer. Sem mais palavras aqui.

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