faíscas das britas e leite das pedras


fotos: daryan dornelles

Final dos anos 80. Após praticamente uma década com seu foco direcionado exclusivamente às bandas e aos artistas de pop rock, a música brasileira viu surgir um trio de cantoras que, ao retomar valores tão caros ao tropicalismo, se tornou ícone de sua geração e abriu espaço para que dezenas de outras artistas ganhassem visibilidade. Marisa Monte (“MM”, 1989), Adriana Calcanhotto (“Enguiço”, 1990) e Cássia Eller (“Cássia Eller”, 1990), ao lançarem seus álbuns de estreia, traziam consigo o estigma do ecletismo, que, visto por olhos um pouco mais apurados, remetia claramente à tão decantada antropofagia modernista e ao sincretismo estético, marcas registradas da Tropicália. Não por acaso, Marisa e Adriana gravaram respectivamente em seus álbuns “South American Way” e “Disseram Que Eu Voltei Americanizada”, em uma referência direta a um dos símbolos do tropicalismo: Carmen Miranda. Vanguarda de sua geração, Marisa Monte fez de seu primeiro disco um caldeirão de referências onde música italiana, jovem guarda, jazz, samba e rhythm and blues dialogavam sem pudores entre si. Adriana Calcanhotto, por sua vez, com sua postura bossanovista e humor peculiar, foi mais além, mostrando, ainda que timidamente, composições de sua própria lavra, como “Enguiço” e “Mortaes”. Por fim, Cássia Eller, com voz e performance rascantes, conseguiu sinalizar de forma contundente o que se tornou uma das principais características da geração seguinte: a atitude rock'n'roll e anárquica mesmo ao abraçar gêneros tidos tradicionais, como, por exemplo, o samba. Marisa e Adriana ainda têm como importantíssimo mérito dar fim ao machismo que, ao longo da história, dominou o universo da composição e produção musical brasileira. Ao se firmarem como compositoras e tomarem para si as rédeas de suas carreiras, inauguraram um novo cenário.
Pensar nos feitos destas três mulheres é importantíssimo para a análise da atual geração. Mesmo que pouco comentado, Cássia Eller, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são, direta ou indiretamente, responsáveis pelo surgimento das dezenas de cantoras/compositoras da chamada neoMPB. Seria no mínimo injusto deixá-las de lado ao pensar no espaço que hoje ocupam artistas como Vanessa da Mata,  Mariana Aydar, Roberta Sá, CéU, Tiê, Andreia Dias, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Marcia Castro, Ava Rocha, Luísa Maita, Nina Becker, entre outras.
Com mais de vinte anos de carreira e vencedora de dois Grammy Latino (“Melhor Álbum infantil”, 2006; e “Melhor Canção Brasileira”, 2010), Adriana Calcanhotto já lançou onze álbuns, incluindo os três de seu projeto infantil “Adriana Partimpim”. A partir de 2002, com o disco “Cantada”, a artista começou um intenso diálogo com músicos da nova geração, como o projeto +2 e a banda Los Hermanos. Conhecida por seu forte envolvimento com a literatura e as artes plásticas, Adriana já musicou poemas de Waly Salomão, Pedro Kilkerry, Carlos Drumond de Andrade e Mário de Sá Carneiro, além de fazer constantemente referência às obras de Hélio Oiticia. Em 2008, publicou o livro “Saga Lusa” (Editora Cobogó, 2008), onde relatou um surto psicótico induzido por medicamentos que a abateu durante a turnê do disco “Maré”, em Lisboa. Três anos depois, assinou as ilustrações do livro infantil "Melchior, o mais melhor" (Cobogó), do artista plástico Vik Muniz. Ainda em turnê com “Micróbio do Samba” (2011), seu último álbum de estúdio, Adriana recebeu o Banda Desenhada no escritório de sua assessoria e nos falou de sua carreira, da importância do tropicalismo e da relação com a atual cena musical brasileira.

BD – Muitos vêm tentando encontrar a origem da neoMPB. De modo geral, é consenso que ela é reflexo dos anos 90, principalmente do movimento manguebeat e de bandas como Mulheres Q Dizem Sim. Você tem esta mesma opinião?

Adriana Calcanhotto – Na realidade, acho que se inicia com Noel Rosa ou talvez até um pouco antes. Porque este começo, a meu ver, é um recomeço. O grande problema é que as pessoas começam a dar nomes às coisas e estragam tudo com isto. Sempre ouvi comentários que já não tínhamos mais compositores, que estávamos passando por uma crise de criatividade, mas nunca senti isto em momento algum. A música popular brasileira sempre foi efervescente, sempre tivemos compositores interessantes, cantores interessantes. O que ocorreu foi outro tipo de crise, que tem mais a ver com a difusão da música. É outra história... Mas esta especulação de um começo... Entendo quem fala que começou com o Mulheres Q Dizem Sim, mas acho que existe um outro momento, quando o +2 lançou o “Máquina de Escrever Música” [2000]. Tem algo ali, naquele disco, naquela feitura, que, para mim, cumpre muito bem este papel de “nada será como antes”. O disco do Moreno atingiu não só o público específico de sua geração, mas também muitas outras pessoas anteriores a ela. Eu mesma fiquei muito impactada. O disco me influenciou diretamente. E é muito bacana quando você é influenciado por alguém mais jovem do que você. Quando ouvi o “Máquina”, tive uma sensação que só imaginava ter quando era adolescente e descobria uma nova banda de rock! Fiquei muito impressionada e não fui só eu. As pessoas da minha geração e de antes também. Talvez este disco não seja o começo de tudo, mas, ao lançá-lo, o +2 mostrou uma forma diferente de se trabalhar a música. E foi muito importante. Praticamente um rito de passagem! [Risos]

BD – Você falou de uma queixa recorrente: a falta de compositores... 

Adriana Calcanhotto – Sempre houve esta reclamação! Quando lancei meus primeiros discos e comecei a fazer turnês [início dos anos 90], passei a receber muito material de novos compositores. Justamente no momento em que todos diziam que havia uma crise de composição no país. Sendo que o Cazuza estava compondo, o Arnaldo [Antunes] estava compondo, a Paula Toller estava compondo... Não tem compositores?! As pessoas acham que tem que ter trinta bons compositores?! Isto nunca teve e nem terá! A questão não é quantidade. Mas, enfim, recebia muito material e era sempre de alguém querendo ser o Cazuza, alguém querendo ser o Arnaldo... Eu realmente queria ouvir tudo, eu tentava, mas o que aqueles compositores estavam pensando?! Não quero ouvir um cover, quero ouvir algo novo! E isto mudou. E, por coincidência ou não, a partir do lançamento do “Máquina de Escrever”  comecei a receber material de pessoas querendo ser elas mesmas. Foi incrível. Porque acho que tem a ver com o impacto que o +2 causou e, também, com a facilidade com que se passou a se produzir música. Hoje, você pega seu laptop, se tranca no banheiro e grava. Você não passa mais por tantas mãos, por tantos gostos, por tantos palpites e, assim, pode finalmente começar a fazer a sua própria música, sem querer ser outra pessoa. E isto se deu muito rápido. 

BD – Por falar em novos compositores, ao ver a atual geração repleta de cantoras e compositoras, é praticamente impossível não remetê-las a você, Marisa Monte e Cássia Eller. Consegue perceber que seu trabalho propiciou de alguma forma o desenvolvimento desta cena?

Adriana Calcanhotto – Acho que sim. A Marisa tem uma importância muito grande para a minha geração. Como cantora e compositora, ao ser dona de seu próprio trabalho e capaz de tomar suas próprias decisões, ela abriu portas e indicou caminhos até então impensáveis... Tem uma história interessante: eu em Porto Alegre, Marisa no Rio e Cássia em Brasília, sem nos conhecermos e em uma época em que não havia internet, tínhamos 50% do nosso repertório em comum. Eu cantava “Comida” [Arnaldo Antunes/Sérgio Britto/Marcelo Frommer], Marisa cantava “Comida” e Cássia cantava “Comida”. Fazíamos a mesma coisa sem uma saber da existência da outra. Então, estas questões já estavam no ar e, como pertencíamos à mesma geração, conseguíamos captá-las. Sendo que a Marisa foi a primeira capaz de viabilizar tudo isto. A partir dela, as coisas ficaram mais fáceis para nós. As pessoas passaram a encarar de forma mais natural a presença da cantora, compositora e produtora em um universo até então exclusivamente masculino, que era o estúdio, onde ficavam os meninos com os seus botõezinhos. Hoje em dia, isto parece pouca coisa, mas... Eu sei lidar com Pro Tools, e sei lidar de tanto ver. Passei anos acompanhando os técnicos, então aprendi. Mas os caras ficavam assim pra você! [Faz uma fisionomia de desconfiada, unindo os braços como se estivesse escondendo algo]. Mitificando, sabe? Porque meninas não podem mexer com Pro Tools. Então algumas se viraram e outras não. Marisa mexe com Pro Tools, eu mexo com Pro Tools, mas, hoje em dia, se eu disser isto para qualquer menina, ela vai pensar: “Ah, é? Grande coisa"! Mas pra gente, nossa! Tivemos que nos virar.

BD – E como foi o seu primeiro contato com o +2 e o Los Hermanos?

Adriana Calcanhotto – Fiquei muito impactada com o primeiro disco do +2, me tornei fã e, a partir daí, comecei a tocar e a trabalhar com eles. Compus com cada um dos meninos. Em 2001, eles me convidaram para um show que estavam fazendo em uma Lona Cultural [RJ]. Eu era a convidada de uma noite e os Los Hermanos da outra. Acabei indo no dia seguinte porque os Hermanos estavam tocando “Esquadros” e começamos a conversar. Uns meses depois, fui fazer meu disco “Cantada” [2002] e resolvi gravar “Mulher Barbada”. Ela era uma música um pouco estranha e nem estava cogitando utilizá-la, mas ao ler uma entrevista da banda falando de circo e de música de circo, percebi um link, uma identificação. Falei: “Esta música só poderá ser gravada com eles”. E aí eu os convidei e eles toparam. Os Hermanos no estúdio são muito interessantes, eles trabalham de uma maneira quase sinfônica, há uma enorme preocupação, eles testam todos os sons e há um significado para tudo. É um negócio apuradíssimo! A partir daí, o nosso contato se estreitou... E é muito interessante porque eles trabalham de um modo totalmente diferente do +2. É uma experiência ótima estar dentro de duas bandas e ver o seu processo de criação, de um jeito natural, sem a preocupação de se parecer com algo e sem repetir fórmulas. Isto já não existe mais! Os Hermanos, mesmo com toda a visibilidade que obtiveram, conseguiram focar muito bem no papel do artista, do músico que está ali no palco mostrando suas canções, a serviço do público. Não estão ali para serem idolatrados. Eu gosto desta atitude. Fizemos algumas apresentações juntos. É uma experiência estar naquele palco![Risos]. Uma loucura, porque a gente vê tudo, mas não se ouve! Se no palco é assim, imagine na plateia! [Risos].

BD – E o que eles trouxeram especificamente para o seu som?

Adriana Calcanhotto – Os meninos têm algo que sempre sonhei e que acredito ser uma das características desta geração: uma enorme naturalidade ao realizar seus trabalhos. O Domenico pega a MPC, que é uma máquina para programar bateria, e toca como se fosse um tamborzinho! Ele faz música eletrônica de maneira analógica! Quando eu ouvi aquele negócio, eu fiquei abismada! Esta forma de lidar com a música, esta naturalidade, era tudo o que eu queria para mim e, realmente, sozinha, não conseguiria chegar a este resultado. Os Hermanos, por exemplo, cantarolavam as frases do naipe! E eu achando que era necessário ter um profundo conhecimento de música para sugerir um arranjo! [Risos]. Quando comecei a carreira, cheguei a pegar os grandes estúdios. Havia os músicos de estúdio e todo um aparato incrível de profissionais a serem utilizados na produção de um disco de intérprete. Era muito interessante, mas como se tratava de uma fórmula, não havia espaço para que eu pudesse tentar outras coisas e fugir um pouco daquilo. Na época, eu não era capaz de peitar, ainda mais sendo uma cantora e não uma banda. Só fui me tornando mais conhecida como compositora ao longo do tempo... Eu ouvia muita discussão a respeito do acústico e do eletrônico. Mas ficava pensando: “Qual o problema? Faz tanta diferença?" E quando conheci o +2 percebi que estes questionamentos já não interessavam mais a eles... todos estavam mais a frente e eu me identifiquei muito com isto. 


BD – Você entrou ainda no auge da indústria fonográfica e mantém-se em uma grande gravadora até hoje. Como viu as mudanças do mercado? Alguma coisa foi alterada em sua relação com a empresa?

Adriana Calcanhotto – Sempre foi a mesma coisa. Todo ano eu ouvia a mesma história, que estávamos em crise... mas eu segui fazendo as minhas coisas. Não que tenha me alienado, mas senti que havia uma cumplicidade, uma compreensão a respeito do meu trabalho. Mesmo inserida no maisntream, consegui fazer as coisas ao meu modo. Sempre houve, por parte da gravadora, uma confiança em meu trabalho, o que me permitiu ter esta liberdade. Nunca planejei muito e fui seguindo o meu caminho. Você vê que cada disco meu é completamente diferente do outro. Não tenho hábito de repetir. Os métodos, as canções, os temas, nunca são o mesmos. Cada álbum é de um jeito. Então, mesmo com toda esta conversa sobre crise, falta de talentos e etc., continuei fazendo meu trabalho. Nunca dei muito ouvidos a estas queixas.

BD – Você chegou a ter algum problema com a gravadora por conta de direcionamento artístico? 

Adriana Calcanhotto – Nunca tive este tipo de problema. Acho que se deve muito à forma como me coloco. As poucas vezes que ocorreu algo próximo a isto, foram por conta de pessoas que não estavam entendendo muito bem o meu trabalho. E, mesmo assim, davam apenas sugestões. Nunca encarei isto como algo contra o que estivesse fazendo. As pessoas têm todo o direito de opinar... e sempre ouço. Vai que uma destas sugestões seja louca o suficiente para eu gostar? [Risos] Mas nunca sofri pressão nenhuma para fazer isto ou aquilo. Eu nem saberia lidar, não tenho este temperamento. Em meu trabalho, os erros e acertos são da minha inteira responsabilidade. 

BD – Posso estar enganado, mas houve certa tensão entre em você e o Liminha durante a gravação do Maritmo [1998], não?

Adriana Calcanhotto – Sim, mas não foi por questões de direcionamento artístico. Na verdade era uma divergência estética. Já tínhamos aquelas canções, mas eu queria experimentar e sujar um pouco mais. E divergimos. Mas em momento algum ele propôs: “Vamos fazer disto outra coisa”. E acabei fazendo o disco como eu quis. Quando você coloca o Waly Salomão dentro de um estúdio, não pode simplesmente colocá-lo como se fosse um músico convidado que você pede para ir lá afinar a guitarra. Porque não é. Tem uma maneira de aquilo funcionar. Foram coisas assim. Mas muitas vezes atrito é bom, ele pode te fazer crescer, te fazer melhor. 

BD – Você falou de Waly Salomão... A sua geração e a atual são muito influenciadas pelo Tropicalismo. O que ele tem de tão importante assim para ainda influenciar tantos artistas?

Adriana Calcanhotto – Quando eu nasci já havia o tropicalismo. Não dá para fingir que ele não existiu. As suas conquistas conquistadas estão. Não tem como voltar um milímetro atrás. E isto é importantíssimo. As questões levantadas pela Tropicália e a ideia da antropofagia são profundas, não tem como você dizer: “O tropicalismo surgiu, acabou e agora está de volta”. Ele ainda está sendo assimilado, de outras maneiras, por outras gerações. Não é como o retorno do bico fino! [Risos]. Cada artista que surge digere novamente aquelas ideias e as deixa em movimento. Não é um modismo. Existe uma continuidade. As questões da alta cultura e baixa cultura, que, a princípio foram resolvidas pelo tropicalismo, precisam continuar sendo trabalhadas, exercitadas e exploradas. Isto faz parte da própria identidade do brasileiro. Você ouve de tudo e realmente precisa ouvir de tudo. É necessário termos isto sempre em mente. 

BD – Mudando um pouco de assunto, os artistas da cena independente usam as redes sociais como principal ferramenta de divulgação de seu trabalho e contato constante com fãs. Como foi a entrada destes mecanismos para uma artista do seu porte?

Adriana Calcanhotto – Eu tenho internet desde quando ela era à manivela! [Risos]. Sempre fui interessada. A minha geração teve o privilégio de viver em dois mundos: um mundo sem internet e outro com. Quando as pessoas falavam: “Ah, vai ter um negócio interligando todos os aparelhos e fazendo você se comunicar com o planeta inteiro”, eu pensava: “Nossa, isto vai ser pros meus netos”. [Risos]. Nunca imaginei que fosse presenciar estas mudanças. Mas achava a ideia incrível. Então, por ter conseguido acompanhar esta passagem, me sinto completamente engajada e atualizada. Não acredito que tenha sido melhor antes. É maravilhoso, de uma hora pra outra você tem a biblioteca de Alexandria em seu quarto! [Risos]. Estou presente no Facebook, no Twitter... sou eu quem respondo, e, por isto, interajo pouco. Faço o que é humanamente possível. Não são todas as pessoas que vou poder responder, não são todas as pessoas que são interessantes, não são todas as pessoas que vão me mandar um texto educado. É a vida como ela é, sabe? Ninguém fica esperando que eu tenha este tempo disponível. Até porque, se eu passar tantas horas assim na internet, não conseguirei compor. E Imagino que as pessoas prefiram que eu esteja trabalhando do que estando ali. Assim espero! [Risos].

BD – Uma boa parte dos artistas da atual geração costuma reclamar justamente desta falta de tempo...

Adriana Calcanhotto – Esta é uma grande questão. Porque estamos falando de entretenimento. Todos nós fazemos música pop, música de massa, inclusive os artistas independentes. Porque é o que dá para fazer. Não estamos fazendo arte. Então, o tempo em que nós poderíamos estar compondo, dedicamos às entrevistas. O tempo de uma aula de música se torna o tempo em que conversamos com os fãs pelo Twitter. E assim é. Não adianta reclamar. Se você tem pressão dos fãs é porque está fazendo entretenimento e este é o jogo. 

BD – O seu trabalho tem uma ligação muito forte com as artes plásticas e a literatura. Sempre foi assim? 

Adriana Calcanhotto – Sim, desde o início, mas não é algo pensando, é sentindo. É uma identificação com o artista. Não me interessa se é história em quadrinhos, dança ou artes plásticas. Não me importa o nome que aquilo tenha. O que me comove, o que me arrebata, é a solução que o artista dá para o seu impasse. É o seu movimento, a sua ação. E muitas vezes o que me toca é o processo e não o resultado. Falando assim parece um estudo, mas não é. Na verdade, é muito intuitivo. As coisas vão me instigando. Eu abro um livro, leio um poema, aquilo me remete a outra obra, a outro artista e a outra linguagem. E estas ligações vão se formando. 

BD – Li sobre a trilogia do Mar ["Maritmo", 1998; e "Maré", 2008]. Como surgiu esta ideia? E o próximo?

Adriana Calcanhotto – Surgiu no segundo disco. Mas gosto muito da ideia de uma trilogia inacabada. [Gargalhadas]. Acho muito mais interessante. 

BD - Mas você nem cogita em fazê-lo?

Adriana Calcanhotto – Cogito. E não é nem que eu não tenha repertório. Ele já tem até um nome!

BD – [Interrompendo] Pode revelar?

Adriana Calcanhotto – Claro que não! [Risos]. Talvez eu ache mais graça em deixá-lo assim, incompleto. [Risos].

BD – O que o projeto "Partimpim" acrescentou à sua carreira? O processo de produção dos dois álbuns foi muito diferente dos outros, não?

Adriana – Teve o lado da experimentação. O "Partimpim" não deixa de ser, de certa maneira, uma experimentação, só que de uma forma mais lúdica. É engraçado... Quando convidei os músicos para participarem do projeto, eles vieram completamente diferentes do que quando vêm para trabalhar nos meus discos adultos. Não estavam interessados em impressionar ninguém, vinham sem aquela necessidade de performance, de se mostrarem virtuoses. E este tipo de mudança era tudo o que eu queria em meus trabalhos. Foi algo mágico. Todos se transformavam! E para o bem! [Risos]. O Rodrigo Amarante chegou a falar: “É... e fazem mais careta pra tocar”! [Risos]. E era isto. Não havia o medo de errar. Se você errasse, ria. Um ensaio "Partimpim" é muito engraçado, a primeira semana é sempre uma loucura, todo mundo traz um monte de instrumentos e objetos que vão sendo trocados e experimentados. 


BD – Estive pensando a respeito do “Micróbio do Samba” e de seus  álbuns anteriores e me lembrei da sua paixão por Dorival Caymmi, que além de ter uma forte ligação com o mar, também é reconhecido por seus sambas. Imaginei que ele seja o artista com mais reflexos em seu trabalho...

Adriana Calcanhotto – Isto é uma constatação. Tem muitas coisas que eu prezo em sua música: o suingue, a leveza, a economia, o humor... é uma lista de predicados, de qualidades incríveis. Dorival é um mestre. Tive o privilégio de estar com ele e de gravar ao seu lado ["Quem Vem pra Beira Do Mar", no disco "Maritmo"]. Foi muito importante para mim. 

BD – E Lupicínio [Rodrigues]? ele teve grande influência no "Micróbio do Samba"...

Adriana Calcanhotto – Com Caymmi eu tive um deslumbramento, mas, por ser gaúcha, a minha relação com Lupicínio foi diferente. Não houve aquele impacto, aquela descoberta. A música de Lupicínio está muito impreganada na cultura gaúcha. Eu sempre a ouvia nas rádios. Você entrava em algum lugar e estava tocando. Todo mundo sabe cantar. Você canta, sua avó canta. Então sempre esteve intimamente presente. Mas só ao longo do tempo é que fui me dando conta do tamanho da sua influência. E no “Micróbio” ela aparece de forma mais visível. É ali que eu a aceito.
   
BD – E a quantas anda o “Micróbio do Samba”?

Adriana – Estou lançando o DVD, ficou muito legal. Nem sempre a gente consegue gravar em um dia feliz do show. Até por justamente estar filmando, por ter tantas pessoas no palco, ocorre um pouco de desconcentração. Entretanto, tivemos uma noite mágica! Um dos melhores shows de toda a turnê do “Micróbio”. Foi um show quente e fiquei muito feliz com isto. Durante o documentário, a Clara [Cavour, diretora], conseguiu mostrar como funcionamos musicalmente. Você consegue perceber as nossas influências, o amor que temos entre nós e pela música. Este DVD é bastante revelador. Tenho muito orgulho dele. Acabei de fazer uma temporada aqui no Rio e foi bem bacana. Fazia um tempo que não nos apresentávamos aqui. 

BD – E você continua só compondo sambas?

Adriana – Não! Acabou, acabou! [Risos]. Fiz até mais um, no dia que participei do Grêmio Recreativo do Arnaldo [Antunes], ao lado do +2 e da Marisa. Mas acho que aquilo ainda era reflexo do “Micróbio”. Mas não fiz mais, acabou. Tudo começou com a Mart’nália me pedindo uma música. Ela não havia me dito se queria um samba, uma valsa ou um coco! [Risos]. Acredito que inconscientemente eu tenha usado a Mart’nália como pretexto para começar a compor sambas. Porque eu poderia ter feito outra coisa! Mas fiz "Vai saber?".  Ele foi o primeiro. Depois dali só saiu samba, samba, samba... A Thaís Gullin também me pediu uma música, mas falei: “Você não vai querer, porque só estou fazendo samba”. Ela ainda disse: “Mas não dá pra você tentar?” Juro que tentei, de coração aberto, mas saiu outro samba! [Risos]. E aí, apavorada, pensei: “Meu Deus, o que está acontecendo?! Aonde é que isto tudo vai parar?!” E não parou. [Risos]. Agora estou compondo pouco porque tive uma lesão no punho, mas fiz algumas músicas na cabeça, o que é interessante. É tudo muito novo para mim, porque as melodias ficam restritas por conta desta limitação. Mas agora estou com vontade de compor e, aos poucos, estou voltando a tocar, e sinto que não serão sambas. Acho que agora passou. [Risos]

3 Responses to faíscas das britas e leite das pedras

  1. Pablo Aragon :

    muito boa a entrevista, parabéns pro entrevistador e a entrevistadA!

  2. Anônimo :

    muito legal mesmo! adorei

  3. "eu vivo a sorrir" com essa entrevista.

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